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Result Analysis

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4.6 Evaluation

4.6.3 Result Analysis

O biografema “cena da escrita” é um dos agentes que contribui para a ambivalência do mito do escritor como um inspirado, porta-voz dos deuses, e simultaneamente um homem comum que, a partir de uma vocação, dedica-se a um árduo trabalho, numa concepção tipicamente moderna. Essa insistência na escrita como trabalho abre uma dupla condição para o escritor: o da liberdade e da obrigatoriedade da escrita.

A “cena da escrita” costuma aparecer vinculada à “cena da leitura”, relacionada à origem, ela é o

momento do relato em que o autobiográfico recupera uma herança, uma filiação, ao mesmo tempo em que enuncia seu pertencimento a uma “comunidade imaginada” e, em certo sentido, escolhida. Seja como gesto corporal de iniciação, abertura a uma verdadeira intimidade, relação amorosa com o livro-objeto ou ligação perdurável através da temporalidade.236

Além disso, a cena de leitura atua para ressaltar o caráter desejante do escritor, ao colocar a ênfase no impacto emocional e estético das obras lidas, autores ou culturas, ela contribui para a construção de um “destino individual” que se dá ao longo da vida do autor. Assim, a “cena de leitura” fala da passagem da vida à escrita e, não raro, essa passagem se dá pela via de uma paixão. É assim também que esse biografema estabelece uma genealogia para o escritor, reforçando os elos causais da narrativa, que, apesar das tentativas de organização da trama, não deixa nunca de ser vertiginosa:

Se por meio de suas leituras o escritor define sua dupla identidade como autor/leitor [...] no traçado dessa cartografia não pode faltar a hipótese em torno de sua própria leitura como autor, como imagina seu “leitor modelo” – o comum, o crítico – e como se confronta, ou deveria se confrontar, ao produto de sua escrita.237

                                                                                                               

236

ARFUCH, Leonor. O espaço biográfico: dilemas da subjetividade

contemporânea. Trad.: Paloma Vidal. Rio de Janeiro, EdUERJ, 2010. p.224.

237

Não se deve esquecer, nesse sentido, a “despretensiosa” capa de

Não fosse isso, que explora justamente a mise en abyme, a imagem do

autor como leitor de seu próprio livro238.

Os biografemas da escrita e da leitura são bastante frequentes nas imagens de Leminski, como a foto abaixo, utilizada na capa da reedição da correspondência com Régis Bonvicino, publicada em 1999.

                                                                                                               

238 É também o que percebe Julio Premat, quando afirma sobre as identidades dos escritores que “ésta no es una constante ni esta dada de una vez por todas, sino que es el resultado de una operación vertiginosa: el passo de una actividad (‘escribo’) a un ser (‘soy escritor’), operación que la impregnaría de una indeterminación y una inestabilidad esenciales. La identidade de un autor estaria caracterizada pela presencia simultanea de imperativos contradictorios (la afirmación de una singularidade y de certa pertinencia a una colectividad, la reivindicación de una filiación y de un autoengendramiento, la ambivalencia entre la marginalidade y la integración, etc.), contradicciones que conllevan la necessidade, a cada passo de una carrera literária, de afinanzar y reconstruir el ‘ser escritor’. [...] Así, el acto de escritura puede verse como una ‘puesta en intriga’ de la identidade, según la expresión de Ricoeur: se construye un relato pero también una coherencia, una dialéctica identitaria del que escribe.” PREMAT, Julio. Héroes sin atributos: figuras de autor en la literatura

Imagem 12 – Capa de Envie meu dicionário239

Nela vemos o poeta sentado no chão, sob uma pilha de livros e papéis, com o cigarro na boca e a máquina de escrever, aparentemente em atividade, considerando a posição das mãos e a folha na máquina. Mas o retratado olha diretamente para a câmera – ou para o leitor – e esse olhar de um lado cria uma cena na qual o poeta é “flagrado” na intimidade de seu ambiente durante o trabalho, e, por outro, interrompe a mesma espontaneidade que a imagem sugere ao evidenciar o caráter performático da imagem com a pose e no olhar do sujeito.

