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El cáncer de próstata y exposición a agentes ocupacionales

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Como apontei acima, discutida as questões referentes à temporalidade, apresento esse capítulo que se refere ao modo como se dão as relações interpessoais no interior da lona do circo por compreender que é a convivência que faz a mediação entre as noções de temporalidade e de confiança. Essa compreensão se dá por considerar que é o estabelecimento de um ritmo compartilhado de relações, ou seja, uma convivência preliminar que, ao se estabilizar, permite que as relações de confiança se estabeleçam, conforme discutido na introdução e será aprofundado posteriormente na tese.

Para uma maior compreensão sobre o modo como se dá a convivência interpessoal no interior da lona destaco algumas particularidades sobre as relações eu-outro no contexto dos circos entrevistados.

No dia da entrevista que realizei com Dionísio no Circo de Teatro do Tubinho perguntei-lhe a respeito da convivência no circo. Ele me disse que, em sua opinião, é melhor do que se poderia imaginar e que, embora existam pequenos conflitos e discussões, não são frequentes e raramente chegam às vias de fato, ou seja, ao ponto de haver agressões físicas ou verbais.

182 - Dionísio – [...] Não vou dizer que nunca aconteceu... Nessa minha

vida inteira de circo, já vi várias situações, né? Mas é, nossa, é muito difícil de acontecer. [...]

(APÊNDICE G).

Para ele, o respeito que uns mantêm pelos outros é o pilar que sustenta as relações no circo. Dionísio também atribuiu a boa convivência ao fato das pessoas gostarem do que fazem e de cada um cumprir suas obrigações sem que haja necessidade de cobranças. Além disso, comentou que há, ainda, o fato de, no circo, um não querer prejudicar o outro.

Ele me disse que trabalhar e viver em comunidade, mais especificamente ao lado de amigos e familiares, é uma experiência bastante agradável. Quando lhe perguntei se, em algum momento, essa constante convivência se tornava um problema, ele me disse que não.

92 - Dionísio – [...] A gente é mais tempo se divertindo, é, baixa jogos no

celular pra brincar junto, a gente... Geralmente, sempre que dá, “tá” fazendo um churrasquinho participando, assim, pra gente ficar juntos ali também, participando disso. A gente vai pra uma balada, a gente quer ir junto também, é, vamos entrar em férias agora... Boa parte vai junto.

93 - Suara – Uhum.

94 - Dionísio – Então, as férias, que a gente podia se separar, a gente já

não se separa. Acaba indo junto também. [...] (APÊNDICE G).

Dona Cidinha também havia afirmado ao longo da nossa conversa que são poucas as brigas e desentendimentos no circo e que, as que ocorrem, estão mais relacionadas às questões de trabalho, e que, de fato, como fora apontado posteriormente por Dionísio, prontamente tudo se resolve. Para ela,

isto está relacionado, dentre outras coisas, ao modo de ser do seu sobrinho Zeca que, em sua opinião, tem um modo especial de tratar a equipe.

162 - Dona Cidinha – [...] Ele tem muita facilidade pra isso, de controlar tudo

isso. Então não tem como chegarem a se desentender e ficarem assim como que sem falar um com o outro, porque cria um problema muito grande depois. Ter que representar juntos, fazer papéis juntos, até mesmo cenas de abraçar ou de beijar, coisas assim. Então não tem isso, esses constrangimentos. Se se desentendeu, é lá entre eles, mas trabalho tem que continuar do mesmo jeito. Com o mesmo respeito, com a mesma empolgação. Não tem que misturar as coisas. Então ele sempre soube controlar isso. E dificilmente chama a atenção desse ou daquele porque ele é muito respeitado. Todos, todos, desde as crianças, respeitam muito ele. E não por ele impor autoridade porque ele não impõe autoridade. É pelo jeito dele de ser. É pelo coração que ele tem que todos “tratam ele”... É pelo respeito que ele tem pelos outros. O respeito dele é tão grande pelos que trabalham com ele que não tem como, né? Tudo é recíproco. Eles não têm como dizer: “eu não preciso respeitar”, “eu não devo respeitar”. Todos. Desde as crianças. E, nos momentos de lazer, nos momentos de... Que a gente se reúne... Porque sempre tem. É muita gente. Hoje é aniversário desse, amanhã é aniversário daquele. Tem aquelas reuniõezinhas e Natal, Ano Novo... A gente se reúne aqui, é sempre o mesmo respeito. É sempre mais descontração. Ele dá descontração pra todos, de brincar com ele e ele brincar com todos. Quer dizer, dali não tem aquela coisa de separação patrão- empregado, não tem.

