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Appui à l’élaboration des comptes nationaux et à l’analyse macroéconomique

Dans le document PROJET DU PLAN D ACTION TRIENNAL D AFRISTAT (Page 18-22)

I. CONSOLIDATION DES ACQUIS D’AFRISTAT

1.3. Appui pour le renforcement des capacités de production des données statis tiques et d’élaboration des

1.3.2. Appui à l’élaboration des comptes nationaux et à l’analyse macroéconomique

Banho de lama

Ao chegar na escola, descubro que o primeiro ano tem programado um banho de lama. De imediato, me lembrei que o banho havia sido sugerido no início do ano quando, no planejamento, estávamos organizando as atividades multidisciplinares junto aos professores de educação Física. Essa era mais uma atividade do projeto literário “Um porco vem morar aqui”, assim como o porco se refresca na lama, as crianças tomariam banho de lama para se refrescar.

A princípio, pensei “tomara que o banho não seja nas primeiras aulas”, pois estaria lá e a ideia de me sujar de lama, não estava me animando muito. O dia estava nublado, diferente do resto da semana, quando tivemos muito sol e calor. Iniciamos a aula, na roda, como sempre. As crianças comentavam sobre o banho de lama e algumas já vestiam o biquíni embaixo do uniforme. Começaram a perguntar para A. quando seria o banho de lama. Ela conversou com eles, explicando sobre o mau tempo e o risco de ficarem doentes, lembrando-os que já haviam combinado, no dia anterior, que o banho seria adiado caso o tempo não estivesse bom. As crianças lamentaram e algumas meninas já quiseram tirar o biquíni e eu fui até o banheiro com elas, enquanto A. continuava a roda. [...]

C. apareceu na porta e, antes que pudesse dizer alguma coisa, as crianças comemoravam. Eu achei que elas estavam enganadas, que a C. trazia algum outro tipo de recado, mas para a felicidade deles, o sol realmente havia aparecido.

[...]Fui com as mesmas meninas no banheiro, para colocarem os biquínis de volta e de lá, fomos para o parque, onde o resto da turma brincava ansioso pela lama. No parque, em alguns pedaços onde faltava grama, havia terra, que logo se transformaria em lama. Peguei a mangueira da nossa horta e estiquei-a até o meio do parque, onde A. já orientava as crianças sobre a atividade prestes a começar. Ela pedia para que tomassem cuidado com os olhos, e com os outros colegas, e que só passassem lama neles depois de perguntar se eles queriam.

A. estava à postos, com mangueira em mãos, e as crianças, animadas, estavam paradas aguardando a água. Liguei a mangueira e enquanto a água começava a sair, as crianças gritavam, com os braços pra cima, comemorando cada gota de água que recebiam. H. assistia tudo de cima de um dos brinquedos.

Quando a água já era suficiente para a terra se transformar em lama, eles se encantaram. Tocavam, passavam pelo corpo, rolavam. Alguns foram mais cautelosos, precisaram de um pouco mais de tempo para se sentirem confortáveis. L. era uma delas. Eu a incentivava a chegar cada vez mais perto, sugeria que molhasse os pés na lama, que tocasse com as mãos, e devagar ela ia se sentindo mais à vontade, até que, ao final da brincadeira, tinha o corpo todo coberto de lama.

A maioria das crianças estava muito à vontade, C. e J. faziam massagem um no outro utilizando a lama. Outras passavam pelo corpo e diziam que era protetor solar. B. celebrava o fato de estar coberta de lama, “Que lindo, tô preta!”. G., enquanto mexia na lama com as mãos, dizia “parece cocô”. H. ainda observava tudo de longe, havia recusado todos os meus convites: se aproximar da ‘bagunça’, molhar apenas os pés junto comigo, mesmo que fosse só na água, apenas se aproximar...Ela só balançava a cabeça negativamente. Aceitou o meu convite apenas quando disse para me ajudar a fotografar.

Eu estava registrando os momentos da brincadeira com fotos e vídeos no IPad da professora e H. aceitou me ajudar. Mas agora me dou conta de quão vazia foi a participação que proporcionei a ela. Eu queria, de algum modo, que ela se envolvesse naquela atividade, mas o fiz de maneira muito vazia. Poderia ter dado o IPad nas mãos dela para que ela registrasse os momentos enquanto eu a assistia, mas eu posicionava a câmera e ela apenas apertava o botão. Agora me sinto mal, tendo dado a ela esse papel de mera apertadora de botão, enquanto ela poderia ter mostrado o seu olhar sensível para aquela atividade da qual se recusara a participar.

