Porque tive fome, e destes-me de comer; tive sede, e destes-me de beber; era estrangeiro, e hospedastes-me; estava nu, e vestistes-me; adoeci, e visitastes-me; estive na prisão, e foste me ver (MATEUS, 25:35,36).
Publicada pelo periódico gaúcho Zero Hora em agosto de 2014, a reportagem “Os novos imigrantes” (ROLLSING, et al., 2014) foi a grande vencedora do Prêmio MPT de Jornalismo no ano de 2015. O conteúdo foi inscrito na categoria web do concurso. A reportagem está hospedada em um hotsite91 dentro do portal Zero Hora
(ZERO HORA, 2014). Ao acessá-lo, o leitor pode escolher entre dois caminhos. O primeiro é começar a fruição do conteúdo a partir de sete vídeos. Os seis primeiros trazem partes de entrevistas de estrangeiros que vieram trabalhar no Brasil. As falas estão em primeira pessoa. Cada gravação tem em torno de um minuto, apenas uma fonte, e é uma síntese da história de cada um desses imigrantes. O sétimo vídeo é maior, tem cerca de 13 minutos, está estruturado em forma de vídeo-documentário e reúne depoimentos de diversos imigrantes.
Ao longo do documentário, dados sobre imigração aparecem na tela em forma de gráficos ou legendas. Além dos seis personagens cujas histórias receberam destaque nos seis vídeos curtos, no documentário há outras fontes, como empregadores e personalidades locais. Os trechos dos depoimentos que compõem o vídeo maior não são os mesmos que aparecem nos seis vídeos anteriores, de forma que, ao assistir ao documentário, é possível compreender, de maneira densa e inequívoca, os motivos que fizeram com que os imigrantes buscassem refúgio e trabalho no Brasil.
91 Hotsite, ou microsite, é uma página, geralmente momentânea, que tem o intuito de destacar uma
ação de comunicação ou de marketing específica. Por exemplo, para campanhas publicitárias, podem ser criados hotsites para a divulgação de determinadas ideias, causas ou produtos. Um hotsite pode ser hospedado “dentro” de um site ou de um portal, como é o caso da reportagem que estamos analisando. Neste caso específico, o hotsite é uma espécie de “página especial”, que destoa do restante do portal, quer pela abordagem diferenciada e aprofundada do tema quer pela aparência. Ao usar esta estratégia de comunicação, os produtores destacam o conteúdo do restante do material publicado.
A outra forma de iniciar a abordagem do material é a partir da leitura da “matéria completa”, conteúdo em forma de texto e fotos acessível a partir de um link no canto superior esquerdo do hotsite (FIGURA 1).
Figura 1 – Topo do hotsite da reportagem “Os novos imigrantes”
Fonte: Zero Hora (2014).
A ideia principal do conteúdo multimídia é entender e explicar o movimento migratório de estrangeiros para o Brasil no início da década de 2010, especialmente para o estado do Rio Grande Sul. Além disso, nos vídeos, textos e imagens, os autores destacam as repercussões sociais, econômicas e culturais que advém desse movimento migratório.
A forma como o material está organizado evidencia os personagens, sua humanidade, dilemas, esperanças e dificuldades, o que é especialmente forte nos vídeos. Por isso, optamos por iniciar nossa fruição a partir dos conteúdos desse caminho, visando, tal qual fizeram os autores, conhecer essas pessoas. Depois disso, passaremos ao conteúdo em texto e fotos, para, ao final das duas trilhas, sintetizar a análise.
Os seis primeiros vídeos apresentam dois senegaleses, dois haitianos, um indiano e um gambiano. A primeira entrevistada é Adama Sall, senegalesa de 35 anos, funcionária de um frigorífico em Erechim. Ela conta que veio de Dakar, capital e maior cidade do Senegal, país que fica na península do Cabo Verde, na África Ocidental. Incisiva, afirma que veio a Erechim (RS) para “trabalhar e ajudar a família” (SALL,
2014). Para ela, o Brasil tem aquilo que, naquele momento, Senegal não tinha: “[...] bastante trabalho”. Já neste primeiro relato, percebe-se que o momento econômico brasileiro àquela época era bom, a ponto de atrair migrantes em busca de refúgio e trabalho.
