4.1. CONSULTORIA PARA ACESSIBILIDADE
EM MUSEUS: O PAPEL DA PESSOA COM
DEFICIÊNCIA
José Ednilson Almeida do Sacramento
Jornalista e Consultor de Acessibilidade Universidade Federal da Bahia
O trabalho de consultoria em acessibilidade, consultoria em audiodescrição, é, sem sombra de dúvidas, um trabalho desafiador no primeiro momento, porque para além do conhecimento sobre audiodescrição, para além do conhecimento sobre aces- sibilidade, sobre arte, sobre cultura, é preciso vencer o desafio das especificidades que demandam o fazer artístico. Eu creio que os colegas também devem estar comparti- lhando desse pensamento. E para as pessoas com deficiência, e aqui nesse momento falando sobre a questão da acessibilidade, os recursos de acessibilidade, sobretudo aqueles aplicáveis em museus e em casas de cultura, representam uma chave para que essas pessoas possam apreciar uma obra de arte, apreciar um documento, apreciar uma fotografia, apreciar algum objeto cultural que possa aumentar o seu repertório, que possa trazer para essa pessoa um ganho em relação ao mundo visual.
O mundo, eu acho que quase sempre, foi centrado na visão. Na contempora- neidade isso tem se tornado um imperativo. Cada vez mais o mundo é visual. E isso pode soar como lugar comum, mas imaginemos uma pessoa com deficiência dentro desse cenário. Sobretudo a pessoa com deficiência visual. Existem muitos desafios e eu queria fazer uma reflexão acerca de alguns aspectos referentes a esse desafio: a consultoria e a audiodescrição com relação a um panorama do movimento de pessoas com deficiência.
Sabemos que historicamente as pessoas com deficiência são varridas de mui- tas atividades sociais, sobretudo com relação ao acesso à arte e à cultura. Então, a experiência de poder promover a acessibilidade a essas pessoas é uma tarefa, sem sombra de dúvidas, enriquecedora. Boa parte das pessoas com deficiência, por não ter acesso à educação e à cultura, faz com que não tenham acesso ou não tenham o repertório mais robusto no que diz respeito à apreciação estética. O que a gente pode dizer então: todas as pessoas com deficiência não têm acesso à cultura? Não, não é isso. Na verdade, a realidade nos mostra que essas pessoas não têm os seus direitos contemplados nas mais diversas áreas, como saúde, educação, estrutura, etc. No campo da cultura, eu penso que é preciso que façamos um esforço para trazer um pouco desse mundo para essas pessoas.
A Semana dos Museus é um exemplo importantíssimo, porque nesse ano, como se tematiza a diversidade, e naturalmente o respeito à diversidade, faz o museu pensar para qual público ele existe ou a qual público ele está atendendo. Essas ferra- mentas de acesso à informação – e aí, quando eu falo de acesso à informação é essa informação que nós estamos discutindo aqui, é informação visual, é informação dos objetos culturais, tudo aquilo que é contido nas galerias, nos espaços expográficos – naturalmente precisam ser levados a todas as pessoas. Em algum momento, ou na maioria das vezes, é necessário fazer essa tradução.
Essa análise vai descortinar um aspecto importante que eu consideraria da seguinte ordem: primeiro, é preciso que os museus compreendam a diversidade de público que eles irão atender. Esse é um ponto. Segundo, compreendendo essa diver- sidade, quais seriam os mecanismos e quais seriam os recursos para que essas casas atendam à essas pessoas? E isso, naturalmente, foi discutido bastante aqui na Semana dos Museus. Mas entendo que é importante que as pessoas tenham essa compreen- são. No caso específico do recurso de acessibilidade, como se sabe, existe uma série de formas e meios para se conseguir tornar uma obra acessível. Eu arriscaria dizer que uma das medidas importantes é contar com as próprias pessoas com deficiência. Muitos espaços culturais, por falta de informação, ou até mesmo por questões de economia, terminam por ignorar a participação das pessoas com deficiência e isso termina sendo um passo inadequado, porque mais a frente ele será cobrado.
A participação da pessoa com deficiência, na consultoria, no planejamento dos roteiros de audiodescrição é de suma importância.
