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Repr´ esentation collaborative bidirectionnelle

É bom reafirmar que boa parte das mulheres pesquisadas migrou para São Carlos diretamente de suas localidades de origem de onde nasceram, cresceram e organizaram a sua vida. Como vimos no quadro resumo e no tópico “Migrações diretas e não diretas: a ligação entre o local de origem e a sociedade de destino”, apenas dez mulheres, sendo três paranaenses e sete nordestinas, migraram para São Carlos depois de terem passado por outras cidades e estados. No caso dessas mulheres, a migração para essa cidade do interior paulista ocorreu de forma indireta, sendo que boa parte delas, em sua terra natal, nunca tinha ouvido falar desse lugar. Apenas passaram a conhecer São Carlos após residirem em outras localidades, depois de emigrarem de suas terras de origem. São mulheres e famílias que conheceram a chamada Athenas paulista por intermédio de familiares ou amigos que já residiam na cidade, ou por filhos e filhas que se casaram com pessoas naturais desse mesmo município, ou ainda por intermédio de noticiários ou empresas imobiliárias.

Contudo, a maioria das mulheres entrevistadas migrou para São Carlos diretamente de sua terra de origem. Então, em geral, estamos falando de migrações diretas, ligando o local de origem ao de destino. A terra de origem pode ser muito bem relembrada pelas mulheres pesquisadas, mas, também, encarada a partir de uma lembrança muito ressentida, diante do sofrimento que algumas passaram nela. Aqui, nós encontramos a primeira diferença de trajetórias entre as mulheres migrantes paranaenses e nordestinas. Enquanto boa parte das paranaenses, ao falarem de sua terra natal, relembrara com bastante saudosismo os bons momentos que viveram lá, de como foram criadas e das boas relações que estabeleceram onde nasceram, principalmente aquelas que saíram de localidades pequenas, geralmente da zona rural, ou de cidades interioranas e pacatas, as mulheres nordestinas relembram sua terra natal com certa tristeza e descontentamento, muito ressentidas com a condição de vida que tinham lá.

Mulheres paranaenses:

Eu gostava muito de lá, sabe. Eu gostava de lá porque a gente tinha fartura, tinha criação, e hoje aqui tudo é comprado. Eu morava na roça e nós plantava tudo

(Maria, 37 anos, paranaense, emigrante de Santa Amélia-PR).

Lá é uma delícia! Bem mais fácil de viver do que aqui. Mais fácil o custo de vida. Aqui é muito luxo e ilusão. O povo lá é mais simples. Tudo que ganha o povo muito luxo, vaidade. No Paraná é mais simples. A cidade lá é pequena. Lazer é ir no jogo, missa, na praça. Aqui mudou o ritmo da vida, temos até medo de ir na festa aqui, o povo aqui é muito.... (Cleide, 56 anos, paranaense,

emigrante de Jaguapitã-PR).

A minha terra é um lugar sossegado, um lugar gostoso de morar. Faxinal é uma cidade pequena (Rose, 22 anos, paranaense, emigrante de Faxinal-PR).

Percebe-se nos depoimentos das paranaenses que o município de origem é relembrado em suas memórias de um modo positivo, onde se levava uma vida simples, sem muito lazer, muitas vezes com dificuldade, mas que possibilitava o sustento da família ao se produzir na terra. Eram famílias que não tinham muito dinheiro para gastar excessivamente, mas que tinham fartura à mesa, pois trabalhavam na terra, plantando e colhendo. A terra natal não

deixou nenhuma marca ou lembranças traumáticas. A vida simples, sem dinheiro, não é sinônimo de sofrimento; o campo, capaz de fornecer o alimento, é relembrado com muito orgulho. Não se comprava aquilo que a terra poderia lhes fornecer com fartura. Por sua vez, a cidade pacata é vista como um lugar de tranquilidade e de sossego. A diversão estava em ir com a família na missa, na quermesse, na praça, eventos que expressam a rotina de simplicidade das famílias. Lembranças essas que não são compartilhadas pelas mulheres nordestinas.

Mulheres nordestinas:

A cidade é pequena, e a gente morava no sítio. Era um sofrimento! Tirava carvão, minha mão queimava, me queimava toda no sol. Hoje eu to no céu! Hoje meu cabelo está uma benção. Aqui é melhor, aqui ganha mais. Lá eu lavava, cozinhava, passava, voltava tarde pra casa e ganhava R$ 10,00. Não tinha nada, roupa, calçado. Não tinha nada mesmo. As roupas que eu tinha não dava pra sair pra lugar nenhum. Lá o pessoal não ajuda porque ninguém pode. Aqui é diferente: todo mundo ajuda. (Vânia, 28 anos, nordestina, emigrou de São

José de Delmonte-PE).

Lá não tem trabalho para ninguém. A gente foi criado na roça. Muita seca e lá não tem serviço. Aqui é muito melhor (Adelaide, 27 anos, nordestina, emigrou

de Bom Conselho-PE).

