B. Méthodologies de travail et ressources mobilisées
2. Relevés de terrain et gestion de bases de données
REPUBLICANO RIO-GRANDENSE
Ao analisarmos a trajetória política do Coronel Guilherme Gaelzer Netto no PRR e, em especial, na administração pública de São Leopoldo, temos de perceber as aproximações e especificidades de sua atuação em face do sistema político vigente no Brasil e no estado do Rio Grande do Sul. O exercício do cargo de Intendente Municipal de São Leopoldo (1902-1916) ocorreu nos mandatos de Augusto Borges de Medeiros (1898-1908; 1913-1923) e de Carlos Barbosa (1908-1913) como governadores do estado do Rio Grande do Sul.
Gaelzer Netto percorreu trajetória semelhante a dos demais chefes políticos locais do PRR. Em outubro de 1901 foi, inicialmente, nomeado pelo presidente do PRR, Júlio de Castilhos, para o cargo de delegado de polícia242 e, posteriormente, nomeado, indicado e eleito para o cargo de intendente municipal. A nomeação para intendente ocorreu após a renúncia de Florêncio Câmara, que se encontrava doente. Durante meses a intendência de São Leopoldo fora dirigida pelo Secretário Luiz Lourenço Stabel.243 A renúncia de Florêncio Câmara
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Gaelzer Netto e sua família costumavam frequentar os banhos de Cidreira e Tramandaí.
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Em 1911, a Sociedade Estrela do Sul, juntamente como a Sociedade Ginástica e União Operária, promoveram no sítio Fião uma grande festa com churrasco e cerveja, seguida de um baile campestre. O Regimen, 31/05/1911, p. 1-2.
242
REIS, op. cit., p. 240.
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Luiz Lourenço Stabel foi escriturário da intendência de São Leopoldo. Foi vice-intendente interino nos mandatos de Florêncio da Silva Câmara e Guilherme Gaelzer Netto. Participou ativamente da vida política da cidade, vindo a tornar-se um grande amigo de Gaelzer Netto. Exonerou-se do cargo de escriturário na intendência em 1917 para assumir o cargo de escrivão da Coletoria Federal. Foi vice-intendente no mandato de Theodomiro Porto da Fonseca. Faleceu no ano de 1938, no Hospital São Francisco, em Porto Alegre. MOEHLECKE, op. cit., p.137-138.
levou os jornais da capital a especular a indicação do sogro de Gaelzer Netto, Major Luiz Bender, presidente do Conselho Municipal, como candidato oficial do PRR ao cargo de Intendente Municipal.244
Nomeações para cargos públicos eram uma prática amplamente disseminada no PRR sob o comando de Julio de Castilhos e Borges de Medeiros. Serviam como estratégia de cooptação das lideranças locais, moeda de troca com os coronéis, bem como para o partido assegurar o controle sobre o funcionalismo policial e jurídico, de inspetores, fiscais e procuradores fazendários ou da Secretaria de Obras Públicas.245 Ocupar o cargo de delegado de polícia somente era possível para indivíduos de influência no âmbito da rede de compromissos e aliados do chefe do governo estadual. Os delegados eram funcionários escolhidos em comum acordo entre as lideranças políticas locais e o chefe do governo estadual. Qualquer cidadão podia preencher este cargo, não havendo necessidade de diplomas ou de concurso público.246 A nomeação de Gaelzer Netto mostra que a composição política do PRR era heterogênea; incluía em seus quadros não só os grandes proprietários de terra, como os estancieiros da região da Campanha ou dos Campos de Cima da Serra (ou simplesmente Serra), mas estava aberto a indivíduos que se projetavam através da ascensão social, como geralmente ocorria nas áreas coloniais alemãs e italianas. Gaelzer Netto pertencia a uma família que ascendeu socialmente em meio às colônias através do comércio e do transporte de mercadorias coloniais pelo rio dos Sinos para Porto Alegre. Este prestígio ampliou-se e consolidou-se ainda mais através de sua participação na vida política de São Leopoldo. Ao filiar-se ao PRR, Gaelzer Netto pode ter refletido na conveniência de agregar-se a uma instituição reconhecida pela população de São Leopoldo e que garantisse o acesso a um lugar respeitável e de representatividade política e social.
