VI. RENFORCEMENT DES CAPACITÉS INTERNES D’AFRISTAT
6.4. Renforcement des ressources logistiques
O QUE SE LEVA DA VIAGEM: Fotos do mar em movimento
A viagem não acaba nunca. Só os viajantes acabam. E mesmo estes podem prolongar-se em memória, em lembrança, em narrativa. Quando o visitante sentou na areia da praia e disse: “Não há mais o que ver”, saiba que não era assim. O fim de uma viagem é apenas o começo de outra. É preciso ver o que não foi visto, ver outra vez o que se viu já, ver na primavera o que se vira no verão, ver de dia o que se viu de noite, com o sol onde primeiramente a chuva caía, ver a seara verde, o fruto maduro, a pedra que mudou de lugar, a sombra que aqui não estava. É preciso voltar aos passos que foram dados, para repetir e para traçar caminhos novos ao lado deles. É preciso recomeçar a viagem. Sempre.36
(José Saramago)
É chegada a hora de ir. O vento sopra mais gelado. O sol se despede no horizonte. As conchas são devolvidas ao mar. As ondas têm movimentos dramáticos. Os grãos de areia voltam ao chão da praia. É como se tudo ocorresse em seu fluxo normal.
Mas logo, eu irei embora e já não estarei mais aqui. Levarei comigo tudo o que aqui pude ver, sentir e viver.
Deixo, aqui, marcas em cada porção de areia por onde andei.
E mesmo que não possa vê-las, marcas em cada onda que mergulhei.
Parece que acabei de chegar aqui...mas agora já é hora de ir embora. Antes de partir, me enveredo, mais uma vez, pelo caminho que leva ao mar. Preciso me despedir daquela imensidão azul.
Encaro, profundamente, cada uma das ondas, depois fecho os olhos na tentativa de intensificar tudo que senti e vivi aqui. Os olhos fechados e os sentidos à flor da pele buscavam eternizar em mim as sensações e os sentimentos que me acometeram enquanto estivera ali.
Sabia que carregaria em meu corpo memórias e lembranças do encontro com aquele mar, mas queria também registrar em imagens as belezas daquele lugar. Atrás da câmera buscava enquadrar aquele momento valorizando cada um dos elementos que até então eu poderia tocar. A cada foto tirada, se reafirmava a certeza de que imagem alguma poderia representar tudo o que aquele lugar me fizera sentir. Mesmo a foto que beirava o retrato mais fiel daquela realidade, não conseguia demonstrar o azul daquele mar, o brilho do sol naquelas ondas, a sensação boa de se estar naquele lugar.
Fui embora, ‘de alma lavada’, levando em meu corpo as marcas daquele encontro e em minhas mãos os registros do meu olhar.
De repente, me vejo distante daquele lugar. Diante das inúmeras fotos tiradas, aprecio, de longe, o meu mar, como o pintor que se afasta para observar sua obra. Orgulho-me de cada mergulho na água salgada. Penso que cada mergulho constituiu este mar, bem como suas águas constituíram meu mergulhar.
As lições apre(e)ndidas
Nesse momento, busco compartilhar com você, leitor, algumas das lições que apre(e)ndi nessa intensa jornada de formação e prática docente, construção e realização dessa pesquisa de Mestrado que resultou na escrita e produção dessa Dissertação.
Tudo o que vivi e experienciei durante minha trajetória até aqui, ganha amplitude quando me proponho a refletir sobre cada um desses acontecimentos. A professora-pesquisadora-autora, que aqui compartilha retratos do contínuo e
infindável processo de formar-se, carrega consigo um pouco de cada um que cruzou e transformou seu caminho.
Por isso, nesse momento, destaco como uma das lições apre(e)ndidas, a importância fundamental daquelas pessoas que, ao cruzarem seus caminhos com os meus, deixaram um pouco delas comigo, ao mesmo tempo em que levaram um pouco de mim. Em encontros marcados por amorosidade, conflitos, respeito, empatia, generosidade e tensão, muito do que eu era antes é transformado. Desenvolvo novos modos de perceber a partir de outros sentidos compartilhados comigo; construo novas compreensões a partir de reflexões divididas comigo; aprimoro minhas práticas a partir de experiências comunicadas a mim.
Ressaltar o caráter coletivo a partir do qual essa pesquisa se concretizou também é primordial. As parcerias foram fundamentais para se enriquecer discussões, potencializar reflexões, e de uma maneira geral, para que eu pudesse realizar, em cada momento, muito além do que eu acreditava que poderia. Destaco aqui, principalmente, aqueles momentos em que me auxiliaram a não desistir, quando me fizeram perceber potencialidade onde eu nada via, e assim me orientaram para que eu encontrasse (ou construísse) caminhos que me levassem ao mar.
