3.3. Statistical Exploration of the Database
3.3.2. Recurrence, Completeness and Distributions of Assessed Data
A comunicação existe hoje para nós como um fato. Te- mos certeza disso, mas não foi sempre assim, outras socieda- des históricas nem mesmo se deram o trabalho de elaborar uma palavra para designá-la. O termo, como se sabe, é rela- tivamente tardio, aparece somente no século V e decepciona quem esperava o reconhecimento universal de uma função aparentemente tão importante.
Causaria embaraço para grande parte dos teóricos, se per- guntássemos quando a comunicação começou, afinal ela é uma realidade tangível, evidente por si; supõe-se que ela sem- pre esteve aí, existe desde que homem é homem. O correlato dessa crença faz com que a comunicação seja tomada como uma faculdade, um dos atributos humanos e talvez o mais próprio deles, o que lhe confere especificidade. De certo, se não há como pensar os seres humanos sem a capacidade de relacionarem-se entre si, de outra parte, o que se constituiu como objeto das teorias da comunicação, pelo menos para boa parte dela ou para as mais significativas, são processos mais precisos, com recorte histórico. Refiro-me a processos como o jornalismo, a publicidade, a propaganda, que não fo- ram tidos como universais, nem trans-históricos, como a fa- culdade de comunicar. São derivados desta capacidade, à qual se acrescentam usos sociais específicos, que rementem a um tipo de estrutura particular, relativo a sociedades históricas. Ou melhor, uma sociedade histórica, já que se concentram no século XX.
A pergunta pela comunicação, sem dúvida, é deste século, é nele que ideia e “coisa” se juntam para formar uma realidade tangível, graças à crescente e notória presença que adquirem os meios de comunicação, grande parte deles inventados no final do século anterior. Traço distintivo, a tecnologia não é a única parte visível do novo fenômeno em gestação, profissio- nais especializados, sindicatos, instituições ligadas à informa- ção, como empresas e faculdades, leis específicas (liberdade de expressão, liberdade de imprensa, proteção de documentos secretos, acesso à informação, defesa do consumidor exposto à propaganda-publicidade...), desenvolvimento de um novo
Luiz C. Martino
tipo de guerra baseado na informação (guerra psicológica), etc. A comunicação mediática rapidamente chega a todos os domínios da sociedade, as teorias são a reposta necessária para entender o tempo que se vive, inclusive cobrada pela socieda- de civil: qual seria o efeito dos filmes sobre as crianças? Per- guntava a conhecida Fundação Payne no final dos anos 1920, uma das primeiras pesquisas encomendadas e financiadas pelo setor privado. Igualmente conhecida é a ação do governo dos Estados Unidos, que teve interesse direto nesse tipo de pesquisa, inicialmente como proteção contra a ação da pro- paganda inimiga e logo em seguida como arma ofensiva (por exemplo, a longa preparação para o desembarque na Norman- dia, o dia D, contou com intenso trabalho de desinformação). O século XIX também teve seus fenômenos significativos (o caso Dreyfus, por exemplo) e poderíamos recuar mais no tempo, contudo tais fenômenos não teriam a mesma frequên- cia, o ritmo dos acontecimentos seria cada vez mais esparso e nem sempre implicaram o envolvimento de um grande nú- mero de pessoas, digo, a sociedade de forma direta e de modo consciente do fenômeno.
Estas propriedades dão uma ideia do tipo de processo que se torna objeto para a comunicação, eles esboçam a singula- ridade do que poderíamos chamar de comunicação moderna, para nomear e fazer referência a um processo de comunica- ção tecnológico, correlato de uma dada latitude histórica, um grau de complexificação da sociedade (democracia, industria- lização, capitalismo, explosão demográfica...). Faz sentido, en- tão, que a pergunta da comunicação não tenha sido colocada antes, ela nasce dessa situação singular, em que certas condi- ções materiais a viabilizam, dando-lhe um substrato, o solo de onde emerge o fenômeno e, consequentemente, sua teori- zação. A comunicação deixa de ser uma faculdade humana, o conceito passa a incorporar sua forma histórica.
Note-se que designar as condições materiais de possibili- dade é uma operação de conhecimento, faz da realidade um termo relativo, em vista de uma problemática. Este cuidado se justifica, é preciso marcar que a teoria também faz parte da realidade, que, uma vez elaborada, “retorna” e compõe a percepção que os agentes sociais têm do mundo e suas ideias de como ele funciona. Claro, o processo não é mecânico, nem
Teoria da comunicação e realidade social exato, mas parte da produção teórica, formulada na academia, chega ao senso comum. Alguns conceitos se tornam banais, penetram o senso comum, ao ponto de perderem a geniali- dade original que tinham quando foram propostos. É o caso da noção de intersubjetividade, de “construção da realidade social” ou de propaganda. Este último termo entrou no vo- cabulário e na ordem das preocupações do homem comum na década de 1920, logo após a divulgação de ações de pro- paganda na Primeira Guerra Mundial e é apontando pelos historiadores como o problema que irá mobilizar os esforços de pesquisa a partir do final dos anos 1930, dando origem ao campo da comunicação.
É importante termos isso em mente, a teoria da comuni- cação surge de um dado contexto histórico. Podemos variar os elementos empregados, eliminar ou acrescentar outros, alterar as ênfases e sua descrição, mas não podemos perder de vista sua realidade histórica, como fruto de uma época. A teoria da comunicação remete a realidades históricas, está é a substân- cia de seu objeto.
Esta é, então, a primeira relação que podemos estabelecer entre realidade e teoria da comunicação: a realidade libera um novo tipo de processo, que será o objeto de estudo das teorias da comunicação.
Luiz C. Martino