Aponta-se o ano de 1975 como marco fundador da segunda onda feminista brasileira. É importante, todavia, destacar que, antes dessa data, muitas mulheres já se identificavam com o feminismo e realizavam militância de acordo com essa identidade política. A escolha pela ONU desse como o Ano Internacional da Mulher, início da “década da mulher”, e a realização da conferência na Cidade do México, foram motivados por mobilizações, publicações e discussões que já vinham ocorrendo e corroboraram para divulgar, ainda mais, as ideias feministas.
Após o retorno de várias mulheres exiladas durante a ditadura militar brasileira, os grupos de consciência/reflexão começaram a ganhar corpo. Nesses círculos, os periódicos feministas ganharam circulação e mais mulhe- res foram tendo acesso ao que vinha sendo colocado pelos movimentos feministas. Esses grupos de reflexão não ficaram circunscritos, no entanto, ao Sudeste brasileiro – Rio-São Paulo. Pelo contrário, foram sendo organi- zados em diferentes estados da federação das diferentes regiões do país.
As ideias dos feminismos ganhavam, também, mais adeptas e as redes iam sendo formadas. O surgimento desses grupamentos de mulheres des- contentou militares, algumas militantes do Movimento Feminino pela Anis- tia (MFPA)3, fundado em 1975, como a sua presidente nacional Therezinha Zerbini, e vários setores da esquerda (DUARTE, 2012, p. 81). Liderada, majo- ritariamente, por homens, consideravam as pautas das mulheres divisio- nistas, diante da necessidade de resistir à ditadura, ou cópias daquilo que feministas dos países de primeiro mundo estavam fazendo. A gestação de um feminismo “bom para o Brasil” só teria sentido em articulação com as lutas sociais mais amplas.
Essa posição foi causa de muitos conflitos entre as mulheres e partidos e outras organizações de esquerda ou fez com que muitas dessas entidades, legalizadas ou clandestinas, tentassem dominar ou direcionar reivindicações
3 O MFPA surgiu da articulação de mulheres paulistas na defesa dos atingidos pelo regime autoritário
a partir de 1964, tendo como objetivo inicial a conquista da anistia. Núcleos espalharam-se por todos os estados reunindo dezenas de mulheres. Registrado em cartório, o Movimento foi presidido nacionalmente pela advogada Therezinha Zerbine, entre 1975 e 1979. Ver Duarte (2012).
e ações feministas a partir de seus interesses. Teles (2013, p. 53) nos lembra da liderança de mulheres do Partido Comunista Brasileiro (PCB) na criação do Centro de Desenvolvimento da Mulher, em 1975, após a realização do Encontro para o Diagnóstico da Mulher Paulista, que também contou com a participação do Centro de Informação da ONU e da Cúria Metropolitana. A maior parte das feministas, de fato, eram militantes de esquerda.
Algumas tomaram contato com as pautas do movimento de mulheres em suas experiências no exílio no Chile, Estados Unidos, França. Outras articularam-se à causa em grupos de discussão, recém egressas de prisões políticas ou da clandestinidade na elaboração de jornais dentro e fora do Brasil. Os primeiros jornais feministas produzidos no Brasil no período, como Brasil Mulher e Nós Mulheres, carregam a marca dessas imbricações. As pautas, segundo Teles e Leite (2013, p. 65), eram definidas em reuniões semelhantes às dos partidos clandestinos de esquerda, com acirrado debate político, perpassadas pela discussão de temas específicos e análises conjun- turais que podiam durar dias.
As publicações eram destinadas às mulheres do campo popular, com quem as matérias eram lidas e debatidas, “transformando estes momen- tos em atos de construção de um feminismo popular, contra a ditadura e comprometido com a luta de classes” (TELES; LEITE, 2013, p. 67). Algumas, no entanto, romperam com seus grupos, partidos ou organizações por não se sentirem contempladas e outras continuaram a militar na abertura e após o fim da ditadura, implantando grupos ou secretarias de mulheres em partidos ou fora deles.
De acordo com a militante feminista cearense Guedes (2018), “os movimentos de esquerda se davam conta da necessidade de organizar as mulheres, antes que elas se organizassem sós”.As mulheres cearenses, não muito diferentes das demais brasileiras, foram se articulando a partir das discussões, leituras e demandas propostas pelo feminismo. Além disso, apontam-se experiências e leituras trazidas por diferentes mulheres exiladas do Brasil, mas também das que ficaram no país e circulavam por diferentes estados. Isso permitiu o contato e fez que os acessos às discussões feministas se tornassem mais próximos.