Durante todo o banho de lama, eu assistia as crianças, encantada, pensando em quão feliz eu me sentia por ter feito parte e presenciado aquele momento. Elas se encantaram pela lama, e eu me encantei pelo encantamento delas, sentindo e percebendo o mundo de maneira tão singular.

Todos limpinhos e quentinhos, voltaram para a sala e já começavam a lanchar, enquanto eu lavava as roupas de banho e colocava-as em saquinhos para mandar para casa. De volta à sala, guardei os saquinhos nas bolsas e deixei a sala depois de A. muito me agradecer por ter estado com eles. Eu disse que ela não precisava agradecer, mas esqueci de dizer que era eu quem agradecia por ter estado com eles.

O (não) lugar do corpo

Nesta categoria, a fotografia e a narrativa apresentadas inicialmente contam histórias de um mesmo dia, quando aconteceu o inesperado e surpreendente banho de lama, do qual participei junto com a turma do 1º ano. Essas imagens foram escolhidas por contarem de um dia em que pude notar, nitidamente, algumas mudanças em meu modo de perceber a realidade à minha volta.

Podemos perceber a Escola tomada por uma lógica que afasta nossos corpos das salas de aula. Quanto maiores os alunos, menos lugar têm seus corpos. O brincar é retirado pouco a pouco, até não ter mais espaço na rotina. Sua capacidade de percepção sensível vai sendo cada vez mais desvalorizada, até praticamente se extinguir dali. As vivências nas quais o corpo é o centro da nossa relação com o mundo, vão dando lugar a relações anestesiadas com a realidade, e com cada um à sua volta. Cada vez mais, querem que as mentes estejam presentes ali, focadas e concentradas nos conteúdos que se busca ensinar, desconsiderando que, para essa aprendizagem dar-se de maneira significativa, deve-se considerar, de um modo sensível o corpo daqueles que aprendem.

Nesse momento, para além de explicitar a relação das narrativas com essa categoria de análise, gostaria de tecer considerações sobre o conceito utilizado para intitulá-la. Marc Augé, em sua obra “Não lugares” (1994), explicita alguns aspectos fundamentais à compreensão desse termo. Segundo o autor, a supermodernidade impõe novas experiências e vivências de solidão ligadas ao surgimento e à proliferação de não-lugares (AUGÉ, 1994, p.86).

Um não-lugar é considerado pelo autor como um espaço definido para certos fins, como os shoppings, que tem o comércio como sua finalidade ou os aeroportos com a finalidade de responder às necessidades de transporte. Os indivíduos são levados a se relacionar, nesses/com esses espaços, de modo a criar uma tensão solitária que se dá na medida em que afasta os indivíduos de suas identidades, fazendo com que sejam considerados apenas mais um cliente/passageiro, ou aluno.

Confesso que, num primeiro momento, ao me deparar com a leitura, não consegui fazer relações muito diretas entre as conceituações apresentadas pelo autor e a Escola. Mas ao retomar o texto (e minhas próprias anotações sobre ele), percebi

que, de acordo com a maneira como algumas escolas se organizam e as práticas de ensino que potencializam, podemos considera-las um “não-lugar”.

Afinal, um não-lugar dá aos indivíduos uma identidade partilhada, os que ali se fazem presentes deixam de agir de acordo com suas próprias vontades, para atuarem de acordo com normas e padrões que os engessam e dão a eles uma mesma identidade, no caso da escola, a identidade de aluno. Nesse movimento de afastar os indivíduos de suas determinações habituais, dando-lhe uma nova identidade, eles são encarados de modo como se seus corpos fossem dissociados de suas mentes. Junto com o movimento de buscar afastar seus corpos, busca-se afastar todos os saberes sensíveis que podem ser potencializados por ele.

Uma proposta educacional que se constitui como um não-lugar do corpo, constitui-se ao mesmo tempo, como não-lugar de pensar e sentir, afinal se ali não se pode caber o próprio corpo, ali não se pode caber por inteiro. Com partes de nós deixadas de lado, desconsideradas, não é possível que nos sintamos completamente envolvidos no que acontece ali.

Ao entendermos a necessidade de encarar cada um dos indivíduos de modo único e singular, ressalta o pressuposto de que precisamos olhar também para os corpos que se colocam à nossa frente, manifestando-se através dos mais distintos gestos intencionais.