(APÊNDICE G).

As palavras de Dona Cidinha apontam para o fato de que Zeca tem ciência de que uma cisão, um rompimento entre os integrantes, pode prejudicar o andamento das apresentações. Diferentemente do circo de variedades, no qual as apresentações duram em média alguns minutos e, portanto, o contato com o (s) parceiro (s) de picadeiro também, no circo de teatro, as peças têm duração aproximada de duas horas. Nesse caso, as pessoas passam grande parte do espetáculo em cena, tendo que, em algumas ocasiões, representar papéis que podem exigir contato físico, como, por exemplo, no caso de contracenarem como par romântico.

Enquanto gestor de uma equipe que atualmente conta com aproximadamente 57 integrantes, Zeca sabe da importância de sua liderança para que as pessoas se relacionem bem. Apesar disso, ele sinalizou em uma de nossas conversas que gerenciar pessoas não é uma tarefa simples.

Dona Cidinha ainda comentou comigo que, devido aos sérios problemas de saúde que vinha enfrentando, não se apresentava mais no palco, mas que estava sempre disposta a auxiliar a trupe no que fosse necessário. Disse que lhes passava informações sobre como costumavam apresentar algumas das peças antigas e, também os orientava nas questões relacionadas ao convívio interpessoal que, em sua opinião, essa é uma habilidade que pode ser aprendida.

158 - Dona Cidinha – [...] Porque a gente também tem que aprender, pra

conviver com as pessoas. Então, meus pais passaram pra nós. Eles sempre diziam: “respeito em primeiro lugar”. Não é porque “tá” um

trailer encostado no outro, uma barraca encostada na outra, que acha

que é tudo uma mistura, que ninguém deve respeitar o espaço do outro. Não. Cada um tem que respeitar o espaço do outro. Crianças, ensinar as crianças a se respeitarem, a não brigarem uma com a outra porque são doze, quinze crianças. É difícil. É quase uma creche, né?

(APÊNDICE F).

Quando lhe solicitei que falasse a respeito das crianças do circo, ela ressaltou que, devido aos ensinamentos que recebiam e por participarem ativamente do dia a dia do circo, quando iam à escola respeitavam os professores e já possuíam desenvoltura para expressar ideias. Considero que isso esteja relacionado ao fato de que, por viverem em comunidade, as crianças aprendem desde cedo a conviver em grupo e a se relacionarem com o diferente, pois no circo estão sempre em contato com pessoas de diferentes idades, nacionalidades, culturas, gêneros, etc.

O fato de estarem constantemente ao ar livre e em contínua interação com familiares e com as demais pessoas que integram o circo, também faz com que as crianças recebam estímulos que propiciam o desenvolvimento de diferentes habilidades como a comunicação, além de sedimentar o respeito e cuidado com os mais velhos e com o próprio espaço do circo.

Para Dona Cidinha, outro fator que contribui para que não haja desentendimentos debaixo da lona, está relacionado ao fato dos pais das crianças do circo não interferirem nos desentendimentos dos pequenos.

160 - Dona Cidinha – [...] Brigaram? Faz um pedir desculpa pro outro. Sem

dois não brigam. E não ir tirar satisfação com o pai de ninguém. [...] E assim... Se aparece um com um brinquedinho do outro, na barraca do outro: “Vai lá devolver.” É assim que nós aprendemos a viver, em conjunto, e nunca deu briga. Nunca. [...] No dia a dia nosso é sempre assim, um respeitando o outro, se amando mesmo de verdade. Um sendo pelo outro, se for pra defender, um ao outro... Não entre si, mas com pessoas de fora que possam, sei lá, nunca aconteceu, graças a Deus sempre fomos muito bem quistos em todos os lugares, mas se acontecer, eu garanto que um se dói pelo outro. É assim. (APÊNDICE F).

