Deuxième étape : le changement 19 novembre 2004 (suite)
63 rencontre, vérifie ses perceptions face aux différents verbatims lus
Alfred Mele descreve a variedade de processos, que contribuem para as crenças motivacionalmente enviesadas.
Nos casos de straight self deception, o nosso desejo que p, contribui, através de uma variedade de formas, para a nossa crença de que p, conforme comprovam quatro exemplos que o autor descreve.
1 – Interpretação equivocada negativa – Negative misinterpretation – o nosso desejo de p, pode levar-nos a interpretar erroneamente, ou não valorizar o suficiente informação contra p, informação essa que facilmente reconheceríamos como válida ou suficientemente válida, na ausência do desejo184.
2 – Interpretação equivocada positiva – Positive misinterpretation – o nosso desejo de p pode levar-nos a interpretar informação como sendo a favor de p, informação essa que facilmente reconheceríamos como sendo contra p, na ausência do desejo185.
3 – Atenção Seletiva – Selective focusig/attending – o nosso desejo de p pode levar-nos a não prestar atenção em evidência contra p e colocar o nosso foco em evidência sugestiva de p186.
4 – Recolha seletiva de evidência – Selective evidence-gathering – o nosso desejo de p pode levar-nos a ignorar evidência obtida facilmente para ~p e procurar evidência de p,
183 MELE, Irrationality: An Essay on Akrasia, Self-Deception, and Self-Control, op. cit., pp. 143-144. 184 Por exemplo, Don entende que a rejeição de um artigo que havia submetido foi erroneamente rejeitada,
mas alguns dias mais tarde, quando relê o artigo e as críticas, num estado de espirito mais imparcial, fica claro para ele que a rejeição foi, de facto, justificada.
185 Por exemplo, Sid nutre um sentimento pela colega Roz, com quem estuda frequentemente e, desejando
que a colega também sinta o mesmo, interpreta a sua recusa em sair com ele, bem como o facto de o ter relembrado que tem namorado, como estando a fazer-se de difícil, para que Sid se sinta encorajado a continuar a aproximar-se dela.
186 Alfred Mele convida-nos a recordar o exemplo de Beth, que desejava ter sido a favorita do seu Pai e
portanto, procurava conforto em memórias que a punham em destaque com ele ao mesmo tempo que negligenciava as memorias que a colocavam em segundo plano.
mesmo que seja muito menos acessível187. A recolha de evidência seletiva pode ser analisada como sendo uma hipersensibilidade a evidência e fontes de evidência favoráveis ao que se deseja, combinada com uma cegueira por evidência e fontes de evidência contrárias188.
Em cada um dos casos enunciados, existe um tratamento inapropriado de informação, influenciado pelo desejo. O desejo do sujeito de que p, leva-o a falhar a apreciação da relevância de evidência de que ~p, de forma a interpretar erroneamente tal evidência, focar-se seletivamente em evidência que suporta p, ou a falhar a localização de evidência disponível de que ~p, enquanto procura evidência de que p. Se esta manipulação da informação leva à aquisição de uma falsa crença de que p, então podemos estar perante um exemplo de auto engano.
Para Alfred Mele, o que gera o auto engano do sujeito na crença de que p, é uma manipulação de informação influenciada pelo desejo, que é ou parece ser relevante para a verdade de p. Parte daquilo que o sujeito auto enganado faz, em muitos casos, é prevenir-se de deter determinada crença verdadeira e, é por essa razão, que o sujeito não acredita que ~p enquanto acredita que p. A interpretação errónea – misenterpretation – pode ser, por vezes, explicada pela suposição simples de que o agente reconhece ou acredita que a informação apenas pode ser tomada em conta como sendo contra p, ou, considerando a sua condição emocional, o agente pode simplesmente ver a informação de determinada forma189.
Em nenhum destes casos, o sujeito detém a crença verdadeira de que ~p e, intencionalmente, sustém a consciência de que acredita em p.
Através destes casos, ficamos com uma intuição acerca da forma como o desejo de que p, pode iniciar ou suster cada um dos quatro processos.
Por outro lado, reconhecemos que as pessoas tendem a procurar prazer e evitar a dor e algumas atividades atencionais são prazerosas ou dolorosas. Além disso, ficamos também
187 Por exemplo, Betty que faz parte do staff de uma campanha politica, ouve rumores de que o líder é
sexista, facto que ela tem esperança de que não seja verdade. Essa esperança leva-a a procurar informação acerca do comportamento do líder, mas junto de pessoas que trabalham na própria campanha e vasculha o seu passado politico. Betty pode ter ignorado informação óbvia de que o líder é de facto sexista e centrou- se em informação menos óbvia que favoreceu a sua visão.
188 MELE, Self-Deception Unmasked, op. cit., pp. 25-27.
com a intuição de como a atenção seletiva para evidência de p, pode aumentar a probabilidade de adquirirmos a crença de que p.