Essa é outra operação movida pelos biografemas da escrita e da leitura: elas situam o escritor no seu refúgio – a biblioteca, o escritório, o interior da casa - e assim encenam o acesso à intimidade. Tais imagens possuem um efeito de assinalamento ao mostrar o espaço onde vida e escrita acontecem:

Um motivo típico, condensará ambos os registros [inspiração e trabalho] numa obsessiva descrição,

                                                                                                               

239 BONVICINO, Régis [Org.]. Envie meu dicionário – cartas e alguma crítica. São Paulo, Ed. 34, 1999. Capa.

física, topográfica, “topoanímica”: o como, o onde (o recinto, a luz, o momento do dia), o hábito, o gesto do artífice, os modos do corpo, os usos fetichistas, o estado de ânimo, a angústia da inspiração...240

Ainda sobre essa edição, é importante observar o jogo auto- referencial: o poeta aparece ‘datilografando’ na máquina de escrever, a mesma máquina onde foram datilografadas as cartas reunidas no interior do volume fac-similar. Reforça-se, com isso, a promessa de acesso à intimidade do poeta, às suas marcas “corporais”, ao seu traço.

Imagem 13 – Leminski na sua biblioteca, casa do Pilarzinho, 1982241

A imagem do autor na cena de leitura/escrita será explorada também no vídeo “Ervilha da fantasia”, realizado em 1985 por Werner Schumann, no qual vemos Leminski deitado no chão de sua biblioteca, em cima de montes de livros e papéis espalhados pelo chão. O documentário foi realizado sem um roteiro pré-definido e nele a impressão é de que o poeta está “pensando em voz alta”, como observa

                                                                                                               

240

ARFUCH, Leonor. Op. cit. p.219-220. 241

Retirada de: http://www.elsonfroes.com.br/kamiquase/poema29.htm. Acesso em: 17 jul. 2014.

Schumman242, num ambiente íntimo e com uma postura corporal informal, relaxada que criam um efeito de conversa entre amigos, apesar do tom de voz alto e enfático, característico de Leminski (tom pedagógico, doutrinário, ou profético em certos momentos).

Imagem 14 - Fotograma do filme Ervilha da fantasia de Werner Schumann, 1985243

A biblioteca é, também, o espaço íntimo do escritor pois é ali que se pode vê-lo em meio a sua “família eletiva”: os livros e autores que lhe são caros (e que constituem a sua linhagem). Nesse sentido, as imagens da biblioteca de Leminski são significativas pela desordem que configura o espaço. Desordem ou desleixo são um traço da paixão e intensidade que definem o leitor-Leminski: signos de uma relação corporal, vital com os livros, como reforça Leyla Perrone-Moisés: “Ostentando as insígnias da contracultura, ele era um poeta culto, que conhecia seu ofício e o levava a sério, num gabinete cheio de vida e desordem”244. Além disso, são também manifestações do processo de

                                                                                                               

242 SCHUMANN, Werner. Depoimento. Disponível em:

http://www.opovo.com.br/app/opovo/vidaearte/2013/03/09/noticiasjornalvidaea rte,3018837/testamento-intelectual.shtml. Acesso em 13/1/2014.

243 Retirada de: http://www.paranacine.com.br/_2011/filme.php?id=153. Acesso em: 17 jul. 2014.

244

PERRONE-MOISÉS, L. Leminski, o samurai malandro. In: Inútil poesia e

outros ensaios breves. São Paulo: Companhia das Letras, 2000. Reproduzido

desierarquização e montagem que estrutura o seu pensamento ou sua escrita, a exemplo do procedimento caleidoscópico observado nas biografias.

Imagem 15 – Leminski em sua biblioteca245

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