Não conseguiria nomear essas pessoas com quem compartilhei o processo formativo vivido até aqui, mas consigo definir que foram pessoas que se disponibilizaram a me ver, ouvir, e perceber de maneira sensível, considerando cada um dos meus anseios compartilhados. Dos encontros mais acadêmicos aos mais informais, elas dedicaram parte do seu tempo a mim, à minha pesquisa e à minha vida. Lembrando-me assim, de que a formação acontece nas relações que constituo com o meio e os outros.
Foi por meio do meu contato e relação com outros, pares e/ou crianças, e com o mundo, que experiências transformadoras aconteceram. Ao mesmo tempo, essas relações também me possibilitaram apreender e refletir sobre o vivido. Assim, o olhar sobre a dimensão estética das experiências foi descoberto, de maneira despretensiosa. Tendo percebido essa nova perspectiva, esse novo modo de perceber o mundo, mais sensível e integrado, como fundamental à construção de processos educativos que se comprometam com a formação de pessoas que sejam mais justas, respeitosas e humanas, compreendi que a Educação Estética tem sido ponto de partida para a constituição da minha prática docente, mesmo quando eu ainda não era consciente disso.
Com isso, compartilho outra lição apreendida que diz respeito, especialmente, à Educação Estética. Agora, após muitos mergulhos em seus mares, compreendo que ela se faz caminho a ser construído diariamente, por meio de cada uma das escolhas que podemos realizar, refletindo acerca delas para que sejam tomadas de maneira sensível e respeitosa. Mas, ressalto como é difícil fazê-lo, mesmo quando nos dispomos a isso.
Em muitos momentos, concomitantes ao desenvolvimento da pesquisa, me via atuando em sala de aula buscando realizar escolhas que fossem, de fato, mais potentes para o desenvolvimento sensível dos alunos. Mas percebia minhas práticas sendo direcionadas aos conteúdos e, muitas vezes, os meus esforços insuficientes para vencerem a maré anestesiada que influenciava minha própria prática. Nesse sentido, a reflexão se fazia fundamental para que eu pudesse ajustar minhas práticas de acordo com os fundamentos nos quais acredito e confio. Fazer acontecer um processo educativo baseado nos pressupostos da Educação Estética é trabalhoso, exige esforços, mas é necessário e mais do que isso, é possível. É um caminho outro por onde educadores têm buscado, cada vez mais, se enveredar na busca por construir processos educativos mais humanos. Evidencio, aqui, esse texto como espaço onde reafirmo a potencialidade desse modo outro de se compreender os processos educativos, não somente pelos referenciais estudados e aqui discutidos, mas, principalmente, pelas implicações que práticas de Educação Estética tiveram em minha formação.
Cabe, aqui, também, ressaltar que dimensões da Educação Estética são fundamentais ao processo formativo dos professores. Destaco a necessidade de haver, durante a formação inicial e perpassando os momentos de formação continuada, iniciativas que potencializem a reflexão acerca de seus aspectos fundantes, não só para que possamos construir saberes e conhecimentos a partir deles, mas para que possamos nos desenvolver a partir deles. A Educação Estética assim, para além de direcionar os processos educativos que acontecem no chão da escola, deve estar também calcada em todo o nosso processo formativo, pelos quais nos (trans)formamos professores.
Percebi e reitero que a reflexividade exerce centralidade no processo de formação docente. Durante todo o processo de produção da pesquisa e escrita da Dissertação, me via questionando o meu fazer. Além disso, buscava compreender onde se baseavam minhas ações, como elas se construíram, o que demonstravam.
Percebo como esse mo(vi)mento reflexivo, de analisar e questionar, passou a constituir a minha prática.
Se dispor a ser um professor que atua na direção de construir processos educativos fundamentados nas compreensões acerca da Educação Estética, exige também um constante exercício reflexivo, onde estejamos, constantemente, questionando, pensando e repensando cada uma de nossas ações e escolhas. A busca por potencializar momentos estéticos de formação nos tira da comodidade de agir no automático, mas nos dá a tranquilidade de ações tomadas de maneira consciente e intencional.
Além disso, a sensibilidade que busco desenvolver e aprimorar através da Educação Estética, não está, exclusivamente, na escola, e no trabalho que me proponho a realizar naquele espaço-tempo. A própria escrita dessa Dissertação se deu num processo intenso de me constituir e me conhecer de maneira sensível, não apenas como professora-pesquisadora-autora, mas, principalmente, como pessoa. Precisei organizar a minha rotina, compreender as questões que internamente impediam ou retardavam a minha escrita e o meu envolvimento com a pesquisa. Precisei também entender em que horários produzia melhor, dentro de um período de produção concomitante aos meus trabalhos em tempo integral. Desenvolvi novos gostos pela música e leitura, sentia necessidade de poesia para fazer com que a escrita fluísse. Sentia necessidade de música para que conseguisse me concentrar mais e melhor. Assim me uni à leitura de poesias e à apreciação de músicas clássicas, primeiro no piano, depois no violoncelo, violino...
