Les autres effets de l’opération
REMARQUES METHODOLOGIQUES
Cátia Bárbara Candeias1
Luisa Timóteo2
A identidade de um povo, assim como de uma comunidade, sente-se na alma das pessoas quando convivemos com elas no dia-a-dia, sente-se na sua vontade de querer ser, na forma como reagem e interpretam a sua história e como a projetam no futuro. O património humano presente no Bairro Português de Malaca, que se identifica com a persistência em conservar a língua, cultura e tradições, mantendo de geração em geração os nomes portugueses, quer nas famílias, ruas, bairros e locais.
Passados 500 anos (1511-2011), da chegada de Afonso de Albuquerque a Malaca, a comu- nidade luso descendente de Malaca tem mostrado ter um historial de reivindicação de valores e argumentos para a sua autonomia e diferenciação no conjunto dos povos da Malásia. O Projeto Povos Cruzados no auxílio prestado à comunidade luso descendente de Malaca assenta na preser- vação do crioulo de base portuguesa; aprendizagem da língua portuguesa; promoção da cultura de origem portuguesa presente em Malaca; preservação da cultura portuguesa local; desenvolvimento comunitário, social e educacional.
Saber viver na diversidade, aprender com a diferença, respeitar o outro e com ele prosseguir o nosso caminho, é uma das grandes linhas de pensamento da atualidade. Se todos nos esforçás- semos por atuar deste modo, se libertássemos as nossas capacidades o mundo seria com toda a certeza um lugar bem mais agradável.
Do ponto de vista comunitário, quando estamos a coordenar e a desenvolver um Projeto, é es- sencial a participação de toda a comunidade. A colaboração e o reconhecimento das pessoas desde o início, levam a melhores resultados, pois é a comunidade que beneficia de toda a aprendizagem. Alguns autores, tais como Ornelas (1996), têm contextualizado o desenvolvimento comunitário como um processo que permite criar as condições para o progresso económico e social através da partici- pação dos cidadãos na sua comunidade. Esta abordagem parte do pressuposto de que a mudança comunitária pode ser alcançada através da participação das pessoas na definição e implementação dos objetivos de mudança.
A estratégia utilizada para alcançar a mudança é a do envolvimento das pessoas na identifica- ção e resolução dos seus próprios problemas, encorajando os indivíduos e as organizações, dando ênfase aos objetivos comuns e favorecendo o crescimento ao nível das competências democráticas e sociais. Esta "filosofia" de atuação apoia-se, e rege-se, também por outros conceitos tais como a participação, a liderança e o empowerment. O último destes, e mais especificamente a sua aplica-
1 Coordenadora do Projeto Povos Cruzados, Bairro Português de Malaca, Malásia 2 Presidente da Direção – Associação Cultural Korsang di Melaka
ção pelos técnicos de desenvolvimento comunitário, assume um papel central na sua forma de se posicionar na comunidade.
Sendo o empowerment um conceito tão abordado nos dias de hoje e que se determina por palavras como “poder”; autonomia; confiança; autoestima; capacidade pessoal, intelectual, social nos cidadãos, não o poderíamos deixar de o relacionar como o desenvolvimento do Projeto Povos Cruzados-Futuros Possíveis.
Deste modo, faz todo o sentido, que conceitos como este sejam abordados no seio de uma co- munidade. Se estimularmos as pessoas para a sua consciência crítica pode-se conseguir que estes sejam sujeitos empowered que lutam pelos seus direitos enquanto cidadãos do mundo integrados na sociedade.
Ao longo do desenvolvimento do Projeto, todas as ações realizadas foram abordadas de acordo com as necessidades e motivações da comunidade, recorrendo sempre a uma metodologia partici- pativa, onde existiu uma aproximação à realidade das pessoas que vivem no Bairro Português de Malaca, uma vez que somente “constatando nos tornamos capazes de intervir na realidade, tarefa incomparavelmente mais complexa e geradora de novos saberes do que simples- mente a de nos adaptar a ela (....)” (Freire, 2004).
