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2. Architecture: elements of a secure P2P data storage system

2.4. Application layer

Como dito anteriormente, seguirei a seguinte ordem: avaliações fônicas (3.3.1); avaliações mórficas (3.3.2) e avaliações léxicas (3.3.3).

3.3.1 Avaliações fônicas

Não cabe ao objetivo deste estudo voltar à notável descrição de foné- tica articulatória, avant la lettre, desenvolvida por Fernão de Oliveira nos capítulos VIII a XVIII da sua Anotação, já muito interpretada pela filologia e lingüística histórica sobre o português, destacando-se, sem dúvida, a análise circunstanciada feita por Eugenio Coseriu, já antes referida, que o considera não só foneticista, mas com intuições de fonólogo, também avant

la lettre. Nesses capítulos, entre muitos outros fatos, se refere, por exem-

plo, que em 1536 persistia o sistema, próprio ao período arcaico, de qua- tro sibilantes (duas fricativas ápico-alveolares e duas africadas ou fricativas predorsodentais).

As avaliações explícitas que depreendi no que se refere ao nível fônico são as duas seguintes:

a. A primeira se refere à articulação [,-] e não [d,-], já considerada própria aos “nossos antigos” por Fernão de Oliveira. No capítulo VI, quan- do trata das “leteras” e “figuras” diz:

...mas)"!& mesma nação e gente de hum tempo a outro muda as vozes e tam-

bém as letras. Porque doutra maneira pronunciavam os nossos antigos este verbo tanger e doutra o pronunciamos nós (90, ls. 5-8).

Refere-se à perda da africada [d,-], apresentada pelo <g>, em provei- to da fricativa [,-], o que se pode confirmar, quando, no capítulo XIII, ao tratar do modo de pronunciar as consoantes diz: “A pronunciação do g como a do c, com menos força do espirito” (96, l. 13).

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Nessa passagem se infere que, tal como o [,-] sonoro (= “como me-

nos força do espírito”), o c, já não seria também a africada [ts], mas a fricativa surda [s] predorsodental, que descreve logo no início desse capí- tulo:

c pronunciase dobrando a lingua sobre os dentes queixaes, fazendo hum certo

lombo no meio della diante do papo, quasi chegando com esse lombo da lín- gua ò ceo da boca e empedindo o espírito o qual por força faça apertar a lingua e faces e quebra nos beiços com impeto (96, ls. 4-7).

b. A segunda se refere à variação das consoantes líquidas <l> e <r> em grupos consonantais. Diz, no capítulo XV, ao tratar das “letras líquidas”:

Porque dissemos que l é letra líquida, saberemos que a forma e melodia de nossa lingua foi mais amiga de por sempre r onde agora escrevemos às vezes l e às vezes r, como gloria e flores, onde diziam grorea e froles (100, ls. 19-22).

Além de indicar a variação contemporânea (“onde escrevemos às ve- zes l e às vezes r”), avalia que antes (“onde diziam”) se preferia o <r>.

3.3.2 Avaliações mórficas

As avaliações mórficas explícitas, duas se referem à morfologia flexional e duas à morfologia derivacional:

a. A primeira se refere à morfologia flexional do verbo, está no capítu- lo XXVI, quando trata da “mudança de algh"!as letras”:

E nos verbos, nas derradeiras silabas das segundas pessoas do plural que acabavam em –des, agora mudamos o –des em –is e ajuntamo-lo em ditongo com a vogal que ficaria antes, como fazeis por fazedes e amais por amades (110,

ls. 2-4).

Fernão de Oliveira nessa passagem não só se refere ao –des etimológico como arcaísmo (“acabavam em –des), mas já indica a ditongação, decor- rente do hiato que se fez com a síncope do –d–. A mudança no morfema flexional de segunda pessoa do plural já estava completa em 1536, segun- do a descrição clara do gramático.

b. A segunda, que também se refere à morfologia flexional, está no capítulo XLV, quando trata do número dos nomes de lexemas terminados em <l>, que considera como exceções à regra geral:

Dos nomes acabados em ol parece que devíamos tirar &'()"!a eiceção, porque alghuns nomes temos cuja rezã e boa voz requere que se não acabem em ois, posto que o costume não seja por )"!& parte mais que outra, como são portacol, portacolos, e não portacois nem portacoles; este porque soa assi melhor. E sol

fará soles e não sóis; e rol, roles, por diferença das segundas pessoas destes verbos verbos soio, soes por acostumar, e roio, roes por roer (148, ls. 11-13).