Percebi que manter os meus sentidos atentos às questões que envolviam o desenvolvimento sensível, aflorava também em mim, cada um dos meus modos de perceber a realidade e o mundo, de maneira sensível. A sensibilidade de se ouvir, perceber e sentir o que se está à sua volta foi sendo desenvolvida em mim durante todo esse processo. Comecei a perceber, de um jeito outro, o meu corpo, o seu modo de estar no mundo e o modo como o mundo se faz nele. Eu me tornei uma pessoa que aprecia o silêncio. Percebe a poesia no vento que balança as folhas das árvores e das cortinas. Que se atenta ao corpo, ao que ele pede e necessita. Que valoriza ainda mais cada pessoa e cada momento único e singular.
Sempre admirei os trabalhos/pesquisas produzidas pelos membros do GEPEC, recheadas de sensibilidade em uma escrita repleta de metáforas e analogias. Vim escutando que essa escrita era esforço e empenho, que ninguém nascia
escrevendo daquele jeito. Então, pouco a pouco, fui desenvolvendo minha escrita, buscando estar atenta a cada umas das palavras e a tudo que poderiam representar/significar. Uma escrita que começou a se desenvolver timidamente com parênteses que me possibilitavam brincar com a formação das palavras, e hoje me coloca em meio a um mar de metáforas, onde consigo me dizer pela escrita e também por suas formas, me fazer ouvida de uma maneira mais sensível. A escrita metafórica, ou em versos, me fez crescer e me desenvolver também como pesquisadora e autora, ao mesmo tempo em que me constitui professora com maior repertório em se tratando de modos de dizer.
A preocupação com a dimensão estética do texto aqui apresentado, perpassou e sustentou também a escrita, propriamente dita, dessa Dissertação. Queria que as palavras dissessem além delas mesmas. Houve cuidado com cada uma das palavras atentamente escolhidas, bem como com a organização delas. A poesia se fez meio de acalmar e acalentar o coração, em todos os inúmeros momentos em que me senti afogando nessas águas, as palavras que construíam minhas metáforas pareciam devolver o chão aos meus pés.
Reafirmei, no processo de produção dessa Dissertação, que cada palavra aqui escrita carrega sentido e significado. Cada frase construída é lida e relida. A escrita é percebida em suas peculiaridades, em suas minúcias, o modo de dizer também diz. Foi um desafio construir esse texto. Foi um desafio me fazer autora, quase tão grande quanto continuar me formando professora e pesquisadora. A escrita não flui naturalmente, nem é processo permeado de prazer, apenas. Muito pelo contrário, em muitos momentos, é preciso muito esforço, construções elaboradas de pensamento, pensar, (re)pensar, organizar, estruturar, planejar... O que me ocupava, no momento de escrita, era ser pesquisadora-autora, que sistematiza e compartilha nas (entre)linhas do que diz, excertos do conhecimento que produziu na pesquisa, na escola.
Falar (ou escrever) com as próprias palavras significa se colocar na língua a partir de dentro, sentir que as palavras que usamos têm a ver conosco, que as podemos sentir como próprias quando as dizemos, que são palavras que de alguma maneira nos dizem, embora não seja de nós de quem falam. (LARROSA, 2002, p.70)
Nos momentos em que não conseguia me fazer dizer, recorria à metáfora e à poesia das imagens inerente a elas. As metáforas, apresentadas em forma de
texto e imagens na abertura de cada capítulo, não foram apenas um cuidado com a beleza do que era aqui produzido e compartilhado. Mas foram, principalmente, uma maneira encontrada por mim, de me conectar com o conteúdo que seria naquele momento abordado.
Outra lição que apreendi e reafirmo aqui, é o entrelaçamento dos aspectos pessoais e profissionais da vida da professora-pesquisadora-autora. A própria maneira como a Dissertação se construiu e agora se mostra a você, leitor, evidencia a relação destes aspectos. A metáfora escolhida, que nos guiou até aqui, tem raízes em minha vida pessoal, no modo como me relaciono com o mundo. São também de caráter pessoal cada uma das fotos que abrem os capítulos desse texto. São, literalmente, imagens vindas da minha vida pessoal para ilustrar meu processo de constituição e formação pessoal-profissional. Enquanto me constituía professora, transformavam-se em mim aspectos outros, que implicavam diretamente em meus modos de perceber as relações que constituímos e os modos com que interagimos com o mundo e os outros, não apenas dentro da escola ou considerando aspectos educacionais, mas reverberaram sob mim, sob meu ser, em sua completude. Um ser que nunca é formado por apenas uma versão de mim, mas sim pela consonância dos diversos papéis que ocupo nos diferentes ambientes onde circulo e ocupo.