Parte do movimento feminista, no Ceará, derivou das militantes que atuavam no Movimento Feminino pela Anistia (MFPA)4. Com o processo de anistia, o núcleo foi desfeito e “as mulheres, então envolvidas nos movimen- tos de resistência, tomaram a iniciativa de organizar, em 1980, o I Encontro
4 “O núcleo cearense do MFPA é o terceiro a ser criado, em março de 1976. Sua origem remete às reu-
niões de familiares de presos políticos no ano anterior, em Fortaleza, para discutir formas de intervenção e defesa de parentes encarcerados pela ditadura” (DUARTE, 2009, p. 22).
da Mulher Cearense” (VITORINO, 1994, p. 16). Esse encontro colaborou para consolidar a União das Mulheres Cearenses (UMC), considerada a primeira entidade feminista no Ceará. A UMC surgiu em 1979. Com o fim do Movimento Feminino pela Anistia, muitas militantes resolveram continuar organizadas num grupo de mulheres. Na fundação da organização, a direção da UMC estava articulada com a ala do PCdoB, que fazia oposição à direção nacional, então liderada por João Amazonas. Em Pernambuco e Maranhão também é fundada, no mesmo período, a União das Mulheres, ligadas ao PCdoB (ARRA- ZOLA, 2000, p. 79)5, o que aponta para uma estratégia regional de disputa do movimento de mulheres. Mas, ao longo da existência da entidade, no Ceará, foram havendo rachas, nos quais as mulheres da UMC passaram a dialogar com outros partidos políticos (DUARTE, 2012).
O I Encontro da Mulher Cearense aconteceu, também, em decorrência da necessidade de preencher os espaços deixados pelo MFPA, visto que o intuito era viabilizar uma participação feminina na luta política. A UMC funcionou como esse canal, que proporcionava às mulheres uma atuação popular frente a diferentes bandeiras de luta, tais como: o combate à dita- dura militar e a luta de classes. Todavia, com a chegada de novas leituras e partilha de experiências, algumas pautas foram sendo introduzidas no debate político, e uma das principais, levantadas pela UMC, foi a violência sofrida pelas mulheres.
A temática passou a fazer parte da ação feminista, no Brasil, a partir de 1976, com a onda de indignação promovida pelo assassinato de Ângela Diniz por seu namorado Doca Street, em Cabo Frio, no Rio de Janeiro. Inconfor- madas com a absolvição, as mulheres organizadas em entidades feministas pressionaram a opinião pública e, num segundo julgamento, a sentença foi revista e o assassino condenado a longa pena, embora não a tenha cum- prido em sua integralidade. A movimentação desencadeou a campanha “Quem ama não mata”, que se transformou em palavra de ordem em todo o país. As feministas denunciaram maridos e companheiros perpetradores de violência e exigiam o fim de justificativas para esses crimes tais como o suposto direito de “lavar com sangue a honra ameaçada” (TOSCANO; GOL- DEMBERG, 1992, p. 39).
As discussões em torno da violência começaram a ser problematizadas, visto que o intento era descobrir e sanar as causas disso: “O que é que levava a sociedade a ser tão violenta com as mulheres”? Na pergunta retórica de
5 Além do União das Mulheres, também foi fundado em Pernambuco o Ação Mulher, em 1978, com
características mais autônomas em relação aos partidos. O Centro da Mulher de João Pessoa, que foi criado em 1979, após a realização do I Encontro Nacional Feminista da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), em Fortaleza, passou a ser denominado posteriormente de Grupo Maria Mulher. Em 1980, no Maranhão, surgiu o Grupo Mulheres da Ilha, também de caráter mais autônomo, segundo Ferreira (2011, p. 3-4).
Silva (2018), podemos avaliar a dimensão da problemática que envolvia as agressões contra as mulheres, naquele período, décadas de 1970-80, mas que se prolonga até hoje. O próprio Grupo 4 de Janeiro, ao qual ela pertencia, é alusão a uma das primeiras lutas a mobilizar mulheres no Estado para a questão da violência de gênero. O nome desse grupo emergiu a partir de um acontecimento que repercutiu nacionalmente: a morte, naquela data, em 1981, de Maria Celizete Ribeiro Moreira6. Mulher de classe média, ela ateou fogo em seu próprio corpo, embebido em querosene, por não con- seguir cumprir uma série de 12 mandamentos7 impostos pelo marido que a surrava e ameaçava constantemente. Além de honrar a memória de Celi- zete, cobrando a condenação do marido por indução ao suicídio, o Grupo se organizou com o objetivo de discutir questões mais específicas das mulheres, já que as entrevistadas não consideraram ter essas demandas supridas em outros grupos de mulheres locais, como a União das Mulheres Cearenses.