O corpo que abraça apertado. O corpo que se distancia. O corpo que se pinta. O corpo que se apaga.

O corpo que sussurra. O corpo que grita. O corpo que se cala. O corpo que fala.

O corpo que chora. O corpo que ri. O corpo que apenas vem.

O corpo que está.

Enquanto educadores que contrariam essa lógica de dar ao corpo um não- lugar, precisamos (re)afirmar que através do corpo apre(e)ndemos e interagimos com o mundo de maneira sensível, por meio de todos os sentidos. E, através dessa relação, saberes sensíveis são construídos e uma compreensão mais íntegra da realidade é potencializada na relação deles com nossos conhecimentos inteligíveis. Nem só corpo, nem só mente, mas tudo o que se constrói a partir da relação dialógica de ambos.

Por isso, são compartilhados nessa categoria, trechos de narrativas sobre momentos em que o corpo teve lugar e foi valorizado na Escola, sendo foco de atenção e cuidado das crianças.

Além de meio que possibilita nossa relação sensível com o mundo, o corpo também é canal por onde estabelecemos e fortalecemos relações uns com os outros. Relações essas que influem positivamente no desenvolvimento e bem-estar dos envolvidos. Para ilustrar essa afirmação, apresento dois registros, sobre dias e alunos diferentes, que falam sobre abraço.

A prof.ª perguntou sobre a mão que escreviam, e também sobre os colegas que estavam à direita ou esquerda. Tocaram os colegas e fizeram carinho em seus cabelos, venho percebendo que a A. preza muito por isso, pelo contato, assim como pelo desenvolvimento da autonomia das crianças. [...] Ela propõe uma atividade de massagem nos pés, com um novo creme que havia trazido. (Fevereiro de 2017)

Na hora da entrada, D. estava bravo comigo por um combinado feito por nós no dia anterior e, por isso, disse que não me daria abraço. Mais tarde, quando eu menos

esperava, me surpreendeu com um abraço apertado e eu logo respondi:

- Ah, que bom que eu tô ganhando abraço. Fiquei feliz que você mudou de ideia. O que aconteceu? – então ele respondeu:

- É que eu fico solitário sem abraço. (Junho de 2016)

M. aparece ao meu lado e prontamente me pede um abraço.

Respondo com um sorriso e um abraço apertado, enquanto digo “Claro!!!”. Ele então me diz “Não precisa mais ir na minha mesa, tá?

A Escola foi espaço-tempo fundamental para que eu pudesse experienciar a importância das relações para a aprendizagem e o desenvolvimento dos alunos, e o meu próprio. E, além disso, para (re)afirmar que o nosso compromisso não se centraliza nos conhecimentos que devemos auxiliá-los a construir, mas para além disso, o nosso compromisso é com cada um deles, enquanto indivíduos singulares que são.

As relações afetivas que se estabelecem positivamente, onde demonstramos nos importar e ‘nos afetar’ por aqueles que nos cercam, contribuem para que a escola seja um lugar mais feliz de se estar e que o anseio de aprender seja ainda maior. Não digo que tenhamos que construir relações de afeto, necessariamente baseadas no toque, mas cabe a nós perceber, sensivelmente, que alguns dos nossos alunos têm essa necessidade e podemos supri-la.

Era o segundo dia de aula e uma infinidade de coisas foram priorizadas antes do momento em que aquelas crianças de pouco mais de sete anos poderiam estar e brincar livres. Esse é o (não) lugar do corpo na Escola, e eu estava contribuindo para legitimá-lo. Se o corpo não tem lugar, as apreensões sensíveis que se podem realizar por meio dele, também não.

Enquanto afirmo ser necessário valorizarmos o lugar do corpo na Escola, preciso também assumir que, muitas vezes, mesmo atenta a essa necessidade, acabo por não conseguir atuar em função dela. Entendo que isso acontece quando se anseia “nadar contra a maré”, mas cabe a nós o compromisso de buscar encontrar brechas e construir oportunidades para que existam momentos em que nos lembremos e exaltemos a presença e participação fundamental de cada um dos corpos que ali se apresentam.

Hoje era o segundo dia de aula e eu fiquei triste por não tê-los levado ao parque, pois quando percebi, já era tarde demais, mas amanhã, com certeza essa será uma das

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Apreender a realidade

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