O relatório do RTPI, intitulado Planning Policy Guidance for tourism – PPG 21 (DoE, 1992), abraça o novo conceito de planeamento turístico, que apareceu nos anos 80, como se referiu, abandonando os modelos pouco flexíveis e adoptando formas de planeamento estratégico, mas não deixando de afirmar que o objectivo essencial é atingir um desenvolvimento sustentável. O relato aconselha a extensão ao sector do turismo das linhas orientadoras do processo de planeamento actual (ver capitulo2.3.5). O documento apela ainda a que o planeamento turístico seja encarado de forma mais horizontal, englobando as organizações que estão envolvidas de forma directa ou indirecta na rede turística. O parecer não fornece directrizes rígidas em relação ao modo como o desenvolvimento deve de ser implementado deixando ao critério das estratégias locais, embora sublinhe a importância do envolvimento da população local.
Murphy ao defender a aplicação do planeamento participado ao turismo, no seu livro de 1985, “Tourism a Community Approach”, sublinha a necessidade do processo de desenvolvimento ser controlado a nível local. O autor do livro acreditava que a satisfação das necessidades dos residentes, constituía a melhor garantia de preencher as dos turistas, embora reconhecesse as possíveis dificuldades de tornar operacional a sua implementação. (Murphy, 1985). Long ao apoiar
Ana Maria Ferreira 145
a proposta de Murphy, argumenta que ignorar as necessidades dos residentes, no processo de planeamento, inviabilizava a sua implementação. Mesmo que esteja muito bem elaborado, não consegue atingir os seus objectivos (Long, 1993, pp. 111). Acresce ainda que o planeamento com base na comunidade, reconhece que todos os interessados devem ser envolvidos na tomada de decisão porque quer se trate do sector público, do privado, ou das organizações de protecção do ambiente todos são interessados e todos estão dependentes uns dos outros. O planeamento turístico participado, defendido por Murphy, aproxima-se da visão de Healey em relação ao planeamento através do debate que dê voz a todos os envolvidos no processo (ver ponto 2.3.5). No complexo domínio do turismo, onde nenhum grupo ou pessoa pode, por si só, aspirar a resolver os problemas do sector (Brohnam, 1996; Gunn, 1994; Jamal e Getz, 1995), o processo de planeamento deve, por essa razão, ganhar uma dimensão comunitária, que ultrapasse o plano da retórica porque evitar essa dinâmica significa que “as comunidades continuarão a sofrer as consequências de um incremento turístico desapropriado, através de um processo de planeamento ineficaz” (Burns, 1999, pp.348).
Murphy sublinha o elevado grau de exigência, quer em termos de participação, e de controlo no processo de decisão, quer de capacidade de negociação das autoridades locais, porque implica a perda de alguma margem de decisão política em favor dos outros parceiros (Hall, 1994, pp. 168), embora o respeito por essas condições seja fundamental para o desenvolvimento de um turismo sustentável (Hinch, 1998, pp. 186).
Quadro 2.5.11 - Modelo normativo de planeamento turístico participado
Fonte: Timothy, 1999, pp.372
Envolvimento da população nas tomadas de decisão.
Envolvimento da população local nos benefícios do
turismo. Desejos e objectivos dos
residentes em termos de turismo. Envolvimento de outros interessados. Participação nos benefícios o turismo. d Educação dos residentes sobre o turismo. Planeamento turístico participado
O conceito de sustentabilidade, outro dos grandes temas do novo planeamento (ver ponto 2.3.5), “constitui um avanço decisivo, em relação ao do planeamento integrado e ilustra uma verdadeira mudança de paradigma, porque se o primeiro tem como intuito inscrever o turismo, num processo mais global de planeamento, que envolva os vários sectores de actividade, actores e parceiros com o objectivo de desenvolver a solidariedade social, o segundo transcende esses fins, ao
salientar a equidade territorial e entre gerações, a democracia, a responsabilidade, a solidariedade, o respeito pelo homem e pela natureza” como recomenda a Declaração de Càlvia, produzida no âmbito do Congresso sobre Turismo Sustentável no Mediterrâneo, de 1997 (Cazes, 1998, pp.97-99). Esta nova orientação do planeamento turístico sustentável aproxima-se, por sua vez da de Ferrey, mencionada no capítulo 2.3.5 e do seu conceito de ecologia democrática (ver quadro 2.1.2).