Quando os movimentos feministas começaram a questionar e discutir os valores, os papéis sociais, mas também a construção social em torno das hierarquias entre os sexos, tornaram-se evidentes as práticas cotidianas, nas quais o sexismo era reproduzido. Para essas várias mulheres, que estavam se engajando em entidades autônomas, a relevância de se discutir violên- cias, bem como outras demandas específicas, contribuiu para a formação de uma identidade política feminista, na qual essas se identificavam com o feminismo e construíram militância a partir dessas bandeiras.
No Ceará, a militância feminista tornou-se organizada em instituições, a partir de 1979, com a fundação da UMC, após o fim do Movimento Femi- nino pela Anistia. Todavia, ao longo da década de 1980, outras entidades foram sendo fundadas, tais como: o Centro Popular da Mulher e o Grupo Feminista 4 de Janeiro. Esses grupos foram criados a partir da dissidência de mulheres, que pertenciam à UMC. Essas novas organizações contribuíram para disseminar as discussões feministas, que chegavam ao Brasil, ao mesmo tempo que aprofundavam as demandas apresentadas pelos movimentos de mulheres. Isso fez com que diferentes mulheres aderissem à militância feminista, como conta Guedes (2018): “Uma coisa interessante desse grupo era a diferença entre as mulheres. Tinham mulheres, assim, super politizadas,
6 Mulher se mata com fogo porque não podia cumprir leis impostas pelo marido. Jornal do Brasil. Dis-
ponível em: http://memoria.bn.br/DocReader/docreader.aspx?bib=030015_10&pasta=ano%20198&pes- q=maria%20celizete. Acesso em: 17 dez. 2018.
7 Entre os mandamentos impostos pelo marido estavam: 1) Nunca lhe ofender com palavras ásperas;
3) Durante sua ausência por motivos de viagem a serviço do Banco, não sair em passeio por qualquer motivo, tais como: praia, cinema, festas em clube ou residência; 6) transferir todo o patrimônio que estiver em seu nome para seu marido, não podendo desta data em diante comprar nada no seu próprio nome; 7) Em caso de ser empregada em qualquer atividade empresarial, o seu ordenado depois de tirada determinada quantia para compras de objeto de uso pessoal com a devida autorização, o restante será entregue ao seu marido para a garantia do futuro do casal. Jornal O POVO, 6 de janeiro de 1981, p. 8.
mulheres mais ou menos politizadas, mulheres politizadas de jeito nenhum, que foram aprendendo”.
Os feminismos foram vivenciados, como se depreende desta narra- tiva, de diferentes formas e por diferentes mulheres, que foram aderindo ao movimento e aprofundando/aprendendo acerca das discussões ou, de alguma forma, tiveram sua militância política atravessada pelo feminismo que, em muitos casos, tornou-se a principal forma de luta e transformou a vida de muitas mulheres.
Com intuito de levar as ideias feministas para diferentes mulheres do estado, fosse nas periferias de Fortaleza-CE, mas também nas zonas rurais e outros municípios do Ceará, essas entidades buscavam disseminar os feminismos, apesar dos entraves e do contexto da época: “Pelo menos o recado de que outro caminho era possível, de que as lutas específicas eram necessárias, a gente conseguiu” (GUEDES, 2018, s/p). Nesse sentido, o que as mulheres feministas buscavam, no estado, era proporcionar a discussão, fazer com que mais mulheres acreditassem na possibilidade de mudança e de emancipação feminina. No Estatuto da UMC, aprovado em 1982, o segundo artigo traz como uma das finalidades da instituição “elevar o nível de conscientização das mulheres sobre sua situação de exploração”8. Seguindo o caminho trilhado pelas feministas nas diferentes regiões do país, as cearenses buscaram chegar a diferentes mulheres com o intento de transformação das relações de gênero.
