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Resultados de la exposición a agentes ocupacionales

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No universo do circo itinerante, o tempo necessário até a instalação em uma localidade deve ser planejado com antecedência. Isso porque o circo somente poderá deixar um determinado local se houver um terreno aprovado,

ou seja, locado e com todas as documentações obrigatórias aprovadas para o seu funcionamento.

Em se tratando desse processo, denominado pelos circenses de “fechar a praça”, no caso do Circo Spacial é a própria Marlene que, enquanto proprietária e gestora, seleciona as possíveis localidades onde gostaria de instalar a lona e em seguida as visita a fim de verificar a disponibilidade de terrenos para, só então, enviar o secretário do circo para dar continuidade às questões burocráticas. Ela nos explica de que modo isto funciona:

1008 - Marlene – É... Eu vou. Normalmente o dono vai na frente, escolhe,

porque ele vai analisar vários fatores, né? Se está visivelmente ok pra cidade, se tem acesso fácil, se tem transportes, se “tá” bem localizado... É... Todas as possibilidades de negócio naquela cidade, naquele momento com o circo. Então vai lá ver todas essas questões. E aí depois de escolher o local ou eu vou diretamente falar com o proprietário do terreno ou eu mando o secretário, né? O secretário é uma pessoa que você contrata pra fazer toda a parte burocrática, né? Que é levar a documentação, procurar fazer a interface com a cidade. No Corpo de Bombeiros, na Polícia Militar, na Saúde, com o juiz na delegacia... São dezoito itens que nós temos que protocolar na cidade...

(APÊNDICE B)

Já no caso do Circo de Teatro Tubinho quem se dedica ao fechamento da praça é também o carismático Léo. Pergunto se ele costuma ficar fora quando vai escolher o terreno em outra cidade e ele diz que, como normalmente fazem praças próximas umas das outras, costuma ir e voltar para o circo no mesmo dia, de modo a não prejudicar o andamento de suas atividades cotidianas.

53 - Léo – Então, na verdade, eu não fico fora. Eu venho e volto, eu

venho e volto. Na verdade, é assim, o Zeca fala: “quero ir pra tal cidade”. E aí ele fala: “eu quero um terreno”. Aí, normalmente, a gente vem ver o terreno junto, porque vêm eu e o Ceceu. A gente mede o terreno pra ver se cabe. A gente vê o ponto estratégico. Aí toda a documentação sou eu que faço: fórum, vigilância sanitária, prefeitura, bombeiro, é... Polícia militar, tudo o que for aparecendo, tudo. A parte da divulgação também. Rádio, jornal, TV, é... Tudo que tem na parte de marketing “é” eu que venho ver também.

54 - Suara - E geralmente vocês estão indo em cidades a que distância

aproximadamente?

55 – Léo- Então, na verdade, essa mudança que teve a cento e sessenta

mudamos tão longe. Mudamos... O máximo que mudou foi cem quilômetros. Aqui que ficou bem “pesadinha” a mudança... Pra “vim”, porque, na verdade, é a primeira cidade da região. E nós viemos de uma região completamente... Bem conhecida e viemos pra uma região completamente desconhecida. [...]

(APÊNDICE I)

A partir desses relatos é possível observar que há todo um planejamento e preparação antes do fechamento do processo necessário para a instalação do circo em outra localidade. Vale pontuar que esta negociação pode ou não se concretizar, ou seja, é possível que uma praça que esteja quase fechada, na última hora não seja liberada por algum motivo. Neste caso segue-se o plano B (os circenses também sempre têm em mente um plano C) que é, por exemplo, dar andamento em uma terceira praça.

Muitas vezes esse processo ocorre em mais de uma cidade concomitantemente, justamente por conta dos possíveis imprevistos que podem ocorrer como, por exemplo, a demora na emissão ou na aprovação de alguma documentação.

No caso do Circo Spacial, Marlene relatou que após o fechamento da praça, uma semana antes da mudança, vai alguém da equipe da administração do circo juntamente com o capataz fazer a medição do terreno, ou seja, conferir suas dimensões com a planta baixa do circo e definir previamente onde será instalada a praça de alimentação, onde ficarão as carretas, moradias, etc. O processo até se chegar a outra localidade é moroso e são muitas as dificuldades que os circos enfrentam ao longo do período que antecede a dissipação e a emergência do circo em uma nova região.