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A renúncia de Florêncio Câmara foi noticiada pelo Jornal Deutsches Volksblatt, sendo que a indicação do presidente do Conselho Municipal de São Leopoldo para ocupar o cargo de intendente, Major Luiz Bender, vinha sendo disseminada pelo Jornal Correio do Povo. Deutsches Volksblatt, 07/01/1902, p. 02. MJS.
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AXT, Günter. Coronelismo indomável: o sistema de relações de poder. In: GOLIN, Tau; BOEIRA, Nelson (Coords.). Primeira República (1889-1930). Passo Fundo: Méritos, 2007. p. 107. v. 3. Tomo I.
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AXT, Günter. Gênese do estado moderno no Rio Grande do Sul: 1889 – 1929. Porto Alegre: Paiol, 2011. p. 111.
Gaelzer Netto iniciou sua trajetória política através de cargos públicos ocupados mediante indicação de correligionários políticos do PRR, dentro da estrutura coronelista e partidária característica da Primeira República. Nela a unidade básica de organização política eram os partidos estaduais, sendo que o Rio Grande do Sul desempenhou, no início da Primeira República, um papel de elemento de instabilidade no regime federal. Aqui o PRR tinha características próprias e seguiu uma política de regionalismo.247 O sistema coronelista implantado no Rio Grande do Sul teve, além das características coronelistas do restante do Brasil, elementos tipicamente nativos, que se configuraram dentro de condições geográficas e sociais específicas.
O coronelismo da Primeira República baseava-se em laços de lealdade, de compromissos e de dependência, desde o nível econômico até psicológico. No Rio Grande do Sul, o coronelismo agregou outros valores à mentalidade social típicos do assim chamado “ciclo guerreiro”, ou militar-pastoril, período no qual os grandes proprietários de terra, os estancieiros, desempenharam um papel militar fundamental para a consolidação das fronteiras sulinas no Império. Muitos exerceram o papel de “caudilhos” locais, semelhante às lideranças uruguaias e argentinas. Segundo Loiva Otávio Félix “o caudilho gaúcho teve seu poder reconhecido mais pelo consenso do grupo social do que pela força”. O carisma foi, portanto, elemento constituinte do coronelismo rio-grandense.248
Estes valores fortaleceram a idéia de submissão à autoridade, o acatamento aos representantes do governo por considerá-los de utilidade
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Segundo Joseph Love, “neste padrão de comportamento característico do regime federativo, os atores sociais aceitam a existência de uma entidade maior, o estado-nação, e buscam o seu favorecimento econômico e a proteção política desse mesmo estado-nação, mesmo que isso coloque em risco o próprio regime político”. LOVE, Joseph. O sistema de Castilhos 100 anos depois. In: AXT, Gunter (Org.). Julio de Castilhos e o paradoxo republicano. Porto Alegre: Nova Prova, 2005. p. 73.
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Segundo a autora: “Na segunda metade do século XIX, seu papel de chefe eleitoral e de mediador tornou-se preponderante. Por outro lado, esse coronel que passou a emergir com forte acento carismático apresentava pecularidades em relação aos demais do país. Situava-se de maneira intermediária entre o coronel paulista, já muito mais absorvido pela máquina partidária e dependente do predomínio das oligarquias estaduais, e o coronel platino, com uma margem maior de autonomia e de violência na execução das ordens e manutenção do poder”. FELIX, Loiva Otelo. Coronelismo Borgismo e
social e com função tutelar indispensável à tranqüilidade do grupo social; a consciência da necessidade de governos fortes, prestigiados de capacidade organizadora e executiva. A formação de uma mentalidade social que valorizava a obediência e submissão às autoridades do Estado ou daqueles que, ao assumirem a liderança defensiva assumiam também, aos “olhos do povo”, a figura de “benfeitores sociais”, preparou as relações de compromisso coronelista específicos da região da campanha rio-grandense.249 Isso também foi de fundamental importância para a hegemonia do PRR nas áreas coloniais como São Leopoldo, onde Júlio de Castilhos e Borges de Medeiros tiveram de consolidar seu poder político.
