List of tables
Theorem 2- The proposed protocol is sound: if the claimant does not store the data, then the verifier will not accept the proof as valid
6. Evaluating cooperation incentives using game theory
6.2. Repeated signaling game of payment-based incentives
6.2.4. Repeated game
Sobre a «questão do tempo composto», «tempos per maneira de rodeo» para João de Barros, no período arcaico, a investigação sobre dados na documentação remanescente tem feito recuar essa estrutura já para o sé- culo XIII (Mattos e Silva 1997). Autores mais antigos, como Epiphânio Dias (1959: 250 e 326), Said Ali (1964: 160), consideram que o «tempo composto» do período arcaico era formado de ser mais particípio passa-
do (PP) de verbos não-transitivos e que o «tempo composto» formado de ter mais PP só virá a ocorrer no português moderno, quando deixa de
haver a concordância do PP [adjetivo] de verbos transitivos com o seu com- plemento direto (CD). Também tem essa opinião Mattoso Câmara Jr. (1975: 166).
Em documentação que analisei do século XV já encontrei variação nessa concordância (1981) e Naro e Lemle, em artigo de 1977, mostram a difusão de ter/haver mais PP de verbos não-transitivos no século XV e propõem que se pode recuar a data de existência do «tempo composto» com ter/haver gramaticalizado como auxiliar para o século XIV.
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Fragmento do fólio 25r da Grammatica de João de Barros
O estudo feito em diversificada documentação do século XIII – Testa-
mento de Afonso II, Cantigas de Santa Maria, Cancionei- ro da Ajuda e Foro Real (1997) – per-
mite afirmar que já no século XIII ocor- re, com freqüência muito baixa, contu- do – voltarei a isso na parte final deste item – o tempo composto com haver/ter com particí- pio de qualquer tipo de verbo e, quando transitivo o PP, já ocorre a varia- ção na concordância.
Haveria assim, na gramática do português ducentista, o tempo com- posto com haver/ter, gramaticalizados como verbo auxiliar, embora o uso de ser mais PP de verbos não-transitivos e a concordância do PP [adjeti- vos] de verbos transitivos com seu CD perdurem ao longo do período arcai- co até, pelo menos, como veremos, nos meados do século XVI, finais desse período.
Nos dados analisados dos meados do século XVI, tendo como objeto de observação as seguintes obras de João de Barros – a Obra pedagógica –
Gramática da língua portuguesa (GLP), Ortografia (ORT), Diálogo em louvor da nossa linguagem (DLNL), Diálogo da viçiosa vergonha (DVV),
4.266 linhas impressas e a já referida amostra de 2.133 linhas da Primeira
Década da Ásia – encontrou-se o que segue.
Na GLP, João de Barros teoriza sobre o tempo composto, na sua metalinguagem «tempo per rodeo» referentes ao passado. Explicita que é composto com o verbo ter; o verbo haver, para ele, formará o “tempo per rodeo vindoiro”, ou seja, o futuro (haver de amar, p. ex.). Especifica quais os tempos “per rodeo” referentes ao passado (Buescu, 1971: 339-440):
tivera amado, lido, ouvido, sido: tempo passado e mais acabado do modo para desejar [=optativo]; ter amado, lido, ouvido, sido: modo infinitivo não acabado; tinha amado, lido, ouvido, sido: tempo passado mais que acaba-
do do modo para demonstrar; teria amado, lido, ouvido, sido: tempo passado nam acabado do
modo para ajuntar (=subjuntivo ou “ajuntador”).
Rosa Virgínia Mattos e Silva e Américo Venâncio Lopes Machado Filho (orgs.)
Não menciona outros tempos “per rodeo” do passado, nem as estru- turas do tipo “ser seguido de particípio passado”, nem a concordância do particípio passado de verbos transitivos com o complemento direto, quan- do permissível pelo contexto.
O exame do uso que fez João de Barros dos tempos do passado “per rodeo”, ou seja, de seqüências de ser ou haver/ter seguidas de particípio passado (PP), consideradas as 6.339 linhas de textos escritos por ele aci- ma indicados, permite as seguintes observações:
Há uma coerência notável na escrita de João de Barros no que se refere à seleção de ter e nunca de haver nos tempos “per rodeo” do passa- do. Nesse aspecto segue o preceito de sua Gramática e não prossegue no uso variável de haver ou ter, como na documentação arcaica que analisei, variação que prossegue até hoje, como sabemos.