Para um melhor entendimento a respeito das dificuldades enfrentadas considero que é importante compreender o circo no contexto sociopolítico atual e suas implicações tanto para a sobrevivência das trupes que se encontram em atividade quanto para a continuidade das artes do circo. Sendo assim, selecionei prioritariamente a fala de Marlene uma vez que ela, enquanto gestora de circo e presidente da UBCI que objetiva, dentre outras coisas, lutar por melhores oportunidades junto aos órgãos públicos, tem uma visão abrangente da real situação dos circos brasileiros.

Como apontei em meu estudo preliminar (Bastos, 2013), um dos grandes desafios é diminuir o desconhecimento que as pessoas, de um modo geral, ainda têm em relação a essa atividade sui generis e ao que a ela está relacionado. É possível que um maior conhecimento sobre o universo do circo em seus variados aspectos, tais como a rotina cotidiana, os costumes, as condições socioeconômicas, os processos culturais, os códigos internos de conduta, a arquitetura, entre outros, contribua para minimizar algumas das dificuldades que serão descritas a seguir e que ainda permanecem na trajetória dos circos e dos circenses.

Para tanto, faz-se necessário o conhecimento sobre a dimensão da comunidade circense ativa no Brasil. Como não havia, até o momento de levantamento de informações para esta investigação, um senso oficial sobre a quantidade de circos que percorrem o território nacional, a União Brasileira de Circos Itinerantes (UBCI), visando fortalecer a categoria, vinha realizando este mapeamento e já dispunha de dados significativos como o fato do circo ser uma cadeia produtiva que gera mais de 30 mil empregos diretos.

Estes dados são fundamentais para que os circenses possam reivindicar políticas públicas, criar novos editais e ampliar os editais existentes como o da Funarte, do Ministério da Cultura e o da Petrobrás. Marlene, enquanto presidente da UBCI, comentou comigo durante um dos encontros que realizamos para a coleta de informações para esta investigação que, até aquele momento, havia sido apurada a existência de dois mil circos atuantes no território nacional. Ela explicou que:

871 - Marlene – [...] Entre eles, trinta grandes... É... quinhentos médios e

mil, quatrocentos e setenta aproximadamente pequenos. Mas isso é uma contagem que nós fizemos. Nós da UBCI estamos fazendo um censo por conta, né? Que é um censo... A gente “tá” localizando e-

mails, telefone das pessoas, levantando. Nós já conseguimos apurar

novecentos circos. Contatar com novecentos circos.

872 - Suara – Uhum.

873 - Marlene – Mas isso você pode triplicar porque aquele cirquinho que

“tá” lá no interior da Amazônia a gente não consegue falar. Não consegue achar. Então nós sabemos que esse universo é...

874 - Suara – Bem maior.

875 - Marlene – [...] É três vezes maior. E isso fundamenta tudo porque, a

partir do momento que nós sabemos quantos somos, isso vai direcionar as políticas públicas.

Dentre as dificuldades enfrentadas pelos circos itinerantes, algumas já haviam sido identificadas anteriormente (Bastos, 2013) como: falta de incentivo e apoio político, carência de políticas públicas, entraves burocráticos para a liberação do alvará de funcionamento, altas taxas para a liberação de documentações, leis engessadas, dificuldades em conseguir terrenos bem localizados para a instalação dos circos e altos preços dos aluguéis cobrados pelos proprietários dos terrenos.

Além dessas, outras dificuldades foram apontadas pelos participantes deste estudo como, por exemplo, a animosidade de algumas prefeituras em acolher o circo em seus municípios.

Este dado emergiu em mais de uma ocasião em algumas conversas trocadas em um grupo do WhatsApp formado por mais de 70 empresários de circo e do qual tomei parte, a convite de Marlene, em fevereiro de 2015.

Observei que postagens efetuadas por alguns dos participantes do grupo dão conta de que, lamentavelmente, não é incomum que em muitos municípios o próprio prefeito se oponha à instalação de circos utilizando-se de frases como: “aqui na minha cidade, circo não entra” e “circo só traz drogados e prostitutas”.

Em relação a isto, um dos proprietários de circo que conheci no “I Seminário de Circos Itinerantes” (Dez/2014), desabafa: “estamos cansados de sofrer humilhações, de estar à mercê das prefeituras. É como se estivéssemos passando o chapéu. Nós somos cidadãos trabalhadores”35.

Além dessa questão, outra que emergiu nos eventos que participei é o fato de que, a cada nova cidade, ainda que seja no mesmo estado, é necessário que se enfrente todo o processo burocrático novamente. Marlene enfatizou que se perde muito tempo e dinheiro para cumprir todas as exigências. Questionei se a cada cidade começavam sempre do zero ao que ela me respondeu:

89 – Marlene – [...] Menos do zero ainda (risos). Menos do zero.

