De acordo com Mello (2006), embora para o senso comum a representação da família seja sempre única, é certo que ela não é idêntica. Cada família cria uma cultura familiar própria, estruturada segundo os seus códigos, bem como de acordo com as suas regras e ritos. Cada família atribui significados para as ações, baseados na interpretação e na representação que ela faz do mundo, segundo seus costumes e valores nos quais acredita. Deste modo, “o mundo familiar mostra-se numa vibrante variedade de formas de organização, com crenças, valores e
práticas desenvolvidas na busca de soluções para as vicissitudes que a vida vai trazendo” (SZMANSKY, 2006: p, 26).
As variações possíveis exigem a qualificação da família, no sentido de saber de qual família se fala, a qual país ela pertence e, sobretudo, em qual estrato social ela está inserida. Segundo o autor, quanto mais afastada a família se encontra dos estratos médios da população, mais diversificada ela é. De acordo com Sarti (2006), as famílias pobres, que são penalizadas profundamente com a desigualdade social, não vivem a dimensão individualizada da identidade social, fruto da sociedade contemporânea. Em seu universo cultural, as famílias pobres não lançam mão dos recursos simbólicos para a formulação do projeto individual que permitiria o confronto e a negociação com a rígida estrutura hierárquica na qual está assentada.
Seus projetos são formulados de acordo com a tradição, caracterizada pela preexistência de hábitos e padrões que moldam os comportamentos. Não têm, portanto, as condições para participar da possibilidade da emancipação moderna, traduzida no desenvolvimento da dimensão individual (SARTI, 2006, p. 47).
Contudo, é importante o cuidado ao se referir aos projetos, ações e relações possíveis de famílias pertencentes às camadas populares. Isso porque, nos estratos mais pobres da sociedade, encontra-se facilmente uma espécie de polimorfismo familiar, ao invés de ausência de organização. Conforme seja o arranjo familiar e o padrão cultural da família, diferentes relações familiares e papéis sociais são desempenhados. Se nos referimos ao modelo monoparental feminino, no qual muitas mulheres criam sozinhas os seus filhos, sem a ajuda dos homens, mulheres e filhos assumem, então, o encargo da sobrevivência do grupo familiar. Por sua vez, a família nuclear, proveniente das camadas populares da sociedade, é aquela mais apegada aos valores tradicionais referidos por Sarti (2006), e mantém uma estrutura rígida e hierárquica, na qual predomina a autoridade e dominação masculina (BOURDIEU, 1999) sobre as mulheres. São famílias que, ainda assentadas em um núcleo patriarcal que impõe valores e normas próprios, promovem e perpetuam a dicotomia dos papéis sexuais familiares. As funções atribuídas aos homens, neste modelo, são as mais valorizadas socialmente, já que cabe a eles o exercício das atividades de natureza instrumental de provisão e de intermediação com a esfera pública, enquanto que às mulheres são atribuídas funções de menos prestígio e atividades afetivas, ligadas ao espaço privado do lar, como atividades de cuidado para com os filhos e para com o marido, além do trabalho doméstico (OLIVEIRA, 2005).
Romanelli (2006) também afirma que as relações de gênero e os papéis sociais desempenhados no âmbito da família e da sociedade dependem da camada social em que se inserem as famílias e do seu próprio repertório cultural. Segundo o autor:
A divisão sexual do trabalho e as relações de autoridade e poder são ordenáveis segundo o padrão hegemônico ou então podem ser redefinidas no curso da vivência doméstica, o mesmo ocorrendo com as relações afetivas, cuja expressão é organizada e canalizada por modelos culturais próprios de cada camada social (p. 75).
Ainda, segundo o autor, a igualdade de direitos e deveres entre os gêneros não se distribui da mesma maneira nas diferentes camadas sociais. Ao se falar, por exemplo, em núcleos familiares baseados no modelo conjugal nuclear, a incorporação de modalidades alternativas de conduta entre os gêneros tende a ocorrer com mais frequência entre segmentos das camadas médias, com maior grau de escolarização e mais abertos às inovações culturais. Nesse núcleo, as mulheres-esposas, em razão de sua inserção no mercado de trabalho, fruto das transformações das estruturas sociais e de sua progressiva escolarização e qualificação, tornam-se produtoras de rendimentos, o que lhe confere nova posição na estrutura doméstica, alterando os vínculos que as unem ao marido e aos filhos, contribuindo, assim, para o redimensionamento da divisão sexual do trabalho. “Nessas circunstâncias, parte dos afazeres domésticos são redistribuídos entre esposa e marido, cabendo a este dividir com a mulher tarefas que eram realizadas exclusivamente por ela” (ROMANELLI, 2006, p. 77). Além disso, também nesses estratos sociais, a participação da mulher no mercado de trabalho influencia decisivamente na redefinição de sua posição não apenas na família, mas também na sociedade. A crescente inclusão feminina no domínio público permite novas representações sobre a mulher.
