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RELATIVE A LA CREATION D’UN POSTE DE CHARGE DE MISSION « PLAN DE DEPLACEMENTS D’ENTREPRISES »

A pluralidade e a mistura são características comumente atribuídas à umbanda. Entender, então, a maneira como se dispõem e movimentam as unidades, os fragmentos, as partículas materiais e simbólicas da religião, as quais mudam de nível (individual, comunidade do culto, contexto imediato, contexto geral, etc.) e complexidade, depende diretamente de uma compreensão não estática (temporal e espacialmente falando) dos indivíduos e grupos e de delimitações simbólico-interpretativas que tenham como fator central a incerteza, a inconstância, a variabilidade. Afinal, um conhecimento digno pressupõe a adequação das ferramentas de interpretação à realidade considerada, e não o oposto. Por isso as formas de definir o que está dentro e o que está fora do universo umbandista empregadas

na maior parte das vezes a meu ver são tão problemáticas, exatamente pelo excesso de segurança investida.

Uma das maneiras de interpretar a umbanda consiste justamente em demarcar com precisão o que define a religião em termos de crenças, práticas, objetos e história, obviamente baseado na compreensão que se tem sobre um grupo específico real ou imaginado, o qual empresta suas características para a definição do todo. Isto é bastante comum entre alguns líderes e adeptos da religião, entre os quais foram e são comuns as tentativas de codificação teológico-ritual e de “moralização” da umbanda, que buscam (até hoje sem sucesso) a imposição de um modo legítimo de interpretar e vivenciar o universo umbandista. E é também este tipo de demarcação, a qual toma a parte pelo todo complexo, que opera na interpretação da história e das características da umbanda a partir de um movimento específico, a umbanda branca, como venho sugerindo.

Uma segunda forma de compreender a unidade relativa da umbanda foi proposta por Candido Procópio Camargo, e depois foi retomada por Renato Ortiz (1999), que a vê como um continuum de práticas e crenças delimitado por dois pólos, um mais ocidentalizado (mais próximo ao kardecismo) e outro menos ocidentalizado (mais próximo ao candomblé), entre os quais uma enorme variedade de modos de fazer religioso se alocam. Embora seja uma visão mais adequada do que a referida anteriormente, sugere ainda a existência de limites mais ou menos rígidos, de um início e um fim para esse continuum que só podem ser instituídos arbitrariamente pelo observador, mas que não correspondem a fronteiras reais entre uma forma de religiosidade e outra. Fica difícil escapar com esse conceito da imagem linear e bidimensional de um gráfico, uma interpretação demasiado esquemática, mas não inválida de todo, para a realidade umbandista.

Ligiério e Dandara (1998, p.146), por sua vez, entendem a umbanda como um “ecossistema de idéias religiosas de múltiplas procedências (...) um grande contexto dinâmico constituído por um sistema de relações entre subcontextos relativamente autônomos”. Esta é sem dúvida uma boa maneira de se referir à umbanda, pois permite conceber o dinamismo e a autonomia dependente das partículas formadoras do complexo umbandista, que nas suas incessantes interações e criações desestabilizam constantemente as fronteiras que são evocadas pelos grupos e indivíduos interessados na definição legítima da religião. Justamente por não evocar uma imagem estável, esta interpretação não parece ser muito corrente (a formulação desses autores diferencia-se bastante das demais que encontrei até o momento). Esta perspectiva não delimita o que é ou não é umbanda a priori, mas sim torna evidente a

importância de uma revisão permanente das análises sobre esse universo e a possibilidade de entendermos a umbanda de diversas maneiras ao mesmo tempo:

Substituir complexas florestas tropicais por paisagens homogêneas como desertos, florestas de eucaliptos ou monoculturas de exportação é uma atitude similar a definir a “verdadeira” umbanda como uma coisa só (...) A insistência em buscar uma explicação racional, linear, unívoca e homogeneizadora é um dos traços mais arcaicos (no duplo sentido de antigo e de ultrapassado) do pensamento ocidental (LIGIÉRIO e DANDARA, 1998, p. 160).