Prem Abhilash Kapil, indiano, 54 anos, trabalha como pedreiro em Lajeado, região Centro Oriental Rio-Grandense. Também de maneira direta e objetiva, diz que o seu projeto é “ganhar dinheiro” no Brasil (KAPIL, 2014). Sua família o acompanha no país, motivo pelo qual afirma estar feliz. Assim como Adama Sall – e praticamente todos os imigrantes entrevistados – sua maior dificuldade é com a Língua Portuguesa: “Eu tento falar o português e quero entrar na escola”. Seu principal estímulo para aprender a língua é financeiro, o que demonstra objetividade e uma postura resiliente e pragmática perante os desafios materiais: “[...] se eu falar melhor o português, posso ganhar mais dinheiro em um emprego melhor, posso até começar um novo negócio". Entretanto, além de ser um empecilho no cotidiano laboral, a dificuldade com o idioma também lhe causa embaraços. “[...] as pessoas me perguntam sobre o português e aí eu fico bastante tímido” (KAPIL, 2014.)
Figura 2 – Meio do hotsite de “Os novos imigrantes” (links para vídeos de depoimentos)
Fonte: Zero Hora (2014).
Em seu país de origem, o Senegalês Bada Fall, 23 anos, trabalhava em um supermercado com sua família. Veio para a América do Sul, inicialmente Argentina e depois Brasil, em busca de trabalho e renda melhores. Muçulmano, reza cinco vezes
por dia, inclusive em pausas que faz para isso durante o seu horário de expediente numa indústria moveleira. Ele conta que foi bem recebido e que os brasileiros, “muito queridos e muito gente boa” (FALL, 2014), ajudam na dificuldade com o idioma.
Alfaiate em Erechim, o gambiano Babu Gai, 33 anos, buscou formação profissional e possui seu próprio atelier, suas próprias máquinas e clientes cativos. Ele confecciona roupas de festas, roupas religiosas e reforma peças que clientes lhe trazem. "Aqui em Erechim muitas pessoas me conhecem e conhecem o meu trabalho: até já dei entrevistas para jornais e TVs” (GAI, 2014). Segundo Gai, o que é necessário há em terras brasileiras: “Graças a Deus, trabalho tem”.
Jean Daniel François, 29 anos, haitiano, estuda para ser frade capuchinho em Marau, município do interior gaúcho. À época da entrevista, fazia o curso de Filosofia no Brasil e pretendia fazer o de Teologia no Haiti, onde gostaria de exercer o sacerdócio. Ele observa que há, no Brasil, muitos haitianos em busca de trabalho e que a maior dificuldade de todos também é o idioma. Ao final do vídeo, os editores mostram-no recitando a Oração diante do crucifixo de São Damião92, composta por São Francisco de Assis:
Altíssimo e glorioso Deus, iluminai as trevas do meu coração, dai-me fé reta, uma esperança certa, caridade perfeita, sensibilidade e conhecimento, ó, senhor, a fim de que eu cumpra o vosso santo e veraz mandamento. Amém. (ASSIS, 1206, apud. FRANÇOIS, 2014).
O último depoimento destacado é de outro haitiano, François Compere, 27 anos, metalúrgico em Bento Gonçalves. No Haiti, trabalhava como cabeleireiro, mesmo ofício que chegou a exercer na República Dominicana, onde também trabalhou como comerciante. Em sua fala, diz que se sente livre para voltar ao país caribenho ou para permanecer no Brasil. De qualquer forma, o fator determinante para que permaneça aqui é um só. “Aqui é bom, eu gosto porque trabalho e todo mundo respeita” (COMPERE, 2014). Assim como outros estrangeiros entrevistados, ele também elogia os brasileiros: “Eu gosto muito do Brasil, o povo brasileiro é muito gente boa”.
Nesses seis relatos, vai tomando forma um discurso que apresenta a atividade econômica de forma central – e que pode ser desenvolvida no Brasil. Para os imigrantes, trabalhar não é apenas um meio para sobreviver, é um caminho pelo qual
92 A tradição da Igreja Católica aponta esta oração como o primeiro escrito de São Francisco de
se constrói dignidade, como comenta GAI (2014): “[No Brasil] Salvei minha vida, consegui emprego, trabalho, tranquilidade”. Nessa perspectiva, a dimensão da vida, uma vida boa, tranquila e próspera, está unida à noção de trabalho: a felicidade depende do trabalho, por meio do qual é produzido o necessário para a reprodução da vida, com dignidade e reconhecimento perante os outros.