A natureza variada da actividade dificulta a definição conceptual de planeamento turístico e a coordenação dos vários elementos do produto, embora paradoxalmente, seja a natureza específica do turismo, que torna a actividade de planeamento indispensável, porque a qualidade da experiência oferecida depende da comunidade local, da sua cultura, do seu estilo de vida e meio ambiente. Gunn reconhece o atraso do planeamento integrado do sistema turístico devido à ausência de “uma política global, uma filosofia ou coordenação que consiga reunir de forma harmónica as muitas peças do turismo e que assegure um funcionamento contínuo equilibrado” (Gunn, 1977, pp. 85). Por esse motivo o planeamento restringiu-se, em muitos casos, a uma amálgama de considerações que reflectem a diversidade de factores que influenciam e, simultaneamente são afectados pelo turismo. O processo de planeamento, decisão e acção, exige regatear, negociar, assumir compromissos, coacção, interesses, valores, escolhas e, também políticas (Hall and Jenkins, 1995, in Hall, 1998). Por outro lado o planeamento e desenvolvimento do turismo, tal como o urbano (ver ponto 2.3.5), são actos políticos, na medida em que as necessidades, exigências e valores, têm impacto nos recursos ecológicos, económicos e sócio culturais do destino. A interdependência entre os envolvidos, nem todos eles localizados no destino ainda complica mais um cenário, já por si complexo, do processo de planeamento (Jamal e Getz, 1999, pp. 27).
A reavaliação do modelo de Leiper realizada por Cooper revelou-se um esforço apreciável na modelização de um arquétipo de sistema turístico pós moderno e Pós-”Fordista”, sobretudo porque chamou à atenção para o incremento da sua complexidade assente na rede intrincada de interesses e interessados e ilustra a alegação de dificuldade em planear e coordenar o turismo feita por Gunn (ver quadro 2.5.2). Por essa razão Cooper tem vindo a apoiar a aplicação ao sector do turismo de uma das tendências mais destacadas do novo planeamento urbano (ver ponto 2.3.5), assente na conjugação do desenvolvimento sustentável com o planeamento estratégico, assegurando que “existe uma clara sinergia na adopção dos princípios do turismo sustentável e a visão a longo prazo do planeamento estratégico, quer para os destinos quer para os mercados”. A complementaridade mútua das abordagens estratégica e sustentável, oferece às organizações um suporte ”que permite desenvolver o turismo sem que deixe de ser renovável em cada etapa do ciclo de vida” (Cooper, 1995 in Cooper, 1997, pp. 79), facilitando, em simultâneo, o estabelecimento de uma plataforma de interesses comuns, entre turismo, preservação do meio ambiente e comunidade, que facilitam o debate entre os grupos (WTO, 1993, pp.50).
Ana Maria Ferreira 147
A avaliação da interacção dois modelos, (ver ponto 2.3.5), como confirma Cooper, encontrava um instrumento precioso de enquadramento no ciclo de vida do produto de Butler, outra das tipologias referidas no ponto 1.5, elaborada no período “Fordista”, embora, como aconteceu com o de Leiper desse sinais de necessitar ser revista (ver quadro 2.5.1). Esse instrumento de análise foi cuidadosamente repensado, depois de aplicado e avaliado, por vários académicos a destinos turísticos maduros, em fase de reconversão O modelo nunca foi categoricamente aceite ou rejeitado pelos investigadores, o que é testemunhado pelos trabalhos recentes de Agarval, 1994, 1997, 2001; Bianchi, 1994, Baum, 1998; di Benetto e Bojanick, 1993, pp. 557-570; Getz, 1992, Haywood, 1986. O ciclo de vida foi aplicado a Malta (Oglethorpe, 1984), à ilha de Man (Cooper e Jackson, 1989), às Caraíbas (Weaver, 1993), a Maiorca (Morgan, 1991), às Cataratas do Niagára (Getz, 1992), a Minorca (Willians, 1993), a zonas da Austrália (Digance, 1997), a zonas montanhosas (Tooman, 1997) e à Suíça (Harrison, 1995). Embora muitos destes estudos confirmassem a forma da curva (Wilkinson, 1987) e Meyer-Arendt (1985), alguns encontraram pontos de divergência (Cooper e Jackson, 1989; Getz, 1992; Hovinen, 1981). As limitações apontadas, com mais frequência, ao ciclo de vida do produto, foram inventariadas por Cooper e estão sintetizadas no quadro 2.5.12. As alterações verificadas, nos últimos 20 anos e a reavaliação realizada permitem afirmar que o ciclo de vida de Butler representa apenas, um cenário de evolução, entre muitos possíveis, embora lhe seja reconhecido o papel de “modelo ideal” (Weaver, 2000, pp. 217; Prideaux, 2000).
