CHAPTER IV. INVESTING IN SUSTAINABLE RECOVERY
1. Resilient global supply chains
Dois espetáculos fortam com a Companhia Viladança, hoje, Núcleo Viladança, da coreógrafa baiana Cristina Castro. Em Aroeira (2006) fui consultor de
dramaturgia, em Habitat - Lat 13ºS Long 38º31'12" O (2008) concebi a dramaturgia junto com Cristina.
Destacaria, dos dois trabalhos realizados, mais do que os conteúdos, o método de trabalho da coreógrafa, o que considero possível de dialogar com a ‘dramaturgia’ dos jogos digitais.
Em breve texto publicado no Blog do Teatro Vila Velha, espaço físico do Núcleo residente Viladança, em Salvador, exponho parte do processo de construção dramática em Habitat.
A dramaturgia vem com uma estrutura básica, sobre temas construídos em espaços e/ou tempos, iniciando-se na generalidade focalizada na Cidade, pura e simples: de um tempo de origem (a cidade pré capitalista) para um tempo de composição (a cidade capitalista); e dali para espaços afetivos, genéricos e atemporais (a busca do poder e a solidão como resultado da conquista de poder) para, finalmente, atingir espaços físicos, específicos da Cidade do Salvador e igualmente atemporais (Feira de São Joaquim e Porto da Barra). Com isso, a dramaturgia faz um recorte de determinadas questões, mas vai pronta para acontecer, realmente, no processo dos ensaios. E, de fato, funciona assim, com seus intérpretes criando movimentos e seqüências, sob a direção de cena e movimentos de Cristina Castro, inspirados na temática de determinado bloco de cenas para, conseqüentemente, sugerirem transformações nos momentos seguintes... Assim, por exemplo, se Habitat, em dado momento, oscilava para um título como Cidade sem Salvação, tamanho o descrédito com que a dramaturgia olhava a cidade caminhando para um final mais cético, teve seu final modificado e acontecendo sob o sol, o sal do mar e a sensualidade das tribos dispersas que se encontram como belos índios felizes no Porto da Barra. Tudo isso porque a vitalidade dos dançarinos nas seqüências anteriores só veio demonstrar que a vida já vale pela força com que vivemos cotidianamente, seja buscando poder, 'o espaço que me cabe', seja na camaradagem com que feirantes disputam e compartilham 'o espaço que lhes cabe' na ação de mercar seus produtos. Ao fim vem a natureza para compensar tanto esforço e dedicação. (RIVERO, 2008)
Com a definição dos blocos temáticos, parte-se para a criação coletiva. Uma determinada ideia central concebida pela dramaturgia, origina algo, que revelado num movimento provocado por Cristina, junto ao elenco, será internalizado por cada bailarino que se proporá então a realizar uma sequência de movimentos que, aos poucos, vão sendo determinados, limpos, definidos e marcados em seu tempo e interação com os outros bailarinos. A sucessão de sequências gerará cada cena ou bloco temático.
Que ligações existem entre esse tipo de dramaturgia construída sobre o movimento dos corpos e os jogos digitais?
Há, com certeza, uma flexibilidade nas regras dos jogos digitais, uma vez que a programação do software cada vez mais inclui muitas reações do interator. Esta flexibilidade abre espaço para o interator criar, como analisei no capítulo 3.
Isto também virá a acontecer, de certa forma, na experiência de Cristina Castro com a dança dramática. Privilegia-se, pelo método de seu trabalho uma meta, o fim de uma cena a se alcançar. Assim, se alguns movimentos são marcados pelo tempo que a trilha sonora indica, existem instantes possíveis em que o bailarino pode improvisar, não só em movimentos não marcados anteriormente, mas também na interação com os outros bailarinos, sob a forma de diálogos que irão ilustrar o conteúdo de uma cena. De certa maneira, tanto quanto num jogo, e ainda, num jogo digital, também existem, na dramaturgia, regras, limites impostos pelos objetivos que determinada ‘história’ deseja atingir.
É interessante observar também que os improvisos que se dão nos primeiros espetáculos, depois da estréia, acabam por definir novas marcações que, depois de um tempo se cristalizam como se tivessem sido marcadas desde os ensaios.