Entretanto, o coronelismo no Rio Grande do Sul, de forma geral, assumiu proporções mais autônomas em relação ao poder central, mesmo quando se tratava de seguir as orientações do PRR. Júlio de Castilhos e Borges de Medeiros, ao assumirem o poder político estadual e a chefia do PRR, tiveram de manter constantes negociações com as lideranças locais a fim de garantir a sua legitimidade no poder. Os coronéis do Rio Grande do Sul não eram clássicos exemplos de subserviência. A coesão do PRR sob liderança de Júlio de Castilhos e Borges de Medeiros também advinha da integração dos coronéis nas bases partidárias. Muitos, apesar de estarem longe dos postulados teóricos positivistas que alimentavam a chefia do partido/estado, tinham seus interesses políticos pessoais atendidos. Esses coronéis, transformados em intendentes, participavam dos jogos de poder com sua força política local, com seu prestígio que se traduzia em votos para o PRR. Os coronéis aceitavam o poder de Júlio de Castilhos e Borges de Medeiros porque recebiam “pão e circo”. Recebiam “pão” no aparato de mandonismo e continuísmo de seus privilégios e o “circo” no aparato cerimonial que regulava as regras do partido.250
O coronelismo rio-grandense não era, portanto, homogêneo. Nas áreas coloniais onde havia poucos latifúndios, o indivíduo que manejava os votos não era o estancieiro. Segundo Joseph Love, “o que singularizava o papel do coronel gaúcho era o papel que ele representava na estrutura do partido”.251 Gaelzer Netto, como já havíamos mencionado anteriormente, iniciou sua trajetória política através dos cargos públicos ocupados por indicação de correligionários
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FELIX, Loiva Otelo. Coronelismo Borgismo e cooptação política. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1987. p. 25.
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Ibid, p. 69.
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políticos do PRR. O convite para assumir a função de delegado de polícia mostra que a estrutura partidária também estava aberta a indivíduos oriundos das áreas coloniais do Rio Grande do Sul. Os coronéis oriundos das regiões coloniais destoavam da figura típica de coronel da Primeira República provenientes da região da Campanha gaúcha.
A composição da liderança política do estado do Rio Grande do Sul já havia sofrido uma mudança significativa a partir da Revolução Federalista de 1893, que consolidou o PRR no estado e alçou um novo grupo ao poder. A elite dos estancieiros oriunda da região da Campanha, e que havia dominado por muito tempo a política estadual, foi substituída por uma quase elite cuja origem social remonta à região da Serra, ou do assim chamado Planalto Superior. Júlio de Castilhos e seus colaboradores tinham menos ligações com a nobreza da província, eram menos ricos, apesar de serem proprietários de terras.252 O que interessava a Castilhos e ao PRR era a disposição dos integrantes do partido de se submeter às decisões superiores.253 Guilherme Gaelzer Netto preenchia este requisito e, desta forma, conquistou um espaço de liderança no PRR de São Leopoldo.
Por outro lado, a família e a posição social ao qual se davam tanta importância em outras regiões do Brasil tinham menos significado no Rio Grande do Sul.254 O fato de parcela significativa das famílias Gaelzer e Sehn ser de colonos e de comerciantes, e de ter feito parte dos Mucker e sucumbido em meio ao massacre, mostra que o prestígio alcançado nos anos anteriores em São Leopoldo conseguiu ser preservado e não trouxe prejuízos à cooptação de Guilherme Gaelzer Netto ao PRR. Sua família, apesar de envolver-se com os Mucker, era oriunda dos novos grupos sociais que, através da ascensão social nas regiões coloniais, conseguiram acumular patrimônio e adquirir uma posição de prestígio e destaque em meio aos imigrantes alemães. Muitas famílias Mucker foram perseguidas após o conflito e tiveram de retirar- se da região do Ferrabrás para não sofrer perseguições. Algumas continuaram a ser perseguidas nos novos locais nos quais se estabeleceram. O surgimento de novos elementos que viriam a configurar as elites do grupo étnico alemão só foi possível porque da
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LOVE, Joseph. O Rio Grande do Sul como fator de instabilidade na Primeira República. In: FAUSTO, Boris (Org.). História geral da civilização
brasileira. 5. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1989. p. 111. 253
Ibid, p. 113.