Sobre as pesquisas que podem ser feitas, a partir daqui, são elas uma infinidade. Ainda há muito que se saber, conhecer, compreender sobre a Educação Estética, as experiências acontecidas na escola e toda essa temática, que permeia a formação docente continuada. Ressalto que não podemos perder de vista a potencialidade formativa que existe no chão da escola. Para quaisquer lados que resolvemos caminhar, que tenhamos sempre o foco de que na escola (também) nos tornamos professores.
Agora, tendo concluído essa longa viagem, que me levara aos mais diversos mares e me possibilitou os mais coloridos mergulhos, percebo que todo o processo da pesquisa constitui-se como caminho de percepção de si. Produzindo esse texto e construindo essa pesquisa, fui me percebendo professora e autora enquanto me constituía também pesquisadora. Pude me compreender de maneira mais ampla e sensível como indivíduo em meio a uma miscelânea de relações. Evidencio também que a pesquisa me faz carregar a responsabilidade social de anunciar a outros os saberes por mim produzidos, ressaltando que essa partilha é compromisso político de qualquer pesquisador, especialmente, daqueles
que, como eu, acreditam na indissociação entre teoria e prática e na potente parceria entre Universidade e Escola.
Pesquisar foi processo pelo qual pude dar-me conta de processos que ainda não havia parado para perceber. Foi perceber minúcias escondidas (ou escancaradas) em minha própria prática. E, além disso, processo em que pude dar- me conta do muito que ainda há por saber. Relembrar minha incompletude, minhas ausências, minhas lacunas. Algumas delas que, por meio da pesquisa, pude vencer e preencher, outras que me acompanharam por mais um tempo, inclusive aquelas das quais ainda nem me dei conta.
Como quando se mergulha naquela praia em que sempre se sonhou conhecer. Saio desse mar tendo todo o meu corpo (e meu ser) inundado por um sentimento de renovação.
Sou tomada, nesse momento, pela sensação de que o trabalho não se finda aqui. E ainda, antes disso, sou tomada pela impressão de que tudo (absolutamente tudo) poderia ter sido melhor. Gostaria de poder dizer, novamente, de outras maneiras. Gostaria de compartilhar novas percepções aqui construídas. Mas, percebo que esse movimento se dá pela própria dimensão contínua, intrínseca à nossa constituição. Estamos, a todo tempo, nos formando e nos tornando melhores. E, uma Dissertação, ou qualquer outro texto dos mais distintos formatos, jamais seria suficiente para evidenciar todas as transformações que aconteceram durante a trajetória realizada.
Vejo a dimensão do inacabamento se materializar sobre esse texto. Já ouvira dizer, em momentos de exames de defesa de Dissertações ou Teses, que a finalização do texto não se dá porque ele se finda, mas porque é preciso adicionar a ele um ponto final. Se faz necessário, em algum momento, que se encerre, por hora, o que se tem a dizer. Finalizo a Dissertação com a certeza de que há ainda muito por dizer, e arestas por aparar, mas com a sensação de que aqui (me) realizei da melhor maneira que poderia, tendo feito o meu melhor dentro das possibilidades nas quais estava imersa. Me formo enquanto, penso, escrevo, analiso, repenso, reescrevo, reelaboro e ressignifico, num processo infinito.
Os últimos escritos dessa Dissertação se fazem em mais uma noite adentro. Na madrugada, iluminada pela lua (cheia e brilhante) que invade a sacada, somos eu, o computador e a imensidão escura do céu. Revivo cada momento,
relembro cada experiência, ressignifico cada acontecimento, revisito cada canto dentro dessa professora-pesquisadora-autora que se constitui...
nessa escrita, nessa pesquisa, em sua própria prática, em seu dia a dia na sala de aula, em cada brincadeira feita no parque, em cada uma das palavras escritas na lousa, em cada pincelada que colore o papel em branco, em cada passo, firme ou em falso, dado no chão da escola.
REFERÊNCIAS
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AFFONSO, Bianca Fiod. Memorial de formação. Texto produzido como exigência à disciplina ‘Seminário Avançado: Reflexividade, Narrativa e Formação de professores’ (Professores responsáveis: Ana Maria Falcão de Aragão e Guilherme do Val Toledo Prado). Agosto 2016. (Texto não publicado)
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