Aqui Fernão de Oliveira aconselha plurais que fogem à regra geral ou porque soa melhor – portacolos, ou para distinguir de formas verbais homófonas – o caso de soles e roles. Este fato é interessante para a histó- ria da língua portuguesa, porque o sugerido pelo gramático de 1536 impli- ca que haveria variação na sua época, nesses casos; também se torna significativo porque a norma que virá a ser estabelecida selecionará proto-

Rosa Virgínia Mattos e Silva e Américo Venâncio Lopes Machado Filho (orgs.) colos, como ele propõe, com a metátese do <r> da primeira sílaba, mas

selecionará, ao contrário do que propõe Oliveira, sóis e róis.

c. No capítulo XLI, sobre as “dições tiradas ou dirivadas” apresenta derivações sufixais de base nominal em que o sufixo destacado é variável e nem sempre coincide com o que o correr da língua seleciona:

E também dizemos sarnoso e não sarnento; mas ao contrairo chamamos ao cheo de sarapulhas, sarapulhento e não sarapulhoso. E de pedras dizemos pedre-

goso, mas d’area areento e do pó, nem poento nem pooso, mas em outra figura

e sinificação, empoado (137, ls. 12-15).

Adverte ele, com toda procedência, ao iniciar o parágrafo: “E mais saberemos que não todas as especeas das dições tiradas são assi livres para poderem andar por onde quiserem”(137, ls. 2-3).

Hoje selecionamos, dos exemplos dados, sarnento, mas arenoso, con- tinuamos a usar pedregoso. Empoeirado será o derivado de pó e empoado, de fato, tem “outra figura e significação”. Sarapulhas, sarapulhento terá a ver com o substantivo atual sarapilheira (‘aniagem’)?

d. No capítulo XLV, em que trata de “outras dições tiradas e eiceições”, chama a atenção para advérbios que acabam em mente e associa a deriva- dos de verbos em mento, que já seriam arcaísmos:

...Os avérbios, os quaes, quando são tirados, polla maior parte ou sempre acabam em mente, como compridamente, abastadamente, chammente; e pórem não há hi muitos que não são tirados, como antes, depois, asinha, logo. E quasi podemos notar que os avérbios acabados em mente sinificam calidade; e não todos os que sinificam calidade acabam em mente porque já agora não dire- mos prestemente, como disseram os velhos, e nem raramente, os quaes velhos também foram amigos de pronunciar huns nomes verbais em mento, compri-

mento, afeiçoamento e outros que já’gora não usamos (140, ls. 15-19). Vale notar, nesta passagem, que raramente não nos parecerá “velho”, mas, de mais interesse, é a menção aos “velhos amigos de pronunciar” derivados de verbo com o sufixo mento, como se sabe, muito usado na morfologia sufixal no período arcaico.

3.3.3 Avaliações léxicas

Suas avaliações sobre o léxico, a “dicções”, indicam arcaísmos, neolo- gismos, etimologias, estrangeirismos. Tratarei delas, na seqüência em que ocorrem no seu texto.