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circunscrição serrana, onde se localizavam os núcleos coloniais alemães e italianos, emergiram sempre suportes políticos mais significativos (em nível político, militar e de representatividade de interesses econômicos).255
Foi a partir do convite do Coronel João Corrêa Ferreira da Silva para ocupar o cargo de delegado de polícia de São Leopoldo que Gaelzer Netto se projetou na vida política.256 João Corrêa conquistaria status político no mandato de Gaelzer Netto, quando ocupou o cargo de vice-intendente (1904-1908). Através de influência política conseguiu realizar diversas obras em São Leopoldo, entre elas o ramal ferroviário construído em 1911, que ligaria o centro da cidade até sua pedreira localizada na Fazenda São Borja. Este empreendimento forneceria, durante muitos anos, a matéria-prima necessária para que Gaelzer Netto fizesse os melhoramentos urbanos em São Leopoldo.257 Como empresário, João Corrêa dependia muito dos investimentos públicos, principalmente em relação ao poder estadual, vindo a tornar-se Intendente de São Leopoldo em 1924.
A nomeação de Gaelzer Netto e sua posterior indicação como candidato à Intendente Municipal de São Leopoldo também foi decidida pelo líder do PRR em Porto Alegre, Júlio de Castilhos. Através da imprensa, as lideranças partidárias locais solicitavam aos eleitores que referendassem a indicação do chefe do partido estadual. No Deutsches Volksblatt houve a publicação de um “a pedido” do PRR de São Leopoldo, no qual se conclamava os eleitores locais a comparecer às urnas no dia da eleição, 16/02/1902 e, desta forma, referendar a decisão de Júlio de Castilhos:
A Pedido – Eleição Municipal – Aos eleitores
republicanos de São Leopoldo. A comissão executiva do partido republicano, após ouvir a opinião do venerado Chefe Dr. Júlio de Castilhos, decidiu indicar e recomendar Guilherme Gaelzer Netto como candidato às eleições municipais de São Leopoldo. O mesmo goza da confiança dos companheiros de partido e da população trabalhadora do município. A comissão executiva
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FELIX, op. cit., p. 17.
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Carta do Pastor Wilhelm Rotermund ao Cônsul Alemão de Porto Alegre, 19/03/1922. AMT.
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GERTZ, René. O Aviador e o carroceiro: política, etnia e religião no Rio Grande do Sul dos anos 1920. Porto Alegre: EDIPUC, 2002, p. 189.
solicita a todos os eleitores que compareçam às urnas no dia 16/02/02 e, sem exceção, votem no candidato do partido. 24/01/02 Assinam: Jacob Wickert, Carlos Hennemann, Jacob Knierim, João Baptista Soares da Silva e Souza, Rod. José de Figueiredo Sobrinho e Guilherme Sperb.258
Como veremos mais adiante, a indicação de indivíduos pela cúpula do PRR como “candidatos oficiais” das seções do partido nas áreas coloniais, ou para cargos dentro da estrutura estatal, assim como outros aspectos da administração castilhista-borgista, sofreria diversas críticas pela imprensa local das áreas coloniais. Estas críticas seriam publicadas nos periódicos de língua alemã de orientação católica e luterana.
O relacionamento do Gaelzer Netto com a população local de São Leopoldo e suas lideranças, apesar de também ocorrer, em algumas ocasiões, através da truculência política típica dos coronéis da região da Campanha, não se dava da mesma forma, tinha suas especificidades. A análise dos elementos de configuração social do ciclo pastoril-militar necessários para entender o coronel do Império e que, posteriormente, influenciaram o comportamento social dos coronéis gaúchos, principalmente os da região da Campanha, podem nos fornecer ingredientes que permitem compreender as possibilidades de alteração das relações coronel/dependentes/coronel/estado que ocorreram na República e, em especial, nas regiões coloniais.
A formação de uma oligarquia militar de aspecto caudilhesco; a debilidade do sentimento religioso e diminuta importância do clero; a existência de um conjunto de valores sócio-culturais ligado ao militarismo-defensivo, tais como as relações de obediência e relativa submissão à autoridade do Estado; a valorização da coragem e ousadia; o uso da violência e do arbítrio e a presença da liderança civil forte em paralelo à oficial/militar, foram elementos característicos dos coronéis gaúchos da Campanha.259
Nas áreas coloniais, as relações das lideranças locais como Gaelzer Netto com a população imigrantista adquiriram características próprias, em parte distintas das relações que ocorriam na região da Campanha. As áreas coloniais alemãs mantiveram um distanciamento respeitoso em relação ao castilhismo-borgista, nunca aderindo de forma
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Deutsches Volksblatt, 31/01/1902, p. 06. MJS.
