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3 - RESULTATS - DISCUSSION

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3 - RESULTATS - DISCUSSION

Em vista as novas tendências dos estudos que tratam sobre a permanência da agricultura familiar camponesa, a noção de campesinato passa a ser reconceitualizada, adaptando-se as circunstâncias históricas que são rapidamente transformadas. As definições clássicas marxistas19 tornam-se inadequadas para compreender um mundo em rápida transformação. Assim, busca-se compreender o conceito de agricultura familiar camponesa como categoria analítica.

Em contraposição a visão reducionista da abordagem marxista, e apoiada na importância social, econômica e política da agricultura familiar camponesa, há autores que discutem a capacidade de adaptação deste segmento às novas realidades sociais e a sua permanência como forma de resistência aos ditames do capital. Assim, a agricultura familiar camponesa é dotada de uma lógica específica,

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voltada para princípios internos da unidade produtiva rural, para fazer frente a racionalidade do mercado. Shanin (2008) enfatiza que:

Nesse sentido, ao compararmos o que foi dito no século XIX por vários especialistas e muitos teóricos marxistas e não marxistas a respeito do campesinato com o que está acontecendo, fica evidente que os recursos de sobrevivência do campesinato têm provado ser mais forte do que se poderia esperar naquele período (SHANIN, 2008, p. 25).

Medeiros (2007) trata da conceituação analítica da agricultura familiar camponesa a partir de diferentes abordagens. Primeiro busca explicar a relação do campesinato com a produção de subsistência, analisando que mesmo com a modernização da agricultura, o camponês continua apresentando uma forte relação com a terra, esta como elemento central da reprodução da vida familiar camponesa. Para a sua permanência no contexto social e produtivo, os agricultores buscam reconhecimento diante da espera econômica, política e social. Como afirma a autora:

São estes, portanto, os novos padrões, tecnológicos da produção familiar brasileira, embora o quadro econômico e institucional favoreça a agricultura empresarial, o agronegócio. Trate-se de uma forma de resistência do campesinato, que se fortalece e, por meio de sua permanência, busca o reconhecimento e a importância na política, na economia e na sociedade brasileira. Camponeses agricultores familiares das mais diferentes categorias, muitos deles atendidos pelo Pronaf, procuram não apenas permanecer na terra, mas produzir e se reproduzir social, politica e economicamente (MEDEIROS, 2007, p. 177).

Dessa forma, é a lógica do agricultor familiar camponês em estabelecer estratégias de reprodução social e de sobrevivência, que explica o fato da permanência da produção familiar camponesa dentro dos padrões modernos de produção no interior da economia capitalista. Por exemplo, o agricultor procura produzir, então, produtos cujo caráter alternativo permitisse que fossem tanto consumidos quanto vendidos (PAULILO, 1990). É possível compreender por que esta produção não desaparece, ao contrário, se reproduz e permite a permanência do campesinato. Como afirma Wanderley (2009)

Retomo aqui, a proposta teórica formulada por Hugues Lamarche (1993), segundo a qual os agricultores familiares são portadores de uma tradição, mas que devem adaptar-se às condições modernas de produzir e de viver em sociedade, uma vez que todos, de uma forma ou de outra, estão inseridos no mercado moderno e recebem a influência da chamada sociedade englobante (WANDERLEY, 2009, p. 189).

Paulilo (1990) conceitua camponês através de três elementos, a saber: relação de produção, participação no mercado e diversificação agrícola. Seriam, então, camponeses, aqueles produtores que usam mão de obra predominantemente

familiar, apresentam diversificação da produção e, o consumo alimentar da família venha, principalmente, do próprio estabelecimento agrícola.

No conjunto dos conceitos examinados anteriormente, ressaltam-se algumas características intrínsecas à produção familiar camponesa, as quais vão ao encontro dos elementos destacados por Chayanov e que podem ser resumidas nos seguintes enunciados:

 predominância da organização produtiva familiar;

 jornada de trabalho variam conforme as necessidades impostas pelas atividades agrícolas;

 propriedade individual da terra é patrimônio da família, quando o agricultor detém totalmente a posse dos meios de produção;

 relações de sociabilidade com a comunidade;

 origem étnica e as tradições agrícolas herdadas dos antepassados;

 produção para o autoconsumo e semiespecializada para o mercado e, por fim,

 a propriedade rural representa o lugar de morar, produzir e trabalhar.