Nos depoimentos e, em especial, neste último, de Gai (2014), a alteridade se manifesta pelo trabalho. Trabalhar é uma forma de se manter vivo, de buscar a felicidade e o necessário para a própria sobrevivência, mas também parece ser a única forma de existir socialmente, isto é, viver para outrem. Sem o trabalho, a vida estaria “perdida”. Com o trabalho, foi salva e se mantém “tranquila”.
Para os imigrantes, o trabalho tem um significado econômico, mas esse significado se expande para outras dimensões intersubjetivas, misturando-se com sua percepção de vida em sociedade. Trabalhar é mais do que obter o sustento, é uma forma de viver. Os novos imigrantes são pessoas em busca da vida, que está ameaçada, por diferentes motivos, em seus países de origem. Para eles, tranquilidade, respeito e dignidade são obtidos pelo trabalho, que, por sua vez, só é possível em solo estrangeiro.
Além de trabalho, também são ideias-chave nesses depoimentos as noções de família (o trabalhador quer dar condições de vida dignas à sua família, por isso, entre outros fatores, imigra); sustento próprio (quer produzir condições mínimas de existência para si); e futuro (acredita que o trabalho e o esforço de hoje darão melhores condições de existência nos dias vindouros).
A busca desses trabalhadores e suas famílias por dignidade a partir do trabalho em terras estrangeiras se dá em meio à convivência com os brasileiros, a quem classificam como acolhedores, pacíficos, tolerantes.
No documentário, essas visões iniciais são aprofundadas, assim como as realidades e anseios dos novos imigrantes. Outros personagens aparecem e novos elementos composicionais sobre os anteriores se agregam ao discurso autoral. A narrativa começa com uma voz feminina que diz: "Acho que toda a criança daqui já ouviu os seus pais ou avós contarem como foi quando chegaram aqui: e agora esta história se repete" (TEIXEIRA, 2014 a). Trata-se de Ivonete Teixeira, neta da primeira criança gerada por imigrantes italianos que fixaram moradia em Encantado, Centro Oriental Rio-Grandense. Ela é voluntária no Centro de Evangelização João Batista Scalabrini, ligado à Paróquia São Pedro, que acolhe imigrantes que sofrem com o frio
ou tem fome, que buscam emprego ou um lugar para dormir (ROLLSING, et al., 2014). Após esse preâmbulo, tem início o primeiro tema tratado no documentário, que são as condições de adversidade que motivaram as migrações.
O primeiro relato é o do haitiano Jean Edrice Nelzy, que fala sobre o terremoto de 7,0 na Escala Richter93 que atingiu o seu país, destruindo metade das edificações, desabrigando mais de um milhão de pessoas, ferindo cerca de 250 mil e matando outras 200 mil (FRANCISCO, 2018).
Terça-feira, 12 janeiro de 2010. Eu escutei um barulho bem forte. Vi muita gente morrer no chão e tive que caminhar sobre as pessoas. Teve gente que perdeu braço, perdeu pernas. E teve gente que sumiu, que nunca mais vimos (NELZY, 2014).
O terremoto agravou a situação social de um país que já tinha inúmeros problemas, forçando a saída de milhares de pessoas que, como Nelzy, buscavam sobreviver à tragédia social.
Na Gâmbia, a imigração ocorre devido a problemas com “governos ruins, por falta de democracia” (GAI, 2014 b).
Em Bangladesh, o medo causado por problemas políticos também ocasiona a migração (AHMADIAN, 2014).
Essas diferentes e trágicas conjunturas fazem com que os imigrantes busquem alternativas à pobreza extrema, ao terror ou às perseguições políticas. Migrar é a solução mais imediata para a superação do caos e, em muitos casos, representa a única medida eficaz para a manutenção da vida.
Após esse bloco contextual, os editores sintetizam a índole que move os imigrantes. Compreende-se que vieram para trabalhar, para enviar dinheiro para as suas famílias, para reconstruir suas vidas. O subtexto é o de que eles devem ser aceitos e um dos argumentos para essa aceitação tem natureza histórica. Teixeira (2014 b) lembra que a formação social da cidade e do estado onde vive se deu pela imigração. Seu discurso é ético e amoroso. O Brasil recebeu seus bisavós, quando estavam, de forma semelhante aos imigrantes do século XXI, em busca de um novo lar. Então, é justo que os novos tenham a mesma acolhida: “Nossos antepassados
93 A Escala Richter, usada para medir abalos sísmicos, utiliza uma base logarítmica de base 10. Nessa
também passaram por essa experiência de imigração e chegaram aqui e construíram uma vida aqui” (TEIXEIRA, 2014 b).