A preservação do legado português em Malaca não se esgota no conceito linguístico. A língua por si só não identifica a lusofonia, está também presente na cultura, tradições e no valor humano herdado por quem soube deixar ao longo dos séculos um legado que queremos preservar e deve- mos honrar.
Sem dúvida que o caminho percorrido pelos descobrimentos e a percorrer agora por Portugal que ainda não terá cumprido o seu destino… invocando as mensagens de Fernando Pessoa * e de Agostinho da Silva**, para que não sejam esquecidas:
*O Infante
Deus quer, o homem sonha, a obra nasce. Deus quis que a terra fosse toda uma Que o mar unisse, já não separasse. Sagrou-te, e foste desvendando a espuma
Quem te sagrou criou-te português. Do mar e nós em ti nos deu sinal. Cumpriu-se o mar, e o império se desfez, Senhor, falta cumprir-se Portugal!
*Mensagem
Na tristeza dos triunfos E na alegria das dores És nada pelo que digas Só vales pelo que fores
|133
Catia Candeias, Luisa Timóteo
** Quadras inéditas Como durmo sossegado Sabendo que por mim vela Uma coisa que sonhando Vivo me tem dentro dela
O que faço só importa Se traduz o que vou sendo Se assim não for tudo é nada Só finjo que estou fazendo
Nunca voltemos atrás Tudo passou se passou Livres amemos o tempo Que ainda não começou.
Os falantes da língua portuguesa e todos ao fim ao cabo, movidos pelo sonho de um Portugal sem fronteiras, será alcançar um mundo melhor, ainda que não perfeito, mas menos ambicioso, menos agressivo, com mais paz, com comida, água e condições mínimas para se viver.
Este sonho sem fronteiras não pode acabar pelos achamentos ou tendências imperialistas, mas sim pela convição que a língua portuguesa não é apenas nossa. São senhores dela os que a falam e desejam falar.
Com base no passado português elemento fundamental da lusofonia, verdade que não dá margem a discussão. Está presente hoje nos grupos que subsistem e que desejam continuar a pertencer-lhe como o meio ambiente na qual cada um se cria e se expande, na sociedade em que se insere. Pela religião histórica de globalização e concluindo que em muitas e diversas partes do mundo vamos encontrar grupos e comunidades que não esquecem Portugal como sua origem, desejando visitá-lo como um sonho e orgulho.
No entanto é natural que este desejo não seja impedimento do seu desenvolvimento. É aqui que reside a chave de um futuro sustentável para os que nele habitam.
Que no Bairro Português de Malaca esta identidade que os faz continuar, não seja o resultado de um esquecimento que os conduza ao seu empobrecimento resultando (como já se verifica) a procura de outros locais e países para viverem melhor. Passando por aqui a sustentabilidade da sua independência, norteada por outros mercados mais desenvolvidos e atraentes cujo destino lhes oferece maior capacidades e conhecimentos, que os torna menos frágeis perante os desafios da modernização dos mercados.
Esta falta de desenvolvimento pode não provocar a extinção mas conduz a uma crise de identi- dade do grupo, implicando fatalmente o fim da comunidade.
Se nos procuramos aproximar com base na lusofonia, teremos como obrigação procurar, trans- mitir, ensinando e passando o nosso passado histórico, entender seu significado como caminho para a construção do mundo lusófono, mais justo, independentemente da sua área geográfica, política ou
religiosa, cultiva-se e constitui a identidade de uma ou mais comunidades, país ou países, ou dos grupos humanos onde vivem e permanecem.
Justificando que se promovam mecanismos sociais, iniciativas e ações individuais e coletivas para que o grupo restrito do Bairro Português de Malaca, beneficie de maiores capacidades de de- senvolvimento para se adaptarem às condições internas, divisões, ausência de liderança perante as vontades exteriores quer civis ou religiosas.
