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Ao término dessa pesquisa, podemos notar que as composições de Chico Buarque mesmo antes do golpe de 1964 como no caso de “Marcha para um dia de Sol” ou após o golpe como “A Banda”, traziam à tona personagens excluídos pela sociedade, mas que ganharam notoriedade nas suas canções.

Em “Marcha para um dia de Sol” podemos ver que ele revela um Brasil desigual como sua gente, seja pela falta de emprego, de moradia ou pela divisão de classes. Como também em “A Banda” onde ele denuncia a violência, traz aos olhos do povo casos de torturas, sequestros e até mortes cometidas durante o início do regime militar.

Mesmo antes da “canção de protesto” ser quase que uma obrigatoriedade para os artistas do Brasil pós 1964, já que muitos reivindicavam o engajamento de todos das artes nos protestos contra o governo militar, Chico Buarque já denunciava as mazelas pelas quais o povo brasileiro passava, como ele mesmo disse em entrevista à Revista 365:

“Eu falava através de personagens, enxergava através de outros olhos” (Revista 365,1976).

E era através dessa visão do outro, que em suas canções ele introduzia propositalmente ou não mensagens de insatisfação, de contestação ao governo militar. Assim como seu pai Sérgio Buarque de Holanda descreveu o país em seu livro “Raízes do Brasil”, mostrando o Brasil de um ponto de vista sociológico, Chico Buarque também o descreve em suas composições. É notório como sua arte traz à superfície problemas que estavam afastados dos olhos da grande maioria da população, e como artista que era, sabia da importância de sua opinião no contexto do pós 1964:

A ordem é uma palavra que não rima com a arte, nem nunca vai rimar. Os artistas estão aí justamente para perturbar a ordem e nisso sempre estiveram - não adianta agora querer mudar a História. De alguma maneira, nós, os artistas, sempre vamos perturbar a ordem, e note que não estou falando nem da arte diretamente política, do tipo “canção de protesto. (MARTINS,2005, p-06)

Fica evidente na análise de “A Banda” que Chico Buarque se antecipou a alguns fatos que só ocorreriam meses depois do lançamento da canção. Lógico que não tem nada de

sobrenatural nisso, pois por mais que suas canções tenham uma certa magia, de bruxo ele não tinha nada.

Essa antecipação de fatos pode ser explicado no trabalho do historiador alemão Reinhart Koselleck70, em seu livro “Futuro passado: contribuição à semântica dos tempos

70 “Reinhart Koselleck nasceu em Gorlitz na Alemanha, em 23 de abril de 1923. Doutor em 1954, teve

sua tese publicada em 1959, com o título Kritik und Krise (há traduções para o francês e o italiano). Seu campo de investigação diz respeito à teoria da história e a aspectos da história moderna e contemporânea. Foi professor nas universidades de Bochum (1966), Heidelberg (a partir de 1968) e Bielefeld (de 1973 até hoje). É autor de Presussen zwischen Reform und Revolution (1967) e Vergangene Zukunft (1979), e co-autor de Das Zeitalter der europaischen Revolution (1969), Geschichte-Ereignis und Erzahlung (1973), Objektivitat und Parteilichkeit in der Geschichtswissenschaft (1977), Geschichtfche Grundbegriffe. Historische Lexikon zur politisch-sozialen Sprache in Deutschland (desde 1972), Sprache und Geschichte (desde 1978). É ainda colaborador da revista Geschichte und Gesellschaft.” Em:Estudos Históricos, Rio de Janeiro, vol. 5, n. 10, 1992, p. 134-146.

históricos” (1979), onde o autor explica que por meio do conceito de Horizonte de Expectativa pode-se minimamente prever fatos que poderão ocorrer em um futuro próximo ou como conceitua Koselleck, um “Futuro Presente”:

Podemos citar um exemplo simples: a experiência da execução de Carlos I abriu, mais de um século depois, o horizonte de expectativas de Turgot, quando ele insistiu com Luís XVI que realizasse as reformas que o haveriam de preservar de um destino semelhante. O alerta de Turgot ao rei não encontrou eco. Mas entre a Revolução Inglesa Passada e a Revolução Francesa futura foi possível descobrir e experimentar uma relação temporal que ia além da mera cronologia. A história concreta amadurece em meio a determinadas experiências e determinadas expectativas. (KOSELLECK, 2006, p. 308-309).

Sendo assim, a antecipação de fatos que ocorreram após a composição de “A Banda”, partiriam apenas da visão que Chico Buarque tinha de outros golpes que aconteceram na América Latina, como por exemplo no país vizinho, a Argentina que sofrera seis golpes militares: 1930, 1943, 1955, 1962, 1966, 1976.

Tendo a Argentina como exemplo, Chico Buarque podia presumir que a mesma violência ocorrida durante os governos militares no país vizinho, podia acontecer no Brasil, e como de fato ocorreram. E essa visão que ele tinha do futuro foi posta em suas canções.

Por fim, vemos que mesmo que não querendo se engajar diretamente na oposição ao governo militar, Chico Buarque usa de sua arte para fazê-lo. Denunciando fatos ou apenas expondo a situação do Brasil antes de depois do golpe de 1964, ele revela um país que muitos não queriam ou não podiam enxergar devido a censura imposta pelo governo.

Foi com essas ações, usando da ambiguidade na composição de suas canções, de pseudônimos para escapar da censura – como ocorreu com Julinho da Adelaide; que Chico Buarque conseguiu passar a mensagem de que dias melhores ainda estavam por vir. Ele consegue trazer na figura de uma simples banda a esperança para todo um país.

E é por usar de sua inteligência na escrita e de esperteza para se desviar da censura que Chico Buarque de Holanda se dúvida alguma se torna um dos maiores compositores e cantores da música brasileira de todos os tempos.

Referências:

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