Por causa dessas mesmas propriedades destacadas por Ligiério e Dandara sobre o “oceano chamado umbanda” (LIGIÉRIO e DANDARA, 1998, p.13) – metáfora líquida –, que são seu dinamismo, sua abertura, e a possibilidade de um olhar múltiplo sobre ela, que utilizo a metáfora do universo para me referir à umbanda. Tal palavra, bastante útil aos propósitos deste trabalho, evoca a sensação de algo do qual não conhecemos os limites nem a totalidade de aspectos inerentes (mesmo especulando sobre eles), sempre em movimento, em constante expansão, uma realidade composta por infinitas forças que interagem entre si e constituem os fatos e os contextos sobre os quais podemos falar, sem pretender dominar, definir a estrutura, estabilizar a definição.

Pois o que acontece quando uma lógica discursiva sócio-identitária entra em funcionamento no âmbito de determinado universo individual-social-cultural-espiritual de acordo com interesses e necessidades coletivas, como no caso da umbanda, é a constituição mais ou menos eficaz de uma espécie de redoma, de película (discursiva, jamais plenamente eficiente e definitiva) que tenta capturar e estabilizar uma parcela dos componentes deste universo em detrimento do restante de partículas e forças que o compõem e o influenciam contextualmente. Dessa forma é possível apontar o grupo assim estabelecido com certa precisão necessária à existência político-social, à legitimação e ao reconhecimento daquelas características selecionadas como designadoras da coletividade.

Algumas dessas redomas tornam-se crostas espessas e quase intransponíveis a depender dos interesses e forças em jogo, delimitando rigidamente as características identitárias dos grupos que propõem definir, enquanto outras podem manter uma fluidez maior, uma permeabilidade considerável na película delimitadora, o que permite uma atualização constante de características e componentes. Um exemplo do tipo mais rígido é aquele em que se baseavam (e alguns grupos ainda o seguem fazendo) os diversos essencialismos que acompanhamos ao longo da história, como os que definem a essência de um povo, de uma nação, de uma raça, etc. A forma mais permeável de delimitação pode ser exemplificada com

a relativamente recente percepção e vivência não-essencialista de grupos identitários, que possibilita o trânsito dos indivíduos entre os grupos que oferecem uma resistência mais baixa em suas fronteiras simbólicas por diversos motivos (CUCHE, 2002; HALL, 2000; SILVA, 2000; WOODWARD, 2000).

O que me parece fundamental perceber, e que venho tentando demonstrar neste trabalho inicial, é que aquilo que chamo metaforicamente de redoma ou película constituída por uma lógica discursiva sócio-identitária não desfaz o restante do universo do qual se apropria de uma parcela, e tampouco consegue efetivamente se destacar desse contexto mais complexo no qual está inserida. Mesmo que a quase totalidade de um universo específico – neste caso o universo umbandista – tenha sido apropriada em diversas delimitações discursivas que se entrecruzam, se sobrepõem, se influenciam construtiva ou destrutivamente – por exemplo, a umbanda branca, a umbanda cruzada, a quimbanda, a umbanda omolocô, o umbandaime, a umbanda esotérica, a umbanda astrológica, a umbanda sagrada, etc. –, o todo nebuloso complexo, instável, sutil e frágil permanece conectando todos os elementos entre si e com o contexto processual ainda maior do qual faz parte.

Ou seja, parece-me impossível interpretar dinamicamente o todo, o universo umbandista, dando ênfase analítica quase que exclusiva a um dos fragmentos constituídos por uma lógica sócio-identitária, como vem ocorrendo entre estudiosos e adeptos da umbanda em relação à umbanda branca – mesmo que este grupo tenha adquirido uma proeminência social, política, cultural e histórica inigualável. O que proponho, então, é justamente uma mudança de ênfase no plano analítico, deslocando a compreensão da história e das características sócio- culturais-espirituais da umbanda de um grupo específico, que se tornou em certo sentido dominante (a umbanda branca organizada inicialmente no Rio de Janeiro), para o processo longo, complexo e descentrado de constituição do universo de sentimentos, práticas, objetos, memórias, entendimentos da existência, etc., que hoje chamamos de umbanda. A vantagem de uma mudança de postura metodológica dessa ordem é que ela não significa absolutamente o apagamento, a negação, a exclusão daquilo que já foi pesquisado a partir da umbanda branca, nem tampouco do peso efetivo que tal grupo exerceu na história umbandista. O que acontece é que essa importância, antes tida como única merecedora de análises aprofundadas, passa a ser integrada numa concepção mais ampla, menos redutora, do universo umbandista.

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