Sendo neste contexto que cabe a maior atenção do - ser português, considerar bem de perto, a responsabilidade da referência ao autoidentificar-se como portugueses, a descendência cruzada e recruzada com sangue e culturas várias dentro do universo malaio, que os declara diferentes no modo de ser, pela língua que falam que os torna originais e são. Uma religião do dialeto cristão afirmada como fator forte e distinto, herdada pelos missionários.
A comunidade vive modesta e pobre nunca viveu para outras grupos de extratos superiores, podendo no entanto continuar a representar um capital potencial que importa preservar, pela sua riqueza de diversidade, respeito pelas diferenças, comportamento civilizado que revela, a tranquili- dade confiança dos seu próprios valores e cultura, que desejam ver garantida e a sua aceitação na estrutura sóciopolítica onde se inserem.
Estas aspirações devem ser acompanhadas com outros recursos que desenvolvam qualifica- ções literárias, técnicas, profissionais e desportivas que possam proporcionar o poder económico suficiente para uma melhor existência políticacultural própria.
Sendo este o propósito dos futuros possíveis que esperamos alcançar, com a criação da As- sociação Cultural Coração em Malaca e o desenvolvimento do Projeto Povos Cruzados, iniciado no Bairro Português de Malaca, atualmente suspenso.
O Projeto proposto pela Associação Cultural Coração em Malaca, teve o seu início em 4 de setembro de 2008, com o apoio do Instituto Camões, Fundação Oriente, Empresa Logoplaste e Painel do Regedor do Bairro Português de Malaca. A pedido da comunidade luso descendente foram para Malaca: o mestre de danças José Costa Machado e Dra. Cátia Bárbara Candeias (Bolseira do Instituto Camões), para ensinar português e dar apoio sóciocomunitário à comunidade.
O trabalho desenvolvido apoiado pela comunidade local e pela Associação foi o de reconquistar a confiança acreditando que Portugal não os esqueceu. Este esquecimento sentido pela retirada do padre/missionário que os deixou sem apoio moral e espiritual, que mantinham os hábitos passado de gerações em gerações. Pela falta de visitas dos governantes portugueses, de entidades e até das raras visitas de portugueses ao bairro. Mencionando como fator de peso, as agências portuguesas e turismo de Portugal não promovem viagens ao Bairro Português de Malaca. Testemunhos que chegam a visitar a cidade de Malaca sem visitar o Bairro Português.
O mestre Costa Machado, professor na escola Dr. Francisco Sanches em Braga e coordenador / responsável do grupo folclórico de professores, Associação Cultural e Festiva “Os Sinos da Sé” – Braga, aceitou este desafio no período das suas férias, trabalho que exerceu graciosamente. Está convidado para voltar a dar continuidade deixando no bairro a saudade de todos que com ele tiveram o privilégio de o conhecer. Um homem de grande sensibilidade, mestre no saber, da arte do folclore, da música tradicional portuguesa e de uma humanidade rara.
|135
Catia Candeias, Luisa Timóteo
definitivamente à comunidade. No primeiro mês que acompanhou o mestre Costa Machado, ficou e aprendeu a gostar da dança folclórica tradicional portuguesa, apercebeu-se do quanto é importante manter na comunidade as danças, existindo no bairro 4 grupos de danças. O folclore é um meio importante de subsistência dado o elevado número de turistas que visitam Malásia/Malaca. A Cátia ficou por mais 8 meses renovados, pela Bolsa Fernão Mendes Pinto, bolsa a cargo do Instituto Camões. Integrada no bairro dá início ao ensino da língua portuguesa, recorrendo ao crioulo de Malaca-papia português a alunos de idades compreendidas 3 aos 75 anos, chegando a dar aulas em casa dos que por algum motivo não compareceram a uma ou outra aula. Deu apoio a comuni- dade nas mais diversas áreas sociais. Criou o Jornal Trinlingue one-line “Papia Português”. Ensinou e promoveu redes de internet, abrindo ao mundo a comunicação e partilha que em muito beneficia a comunidade luso descendente. Deu apoio e inovou os festejos tradicionais do bairro. Promoveu atividades e concursos de cultura, jogos tradicionais e outros. Reorganizou o museu da Comunidade. Recebeu e guiou turistas que em muito beneficia a comunidade que se encontra despida deste baluarte de orientação, guião e presença portuguesa. Sendo o padre/missionário por disponibilidade a força que os conduzia e o único capaz de o fazer.
