Convém discutir inicialmente o conceito e os aspectos inerentes à percepção humana de forma geral, para depois tratar mais especificamente da percepção de riscos.
A palavra percepção deriva de “perceber” (percebere do latim), e significa apodera-se de, adquirir conhecimentos por meio dos sentidos, formar idéias, distinguir, ver, ouvir e entender, sendo que cada indivíduo tem sua forma particular de perceber as coisas. (SANTOS et al., 2007).
Para Cardozo (2009, p 28) “A percepção é, por excelência, um fenômeno psicológico, social e coletivo, uma vez que congrega todos os sentidos para conferir um significado ao que é vivido pelo sujeito.”
Conforme Machado (1999, p. 9) a percepção pode ser definida como “o significado que atribuímos às informações recebidas pelos nossos sentidos, como sensações. Assim colocada, a percepção é o conhecimento que adquirimos através do contato direto e imediato com os objetos e com seus movimentos, dentro do espaço sensorial.”. Del Rio (1996, p. 3) apresentou definição nessa mesma perspectiva, porém com outras palavras, ela afirmou que “a percepção é um processo mental de interação do indivíduo com o meio ambiente que se dá através de mecanismos perceptivos propriamente ditos e, principalmente cognitivos”. Cabe aqui complementar, destacando que, de acordo com a fenomenologia, o indivíduo está cercado por uma gama de informações, mas nem todas elas são apreendidas, pois ele seleciona algumas delas, ou seja, as informações são intencionalmente assimiladas pelos sentidos humanos.
Segundo Forgus (1971) a percepção é um complexo processo pelo qual o indivíduo recebe e processa as informações, tendo a aprendizagem e o pensamento como subconjuntos subordinados ao processo perceptivo.
Para Tuan (1980) a percepção é a resposta dos sentidos aos estímulos externos, sendo também uma atividade proposital, na qual certos fenômenos são registrados, enquanto outros são bloqueados, ignorados. A percepção é então, altamente seletiva, exploratória, antecipadora e implica um conjunto de atividades como exploração, comparação, transposição, entre outras.
A percepção humana resulta então do contato, da interação do indivíduo com o meio. Logo ela envolve fatores internos (referentes ao consciente e ao inconsciente) e externos, ou seja, aqueles que fazem parte do ambiente. Na medida em que engloba aspectos individuais, intrínsecos do ser humano, a percepção contitui-se em um processo individual, que se desenvolve no interior de cada ser, envolvendo conhecimentos, crenças, expectativas, desejos, anseios, medo, entre outros fatores.
Assim como a percepção humana de forma geral, a percepção ambiental e, portanto, a de riscos, desenvolvem-se nessas condições, envolvendo os aspectos já citados, uma vez que fazem parte daquela. É possível afirmar ainda que a percepção de riscos encontra-se diretamente vinculada à forma como o ser humano percebe o ambiente, seus componentes e as inter-relações existentes entre esses, ou seja, vincula-se à percepção ambiental do mesmo. Na verdade, a percepção de riscos pode se enquadrar como uma das faces da percepção ambiental, pois para perceber os riscos de inundação e/ou de alagamentos em uma determinada área, por exemplo, o indivíduo precisa primeiro ter uma noção, um conhecimento ainda que empírico, acerca dos componentes (e interações) que caracterizam uma planície fluvial, assim como observar e entender o ambiente que está ao seu redor, só assim ele torna-se capaz de perceber os riscos e lidar melhor com eles.
Vale ressaltar que a percepção ambiental compreende as diferentes maneiras que os seres humanos percebem e se sensibilizam pelas realidades, ocorrências, manifestações, fatos, fenômenos e processos ambientais observados, sendo ela que inicia a tomada de consciência do ser humano em relação às realidades ambientais (MACEDO, 2000)
Voltando-se especificamente para a percepção de riscos, ressalta-se que ela pode ser definida, segundo Wiedemann (1993, p.3), como a:
“... habilidade de interpretar uma situação de potencial dano à saúde ou a vida da pessoa, ou de terceiros, baseada em experiências anteriores e sua extrapolação para um momento futuro, habilidade esta que varia de uma vaga opinião a uma firme convicção.”
O referido autor acredita ainda que a percepção de riscos é influenciada por imagens e crenças, pelo conhecimento de acidentes já ocorridos, entre outros aspectos.
Whyte (1985, p. 115 apud Souza e Zanella, 2009, p. 35), conceitua a expressão risk perception como “the process where by risks are subjectively, or
intuitively, understood and evaluated”, destacando que no processo de percepção,
os riscos são avaliados como aspecto objetivo da realidade, mas com certa dose de intuição.
De acordo com vários estudos, assim como a percepção humana de forma geral, a percepção que os indivíduos apresentam frente aos riscos envolve uma gama de fatores e por isso, nas pesquisas sobre o assunto, verifica-se muitas vezes, diferentes percepções frente aos riscos ambientais. A respeito desse aspecto, Souza e Zanella (2009, p.36-37) mencionam que:
Algumas características ou qualidades próprias das situações de risco (portanto, parte da sua realidade objetiva) são especialmente capazes de influenciar a percepção, atenuando ou agravando a avaliação que se faz da realidade. Dentre essas características pode-se destacar a causa do risco, o tipo de consequência, as vítimas envolvidas e o possível cenário de destruição.
O trecho permite inferir que quando o risco envolve consequências graves, como a perda de vida humana, por exemplo, ele é percebido com mais facilidade e desse modo, provavelmente, as pessoas vão adotar medidas preventivas em relação a ele. Por outro lado, quando ele não apresenta a possibilidade de danos graves, as pessoas tendem a não darem muita importância a ele, podendo até mesmo ignorá-lo.
Burton, Kates e White apontaram fatores que, segundo eles, influenciam as respostas humanas frente aos eventos naturais extremos: magnitude do evento, frequência em que ocorre, duração, extensão da área, velocidade de desencadeamento, dispersão espacial (linear, pontual), distribuição temporal (sazonal, aleatório). Uma vez que esses aspectos exercem influência sobre a avaliação de eventos já ocorridos, pode-se inferir que os mesmos também atuam sobre a percepção de riscos, na medida em que as experiências vivenciadas por uma pessoa ficam na memória e desse modo, interferem em suas convicções, em seu modo de perceber o mundo, e, portanto, na percepção de riscos.
2.5 Os estudos sobre a percepção dos riscos ambientais: histórico, enfoque e