(APÊNDICE B)

                                                                                                               

Na ocasião, ela comentou que também há dificuldades quanto à divulgação dos espetáculos, uma vez que a proibição do uso de carros de som e o alto valor cobrado para publicidade e marketing contribuíram para a diminuição de público o que, consequentemente, acaba mantendo o valor das entradas para o espetáculo muito abaixo do desejado.

1130 - Marlene – Então, essa é uma questão que me intriga muito. Como

uma característica do circo... Eu acho assim, quando você preserva o circo como patrimônio cultural brasileiro. Quando você faz essa preservação... Quais são as características do circo? É chegar na cidade e fazer uma passeata...

1131 - Suara - É uma festa!

1132 - Marlene – Carro de som... É uma festa. Como eu posso fazer uma

festa hoje, se tudo é proibido?

1133 - Suara - Isso é...

1134 - Marlene – Nacionalmente. A gente não consegue fazer em lugar

nenhum, você entende? O cúmulo de colocar uma carreta aqui e o cara vir querer me cobrar preço de publicidade da carreta, você entende? Então a sociedade enlouqueceu. No meu ponto de vista a sociedade enlouqueceu. Ela não tem mais a noção das coisas, você entende? Ela começou a misturar muitas coisas.

(APÊNDICE B)

Sobre a publicidade mais especificamente, Marlene enfatizou que é:

1136 - Marlene - Muito cara também. Então, quer dizer... Na verdade, isso

aí é tudo lobby, né? Por que não faz mais a publicidade? Porque o cara que tinha uma política foi lá e proibiu o outdoor. Foi a “Cidade Limpa”. Foi a “Cidade Limpa”, mas a TV pode, o rádio lá pode, entendeu? São interesses de grupos econômicos, você entendeu?

1137 - Suara – Uhum.

1138 - Marlene – Então, na verdade, a gente percebe que a sociedade é

movida por interesses, por grupos econômicos. Se aquele grupo é forte e ele é dono da televisão, só vai ter televisão na cidade. Se aquele grupo é forte e for dono dos painéis da cidade, só vai ter painel, entendeu? Então aí o circo fica à mercê dessas coisas.

1139 - Suara - Dificultou tudo, né? Em todos os âmbitos. Não dá pra

pensar assim: “ah, isso aqui”...

1140 - Marlene – [...] Dificultou em todas as áreas. O circo hoje vive um

momento hoje de grande... De grande... Digamos assim, massacre até, né?

Em relação ao valor das entradas estar muito abaixo do desejado, tive notícia por intermédio da representante da Associação dos Proprietários, Artistas e Escola de Circo do Ceará (APAECE) que, em alguns estados do

Norte e Nordeste, há circos que chegam a cobrar o valor de R$1,99 pelo ingresso. Esta informação me foi confirmada por Marlene que disse:

1118 - Marlene – Exatamente. É a realidade, né? É aquilo que ele

consegue cobrar. Por que é assim... Na verdade, cada circo trabalha com um público pré-definido. Então se você está na periferia e aquele público não tem condição de pagar, você vai cobrar R$ 1,99, vai cobrar R$ 3,00, vai cobrar R$ 5,00. Você vai cobrar proporcionalmente ao que aquele público consegue pagar. Se você “tá” num lugar, num local mais bem situado, que também custa mais caro... Que tudo é efeito dominó.

1119 - Suara – Sim.

1120 - Marlene – Aí você vai cobrar mais caro também, porque você tem

que cobrir aqueles custos. Então, na verdade, é a planilha de custos que define o preço do ingresso.

(APÊNDICE B)

Ela enfatizou que em seu circo há aproximadamente sete anos o preço do ingresso se mantém o mesmo. E explicou:

1164 - Marlene – [...] Na verdade é assim... O custo do circo é muito

diferente do custo do cinema. Então, você não pode fazer um parâmetro do ingresso do cinema e do ingresso do circo. O circo tem “n” custos a mais do que o cinema, porque o cinema, ele vai repetir o mesmo filme. O custo é outro. Normalmente a pessoa faz a comparação: “ah, mas o cinema custa tanto”. Mas o cinema não é um circo, entendeu? Cinema é a repetição de uma fita. [...].