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incondicional ou definitiva. Isso ocorreu por causa da especificidade de organização das comunidades imigrantistas no sul do Brasil, que criaram práticas políticas enraizadas nas tradições comunitárias locais, ou foram influenciadas pelas idéias liberais trazidas durante o Império por determinados grupos imigrantistas como os Brummer.260
As comunidades imigrantistas, dado ao seu relativo isolamento geográfico no interior, sempre cultivaram certa autonomia em relação ao poder central, pois organizaram uma vida associativa sem ajuda do Governo Imperial. Escolas, igrejas, imprensa e clubes sociais foram organizados e constituídos com pouca ou quase nenhuma interferência do poder público. Isso fortaleceu estas instituições que tinham um caráter político, econômico, social, cultural, educacional e religioso. No Rio Grande do Sul estas instituições estavam rígida e eficazmente organizadas para enfrentar um Estado forte que vinha de encontro aos seus interesses.261 Estavam, portanto, organizadas não só para enfrentar e oferecer resistência aos interesses das lideranças locais e regionais do PRR, mas prontas a pautar, defender e negociar interesses próprios das áreas coloniais. Existe, portanto, segundo Felix, “uma dicotomia entre o universo político e a sistemática do poder regional da área de colonização alemã e o poder central em nível estadual”.262
Gaelzer Netto, um elemento pertencente à etnia alemã, não podia usar o mesmo expediente comumente utilizado pelos demais coronéis da
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Os Brummer foram cerca de 1.800 soldados mercenários germânicos imigrados para o Brasil no ano de 1851 para lutar na guerra contra Oribe e Rosas. Brummer significa murmurador, resmungador. Tal alcunha deve-se às queixas que faziam por causa dos soldos e das condições de vida às quais foram submetidos no Brasil. Apenas 400 permaneceram até o final do contrato com o governo brasileiro. O restante morreu ou desertou. Os que permaneceram até o fim do contrato dirigiram-se às colônias alemãs do Rio Grande do Sul, onde se estabeleceram trabalhando como comerciantes, diretores de colôniais, agrimensores, professores, agricultores e jornalistas. O mais destacado foi Karl Von Koseritz, que se distinguiu como jornalista, defensor das ideias liberais e dos direitos políticos dos imigrantes. Karl Von Koseritz elegeu-se deputado provincial e fundou vários jornais, entre eles o Deutsche Zeitung.
261
GERTZ, René Emiliano. O castilhismo e a colônia alemã. In: AXT, Gunter (Org.). Julio de Castilhos e o paradoxo republicano. Porto Alegre: Nova Prova, 2005. p. 159.
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FELIX, Loiva Otelo. Religião e política: os teuto-brasileiros e o PRR. In: MAUCH, Cláudia; VASCONCELOS, Naira (Orgs.). Os alemães no sul do
Primeira República para fazer valer seus interesses e do PRR em São Leopoldo, ou seja, o uso da violência desmedida para impôr sua vontade, mas manter uma política de constante negociação com as demais lideranças locais. Os padres e pastores luteranos, por exemplo, que desempenhavam um papel social fundamental na vida das colônias, representavam uma permanente ameaça de insubordinação, visto que influenciavam o eleitorado com suas opiniões políticas nos periódicos de língua alemã que publicavam.
A Igreja Católica, através dos jesuítas, e o Sínodo Rio-Grandense, por meio do jornalista e Pastor Wilhelm Rotermund, dominavam a imprensa local de São Leopoldo. Através da publicação de dois periódicos de circulação estadual, Deutsches Volksblatt (católico) e Deutsche Post (luterano), estes jornais disputavam a opinião pública colonial com o Deutsche Zeitung, publicado em Porto Alegre pelo já então falecido jornalista Karl Von Koseritz. Como eram publicados na língua alemã, tornavam mais fácil a disseminação de ideias e opiniões contrárias à ideologia partidária do PRR nas colônias, bem como o acesso dos colonos as mesmas. Sua censura tornava-se, desta forma, mais difícil pelas autoridades públicas luso-brasileiras, que não tinham condições de fiscalizá-los, dado ao fato de não dominarem o idioma alemão.263
A indicação de Guilherme Gaelzer Netto como candidato oficial do PRR, apesar de sua origem étnica alemã, não deixou de sofrer críticas por parte da imprensa local de São Leopoldo, que considerava sua