Deste modo, ao ensinarem as crianças a se desculparem umas com as outras, os circenses trabalham na direção do compartilhamento intersubjetivo, ou seja, em direção à união e ao entendimento.

Para ela, além de poder trabalhar e viver ao lado da família, outro privilégio que o mundo do circo proporciona é o fato dos pais poderem participar ativamente e de modo efetivo do dia a dia das crianças, ou seja, acompanhar o crescimento dos filhos.

60 - Dona Cidinha – [...] A gente pode participar mais da vida das nossas

crianças. Porque fora desse mundo do circo, pai, mãe vão trabalhar fora, tem que deixar filho na mão de terceiros, tem que deixar filhos em creche e não participam quase do dia a dia da criança. Nós aqui não. Nós estamos sempre juntos com as nossas crianças, sempre participando do dia a dia deles... Eles mesmos levam para a escola, eles mesmos trazem. O tempo dá pra isso, porque a nossa apresentação é à noite.

61 - Suara – Uhum.

62 - Dona Cidinha – Durante o dia, cada um tem suas tarefas, mas é tudo

tão bem dividido que dá pra aqueles que são pais, que têm obrigação de levar o filho, trazer o filho, dá tempo pra isso. Pra eles levarem, buscarem. Quer dizer, então, que a segurança também das nossas crianças é bem maior porque está todo mundo aqui junto... Ao redor... Tem sempre um pra defender, pra dizer “não faz isso”, “não faz aquilo”, pra não acontecer, nada de mau. “É todos” um pelo outro, né? Todos cuidam, todos ajudam a cuidar. Quer dizer que as nossas crianças não têm só o pai e a mãe delas, verdadeiros, mas têm pai e mãe na parte do educar, cuidar porque eles são... Eles aprendem a ser obedientes e respeitarem a todos. Não é só o pai e a mãe. Todos. Um falou: “não faz isso”, eles não fazem. Então é um conjunto. É uma coisa, assim, é uma união muito grande. Muito grande mesmo. Então isso ajuda muito. Ajuda muito na formação das nossas crianças. [...] (APÊNDICE F).

A esse respeito, Ceceu, que é pai de três crianças, comentou comigo ao longo de sua entrevista que após uma temporada de sete anos morando

em cidade, continua gostando mais do convívio entre os circenses e, por essa razão, optou por criar e educar os filhos no circo.

232 - Ceceu – [...] Que eu parei de circo uma época e eu acho complicado

a convivência (na cidade). A do circo é melhor do que na cidade porque na cidade, você mora naquela casa com o seu vizinho que, às vezes, você nunca vê. Você nunca vê. E às vezes você tem amizade com um vizinho ali. Aqui não. Aqui eu conheço todos os vizinhos. Tenho mais afinidade com a Léo, daqui do circo inteiro... Com a Léo, com a A. também. [...]

233 - Suara – Sim.

234 - Ceceu – Conversar mesmo é com a Léo, mas eu converso com todo

mundo. E na cidade não. Você tem aquele amigo três casas pra baixo ali e outro amigo que mora lá no outro bairro e não é... [...] Aqui a gente é mais protegido. Se eu vejo o filho de alguém ali fazendo alguma coisa de errado eu chamo a atenção. E falo pro pai: “ó, ele ‘tava’ mexendo com isso ali”. Na cidade não. O vizinho vê seu filho aprontado ali, fecha a porta. Não se mistura. [...]

235 - Suara – Uhum.

236 - Ceceu – E você pode ver... Na televisão não aparece nada tipo: “pai

pegou, estuprou seu filho ou é drogado”. O pessoal circense é...

237 - Léo – Aqui ainda se mantêm, né? A brincadeira das crianças são

brincadeiras diferentes...

238 - Ceceu – Brincam junto. Aí tinha uma criança brincando ali (aponta

para a parte de trás do terreno do circo). Tinha uns “rapaz” atrás do muro. A minha esposa estava olhando... Daqui a pouco já vem outro e começa a olhar também pra ver o que era. Aí, chamou todo mundo pra vir pra cá. E fica assim.

239 - Suara – É o cuidado também, né?