Numa das cenas de Habitat, espetáculo que fala da cidade e suas relações sociais, procurou-se retratar a Feira de São Joaquim, espaço popular e tradicional da cidade de Salvador onde comerciantes mercam todo tipo de produtos ao ar livre.
(ver anexo)
A cena quer mostrar a relação amistosa que se dá entre os comerciantes, ao mesmo tempo o confronto social, sob a forma da violência (um tiro e um morto) e da sedução (a negritude). Ao longo da cena pequenas sequências de movimentos, compostas por dois ou três bailarinos acontecem enquanto os outros sete ou seis assistem parados, mas sempre dramaticamente personificados. Entre essas pequenas cenas ocorre a interação dos bailarinos que dialogam num diálogo nem sempre inteligível pela platéia. Percebe-se, com isso, que o movimento é o mais importante em cena, a ação teatral, seu conteúdo cênico funcionaria mais como pano de fundo ao movimento que determina, pela abstração de sua linguagem, novas possibilidades interpretativas sobre o tema, no caso, ‘a cidade’. De qualquer maneira, o bailarino reconhece o espaço para uma flexibilidade em sua atuação, o que faz com que cada espetáculo seja sempre diferente do outro.
Esta cadência entre pequenos grupos que improvisam e outros que assistem, assim como a interação solta entre bailarinos, através do diálogo, trouxe um feedback interessante da platéia quanto à recepção, uma vez que, em alguns comentários, depois de terminado o espetáculo, teve-de dele a percepção de um grande improviso.
Em outro momento, na cena final de Habitat, o espaço urbano é a praia do Porto da Barra, também em Salvador. Nesta cena, ‘tribos’ de frequentadores (gays e heteros, brancos e negros, mulheres e homens) douram sob um sol cênico laranja que determina a passagem do tempo, de uma manhã até o anoitecer. Entre sequências de movimentos em duplas ou trios, também os bailarinos interagem entre si, buscando-se na ‘areia’, olhando-se e falando uns com os outros. Aqui também os improvisos advindos desde os ensaios configurou, durante toda a temporada, em novas relações surgindo, entre os personagens, em cada espetáculo apresentado.
Pensando ainda no espaço de livre interação que o ator bailarino tem disponível em cena e que, por sua vez, nos games o interator exercita cada vez que joga, resgato aqui um outro espetáculo de dança, anual, que assisti em setembro de 2007. Touch Wood, encenado na escola de dança The Place, em Londres. (THE PLACE) (ver anexo)
Definido como um “trabalho em progresso”251 destaco, daquele dia de Touch Wood, dois momentos: num primeiro esquete, um coreógrafo comanda, em off, o movimento de bailarinos no palco, imobilizando-os ou estimulando-os, sob determinados comandos simples, a realizarem movimentos com a intenção de criar uma coreografia em tempo real. Essa cena obriga cada bailarino a estar preparado para uma espécie de improviso, apesar de cada um ter memorizado, anteriormente, percebi na época, uma sequência de movimentos relativos aos comandos efetuados pelo coreógrafo. Num último esquete, um coreógrafo entra no palco com um grupo de cinco bailarinos, um músico e, sobre a audição de uma trilha sonora, cria na hora uma coreografia. À platéia é permitido sair e entrar quando quiser. Com o tempo máximo de 40 minutos, a cada 10 minutos uma sineta toca avisando ao grupo que o tempo estava passando. Findos os 40 minutos, a coreografia então é apresentada à platéia presente.
Os dois esquetes mostram, diferentemente do espetáculo citado e coreografado por Cristina Castro, um espaço mais aberto de atuação, em cena, para os bailarinos.
No primeiro esquete, os bailarinos chegam no palco com possibilidades para a encenação, que é ativada pela voz do coreógrafo que, de certa forma, funciona como um regente da participação ocasional dos bailarinos em cena. No segundo esquete, coreógrafo e bailarinos entram em cena dispostos a criar, em primeira mão, uma coreografia. Possivelmente, a equipe poderia ter ensaiado esse ‘improviso’ anteriormente mas, de qualquer modo, há um componente criativo e ainda improvisado que fará coreógrafo, bailarinos e músico organizarem uma encenação da criação de uma coreografia juntos durante o espetáculo propriamente dito.