Essa redefinição na posição da mulher no seio familiar e na sociedade não ocorre com tamanha facilidade e rapidez em famílias nucleares que advêm das camadas mais pobres da sociedade. Segundo Romanelli (2006), quando se examina a posição da mulher na família e seu papel de mãe nas classes populares, nota-se, sim, grande quantidade de atribuições, seja mediante atividades profissionais produtoras de rendimento, seja mediante o exercício das tarefas domésticas. Mas o que se percebe aqui, diferentemente de classes sociais mais elevadas, é a enorme importância que se dá aos vários tipos de trabalho materno e doméstico para a melhoria das condições de vida da família. Assim, nesses segmentos populacionais, nos quais a mulher é
pouco escolarizada e qualificada, o trabalho feminino remunerado e o seu papel no domínio público tendem a ficar em segundo plano, atrás dos afazeres associados ao papel de mãe e esposa, tais como os cuidados com os filhos e com o marido. No plano das representações desses núcleos familiares, ainda é corrente que a legitimidade da autoridade do chefe de família (marido) seja considerada natural.
Ainda, segundo Romanelli, independentemente da esposa desempenhar atividade profissional remunerada, ela dificilmente tem autoridade sobre o marido nesses grupos familiares. Sua autoridade se restringe às áreas da esfera privada da vida doméstica e se expressa a partir da execução de múltiplos afazeres domésticos. Completa, ainda, o autor:
Como a esposa não tem sobre o cônjuge autoridade que este tem sobre ela, grande parte das pendências e das dissensões entre ambos tendem a ser resolvidas mediante o uso do poder. É em tais circunstâncias que a esposa procura persuadir e convencer o marido, e esforça-se para demovê-lo de certos intentos ou para levá-lo a realizar outros. De qualquer modo, no jogo das relações de força entre os cônjuges, a autoridade da esposa ainda permanece subordinada aos comandos do marido (ROMANELLI, 2006, p. 83).
E quando o casal percebe que a autoridade do homem está diminuindo, sobretudo em razão da incapacidade dele prover integralmente a família, outras tensões intrafamiliares se iniciam. Essa condição do homem pobre, que não consegue sustentar a sua família, é denominada pela pesquisadora Maria Moraes de “provedor defeituoso”. Devido às dificuldades econômicas, do desemprego, dos salários baixos, os homens deixam de prover integralmente as suas famílias. Com isso, torna-se imprescindível a participação das mulheres no orçamento doméstico. A participação no orçamento familiar de proventos advindos da mulher, ou até mesmo dos filhos, retira dos homens parcela do poder que, em outra condição social, eles poderiam possuir. Esse fato conduz a um conjunto de conflitos nas relações intrafamiliares, quase sempre permeados pela violência doméstica. Nesse contexto de rearranjo das relações de gênero nas famílias, os conflitos são intensificados. A única alternativa para a incapacidade de prover o lar e manter os padrões de virilidade, assentados na submissão e respeito, é a saída de casa. “Essa partida dá início a um verdadeiro processo de circulação de homens, pois as relações são, em sua maioria, efêmeras. Para não assumirem publicamente seu fracasso, eles passam a circular entre os lares” (MORAES, MELO, APPOLINÁRIO, 2007: p. 117).
Esta situação descrita por Moraes consiste na situação de Vânia, 28 anos, que veio de Pernambuco e mora atualmente no Cidade Aracy apenas com a filha. Ela conta que migrou, juntamente com a filha de dois anos, em 2010, diretamente para São Carlos, após o seu marido vir para trabalhar na colheita de laranja. Quando chegaram, instalaram-se na casa de sua mãe, que já havia migrado anos antes. Depois que ela chegou, a vida continuou sendo difícil, pois eles estavam passando por dificuldades financeiras. Somente ele trabalhava, mas seu salário não era o suficiente para prover integralmente a família. Com isso, os conflitos familiares começaram e logo o marido a deixou, indo viver com outra mulher. Atualmente, Vânia está desempregada e passa muita dificuldade econômica e, até as necessidades básicas sua e da filha, como alimentação, são supridas com a ajuda de vizinhos ou da assistência do CRAS.