Algo que eu considero importante também é que o museu precisa ter um olhar mais avançado não só sobre o seu acervo, mas sobre como esse acervo chega às pes- soas, as formas de comunicação. Quando falamos em acessibilidade e em audiodes- crição, por exemplo, é preciso que os recursos de acessibilidade estejam disponíveis. Não basta que eu tenha um salão expositivo com todos os recursos de acessibilidade se eu não comunico aquela temporada para aquelas pessoas que precisam saber disso.
Não basta que a gente tenha também uma exposição, por exemplo, com os recursos de acessibilidade se eu não tenho um pessoal razoavelmente treinado para fazer esse atendimento. Claro que, em algum momento, eu posso estar falando para além da consultoria e para além do objeto desta mesa, mas penso que as preocupações que passam para além da consultoria propriamente dita, devem permear também as discussões sobre acessibilidade e sobre audiodescrição. Então, deve-se pensar nessa acessibilidade, nessa audiodescrição e nesses roteiros já no planejamento. E pensar além dos muros da instituição, como essa divulgação é feita, e se ela é feita de forma equitativa e de forma abrangente para chegar a esses públicos.
Outro aspecto que eu considero como um bom apontamento é conhecer um pouco mais o seu público. É preciso que se conheça, no caso me referindo ao museu, o seu entorno, é preciso que se conheça qual é o público que está no entorno do espaço museal, qual é o diálogo que eu tenho com essas pessoas, e dentre essas pessoas, quais ou quantas são surdas, quantas tem alguma deficiência, se são cegas, têm baixa visão, tem dificuldade de locomoção, tem deficiência física. Eu acho que esse é um aspecto que deve ser levado em consideração, não só para você elaborar os seus programas, mas também para multiplicar as ações.
Outro aspecto que eu retomaria seria discutir com as instituições que agregam pessoas com deficiência. Eu penso que é uma medida importante porque há um elo entre as pessoas com deficiência e uma casa de cultura ou outra instituição qualquer, que é as instituições que agregam pessoas com deficiência. É claro que em alguns ambientes essas instituições funcionam bem, outras funcionam melhor, outras funcio- nam de maneira não tão assertiva. Mas percebemos muitas dificuldades de algumas instituições museais em acessar as instituições onde está esse público que necessita, que é usuário, público alvo da acessibilidade. Eu penso que este diálogo é importante na área da acessibilidade, porque com esse diálogo essas instituições podem contri- buir, indicando como e onde encontrar essas pessoas e também ajudar na formação de grupos, etc. Não quer dizer que essas instituições possam sozinhas trazer essas pessoas para o museu, mas penso que é extremamente importante essa conversa com as pessoas que estão mediando as relações com as pessoas com deficiência.
Dito isso, eu queria fazer uma análise a respeito dos modos de apresentação da audiodescrição e, portanto, dos recursos de acessibilidade. Pelas visitas que eu tenho feito, tenho percebido que muitos espaços apenas conseguem imaginar o público cego como usuários do Sistema Braille. Nem todas as pessoas cegas são usuárias do Sistema Braille, e claro que é algo que já foi debatido aqui. Mas nunca é demais repetir que é preciso fazer um planejamento de maneira mais holística, pensar nesse público de um modo mais complexo e, a partir daí, se esse público é diverso, se esse público é complexo, fazer uma oferta de recursos igualmente ampliada, portanto para todas as pessoas que precisarem. Quando as instituições estiverem fazendo esse
planejamento, que façam buscando verificar as necessidades desse público. Então, desde um audioguia até uma legenda de uma obra em Braille, existe uma série de outros recursos e de outras necessidades.
Eu queria fazer esse resumo e talvez até deixando como uma sugestão, dizer que os museus deveriam ter uma rede de consultores, ou um banco de dados, um banco de profissionais. Acho que essa é uma atitude que deve aproximar as pessoas com deficiência desses espaços. Segundo, o diálogo deve ser muito mais fluido a partir do momento em que você faz o planejamento com a participação de pessoas e especialistas que lidam com a questão da acessibilidade. Por fim, dizer também que os museus formam uma rede importante que precisa atender a diversos públicos. Eu participei de uma live agora a pouco falando sobre esse tema da participação das pessoas com deficiência em museus, e amanhã o debate vai ser sobre população indígena, então existe uma diversidade de públicos e naturalmente o museu é o lugar de excelência para o atendimento a essas especificidades.