apagar-me diluir-me desmanchar-me até que depois de mim de nós de tudo não reste mais que o charme
Paulo Leminski
Em sua apresentação da poesia de Ana Cristina Cesar para a coleção Ciranda de Poesia, Marcos Siscar retoma a conferência “Poesia e composição”, de 1952 de João Cabral de Melo Neto, com o intuito de rever a convencional separação entre duas vertentes poéticas, uma espontaneísta e outra formalista. Tal separação, ao longo da tradição crítica brasileira, amparou uma leitura que entende em oposição projetos poéticos como os de João Cabral, a poesia concreta e a poesia brasileira dos anos 1970.
Levando isso em consideração, é intrigante que Siscar retome o texto de Cabral não para reafirmar tal separação, mas para ressaltar um ponto de contato entre as poéticas de Ana Cristina Cesar e do próprio Cabral. Ambas as propostas têm como motor, além da “superação da relação ingênua entre linguagem e realidade”83, certa preocupação com o leitor ou uma necessidade de atingi-lo, de estabelecer uma
comunicação.
Também Paulo Franchetti, em texto sobre Paulo Leminski e o haicai, publicado em 2010 no livro A pau a pedra a fogo a pique: dez
estudos sobre a obra de Paulo Leminski, retoma a conferência “Poesia e
composição. Franchetti lembra que a oposição estabelecida por Cabral entre poetas construtivos e inspirados não é nova, mas remonta ao ensaio de Schiller “Poesia ingênua e poesia sentimental” (1800), porém a grande novidade na reflexão feita pelo pernambucano é a observação sobre a situação moderna do velho embate: haveria uma ausência de consenso quanto aos princípios estéticos que tornou a poesia moderna
83
SISCAR, Marcos. Ana Cristina Cesar por Marcos Siscar. Coleção Ciranda da poesia. Rio de Janeiro, EdUERJ, 2011. p.17.
incompreensível. Tal ausência de regras conduziu a uma atomização, ou seja, cada poeta, cada artista, define suas próprias regras como bem entender; procedimento que levou à perda do leitor como “contra-peso” da atividade poética e, mais radicalmente, à morte da comunicação em literatura.
O que ressalta e solicita uma análise mais detida é o fato de dois críticos contemporâneos, em ensaios publicados em 2010 e 2011, revisitarem o texto de João Cabral ao apresentar a obra de poetas dos anos 1970. Justamente por que, ao falar em poetas “dos anos 1970”, o que se costuma evocar é um tipo de poesia elaborada em oposição aos princípios cabralinos do rigor, da impessoalidade, da construção.
No entanto, o que leva esses críticos a rever tal oposição é a importância concedida por Cabral ao princípio comunicativo em poesia, princípio que marca também a poesia de Ana Cristina Cesar e de Paulo Leminski, ainda que por vias diversas. Em Cabral, esse propósito comunicativo se dá com a recusa do espontaneísmo e dos elementos pessoais, que caracterizariam o “individualismo” em poesia, tornando-a, portanto, incapaz de atender às expectativas do leitor, incapaz de responder a uma demanda de coletividade. Em Ana Cristina, essa demanda é respondida pela “retórica da correspondência”, conforme define Siscar, caracterizada não só pelo uso recorrente dos gêneros carta, diário e cartão-postal, mas pela inclusão de vocativos, interpelações, referências a dados circunstanciais, que caracterizam um “exibicionismo da intimidade”. Tal exibicionismo, ao contrário do que supunha Cabral, não equivale à expressividade biográfica e ingênua do poeta inspirado, mas cumpre a função de provocar o leitor. Em seu texto, Siscar ressalta muito apropriadamente a ambivalência contida nessa provocação: ela tanto irrita, como seduz; e acrescenta que, em Ana C., “A intimidade é provocativa, ou provocante, porque solicita a relação”84.