Eu sou separada. Estou morando eu e minha filha. Estou sem marido agora. Estou passando muitas dificuldades. Ele me deixou sem nada. Às vezes fico sem gás, falta muita coisa dentro de casa. Estou passando com a cesta que consegui. Só o meu marido que trabalhava, ele ganhava pouco, quase não dava. Mas depois que meu marido foi embora estou passando muitas necessidades. Muita falta de dinheiro pra tudo. E eu sempre fui uma mulher que não gosta de pedi nada pro marido (Vânia, 28 anos, nordestina).
Outro caso é o de Mercedes, 58 anos, nordestina, que se separou do marido, pois ele era alcoólatra e ao invés de prover toda a família com o seu salário, retirava objetos de casa para vender e sustentar o vício.
Depois que eu me casei, eu descobri que meu marido era alcoólatra. Aí com o decorrer do tempo eu tive que separar. Meu marido só bebia cachaça e vendia até a roupa para beber. O motivo da separação foi a bebida (Mercedes, 58 anos,
nordestina).
A razão da incapacidade do homem prover integralmente a família e, consequentemente, da perda de sua autoridade dentro do núcleo familiar, além de ser de ordem econômica, em virtude da falta de emprego e de baixos salários, também está associada a outros fatores, como é o caso da dependência da bebida. Percebe-se, por exemplo, no depoimento abaixo, de Irene, 63 anos, paranaense, que o alcoolismo do marido acabou afastando-o da família, pois seu interesse estava em frequentar bares, tomar bebidas alcoólicas e sair com outras mulheres. Com o passar do tempo, em razão deste comportamento, de conflitos que ele iniciava
em casa e devido à pouca contribuição financeira para com as necessidades familiares, ele foi perdendo a autoridade dentro do grupo familiar, chegando a ponto de a esposa expulsá-lo de casa. Vejamos mais detalhes de seu depoimento:
Quando fez dois meses que a gente estava aqui, meu marido começou a aprontar aqui. Ele descia, bebia, quebrava tudo. Falei: “Senhor, o que eu vou fazer da minha vida? Pra mim embora, a minha família não quer ir embora. Pra mim deixar as minhas filhas, meus filhos, eu não vou deixar”. Aí outro dia eu fui na Assistência Social. Quando cheguei de lá ele estava quebrando tudo aqui. Falei: “quer saber de uma coisa: eu não vou brigar, eu vou te dar vinte minutos para você catar as suas coisas e sair daqui, se não eu chamo a polícia. Falei: “eu não quero briga”. Aí ele foi embora, foi morar num outro barraquinho. Aí a gente divorciou, isso com um ano e pouco que a gente estava aqui. Lá [no Paraná], a gente vivia brigando, só que lá ele não tinha liberdade para ir, porque era tudo longe, para beber, comprar as coisas, para ele aprontar. Então, não tinha lugar, só tinha a família e os vizinhos, tudo conhecido. Aqui, eu falei: “chega de sofrer”. Aí meu genro, ficou com pena dele, comprou uma casinha para ele e falou: “fique aí para você não ficar de casa em casa, você já está de idade. Nós ficamos trabalhando. Então ele foi embora e nós ficamos aqui (Irene, 63 anos,
paranaense).
Apesar do “provedor defeituoso” nessas familiares pobres caracterizar a diminuição da autoridade masculina sobre a mulher e o grupo familiar, gerando conflitos intrafamiliares e a circulação dos homens, ainda assim, é bastante representativo o papel de “chefe de família” que os homens exercem, provendo a família e trabalhando nas esferas públicas, mantendo a sua autoridade dentro do lar. A autoridade feminina, em geral, restringe-se às áreas da esfera privada da vida doméstica. Assim também ocorre dentro do processo migratório, já que as mulheres inseridas nesses grupos familiares tendem a ser menos ativas e dinâmicas.
Por isso, veremos ainda nesta tese que, enquanto as mulheres migrantes provenientes de famílias cujo modelo é o monoparental feminino, possuem mais autoridade sobre as decisões que tomam no seio familiar, no processo migratório e na sociedade de destino, sendo mais proativas e dinâmicas em todas as suas relações sociais estabelecidas, já que as relações de gênero, neste caso, não são sustentadas pela autoridade e dominância do homem-marido. As mulheres migrantes, provenientes de famílias nucleares, com pouca escolarização e qualificação, tendem a assumir posições menos dinâmicas e ativas nesses seios familiares e na sociedade, muito ligadas ao cuidado com a família e o serviço doméstico. Há famílias muito apegadas aos valores tradicionais de sua terra, que valorizam a estrutura hierarquizada da família, na qual o
homem-esposo ou companheiro se apresenta como principal provedor e desempenha as suas atividades laborais fora do circuito doméstico, enquanto as mulheres, esposas e mães, assumem papéis designados como femininos, bastante restritos à esfera doméstica. Mesmo quando trabalham fora, a função de mãe e esposa sempre se sobrepõe à sua atividade remunerada. São famílias nas quais as relações de gênero são sustentadas pela autoridade do homem-marido.