No capítulo XXX, ao iniciar a parte referente a “Das dições”, na classi- ficação que apresenta dessas “dições” (nossa, alhea, comum, apartadas,

velhas, novas e próprias) exemplifica arcaísmos, neologismos e palavras

do uso corrente:

E cada )"!& destas... ou são velhas, como ruão, compengar, cicais, ou novas, como

peita e arcabuz, ou usadas como renda, sisa, casa, corda (118, ls. 28-29). No capítulo XXXI, em que trata da “etimologia das dições”, diz que as nossas “dições” são as que nasceram entre nós ou que são antigas que não sabemos se vieram de fora. Nesses casos a gramática deve procurar saber

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“donde, quando, porquê e como foram feitas” e exemplifica, dando infor- mações histórico-lingüísticas significativas:

...donde foram feitas, como pelota de pele, assi como também já foi, em tempo del-rei dom Afonso Amriquez, capa-pelle; quando foram feitas, como sisa em tempo del-rei dom João o primeiro; porque foram feitas, como Aveiro, nome de lugar, porque nessa terra morava hum caçador d’aves... (119, ls. 7-11).

Fica-se assim informado que capa-pelle remonta, pelo menos, ao sé- culo XII e sisa, pelo menos, aos fins do XIV.

No capítulo XXXII, ao tratar das “dições alheas”, além de justificar a razão de estrangeirismos, informa sobre o tempo do empréstimo:

As dições alheas são aquellas que doutras linguas trazemos à nossa por &'()"!& neçessidade de costume, trato, arte ou cousa &'()"!& novamente trazida à terra.

O costume novo traz à terra novos vocábulos, como agora pouco nos trouxe este nome picote, que quer dizer burel... e alguicé tão-pouco é vestido de nossa terra; por isso também traz o nome estrangeiro consigo. E arcabuz há sete ou oit’annos pouco mais ou menos que veo ter a esta terra, com seu nome nunca conhecido nella (121, ls. 4-10).

Fica-se a saber, por estes exemplos, que picote é empréstimo recente e, em arcabuz, o empréstimo está cronologicamente preciso.

No capítulo XXXVI, em que trata das “dições velhas” apresenta um grande rol de arcaísmos já no seu tempo:

As dições velhas são as que foram usadas, mas agora são esquecidas como Egas,

Sancho, Diniz, nomes próprios; e ruão, que quis dizer cidadão... em tempo del-

rei dom Afonso Amriquez capa-pelle era nome de uma certa vestidura. E não somente de tanto tempo, mas também, antes de nós hum pouco, nossos pais tinham&'()"!&+ que já não são agora ouvidas, como compengar, que queria

dizer comer o pão com a outra vianda e nemichalda, o qual valia como agora

nemigalha... A carão que quer dizer junto ou a par e samicas, que sinifica porventura, e outras piores vozes ainda agora as ouvimos e zombamos dellas. (128, ls. 3-23).

Ainda neste capítulo destaca arcaísmos recentes, ainda ouvidos em áreas regionais e rurais, tornando-se portanto regionalismos:

...&'()"!&s dições que há pouco são passadas, são já agora muito

arvorreçidas como abém, ajuso, acajuso, assuso e hoganno, algorrém e outras muitas. E porém se estas e quaesquer outras semelhantes se as metéremos em mão d’h"! homem velho da Beira ou aldeão, não lhe parecerão mal (125, ls. 13- 18).

No capítulo XLIII trata da lexia el-rei e dá seu “parecer”.

Aqui quero lembrar como em Portugal temos )"!& cousa alhea e com grande dissonância onde menos se devia fazer, a qual é esta: que a este nome rei damos lhe artigo castelhano chamando-lhe el-rei. Não lhi haviamos de chamar senão

o rei, posto que alghuns doces d’orelhas estranharão este meu parecer, se não

quiseram bem olhar quanto nelle vai. E contudo isto abasta para ser a minha milhor musica que a destes, porque o nosso rei e senhor, pois tem terra e mando, tenha também nome próprio e destinto por si, e a sua gente tenha fala ou linguagem não mal mesturada mas bem apartada (142, ls. 21-29).

Rosa Virgínia Mattos e Silva e Américo Venâncio Lopes Machado Filho (orgs.)

Apresenta-se aqui um fato sociolingüístico, ideologicamente funda- do, que bem reflete uma questão de política lingüística e de identidade nacional no século XVI ibérico. Nota-se, contudo, que se pode verificar, em passagens anteriores, que, apesar de sua crítica explícita, respeita ele o uso, que considera castelhanismo, de el-rei.