240 - Ceceu – [...] A gente cuida das crianças. O circo é muito mais seguro

pra criança. [...] Eu até queria parar, mas eu convivi na cidade. E na cidade todos os meus amigos me ofereceram droga. No circo, ninguém. Então prefiro que meus filhos cresçam no circo e saibam que é assim que funciona. Aqui a família é unida. [...]

(APÊNDICE I).

A fala de Ceceu apontou para o fato de que, ao cuidarem das crianças uns dos outros, os circenses estão cuidando do próprio circo e, desse modo, cuidando da manutenção e perpetuação desta arte.

Sobre esse aspecto vale considerar que os vizinhos no circo, preocupam-se em preservar o bem comum, que é o próprio circo e o que a ele está relacionado. Já os vizinhos da cidade estão, de modo geral e por diferentes razões, preocupados com a própria vida, até porque se dedicam a atividades diferentes e, portanto, não compartilham do mesmo cotidiano.

Em larga escala, se pudéssemos expandir o modo de agir no circo para a cidade, possivelmente existiriam mais pessoas preocupadas com o

bem comum, o que refletiria nos cuidados com a própria rua, o próprio bairro, a cidade, o país e até com o planeta como um todo.

Figura 12 - Crianças do circo de Teatro do Tubinho. (Fonte: Duarte/2015).

Como Dona Cidinha comentou ao longo do seu depoimento, os momentos de lazer e de descontração debaixo da lona são frequentes. Praticamente todas as datas comemorativas são festejadas no circo. No caso do Circo de Teatro Tubinho, os festejos e confraternizações têm início após o término do espetáculo, por volta das 23h00min. Em uma das visitas que realizei tive a oportunidade de participar de um jantar, que foi servido na marquise do circo, realizado em comemoração ao aniversário de Angelita e no qual todos os integrantes estavam presentes.

Sobre o convívio comunitário, Ceceu comentou também que, com o tempo, é como se todos fossem uma só família. Léo, que estava presente, concordou, mas evidenciou um ponto que considera um importante princípio para a boa convivência. Em sua opinião, além da importância de se conhecer o outro e, portanto, respeitar seu limite e espaço, como fora sinalizado por

outros participantes, no ambiente do circo é imprescindível ouvir mais e falar menos.

226 - Léo – Você já vai aprendendo antes, entendeu? Eu acho que

assim... Você tem que saber até onde você pode chegar para o outro poder ir... Você tem esse limite de saber até onde um vai, pra você acabar não atrapalhando. Você tem que ouvir muito, falar menos possível [...]

(APÊNDICE I).

Acredito que esta postura de Léo esteja diretamente relacionada ao fato de que ele exerce um cargo de liderança no circo. Por essa razão, deve preocupar-se com o bom andamento das atividades e, portanto, com a adesão e o comprometimento das pessoas.

Ao acordarem que a convivência no circo é boa, justamente por ser igual à de uma família, assumem, sim, que há tensões e conflitos como em qualquer contexto familiar. Logo em seguida Ceceu se posiciona a esse respeito dizendo:

230- Ceceu – Acontece assim, igual uma família que às vezes você

convive demais, mas briguinha besta, “tá”? Não é sério não. Pelo menos eu nunca passei.

(APÊNDICE I)

Riccielly que foi o último a ser entrevistado no Circo de Teatro Tubinho também trouxe a dimensão do respeito como sendo um dos segredos para a boa convivência no circo. Segundo ele, que afirmou gostar de viver em comunidade, o fato de se conhecerem há bastante tempo é um facilitador para uma boa interação interpessoal.

Ao conversar a esse respeito com Marlene, na ocasião dos nossos encontros no Circo Spacial perguntei se havia muitos problemas de relacionamento, ela me disse que, como é uma convivência diária, sempre há pequenos conflitos. Questionei se tais conflitos chegavam a evoluir para agressões físicas ou verbais e ela me disse que era raro isso acontecer.

749 - Suara – [...] Então, como é que se resolvem os problemas aqui?

750 – Marlene – Então, tem vários problemas... Tem os problemas...

752 – Marlene – Ah, os de relacionamento... Eu procuro ouvir os dois lados, né? É... Sempre tem. Sempre temos porque é uma convivência diária. Então você tem vários conflitos, pequenos conflitos.

753 - Suara – Não chega aos “finalmentes”?