A autoridade e a dominância do homem sobre a mulher em certos núcleos familiares pesquisados em São Carlos ainda são maiores e mais ressaltadas quando a família migrou diretamente do campo para a cidade. Neste cenário, é possível verificar um sistema de hierarquia mais rígido, em que os papéis sociais de cada um (marido e esposa) estão muito bem delineados. Essa constatação em São Carlos se sustenta em Mello (2006), que afirma que os estudos acerca da vida camponesa referem-se sempre à predominância de grupos de famílias organizados sob uma estrutura hierárquica.
Contudo, ao estudar as trajetórias de vida, bem como os papéis sociais a partir dos arranjos familiares, conhecer a região, o modo de vida, a situação socioeconômica, a condição climática, as tradições, a relação de gênero no seio familiar das mulheres pesquisadas, são fatores importantes para a compreensão e diferenciação das trajetórias de vidas e dos papéis sociais entre mulheres migrantes paranaenses e nordestinas. Por isso, se os arranjos familiares influenciam diretamente nas trajetórias de vida e nos papéis sociais, eles também podem ser influenciados por fatores externos, resultando numa diferenciação de papeis entre um mesmo modelo de organização familiar, mas com origens diferentes. O que se pretende dizer é que famílias estruturadas sob um modelo organizacional (conjugal nuclear, por exemplo), mas que possuem origens diferentes, em razão de condição geográfica, social, cultural, etc. (como as famílias de paranaenses e as de nordestinos), podem atribuir papéis diferentes para os seus atores no âmbito da sociedade e no processo migratório. Bilac (1978), por exemplo, cita que em famílias nucleares de trabalhadores rurais do nordeste, a educação dos filhos se faz de modo mais democrático e a mulher goza de certa autonomia, tendo uma participação importante no mercado de trabalho, não se limitando às amarras do lar.
Neste contexto, é importante levar em consideração, por exemplo, a condição de pobreza e seca do nordeste, a partir de uma perspectiva histórica, econômica e demográfica. Furtado (1976), em seu livro “Formação Econômica do Brasil”, analisa a situação econômica nordestina a partir de uma perspectiva histórica da formação econômica desta região e dos ciclos
econômicos pelos quais esta passou, para compreender o nordeste de 1960. Revela, por exemplo, que as “empresas açucareiras” de caráter escravista instaladas no nordeste no período colonial foram responsáveis pela concentração de renda nas mãos de grandes proprietários, da escassa monetarização, trabalho semi-servil, que, ao se formar em lócus geográfico caracterizado pela pobreza de recursos naturais, vai se tornar, posteriormente, uma das regiões mais problemáticas do Brasil. De acordo com Cardoso (2008: p.):
A narrativa de Furtado sobre a formação econômica do Nordeste e seus sertões insere-os já num quadro problemático e dá destaque à questão demográfica. Seria um “problema dentro do problema” onde a questão populacional teria um grande peso, pois, seria a região pobre em recursos naturais e de escassa monetarização que teria absorvido a população excedente e à procura de sobrevivência proveniente da posterior crise do setor açucareiro. No sertão, num lugar de pobreza monetária e natural, ter-se-ia instalado um grande contingente populacional, contingente este pobre e sujeito a crises sui generis de abastecimento, as secas, configurando um problema de superpopulação. A esta visão do sertão nordestino como lócus da pobreza, a este quadro lúgubre “de nascença” pintado para os sertões nordestinos, somam-se as memórias e a visão sombria que Furtado manifestara em outras ocasiões sobre sua região natal como terra de arbitrariedades e mandonismo, visão esta que se aproxima do imaginário social disseminado pela imprensa sobre o interior do Nordeste.
O que pretendemos dizer é que a questão da pobreza e da seca da região Nordeste, que têm raízes históricas, econômicas e demográficas são fatores externos aos arranjos familiares e que podem influenciar na dinâmica das famílias nordestinas no desempenho dos papéis sociais em suas trajetórias de vida, especialmente no processo migratório.
8 AS TRAJETÓRIAS DE VIDA E DE MIGRAÇÃO DAS MULHERES MIGRANTES