(APÊNDICE B)

A esse respeito Marlene havia comentado, em uma de nossas conversas, que o custo operacional para cobrir todas as despesas com estrutura, pessoal, divulgação, manutenção e transporte é muito alto para a realidade atual do circo. Na ocasião lhe perguntei qual era o custo aproximado e ela me sinalizou que variava de cidade para cidade, mas que:

1016 - Marlene – Não menos que... Trinta mil reais.

1017 - Suara – Não brinca...

1018 - Marlene – É. (Risos). No mínimo.

1019 - Suara - Pra ter a liberação disso, disso, disso.

1020 - Marlene – É. Você tem que pagar terreno... Tem que pagar tudo pra

levar eles pra lá né... (APÊNDICE B)

1008 - Marlene – [...] No Corpo de Bombeiros, na Polícia Militar, na Saúde, com o juiz na delegacia... São dezoito itens que nós temos que protocolar na cidade...

1009 - Suara - Cada cidade são dezoito itens?

1010 - Marlene – Tráfego... A Polícia Militar, a Polícia Civil... Tudo. A gente

tem que dar entrada em todos os departamentos para poder funcionar o circo. [...].

(APÊNDICE B)

1108 - Marlene – [...] nós temos muitos pedágios. É... Antigamente nós

fazíamos percursos de quinhentos, setecentos quilômetros. Hoje, em função da gasolina muito cara, do óleo diesel muito caro, dos pedágios muito caros, não tem mais possibilidade de fazer isso. Então você consegue no máximo andar cem, cento e cinquenta quilômetros em função do custo operacional. É... A gente fez um gráfico em dez anos subiu 1.000% o custo do circo.

1109 - Suara – Ah!

1110 - Marlene – Mil. Como é que você vai acompanhar isso no preço dos

ingressos, né?

1111- Suara – Uhum.

1112 - Marlene – Então, você começa a diminuir as distâncias.

1124 - Marlene – [...] eu posso te citar as coisas que geram custo.

1125 - Suara – Sim, sim.

1126- Marlene – Você tem aí... Vamos lá... Terreno, custo do terreno, água,

luz, é... As taxas todas dos dezoito alvarás que você pede. É... Você tem o custo da folha, da manutenção, tem o custo da publicidade, tem custo da administração... Então nós temos aí uns vinte itens na planilha, né?

1127 - Suara - E...

1128 - Marlene - A produção...

(APÊNDICE B)

Ainda sobre as documentações exigidas, ela enfatizou que vem lutando, por meio da UBCI, para que ao menos dentro do mesmo estado, o alvará de funcionamento possa ser anual, o que facilitaria a vida dos circos, pois não teriam que, a cada cidade, recomeçar com todos os trâmites burocráticos.

1026 - Marlene – [...] A gente tá lutando por uma lei federal para que ele

tenha um alvará anual. Então você tem um alvará, que você vai lá e apresenta todos os documentos pra você funcionar. Porque essa mesma estrutura minha, ela vai pra tudo que é lugar, então ela não muda. Na verdade, o que as pessoas pensam é que você, cada vez que você monta um lugar, a estrutura é diferente. Não. Ela é exatamente igual. Ela só é removível de uma cidade pra outra. Então no meu ponto de vista e no ponto de vista de vários técnicos engenheiros e outras pessoas que a gente conversa, que fez uma comissão, nós tínhamos que ter um alvará anual, igual é o alvará do bombeiro. O Corpo de Bombeiros... Você tem um alvará anual. Você

entra lá com o projeto e tal eles vêm, fazem a vistoria e cada cidade só faz a vistoria local. Então você não precisa entrar com toda aquela carga de documento.

1027 - Suara - Mas tem um custo também em cada cidade.

1028 - Marlene – É, tem a taxa local, mas já evita um monte de coisa.

1029 - Suara – Sim...

1030 - Marlene – Aquele projeto não sei o que, não precisa entrar. Só entra

com o projeto de vistoria, né?

1031 - Suara – Entendo.

1032 - Marlene – Então, a exemplo disso, o circo, como ele é... Uma... Ele

tem característica itinerante, ele teria que ter um alvará nacional [...]. Preencher todos os requisitos e aí quando ele chega na cidade, ele já leva pra prefeitura tudo pronto já.

1033 - Suara – Uhum.

1034 - Marlene - A prefeitura só vem fazer a fiscalização e dar alvará local.

1035 - Suara – Uhum.

1036 - Marlene - Ia evitar um monte de burocracia, quer dizer, você tem

que entrar com tudo toda vez, né? A gente tem que facilitar a vida do circense. [...]