754 – Marlene – Não, não chega. Muito raro. Graças a Deus é muito difícil.

Só quando “tá” a adrenalina muito alta tipo o cara fez uma besteira muito grande, o outro saiu e deu um soco, mas é muito raro. Eu tenho uma norma: brigou, eu mando os dois embora.

(APÊNDICE B).

Ela me contou que essa era uma das recomendações e normas que são passadas aos artistas e funcionários no momento da contratação. E que há também a orientação de não andar sem camisa na portaria do circo e, ainda, sobre o uso de bebidas alcoólicas. Em seu circo o consumo de álcool é proibido durante o horário das apresentações e o período do dia que o antecede, mas que é permitido com moderação dentro da moradia do funcionário. Marlene enfatizou que no caso de haver uma discussão que chegue às vias de fato, todos os envolvidos são dispensados, mesmo se for alguém de sua própria família.

760 – Marlene – E aí a gente explica, olha: ó, se teve uma briga séria que

foi às vias de fato e, não importa quem seja, vai embora. É tanto que, já no passado, da minha família, foi embora. Brigou foi embora. Depois voltou, mas naquele momento da briga, foi embora. Foi embora porque é norma. É norma, não é norma? Então, seja lá quem for, vai embora. Mas eu procuro assim... Sempre... Eu sempre tenho uma regra assim, no auge da briga vamos esperar. Eu não gosto de conversar quando “tá” todo mundo bravo. Não. Espera. Depois que acalmar, eu vou pensar, eu digo. Todo mundo acha que eu penso demais. (Risos).

(APÊNDICE B).

Ela enfatizou que, ao longo dos anos, foi aprendendo e desenvolvendo estratégias para solucionar questões desse tipo, como o fato de pedir para as pessoas aguardarem algum tempo antes de atendê-las, pois, desse modo, os ânimos se aquietam e às vezes a pessoa até muda de ideia em relação às suas decisões.

Marlene afirmou que essa foi uma das estratégias que encontrou para conseguir lidar com a grande companhia que adquiriu aos 26 anos de idade. E reforçou que foi intuitivo e que também, de certo modo, por uma questão de sobrevivência, pois administrava pessoas de diferentes tipos, ou seja, tinha que se impor ao lidar com pessoas diferentes, de diferentes idades e de

diferentes gerações de circo.

Ela disse que houve um tempo em que não era incomum, mesmo com o circo lotado, artistas pedirem aumento de salário momentos antes do espetáculo. Geralmente esse tipo de situação ocorria quando o circo estava lotado, principalmente quando o (s) artista (s) tinha (m) ciência de que, naquele momento, era (m) a atração principal do circo.

Como esse código não existia, ela o foi instituindo aos poucos, como forma de evitar que tais situações se repetissem, pois traziam desgastes e muitas vezes prejuízos financeiros para o circo. A partir disso, passou a acordar com os artistas, no momento da contratação, que o compromisso que estavam assumindo era de ambas as partes, ou seja, nem ela poderia dispensá-los de uma hora para outra, nem eles poderiam ir embora de repente.

764 – Marlene – [...] Outra coisa... Eu não atendo na minha casa. Aqui é

minha casa. (APÊNDICE B).

Ela me disse ainda que outro código que instituiu ao longo do tempo estava relacionado à sua privacidade. Deste modo, assuntos relacionados ao picadeiro, a números e a contratos de trabalho, seriam discutidos somente nas dependências do escritório do circo. Marlene enfatizou que esta foi uma determinação necessária, pois no início era uma prática comum procurarem por ela, em seu trailer, a qualquer momento do dia ou da noite.

E salientou que em sua casa atende somente urgências, como no caso de alguma parturiente necessitar de cuidados ou falecimento.

766 – Marlene – [...] O resto? Não bate em casa que eu não quero saber,

você tá entendendo? Brigou marido mulher eu não quero nem saber. Vamos resolver isso amanhã. Porque você tem que dar um tempo das coisas, né? E você também tem que ter um limite, mesmo que... Eu também não vou na casa de ninguém chamar ninguém, a não ser que seja uma coisa importante. [...]

(APÊNDICE B).

Marlene, por outro lado, enfatizou que essa atitude foi necessária para

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