Eu levei uma vida muito difícil lá. Carregava água na cabeça, porque era muito distante a água. Ia no mato, panhava lenha para cozinhar. Não tinha emprego. Por causa da seca, perdia boa parte do que se plantava (Mercedes, 58 anos,

nordestina, emigrou de Vitória da Conquista-BA).

Lá é um lugar sossegado, mas é muito sofrido para a gente morar e conviver. Muito difícil! Lugar muito sofrido! Emprego muito difícil, salário baixo, pouca oportunidade (Fátima, 52 anos, nordestina, emigrou de Cajazeiras-PB). Pra falar a verdade, eu não tenho quase nada para falar de nada lá, não, porque, primeiramente, a vida que nós passamos lá foi sofrida, foi difícil. As únicas coisas que a gente tem é saudade... a mãe e o pai veio para cá. Então já não tem mais saudades, porque já estão aqui pertinho. Nós fomos buscar eles. A maioria dos tios já morreu... mas assim mesmo, quase todo mundo já veio para São Paulo. São Paulo lá é como se fosse Deus, então todo mundo já veio para São Paulo. (São Paulo para eles não é só a Capital, é todo o estado). Eu tenho primo em Ibaté, tenho em Jaú, tenho em um monte de cidadezinha por aí. Esses dias mesmo veio um ônibus cheio, de lá de Bom Conselho, para trabalhar em Ibaté, na cana. (Suzana, 41 anos, nordestina, emigrou de Bom Conselho-PE).

As mulheres nordestinas recriam uma imagem extremamente negativa de suas terras. A falta de emprego, os baixos salários, aliados à falta de chuva, que impossibilita colher o alimento da terra, conduz a uma vida de miserabilidade e de sofrimento. As memórias sobre a terra de origem evocam a tristeza em razão da dificuldade que passaram lá. A saudade não é da terra, do local de nascimento e crescimento, mas somente das pessoas que por lá ficaram.

De acordo com Arruda (2000), a memória pressupõe a restauração de uma história individual e coletiva e das trajetórias de vida. Por essa razão, utilizamo-nos, em nossas lembranças, de uma densa teia de significados que conforma as nossas referências no ato de rememorar. Afirma a autora que o exercício de rememorar “esgarça a cronologia, desborda o espaço, preenche as lacunas existentes entre os acontecimentos, presentifica as ausências” (p. 29). O sujeito que lembra, sempre significa o que foi anteriormente vivido e significado, recriando um tecido imaginário. O significado dado ao que foi anteriormente vivido pode se fundamentar nos novos significados atribuídos ao que atualmente se está vivendo. Isso implica dizer que as referências e os significados atribuídos às ações e situações vividas no presente servem como uma medida de comparação, permitindo significar aquilo que se viveu no passado. Assim, no caso das mulheres migrantes nordestinas e paranaenses pesquisadas, as condições de vida existentes no presente, em São Carlos e no bairro Cidade Aracy, podem influir decisivamente nos significados atribuídos por suas memórias às suas terras de origem.

Deste modo, ao analisarmos os seus depoimentos, percebemos que enquanto as mulheres migrantes paranaenses têm boas lembranças de suas terras de origem, revelando que os lugares onde moravam, apesar da falta de emprego, eram sossegados, calmos, bons de viver, as lembranças das mulheres nordestinas sobre sua terra natal não são boas, diante da vida sofrida que elas tiveram enquanto viveram lá. A tristeza e o ressentimento com a terra natal fundamentam-se no sofrimento que passaram em razão da péssima qualidade de vida dessas mulheres e de suas respectivas famílias, fruto da seca e da falta de emprego, educação e alimentação. Os significados que atribuem às lembranças de suas terras natais podem ter como referência, também, aquilo que se está vivendo hoje em São Carlos e no bairro Cidade Aracy, como vimos nos depoimentos de Vânia e Suzana. Conforme afirma Lucena (1999), a partir da adaptação, da vivência e da nova rotina no novo espaço, o migrante, sem se esquecer das origens, passa a formar novos valores, novas condutas e novos significados. E, assim, a possibilidade de (re)significar o passado se torna mais evidente. Desse modo, por exemplo, se hoje as mulheres

nordestinas desfrutam de uma vida melhor em São Carlos, com trabalho, lugar para morar e, sobretudo, com assistência social e médica, o significado que atribuem ao passado, relembrando a sua terra natal, onde elas sofriam com a seca, a fome, o desemprego, a falta de dinheiro, a escassez de assistência médica, etc., é o de ressentimento e mágoa. O significado que atribuem ao mundo presente permite (re)significar o mundo passado. No caso das nordestinas, o presente, vivenciado em São Carlos, por mais difícil que seja, ainda assim é melhor do que o passado vivido na terra de origem.

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