Apesar do Projeto estar suspenso, a Associação está crente que terá continuidade duma forma diferente e com maior sustentabilidade, apoiada por parcerias e pela cooperação entre países, insti- tuições, organismos e privados. Sendo o nosso desejo continuar a divulgar e promover este legado histórico de grande valor humano de que nos devemos orgulhar e preservar.
Agradecemos aos nossos associados o apoio recebido. Enaltecemos as viagens pagas por dois associados residentes no Brasil Dr. Araújo da Costa e comendador António Fernandes de Barros, aos 2 grandes líderes que visitaram Portugal senhores Noel Félix em novembro de 2009 e Manuel Bosco Lazaroo (papa joe) em maio de 2010, realizando como nos afirmaram o maior sonho de suas vidas. A Associação sem fins lucrativos superou as despesas com estadia, visitas e alimentação aos líderes que tudo merecem pela divulgação e continuidade de manterem e mostrarem ao mundo um legado lusófono. Nestas visitas contamos com o apoio das Câmaras Municipais: Torres Vedras, de Sintra, de Braga, de Freixo Espada à Cinta, de Póvoa de Varzim e de Fafe. Com as juntas de fregue- sia: Ponte do Rol – Torres Vedras, São Martinho - Sintra, Lavos, e do Paião - Figueira da Foz. Com as escolas: Secundária Henriques Nogueira – Torres Vedras, Pedrosa Veríssimo do Paião, e Secundária de Sintra. Com a Sociedade de Geografia de Lisboa, com o Museu Militar de Lisboa e com a Casa das Cenas – Educação pela Arte – Atelier Maria Almira Medina com quem estabelecemos protocolo de amizade e cooperação, com o Portugal dos Pequeninos em Coimbra, com a Associação Cultural e Festiva “Os Sinos da Sé” – Braga, nossa parceira presente em todas as iniciativas. Agradecemos as Associações: Movimento Internacional Lusófono, Colóquios da Lusofonia o apoio e divulgação da Associação. Aos Politécnicos Portugueses que se deslocaram a Malaca num importante encontro com a comunidade e delegação da Associação. Ao Instituto Politécnico de Bragança que recebeu no XXI Encontro da Associação das Universidades de Língua Portuguesa (AULP), “Novas Formas de Cooperação: Espaços de Convergência nos Países Lusófonos” fazendo chegar o Projeto Povos Cruzados-Futuros Possíveis da Associação Korsang di Melaka aos quatro continentes presentes no referido encontro.
Agradecemos a todos os associados, amigos e crentes, esperando que ao Bairro Português de Malaca seja prestado o apoio que merecem para o seu desenvolvimento e sustentabilidade.
Enlaçar valores humanos, sentimentos de partilha e respeito pela diversidade é um dever para abraçar a lusofonia.
P.s – "Nussa linggu kum alma nang podi kompra kum pataca. nus papia mutu tantu antigu, linguasa di cinkocentu anu". Noel Felix (Natural de Malaca, descendente de portugueses)
Bibliografia
FREIRE, P. (2004). Pedagogia da Autonomia – Saberes Necessários à Prática Educativa, Coleção Leitura, Editora Paz e Terra, São Paulo.
ORNELAS, J. (1996). Psicologia Comunitária: Origens, Fundamentos e Áreas de Intervenção. Análise Psicológica, 15 (3), 375-388. Lisboa: Instituto Superior de Psicologia Aplicada.
|137
Albeiro Mejia Trujillo, Paulo Speller