Uma marca expressiva da família camponesa é o seu coletivismo interno, expresso na organização e na divisão do trabalho, ou seja, cada família adapta sua capacidade de trabalho conforme as características de gênero e idade dos membros do grupo doméstico. Todos os membros da família participam das tarefas ligadas a produção agrícola, direcionando seus esforços para a formação de um patrimônio fundiário e de reprodução do capital produtivo.

Sendo assim, a agricultura familiar camponesa não perdeu, ao longo do tempo e a despeito das transformações técnicas, o seu caráter familiar e, tampouco, deixou de ser uma importante forma social de produção e de trabalho, capaz de desenvolver interações importantes com outros atores sociais existentes no espaço rural e urbano.

A complexidade dos processos de transformação pelos quais passa o mundo rural contemporâneo, como chama a atenção Wanderley (2009), exige que se discuta sobre o significado da agricultura familiar camponesa neste novo contexto da integração da agricultura com a indústria, e do rural com o urbano.

Mesmo integrada ao mercado e respondendo às suas exigências, o fato de permanecer familiar não é anódino e tem como consequência o reconhecimento de que a lógica familiar, cuja origem está na tradição camponesa, não é abolida; ao contrário, ela permanece inspirando e

orientando – em proporções e, sob formas distintas, naturalmente – as novas decisões que o agricultor deve tomar nos novos contextos a que está submetido. Esse agricultor familiar, de certa forma, permanece camponês (o camponês “adormecido” de que fala Jollivet), na medida em que a família continua sendo o objetivo principal que define as estratégias de produção e de reprodução e a instância imediata de decisão (WANDERLEY, 2004, p. 48).

Observam-se as características peculiares que explicam a existência, adaptação e permanência no contexto da atual agricultura, justificando a tendência de olhar a agricultura familiar camponesa em uma perspectiva teórica mais ampla. Como diz Shanin (2008):

A flexibilidade de adaptação, o objeto de reproduzir o seu modo de vida e não o de acumulação, o apoio e a ajuda mútua encontrados nas famílias e fora das famílias em comunidades camponesas, bem como a multiplicidade de soluções encontradas para o problema de como ganhar a vida são qualidades encontradas em todos os camponeses que sobrevivem às crises. (SHANIN, 2008, p. 26).

É necessário enfatizar que, os agricultores familiares camponeses são portadores da história de seus lugares de vida, de trabalho bem como de suas estratégias produtivas. O camponês não está apenas escondido no passado ou em locais distantes. Às vezes, desempenha um papel discreto, mas também decisivo, em lugares altamente modernizados (VAN DER PLOEG, 2009).

Diante do exposto, a visão adotada nesta pesquisa converge para o pensamento de Ribeiro e Salamoni (2011):

Camponês e agricultor familiar são termos utilizados neste trabalho de forma similar e indissociável, a fim de enfatizar a existência de um campesinato na contemporaneidade da sociedade brasileira. Nesse sentido, a categoria analítica adotada – agricultura familiar camponesa- expressa o reconhecimento da permanência de ‘lógicas camponesas’ que estão combinadas a uma diversidade de estratégias socioprodutivas de caráter familiar na agricultura. Lógicas de resistência e estratégias de reprodução social que combinam produção mercantil com produção para o autoconsumo, e cujos resultados estão voltados para a construção/reprodução do patrimônio familiar (RIBEIRO; SALAMONI, 2011, p. 215).

É importante lembrar que em algumas pesquisas o olhar privilegia as dinâmicas econômicas e produtivas (sob a ótica capitalista das relações de mercado), porém, nesta pesquisa o grupo familiar assume a centralidade na organização da agricultura, é a família que sustenta as relações sociais diversificadas, isso não pode ser observado de maneira isolada, deve ser analisada na sua totalidade. Carneiro (2008) chama atenção para as especificidades do grupo familiar:

[...] a família agrícola integra uma variedade de relações sociais que, geralmente, não são levadas em conta nas análises. Nestes termos, cabe chamar a atenção para a especificidade estruturante da unidade de produção familiar. Trata-se das interrelações entre os domínios do parentesco e os do trabalho. É desta inter-relação que resultam os princípios que orientam as relações sociais e que, ao serem identificados, permitem apreender a lógica de atuação dos indivíduos, seja na unidade familiar ou na de produção (CARNEIRO, 2008, p. 258).

Assim, falar em agricultura familiar camponesa requer incorporar e entender a complexidade das relações sociais, culturais, econômicas, políticas e ambientais que definem essa categoria social. Nessa perspectiva, torna-se necessário redefinir também o universo de observação, privilegiando-se a família como unidade social e não apenas como unidade de produção, como normalmente tem sido considerada quando o assunto é a agricultura familiar (CARNEIRO, 2008).

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