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Dans le document Ce qu’on voit et ce qu’on ne voit pas (Page 37-42)

O último artigo a analisar deste rol de autores que mais ou menos se identificam com a posição original wittgensteiniana tem por nome Wittgenstein and Rule-

Scepticism e é da responsabilidade de Andrew Lewis.

Nele, o autor sublinha que a ideia atribuída a Wittgenstein, em que este se contentaria com a apresentação do paradoxo céptico, é contrariada energicamente na continuação da secção 201 das Investigações em que Wittgenstein defende que há um mal-entendido na forma como interpretamos uma regra, contentando-nos por breves instantes com uma interpretação para logo depois procurarmos outra por trás daquela. O que isso mostra, para Wittgenstein, é que há uma maneira de captar uma regra que não é uma interpretação, mas que é aquilo que nós compreendemos como obedecer à regra ou

não obedecer à regra em casos reais.

Do ponto de vista de Wittgenstein, não somente se pode seguir uma regra sem interpretação mas, em contraste com o que é referido no argumento céptico, quando alguém segue uma regra deve segui-la sem interpretação. Esta noção, ainda que arriscada, dada a maneira como Wittgenstein pensa, de dever contrasta, parece-nos, com o ponto de vista algo céptico do filósofo quando este afirma que quando eu sigo uma regra eu sigo-a de forma cega.

Para Wittgenstein, segundo Lewis, não usamos uma interpretação para seguir uma regra, mas também quando a seguimos não aplicamos o nosso conceito de identidade, não utilizamos considerações pragmáticas ou também, por exemplo, não ouvimos vozes interiores naquilo que poderia ser uma intuição. Se nós alegássemos qualquer uma destas razões para justificar aquilo que é seguir uma regra não estaríamos, na perspectiva wittgensteiniana, a seguir uma regra, o que não quer dizer que nós não possamos dar razões que justifiquem o facto de seguirmos a regra sem interpretação.

Apesar disto, podemos encontrar no artigo de Andrew Lewis, mais uma interpretação firme da posição de Wittgenstein em relação ao seu próprio paradoxo céptico: a perspetiva de Wittgenstein é que nós não fazemos uma escolha quando nos

deparamos com uma regra, apenas uma possibilidade se nos depara – que 1002, 1004, 1006, … é o que é exigido pela regra +2 – e, por isso, não há nenhuma escolha a fazer.

É o treino incansável da criança, por exemplo, que lhe permite aprender a seguir a regra +2. Se as opiniões divergissem quanto àquilo que consubstancia uma regra deste tipo, a criança não estaria disponível para dar respostas adequadas quando questionada sobre como prosseguir em relação à regra em questão ou em relação a qualquer outra regra.

A perspectiva de Wittgenstein parece, à primeira vista, fornecer boas indicações para a rejeição do cepticismo. Se nós reagimos como reagimos à regra +2 porque nós somos um determinado tipo de criatura, vivendo num certo tipo de mundo e fomos treinados a dar este tipo de respostas, então se nós somos ou não somos capazes de dar razões para a forma como seguimos a regra +2 não tem nada que ver com a resposta que damos e esta incapacidade não nos impedirá, à revelia do que pensa o céptico, de dar uma resposta consentânea com a aplicação da regra +2.

Em apoio do céptico podia ser dito que, de acordo com Lewis, independentemente de quantas formas testarmos se alguém tem uma capacidade particular de adição, é ainda possível que essa pessoa possa satisfazer esses testes e contudo não possuir essa capacidade. Então não podemos nunca estar absolutamente certos que sabemos como continuar a regra +2, mas, do ponto de vista de Wittgenstein, os testes apropriados para determinar se alguém tem uma capacidade particular são critérios que avalizam a posse dessa capacidade: “(…) it is part of the meaning of `x understands «plus 2» that if someone satisfies the requisite tests we are justified,

coeteris paribus, in asserting with perfect certainty that he has this ability. (…)” (p.

299). Esta é uma clara resposta ao paradoxo céptico que Kripke adoptou de Wittgenstein e à correspondente interpretação behaviourista que ele faz do referido paradoxo.

Mas, se eu estou com dores e digo realmente que estou, eu não posso atribuir a mim mesmo procedimentos e critérios como forma de demonstrar que eu estou efectivamente com dores, isto, claro, na perspectiva wittgensteiniana da auto-atribuição das sensações. Neste sentido e só neste sentido, eu não sei se tenho dores porque não tenho uma forma de saber criteriosamente se eu estou com dores. As semelhanças desta atitude de Wittgenstein face às sensações com a atitude do céptico face às regras mostram que Wittgenstein e ele não estão assim tão distantes quanto a tudo aquilo que

caracteriza seguir uma regra, o que não é de estranhar, para Andrew Lewis, dada a forma como Wittgenstein entende os objectivos da filosofia.

Todavia, na parte final do seu artigo, Lewis defende que o ideal do céptico seria dizer que até mesmo uma criatura com uma história natural completamente diversa da nossa seria capaz de dizer que esta ou aquela aplicação da regra seria a correcta, no entanto, para Wittgenstein a nossa prática usual de seguir uma regra falha muitas vezes inapelavelmente este ideal. A uma criatura de um universo completamente diverso do nosso seria muito difícil, mesmo que treinada intensamente, replicar as nossas respostas e perceber as nossas regras. O ideal do céptico é incoerente porque não existe algo como uma prática não deficiente. Se Wittgenstein e o céptico se aproximam quanto à caracterização genérica do que é seguir uma regra, distanciam-se largamente quanto à possibilidade das regras. Neste particular, Lewis sublinha a afirmação de Wittgenstein que aponta as reivindicações do céptico como nem sequer falsas, mas sim absurdas.

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