A partir desse trecho, tem início o bloco das condições reais de existência dos novos imigrantes. No início do processo de fixação de residência no Brasil, eles vêm apenas com a roupa do corpo. São honestos, pagam as dívidas que contraem, mas, de início, mal têm o que comer ou vestir. A situação de carência, quase total, pois ainda lhes resta sua força de trabalho, desperta nas comunidades locais, notadamente influenciadas por uma visão cristã, a vontade de ajudá-los. Assim, recebem doações e, aos poucos, vão conseguindo se estabelecer para colocar em prática o plano traçado no início de suas jornadas rumo ao Brasil: trabalhar.
Essa onda migratória para o Brasil tem uma característica que a difere das anteriores: de forma geral, os novos imigrantes têm boa formação escolar e profissional. Mesmo desconhecendo a língua portuguesa, a maior parte possui Ensino Médio completo e muitos já cursaram graduação em seus países, o que facilita o processo de adaptação. Entretanto, normalmente o trabalho que encontram não guarda relação com as áreas para as quais se prepararam. As vagas disponíveis, naquele momento, eram excedentes e não, necessariamente, as melhores ou mais adequadas ao perfil de cada trabalhador. De qualquer forma, vai ficando evidente que, para o setor produtivo, a presença dos imigrantes era benéfica, pois eles ocupavam de bom grado vagas de emprego preteridas por brasileiros. Em meados de 2014, o mercado de trabalho brasileiro continuava aquecido após uma década de prosperidade econômica, com crescimento do PIB, geração de empregos formais, aumentos consecutivos do salário mínimo e redução da desigualdade social (ainda que tímida). A maior parte das contratações era para cargos de menor remuneração, com mais riscos à saúde ou considerados “mais pesados”. Em outras palavras, esses empregos representavam as últimas opções para brasileiros com formação ou experiência profissional e eram ofertados, principalmente, por empresas do ramo de frigoríficos, supermercados e da construção civil. Mesmo longe de propiciar uma vida de privilégios, esses postos de trabalho eram muito melhores que os raros postos de trabalho disponíveis nos países de origem dos novos imigrantes. No Brasil, exercendo o mesmo oficio, um trabalhador podia receber seis vezes mais do que no Haiti (ROLLSING, et al., 2014). Assim, com pouco mais que o mínimo necessário para viver, esses estrangeiros trabalhavam felizes, demonstravam resiliência, vitalidade e docilidade.
Uma das falas mais emblemáticas e, que, de certa forma, resume o intuito dos novos imigrantes, é a do senegalense Aliou Thiam, dono de uma lan house em Passo Fundo, Norte Gaúcho: “Eu não saí do Senegal para chegar aqui, gastando muito dinheiro, muito tempo, cansando muito, para brincar; eu vim aqui para trabalhar, para participar do desenvolvimento do Brasil” (THIAM, 2014 a).
O caráter forte, a vocação, o gosto para o trabalho e a confiabilidade são características dos imigrantes que chamam a atenção dos brasileiros, como destaca uma gerente de recursos humanos de uma indústria moveleira que optou por contratar estrangeiros:
O que eu observo é que eles são mais íntegros, são pessoas que têm mais valores pessoais, eles são muito ligados às coisas corretas, fazem tudo correto, de uma forma respeitosa, e acho que a religião contribuiu muito nisso, a religião, a disciplina, a fé, o orar, o acreditar em algo melhor. Apesar da situação de vida deles, difícil, eles têm muita esperança, eles têm muita alegria, apesar de tudo, e acho que isso é um diferencial bastante importante (CAON, 2014).
Há, no documentário, um bloco específico sobre as dificuldades que os imigrantes enfrentam no Brasil. Além dos problemas relacionados à língua, são elencados o preconceito e a dificuldade de acesso à moradia. Para quem acaba de se estabelecer no país, sem posses, ainda sem emprego ou renda, é praticamente impossível alugar um imóvel, até mesmo porque os contratos de locação exigem fiador. Sobram, então, moradias precárias, contratadas a partir de acordos informais, ajuda de outros estrangeiros que já conseguiram se estabelecer ou caridade de grupos religiosos e comunidades locais.