Todavia havia variedade nesses grupos formados, no Ceará, pois as propostas de discussões eram diferentes. Enquanto a UMC centrava suas pautas na violência contra a mulher, aliada às demandas das chamadas “pautas gerais” – combate à ditadura militar e à luta de classes –, o Grupo Feminista 4 de Janeiro trazia discussões mais específicas que vinham sendo colocadas pelos feminismos no Brasil. Esses grupos, no entanto, mesmo discordando em alguns aspectos no que dizia respeito à militância, repre- sentaram importantes passos nas lutas feministas, visto que colaboraram para aprofundar o debate no estado, difundindo as demandas por diferentes regiões, agregando diversas mulheres e contribuindo para o processo de identificação feminista. A UMC, em 1984, contava com um número de 1.600 mulheres associadas9.
Esses dados nos revelam uma quantidade significativa de filiadas, tendo em vista que os relatos sobre grupos feministas nos anos 1970 apontam
8 O Estatuto da UMC foi aprovado em 8 de março de 1981, durante a realização do II Encontro da Mulher
Cearense, conta com 31 artigos, os quais tratam desde a finalidade da entidade, caráter, objetivos, orga- nização e funcionou como documento que regulava a instituição.
9 De acordo com Vitorino (1994), esses números foram levantados a partir das fichas de cadastro que
quase sempre para pequenos grupos (TOSCANO; GOLDENBERG, 1992, p. 47) e permitem pensar na articulação da UMC com os movimentos populares e sindicais em reorganização, em Fortaleza e também nas cidades do interior. Em que medida as associadas identificavam-se com as pautas específicas ou eram atraídas pelas discussões mais gerais? É possível pensar numa adesão ainda maior de mulheres que preferiam não se associar de forma direta, por receio dos militares, mas também por conta dos estereótipos que cercavam as feministas no período?
Havia preconceitos em torno da militância feminista, fosse por parte da esquerda ou dos militares que estavam no poder. Os feminismos brasi- leiros vivenciaram a especificidade de uma ditadura, junto a outros países da América Latina. Atrelados a essa conjuntura estavam os ataques sexistas, lançados ao movimento, associado “à luta de mulheres masculinizadas, feias, lésbicas, mal-amadas, ressentidas e anti-homens” (PEDRO, 2013, p. 239).
Enquanto nos Estados Unidos e na Europa as especificidades da luta de mulheres e de grupos oprimidos eram expostos com força, no Brasil, tanto o pensamento liberal como o marxista revolucionário dividiam as possibilidades de luta em dois campos: busca da democracia e derrubada da ditadura ou luta do proletariado contra a burguesia. Havia pouco espaço para a transformação das problemáticas das mulheres em debate público. Complicador também foi a forte campanha de depreciação sofrida pelas feministas em veículos da grande imprensa e da imprensa alternativa10, que ora ignoravam o debate, por achá-lo sem importância, ora utilizavam-se de ironia e da galhofa para tratar as novas ideias.
Compreendemos, ainda, a necessidade da criação de grupos autôno- mos, uma vez que a esquerda não via com bons olhos a organização femi- nista, pois enxergava nessa articulação o divisionismo da luta geral. Isso fez com que algumas mulheres abandonassem a militância feminista ou nem chegassem a militar, mas outras, no entanto, aderiram ao feminismo, bem como, muitas vezes, romperam com seus respectivos partidos políticos.
Aos poucos, esses grupos que iam surgindo no Ceará foram ganhando espaço e tornando mais visíveis suas demandas e pautas de discussões. Segundo Guedes (2018):
“A gente se impôs de uma maneira tão bacana, a gente não ligava, ia acontecendo, então, o jeito foi respeitar e o grupo foi ficando respeitado, também, dentro da sociedade cearense, não só dentro da esquerda, porque a gente conseguiu levar temas”.
10 Por exemplo, podemos analisar algumas publicações do periódico O Pasquim, que começou a circular
em 1969. O jornal era de esquerda e fazia críticas à ditadura militar, também, reservava espaço em suas páginas para criticar as feministas, fossem a partir de charges ou de matérias, nas quais a estética das mulheres intituladas feministas era duramente atacada. Ver mais em: Crescêncio (2017).
A repercussão dos grupos crescia e fazia com que mais mulheres ade- rissem ao movimento. Dessa forma, não apenas os feminismos cearenses se expandiram, bem como outros setores da sociedade foram lidando de forma mais receptiva com as suas bandeiras. Todavia o caminho não foi fácil, tanto no que diz respeito ao momento no qual o feminismo ressurge no país como na resistência dos próprios companheiros de militância.