O facto de sermos auto enganados ao adquirir ou manter uma crença, constitui uma crença enviesada. E, no auto engano, o enviesamento é motivado, mas Alfred Mele considera importante relevar três potenciais fontes de crenças enviesadas não motivadas (ou frias – cold), que decorrem da literatura psicológica:
1 – Vividez da informação - Vividness of information – Existe uma maior probabilidade de reconhecer, prestar atenção e recordar informação vívida do que informação mais fraca ou opaca e, consequentemente, a informação vívida tende a possuir uma influência desproporcional na formação e retenção de crenças.
2 – Heurística disponível – The availability heuristic – Quando formamos crenças acerca da frequência, probabilidade, ou causas de um evento, podemos ser influenciados pela relativa disponibilidade dos objetos ou eventos, ou seja, a sua acessibilidade nos processos de perceção, memória ou construção imaginativa. Da mesma forma, as tentativas de localizar a causa de um evento, são significativamente influenciadas por manipulações que focam a nossa atenção numa potencial causa específica.
3 – A confirmação enviesada – The confirmation bias – Quando as pessoas testam uma hipótese, tendem a procurar, na maior parte das vezes, na sua memória e no mundo, a sua confirmação em vez da não confirmação, ao mesmo tempo que reconhecem mais rapidamente a confirmação do que a não confirmação190. As implicações do viés da confirmação na formação e retenção de crenças são óbvias.
Obviamente, a informação mais vívida e disponível tem, por vezes, um importante valor probatório, ou de evidência, e a influência de tal informação nem sempre é uma influência enviesadora.
Portanto, é importante destacar que, apesar das fontes de crenças enviesadas poderem funcionar independentemente da motivação, podem também ser desencadeadas e sustentadas pela motivação, na produção de crenças motivacionalmente enviesadas particulares. Por exemplo, a motivação pode aumentar a vividez ou saliência de
190 Por exemplo, sujeitos que testaram a hipótese de que uma pessoa estava zangada, interpretaram a
expressão facial, como transmitindo fúria, enquanto que, sujeitos que testaram a hipótese de que de que a pessoa estava feliz, interpretaram a mesma expressão facial como transmitindo felicidade.
determinada informação. Informação que conta a favor da verdade de uma hipótese, que o sujeito gostaria que fosse verdadeira, pode tornar-se mais vívida ou saliente, e informação vívida e saliente, mais propensa ao reconhecimento e evocação, tende a ser mais disponível do que outras contrapartidas mais ténues. Similarmente, a motivação pode influenciar as hipóteses que vão ocorrer ao sujeito, e afetar a saliência de hipóteses disponíveis, configurando assim o contexto para a confirmação enviesada. Porque as hipóteses favoráveis, são mais agradáveis de contemplar do que as desfavoráveis e tendem a estar mais rapidamente disponíveis na nossa mente. Desejar que p, aumenta a probabilidade de que o sujeito se foque mais em p do que em ~p, ao testar a sua hipótese. A motivação que desencadeia e sustém a confirmação enviesada – confirmation bias – promove o comportamento cognitivo que os epistémicos rejeitam. Pelo menos, em alguns exemplos de auto engano, as falsas crenças adquiridas face a evidência em contrário, podem ser produzidas e sustentadas pelo fenómeno da motivação tal como descrito. E, nestes casos, o auto engano não requer que o agente pretenda ou tente produzir ou sustentar uma crença em si próprio, ou comece a acreditar em algo que vai acabar por desacreditar.
Obviamente, o enviesamento frio não é intencional e, em casos particulares, o funcionamento dos mecanismos descritos podem ser iniciados ou sustentados pela motivação, independentemente de qualquer intenção ou tentativa de ilusão.
Alfred Mele expõe uma breve explicação da sustentação motivacional do funcionamento destes mecanismos.
Um desejo passageiro que, momentaneamente, aumente a vividez ou disponibilidade de uma informação, ou sugira uma hipótese momentânea, não terá, permanecendo iguais todas as outras coisas, um efeito forte na aquisição de crenças, como terá um desejo de duração significativamente maior. Retomando o exemplo de Sid, que deseja que Roz esteja apaixonada por ele, pode interpretar evidência desta atração como sendo particularmente vívida e disponível, enquanto o desejo persistir. Ao longo do tempo e devido a estas características da evidência, ele pode acreditar que ela gosta dele. Mas, quando perder o desejo relevante (talvez devido a apaixonar-se por outra pessoa), é expectável um decréscimo na vividez e disponibilidade da evidência em questão acerca
da Roz, e, permanecendo iguais todas as outras coisas, um decréscimo correspondente na probabilidade de que adquire a crença em questão.
Portanto, não é misteriosa a forma como a confirmação enviesada, a disponibilidade heurística e a vividez de informação, podem contribuir para os dois tipos de interpretação equivocada e os dois tipos de seletividade identificados por Alfred Mele. Os efeitos previsíveis da motivação na confirmação enviesada – confirmation bias- aumentam a probabilidade de interpretação enviesada, foco seletivo e recolha de evidência seletiva. O mesmo será verdade para os efeitos da motivação na disponibilidade e vividez de informação191.