Assim, a presença dos novos imigrantes ativa um traço cultural que é historicamente singular à cultura brasileira, o dispositivo do favor, tema abordado por Schwarz (2014)94.
[...] no contexto brasileiro, o favor assegurava às duas partes, em especial à mais fraca, de que nenhuma é escrava. Mesmo o mais miserável dos favorecidos via reconhecida nele, no favor, a sua livre pessoa, o que
94 Ao analisar a incompatibilidade entre a ideologia liberal europeia e a prática econômica colonial
brasileira, fundada na escravidão, Schwarz (2014) evidencia como essas “ideias fora do lugar”, isto é, sem sentido, apartadas do contexto no qual tiveram origem, foram assimiladas no Brasil e, ainda que de maneira paradoxal do ponto de vista lógico-ideológico, caminharam lado a lado com a cultura escravista, mesmo após a abolição. A dinâmica que explica esse aparente paradoxo é a existência do favor, que, resumidamente, consistia na relação de dependência dos “homens livres” para com os latifundiários, dos pobres para com os ricos, ou dos que possuem para os que são despossuídos de bens materiais.
transformava prestação e contraprestação, por modestas que fossem, numa cerimônia de superioridade social, valiosa em si mesma. Lastreado pelo infinito de dureza e degradação que esconjurava – ou seja a escravidão, de que as duas partes beneficiam e timbram em se diferençar – este reconhecimento é de uma conivência sem fundo, multiplicada, ainda, pela adoção do vocabulário burguês da igualdade, do mérito, do trabalho, da razão (SCHWARZ, 2014, p. 55).
O favor, atua, neste ponto, então, como um dispositivo de abertura cultural por meio do qual os novos imigrantes iniciam sua fixação e adaptação no Brasil, ao menos até que a liberdade de venda da mercadoria que possuem, sua força de trabalho, possa ser efetivada. Até lá, entretanto, mantém-se dependentes de alguém, atrelados a outrem, de quem obtém o que é necessário e a quem, por isso, devotam gratidão.
Nem proprietários nem proletários, seu acesso à vida social e a seus bens depende materialmente do favor, indireto ou direto, de um grande”. O agregado é a sua caricatura. O favor é, portanto, o mecanismo através do qual se reproduz uma das grandes classes da sociedade, envolvendo também outra, a dos que têm. Note-se ainda que entre estas duas classes é que irá acontecer a vida ideológica, regida, em consequência, por este mesmo mecanismo. Assim, com mil formas e nomes, o favor atravessou e afetou no conjunto a existência nacional, ressalvada sempre a relação produtiva de base, esta assegurada pela força. Esteve presente por toda parte, combinando-se às mais variadas atividades, mais e menos afins dele, como administração, política, indústria, comércio, vida urbana, Corte etc. Mesmo profissões liberais, como a medicina, ou qualificações operárias, como a tipografia, que, na acepção europeia, não deviam nada a ninguém, entre nós eram governadas por ele. E assim como o profissional dependia do favor para o exercício de sua profissão, o pequeno proprietário depende dele para a segurança de sua propriedade, e o funcionário para o seu posto (SCHWARZ, 2014, p. 51).
Como visto no excerto, na análise de Schwarz (2014), o favor é a mediação quase universal do brasileiro, a herança “mais simpática” herdada pelo país dos tempos coloniais – a outra é a escravidão, cujas consequências sociais são sentidas pelo país até hoje. Involuntariamente, a dinâmica do favor disfarça a violência que é uma marca do país desde a colonização e, além de ser muito utilizado pela nossa tradição literária na composição dos cenários e personagens nacionais, funciona como um dispositivo que é acionado em diferentes épocas e contextos e que, de um lado, supre deficiências materiais de quem pouco ou nada tem (por exemplo, os novos imigrantes) e, de outro, reforça o status social de quem possui mais (neste nosso caso, alguns indivíduos das comunidades que recebem esses imigrantes). Em síntese, amalgamado ao discurso cristão, a lógica do favor ajuda a explicar a providente ajuda recebida pelos imigrantes em seu processo de adaptação ao Brasil, caminho que,