1037 - Suara – Uhum. Achei superinteressante isso.

1038 - Marlene – [...] principalmente do alvará, o que a gente pede é que a

gente deixe de ser evento. Nós não somos evento. Evento é um cara que faz o Carnaval, que faz a Parada Gay, que faz a corrida de Interlagos, quer dizer, que faz o rock na praia. Isso aí é um evento. Nós não. Nós somos circo. [...] E aí quando nos qualificam como evento eu tenho que preencher uma série de exigências que a prefeitura faz pra evento. Só que o evento vai atender trinta mil, cinquenta mil pessoas”. E eu tenho que atender a mesma exigência desse evento porque eu sou classificada como evento na cidade. Então a prefeitura tem que tirar esse olhar que somos evento. Eu sou cultura, eu tenho que ser tratada como cultura e como circo, não como evento.

(APÊNDICE B)

Marlene também comentou comigo que, como forma de driblar as dificuldades financeiras, devido ao alto custo da itinerância conforme foi discutido, alguns circos como o Spacial, acabam levando para dentro da lona apresentações de espetáculos com personagens infantis como “Frozen” e “Peppa Pig” ou até mesmo apresentações musicais como forma de divulgar o circo e incrementar a bilheteria. A esse respeito ela explicou:

1182 - Marlene - Na verdade, isso sempre existiu em circo. Isso aí foi

sempre uma fórmula que existiu. Sempre existiu. No passado a gente trazia lá o Mazzaropi, trazia os Trapalhões, trazia a Xuxa, a Angélica...

1184 - Marlene - Sempre existiu. O que existe hoje é que “tá” ampliando os horários que a gente traz as apresentações. Antigamente a gente trazia atração uma vez por mês, duas ou três sessões, no sábado.

1185 - Suara – “Tá”.

1186 - Marlene - Hoje não. Hoje você é obrigado a trazer mais. Por quê?

Vou te falar de novo: com o advento das TVs a cabo, a criança recebe muita informação desses personagens em casa. Então ela, é... Ela desconhece o circo, em função de todas essas coisas que a gente discutiu antes.

1187 - Suara – Sim.

1188 - Marlene – Então, de que maneira nós achamos de trazer, de chamar

a atenção dessa criança? Trazer o personagem que ela gosta. Ela vem pro circo, ela vê o personagem que ela gosta e conhece o circo. Então esse é o futuro consumidor do circo. [...].

(APÊNDICE B)

Sobre o fato de alguns circos lançarem mão da estratégia de apresentar personagens para atrair o público infantil há uma critica de Zeca a esse respeito. Durante o momento da sua entrevista ele me disse:

249- Zeca – [...] Não estou aqui criticando ela (Marlene), não é uma

crítica, mas usando o mesmo parâmetro que eu usei para os grandes palhaços que eu vi na minha vida e que depois voltei a vê-los36.

Quando eu era criança e quando o Spacial chegava na minha cidade, Curitiba... Meu, era o Spacial que ‘tava’ chegando. Meu, era o Circo Spacial chegando na minha cidade. Era aquela coisa, era aquela vontade de ir. E eu era de praça, né? Eu era de praça. Então chegava o circo, eu dizia: “eu tenho que ir”. Eu via aquela propaganda na televisão, eu via o Marcos Frota no trapézio... Hoje quando vejo propaganda de televisão dizendo assim... Circo Spacial estreia sexta- feira! Venha ver “Frozen”! Venha ver “Peppa Pig”! Venha ver! Isso é uma facada no meu peito. Eu falo assim: “gente?”. Porque eu conheço a Marlene e sei do amor que ela tem pelo circo. Se ela “tá” fazendo isso é porque pra ela é a última saída mesmo. Porque ela não ia trocar a marca Spacial pela marca da “Frozen”, pela marca da “Peppa”, pela marca de quem fosse. E aí eu volto a pensar: “onde é que ‘tá’ o caminho? O que aconteceu?”.

(APÊNDICE E)

Percebe-se aqui uma divergência e posicionamentos diferentes entre Marlene e Zeca. Possivelmente ele se posicione deste modo em relação a este tema porque, apesar das dificuldades enfrentadas por seu circo no início de sua trajetória, ele, Zeca, “reinventou” um filão, um tipo de linguagem circense que há muito estava esquecido. O circo de teatro teve seu auge na primeira metade do século XX, mas, aos poucos, foi perdendo espaço para a

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