Quadro 2.5.12 - Limitações do ciclo de vida do produto turístico
Foca apenas um sector do produto, em contraste com algumas teorias do desenvolvimento económico, que utilizam uma abordagem multi-sectorial.
A identificação dos pontos de mudança deveria ser feita de forma mais cuidada, se fossem utilizados indicadores mais diversificados, como a taxa de crescimento do número de visitantes, nível de visitas comparada com os potenciais do mercado, percentagem de visitantes na sua primeira estadia, o número dos competidores, os níveis de preços e as margens de lucro, elasticidade do preço, promoção, aparecimento de produtos que respondam, de forma mais adequada, às necessidades da procura.
A identificação das etapas depende de uma variedade de factores externos que aceleram ou atrasam a sua realização pelo que se torna extremamente difícil determinar a etapa em que o destino se encontra, embora possa ser feito através do estudo do crescimento do número de visitantes, níveis de gastos, tipos de turistas, quota de mercado e lucro.
As etapas apresentam diferentes durações, assim como o ciclo, de acordo com a natureza do destino grau de agregação e de dimensão geográfica, formando um grupo de elementos a clarificar. A unidade de análise é crucial, porque, o ciclo, em cada país, compreende um mosaico de estâncias e zonas turísticas que possuem, por sua vez, etapas para as suas atracções e equipamentos, com cada elemento numa face distinta.
Apesar dessas fraquezas, o conceito de ciclo de vida do produto tem a utilidade de permitir comparar o desenvolvimento, dos destinos turísticos, num quadro conceptual que facilitar a compreensão do desenvolvimento do destino.
Weaver, criou um modelo contextual de cenários de desenvolvimento dos destinos, que tem origem no de Buttler, mas que o transcende, no sentido de o adaptar à complexidade da evolução actual do turismo e se revela de toda a utilidade na reconversão dos destinos turísticos maduros.
Quadro 2.5.13 – Modelo de Weaver
Alto
Regulamentação
Baixo
Baixo Intensidade Alto Turismo Alternativo Deliberado-
DAT. Turismo de Massas Sustentável – SMT.
Turismo Alternativo Circunstancial –
CAT.
Turismo de Massas Não Sustentável – UMT.
Fonte: Weaver, 2000, pp.218
O modelo de Butler fundamentava-se na plataforma cautelar (“cautionary”) razão do seu quase determinismo, que o insere no conjunto dos sistemas fechados. O exemplo de Weaver, apoia-se na plataforma baseada no conhecimento que se apoia nas relações entre regulamentação do sector, e intensidade ou escala do desenvolvimento turístico, cuja organização se refere no quadro 2.5.13. Estas categorias estão ligadas ao próprio desenvolvimento das diversas plataformas do turismo, propostas por Jafari, expostas no quadro 2.5.14 (Jafari, 1989, pp. 17-60 in Weaver, 2000, pp.218).
Quadro 2.5.14 – Plataformas do turismo e tipos ideais de desenvolvimento que lhes estão associados
Plataforma Tipos Ideais
De apoio (“advogacy”) - Anos 50 e 60 - acreditavam
que o destino tinha mais a beneficiar do que a perder e por isso apoiavam o turismo.
Turismo de massas. Cautelar (“cautionary”) – Anos 70 - reconheciam
impactos negativos, em consequência de um desenvolvimento acelerado, embora sem utilizar o termo sustentável.
UMT – “Unsustainable Mass Tourism” (Turismo de
Massas Não Sustentável).
Adaptável (“adaptancy”) - Anos 80 – propunham a
implementação modelos de turismo sustentável, em resposta ao criticismo da perspectiva anterior.
DAT – “Deliberated alternative” Tourism (Turismo
Alternativo Deliberado).
Baseado no conhecimento (“Knowledge-based”) –
anos 90 - perspectiva actual que adopta a retórica da