Quanto à seleção de ser, seguido de particípio passado, que não men- ciona na sua Gramática, mas que era corrente por todo o período arcaico com verbos [-transitivo], tanto ergativos como intransitivos, encontrei na
Primeira Década 05 ocorrências de ser nessas estruturas, tal como na
documentação já analisada do período arcaico:
(1) a isso era aly uiindo 26.34
(2) sendo já passados oyto dias 31.16 (3) outros já eram idos 34.24
(4) eram já passados sete meses 36.23 (5) e como o negocio a que eram idos 43.18
e 02 ocorrências de verbos [-transitivo] seguidos de particípio com o auxi- liar ter:
(6) e tendo andado um bom pedaço 26.28 (7) e tendo passado a ponta de Sanctana 53.36
Portanto, 05 ocorrências arcaizantes e 02 inovadoras. Note-se que esse tipo de “tempo composto” não ocorre na obra pedagógica (GLP, ORT, DLNL e DVV).
Centrar-me-ei agora no exame dos dados de ter seguido de particípio passado de verbos transitivos. Embora teorize sobre os “tempos per rodeo” do passado com o verbo ter, esse tipo de estrutura não foi utilizada pelo autor nem na Gramática nem na Ortografia. No DLNL e no DVV há 07 ocorrências de ter seguido de PP; 04 no DLNL e 03 no DVV, todas elas com PP de verbo transitivo.
Dessas ocorrências, 03 seguem o padrão atual, por condicionamento contextual, ou seja, não há possibilidade de concordância do PP com o complemento direto (CD):
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(9) Como ô tem feito em os estudos de Coimbra (DLNL 409, 23) (10) a que tinha prometido dar (DVV 459, 3)
Duas ocorrências são arcaizantes, já que apresentam a concordância no particípio passado:
(11) a nossa linguagem que temos pósta em arte (DLNL 391, 4) (12) a qual obra será pósta no catalogo das mercês que estes reinos dele tem recebidas (DLNL 410, 1-2)
Uma ocorrência de acordo com o padrão moderno:
(13) os quaes já das escolas tendes ouuido ditos e sentenças (DVV 414, 21)
E uma ocorrência que considero ambígüa:
(14) soma de dinheiro que lhe tinha tomado a logro (DVV 458, 5)
porque tomado pode referir-se ao núcleo do SN (soma) ou ao adjunto do núcleo (de dinheiro).
Pode-se assim concluir que nos dois Diálogos, parte da obra pedagó- gica de João de Barros, ainda ocorrem duas vezes as estruturas do tipo arcaizante.
No exame da amostra de 2.133 linhas da Primeira Década da Ásia, encontrei 45 ocorrências de ter, nunca haver – coerentemente com sua teoria – seguido de PP de verbos transitivos.
Quatro ocorrências são do tipo arcaizante:
(15) foy alimpar a casa desta infiel gente dos Arabeos que lha tinhã ocupada 9.6
(16) restituindo à Ygreja Romana a juridiçã que naquellas partes tinha perdida 9.20
(17) fico sem aquella superioridade que o senhor infante me tinha dada 43.35
(18) E de my lhe sey dizer, nam por parte da honrra, porque a deos mercês có nossa ajuda, eu a tenho guardada nesta terra pera po- der ir contente pera o reyno 43, 34-35
Vale destacar que em (17) e (18) João de Barros repete a fala do Capi- tão Lançarote, no tempo do Infante D. Henrique, cerca de um século antes da data em que escreve a Primeira Década – 1552 – e em (15) e (16) reproduz escritos históricos de remoto passado, ou seja, o tempo dos pri- meiros reis de Portugal, no período da Reconquista do território aos ára- bes. Sabe-se que João de Barros consultou fontes históricas numerosas
Rosa Virgínia Mattos e Silva e Américo Venâncio Lopes Machado Filho (orgs.)