A “retórica da correspondência” implica uma destinação, um lançamento ou envio ao outro. São, portanto, dois modos diversos de se relacionar com o outro. Em Cabral o horizonte coletivo está nas escolhas temáticas e formais que o poeta faz, já em Ana Cristina, observa Siscar, está na atitude que comanda a relação com a alteridade:
Para Ana C., como para Cabral de certo modo, isso se dá na maneira pela qual se mobiliza o outro no poema. Com a diferença de que, em vez
84
de ir ao encontro da expectativa que o poeta tem dessa alteridade, sua poesia vem de encontro a ela, na rota de um enlace que não deixa de ser também uma “colisão”.85
É nesse embate, portanto, que se constrói a subjetividade. E a ênfase no corpo e na intimidade, na poesia de Ana C., constitui o modo como ela é destinada – endereçada - ao outro, conforme Siscar. Essa destinação, contudo, é marcada por dificuldades e percalços: não se sabe nunca quem é o outro, as identidades em jogo aparecem rasuradas e fragmentadas, sem definição possível. Porém, é o desejo do outro e o procedimento de mobilização que configuram o que Siscar chama de “ética da alteridade” na poesia de Ana C. Esse “outro”, a segunda pessoa, não seria um puro artifício discursivo, mas a marca de uma “dupla negação provocante”: o interlocutor, no texto, é que “dá corpo e linguagem ao descompasso com a experiência”86.
Nesse sentido, se Cabral reivindicava, como meio de sobrevivência para a poesia, a adequação à tradição e ao horizonte coletivo de expectativas; com Ana C. o modo de sobrevivência é o endereçamento por meio da provocação:
Trata-se, no fundo, de outro tipo de experiência da ética, em que a técnica [...] em sua produtividade característica, [é] um modo de apontar para os vazios da interioridade em que nos situamos; um modo tão contundente que transforma esses vazios em espaço de convivência, de destinação, de herança.87
A literatura e a poesia como um espaço de convivência é a concepção que atua também na escrita de Paulo Leminski. Em seus textos é possível identificar a percepção aguda do seu tempo, como se pode ver no ensaio/anseio crítico “Central elétrica: projeto para texto em progresso”, com a constatação do impacto sensível e cultural causado pelos meios de comunicação:
85 Idem, p.23. 86 Idem, p.44. 87 Idem, p.48.
Ao grosso da população, o rádio, o disco, o cinema e a TV chegaram e chegam antes que o livro, o texto escrito. Imensos contingentes da população do país saltam diretamente do mundo rural e oral do folclore para a informação veiculada por meios eletrônicos. Calcula-se em 45 milhões o número de brasileiros atingidos pela TV. A cultura letrada quando chegar a esse povo, não vai chegar num povo rural e oralmente folclórico. Vai chegar logo num público de rádio e TV. 88
É nesse cenário que o poeta se coloca, e é a ele que pretende responder com uma linguagem que, seja nos textos poéticos, na prosa ou na crítica, é caracterizada pela simplicidade, pelo uso de gírias e expressões coloquiais, pela frase curta, pelo raciocínio veloz que, contudo, produz eco – ressonâncias – de um vasto repertório. Não é mera coincidência o interesse e as experiências do poeta como apresentador de programas na televisão, como músico e compositor, como roteirista de HQ e, especialmente, como publicitário.
Nesse sentido, assim como Siscar detectou em Ana C., podemos também falar em uma “retórica da destinação” ou do “envio” no trabalho de Leminski. E envio, em francês envoi, palavra que remete à voz, voix , mas também aos dêiticos: voici, eis aqui, e voilà, isso, por isso.
Ainda que não faça uso recorrente dos gêneros da destinação, há nos textos do poeta curitibano a construção de uma relação, promovida pelo uso da primeira e da segunda pessoas do discurso. Tal política está presente em poemas como:
o barro toma a forma que você quiser
88 LEMINSKI, Paulo. Ensaios e anseios crípticos. Curitiba, Pólo editorial do Paraná, 1997. p.19.
você nem sabe estar fazendo apenas o que o barro quer 89
E fica evidente também nos seus escritos críticos - ou crípticos:
[...] Aqui dentro, duas obsessões me perseguem (que eu saiba): a fixação doentia na ideia de inovação e a (não menos doentia) angústia quanto à comunicação, como se percebe logo, duas tendências irreconciliáveis.90
Ou nas cartas a Régis Bonvicino:
temo todo o isolamento porq temo pela causa do signo
nem que seja maiakovskianamente eu quero o diálogo
isto é ir lá gritar brigar
parar para ensinar e apreciar aos mestres pertence eu sou um guerreiro
um dia serei um mestre
mas agora estou em idade guerreira afoito91
Tanto no poema (com a interpelação, gesto de dirigir-se ao outro) como na carta ou no texto crítico o desejo de diálogo, desejo de
atingir o leitor, é manifestado. Esse desejo, enquanto marca textual,
mostra que se de um lado a poesia de Leminski se encaixa na crítica cabralina à tematização dos elementos corriqueiros e menores da vida, por outro lado ela escapa à condenação de hermetismo e autocentramento. Pelo privilégio dado à comunicabilidade, a proposta executada nos trabalhos de Leminski se aproxima daquilo que reivindicava Cabral:
Na verdade, quando se escrevia para leitores, a comunicação era indispensável e foi somente
89 LEMINSKI, Paulo. Caprichos & relaxos. São Paulo, Brasiliense, 1983. p.90. 90 LEMINSKI, Paulo. “Teses, tesões”. In: Ensaios e anseios crípticos. Curitiba, Pólo editorial do Paraná, 1997. p.18.
91 BONVICINO, Régis [Org.]; LEMINSKI, Paulo. Envie meu dicionário:
quando o autor, com desprezo desse leitor definido, começou a escrever para um leitor possível, que as bases do hermetismo foram fundadas. Porque neste momento, a tendência do autor foi a de identificar o leitor possível consigo mesmo. 92
Em Leminski, a comunicabilidade é determinante - define seu procedimento e o tipo de linguagem utilizada. No entanto, devemos ressaltar que o “desejo de diálogo”, como vimos no excerto da carta mencionada, é acompanhado de briga, de grito e de uma apreciação aos mestres. E talvez essas sejam as questões relevantes da poética de Leminski. Ali, o outro é tanto o leitor (futuro) quanto a tradição (passado) e, assim como em Ana C., a relação – desejada – com o outro não é pacífica, nem ideal(izada), não é encontro ou comunhão; mas se dá pela via de uma tensão.
O princípio da comunicabilidade, ainda, está vinculado a certa responsabilidade histórica do escritor com sua cultura, mas, principalmente, com seu tempo, como afirma em carta a Bonvicino:
uma escolha da comunicação traz responsabilidades sociais, determina as linhas do produto, afeta o plano semântico. Afinal, as pessoas não estão interessadas no que não lhes diz respeito, à vida, ao seu círculo de vida, aos seus interesses...
silogismo nazi: o povo não entende poesia nova/ logo/ o povo é uma merda...
estou interessado agora em estruturar conteúdos. Só me interessa o que tenho a dizer. E só me interessa dizer o q interesse a vários, a muitos. Quero sentidos. [...]
o classicismo implícito na coisa concreta que leva a eliminar o presente, as menções explícitas ao atual, ao circunstancial, ao efêmero... uma poesia q já quer nascer universal, geral, genérica, nasceu morta...
***
92 MELO NETO, João Cabral de. Obra completa. Marly de Oliveira [Org.]. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. p.735.
escrever os signos explícitos deste momento: programar clarezas 93
O jogo provocativo aqui, para retomar a conversa com Siscar e Ana C., é evidente, e o modus operandi é “programar clarezas”. A comunicação, assumida como escolha determinante, está vinculada à vida; a poesia, portanto, precisa interessar. Não coincidentemente, o poeta materializa essa proposta por meio de uma aproximação das técnicas publicitárias; atividade profissional que exerceu por um bom período.
A publicidade é a técnica que opera com uma economia particular: dizer o máximo com o mínimo; acertar o alvo com velocidade; o leitor/consumidor. Essa é a opção entrevista em boa parte dos trabalhos de Leminski: a síntese e a concisão. E, de alguma maneira, esses princípios são empregados na construção do texto para armar um efeito sedutor (galante, elegante) e penetrante no modo como atinge – toca e atravessa - o leitor. Entretanto, seria preciso observar também o caráter exortativo presente no tempo verbal imperativo, afinal, como foi visto na análise que De Man faz da obra de Rilke, a sedução se dá por via pessoal e seu efeito é o de um domínio.