para compor suas Décadas, talvez essas ocorrências sejam efeito da docu- mentação arcaica utilizada. Nas outras 41 ocorrências da estrutura em foco não ocorre a concordância do particípio passado. Em 24 delas porque o contexto não permitiria a concordância, ou por ser o CD masculino singu- lar, ou neutro (quanto, p. ex.) ou vazio (Ø). Por exemplo:
(19) recebe o mayor prazer que té quelle t$!po tinha visto 16.5 (20) ...que quanto outros tem recebido 4.25
(21) achando que el rey uosso padre tinha escripto (Ø) a dom Francisco Dalmeyda 4.7
Nas outras 17 ocorrências o contexto permitiria a concordância, mas ela não ocorre. Por exemplo:
(22) a quem tinha encomendado a escriptura destas partes 4.13 (23) que tinha feito grandes despesas 29.16
(24) que deus os tinha liurado 6.28
(25) em satisfaçã dos trabalhos e despesas que o infante dõ Anrique tinha feito neste descobrimento 30.13
Os dados analisados permitem concluir o seguinte sobre o uso do “tempo composto” nos meados do século XVI, à volta de 1540, quando João de Barros publica a sua obra pedagógica e inicia a escrita de suas volumosas Décadas da Ásia, a primeira publicada em 1552:
a.tal como na documentação analisada sobre esse tema em textos do sécu- lo XIII ao fim do XV (1981, 1989, 1996, 1997), o “tempo composto” ou o seu antecessor não gramaticalizado é de freqüência baixa de uso; b.apesar de não teorizar sobre ser seguido de PP de verbos não transitivos,
quando trata dos tempos “per rodeo” na sua Gramática, João de Barros usa a estrutura arcaica com o verbo ser 05 vezes na Primeira Década (cf. (1) a (5)) e, nela também, por duas vezes, usa a estrutura inovadora com o verbo ter (cf. (6) e (7));
c.com particípio passado de verbo transitivo, João de Barros apresenta ain- da resíduos do uso arcaizante. Em 07 ocorrências nos dois Diálogos e em 45 das Décadas, portanto 52 ocorrências, 06 são do tipo arcaico – 02 no DLNL (cf. (11) e (12)) e 04 nas Décadas (cf. (13) a (18)). As ocorrênci- as das Décadas permitem admitir ter havido reflexo de fontes documen- tais arcaicas no texto de João de Barros. Se essa hipótese for correta, só serão apenas 02 as ocorrências arcaizantes do tipo particípio passado flexionado de verbo transitivo no uso de João de Barros;
d.considerando o dito em b e c, pode-se afirmar que João de Barros se apresenta mais arcaizante quando usa ser com PP de verbo [- transitivo] (05 vezes arcaizante contra duas ocorrências inovadoras, portanto 77% de estruturas próprias ao período arcaico e 23% inovadoras), do que
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quando usa ter com PP de verbo [+ transitivo] com concordância (de 52 apenas 06 são do tipo arcaizante, ou seja, 11% com concordância do PP e 89% sem concordância, ressalvando-se que 04 das 06 podem ser refle- xo de fontes antigas);
e.Se 04 das 06 ocorrências de ter + PP com concordância são reflexo de fontes arcaicas utilizadas por João de Barros, reduz-se a 3% a estrutura arcaica, podendo-se considerar essas ocorrências resíduos arcaizantes na amostra analisada da obra de João de Barros;
f. diferentemente do que ocorre na documentação do período arcaico já analisada, João de Barros obedece ao seu preceito quanto à seleção de
ter, que não ocorre em variação com haver, para os tempos “per rodeo”
do passado;
g.do analisado se pode concluir que a estrutura de ser mais PP de verbo [- transitivo] perdura por mais tempo do que a de haver/ter mais PP de verbo [+ transitivo] com concordância. Assim sendo, a gramaticalização de haver/ter como formador de tempo composto de qualquer tipo de verbo ultrapassa, no uso, os limites últimos do período arcaico, embora já exista sua possibilidade na gramática do português – portanto, a pos- sibilidade de sua seleção no uso – pelo menos desde o século XIII, mo- mento em que o português começa a ser documentado pela escrita, como os dados que analisei no corpus ducentista demonstraram (1997): nessa documentação do século XIII, de 56 ocorrências de haver/ter, predomi- nando haver (52 oc.) mais PP de verbo [+ transitivo], há 03 sem concor- dância do PP (7.1%); em 57 ocorrências de ser mais PP de verbo [- tran- sitivo] há 01 ocorrência com haver (0.2%). Em meados do século XVI, de 7.1% passa-se para 89% ou 97% (cf. d e e), no primeiro caso, e de 0.2% para 23% no segundo (cf. d).
A Tabela 2 sintetiza as conclusões acima arroladas:
estruturas focalizadas século XIII meados do século XVI ter/haver + PP [+ trans.] sem concordância ter/haver + PP [- trans.] 7.1% 0.2% 89% ou 97% 23% Tabela 2
Diante dos dados analisados, pode-se afirmar que ter é o «verbo vito- rioso» para a expressão dos “tempos per rodeo” referentes ao passado, já que João de Barros na sua Gramática “preceitiva” seleciona ter para essas estruturas e haver para os “tempos per rodeo vindoiro”.
No seu uso, é coerente sempre, pelo menos na amostra extensa ob- servada: não varia o ter com o haver. Apresenta, contudo, estruturas não gramaticalizadas com verbos transitivos no particípio passado, já que a concordância ainda ocorre com a baixa freqüência depreensível da Tabela 2 e ainda usa o verbo ser com o particípio passado de não-transitivos. Sobre esses dois últimos fatos, o gramático prescritivista não se manifesta. Não
Rosa Virgínia Mattos e Silva e Américo Venâncio Lopes Machado Filho (orgs.)
havia, portanto, ainda se generalizado o uso de ter/haver com verbos não- transitivos e o tempo composto gramaticalizado com particípio passado ainda tem como concorrente, embora com baixa freqüência, a seqüência não-gramaticalizada, em que o particípio passado concorda com o seu com- plemento.