O bullying “maus tratos entre iguais” é definido por Afonso & Cerviño (2006), citado por Urra, J. (2007), como uma conduta agressiva, que normalmente persiste no tempo e que pode ser exercida por um indivíduo ou por um grupo, através de insultos, ameaças, intimidação psicológica e agressões físicas, com tendência para aumentar na sua intensidade e frequência, o que na vítima provoca uma baixa auto-estima, isolamento e até exclusão social.
Para acentuar o problema, é frequente acontecer que quem observa nada faça para evitar estas situações.
No bullying (comportamento mais frequente nos rapazes) há intenção de prejudicar, recorrendo o agressor às mais variadas estratégias para conseguir os seus objectivos (protagonismo, poder, prestígio, popularidade), batendo, insultando, humilhando, ameaçando, excluindo, ignorando, chantageando… abusando… e sentindo-se bem nesse papel, convertendo-se, contudo, quase sempre, na sua própria vítima. Quando confrontado, geralmente envereda pela negação da realidade, culpabilizando, antes, os outros.
Embora muitas escolas o neguem, muitas destas situações passam-se dentro dos seus portões, sem que seja detectado, quer por falta de controlo (se a escola for de grande dimensão) quer por não haver quem se digne denunciar, geralmente por medo. Os professores, muitas vezes já nem se querem “dar ao trabalho”, por já terem vivido situações em que foram desautorizados. De qualquer das formas o impacto é negativo a vários níveis, reflectindo-se no clima da própria escola.
Estas agressões ocorrerem, geralmente, no recreio, mas também se registam dentro da sala de aula, em contextos específicos e com determinados professores, conhecidos como líderes permissivos, com elevado absentismo, e devido a uma desresponsabilização geral da escola.
As principais causas do bullying parecem ser psicológicas. Tanto as vítimas como os agressores, manifestam, no geral, baixa auto-estima e têm um fraco poder de influência nas relações interpessoais com os pares. Na maioria dos agressores, são
encontrados factores de risco como a impulsividade, o estilo educativo paterno coercitivo e punitivo ou errático, ausência de vínculos sociais e afectivos, exposição à violência, escasso autocontrolo individual. Urra, menciona uma vez mais Afonso e Cerviño (2006) dizendo que estes autores definem factores de risco numa só palavra “Sociedade”. Aquilo que ocorre nas nossas escolas é o resultado das interacções de uma série de factores que nos inclui a todos nós, sendo bastante pertinente a influência do ambiente e a estrutura familiar.
O bullying pode ter consequências muito graves, como o aumento de problemas psicológicos, emocionais e comportamentais. A vítima sente vergonha, ocultamento, debilidade, angústia, ansiedade, temor, terror, falta mais à escola, fracassa nos estudos, entra em depressão, chegando-se, inclusivamente, em casos extremos, ao próprio suicídio (como há bem pouco tempo, em Portugal, aconteceu).
Segundo Urra, J. (2007), os pais do agressor devem impor sanções severas, mantendo contactos com os professores, ouvindo-os enquanto profissionais credíveis. Estes comportamentos devem ser recriminados e não incentivados para que não passem a ser a sua forma habitual e normal de enfrentar os problemas e de se relacionar com os outros. Na sua opinião, os pais devem estar atentos aos mais variados sinais, defendendo, ainda, que se o comportamento agressivo não cessar, deve recorrer-se à mudança de escola, para que perca o seu estatuto e inicie novas relações.
Os pais devem manter uma comunicação aberta com os filhos, falando da existência de situações de maus tratos, aprender a reconhecer sinais, e em caso de suspeita, recolher mais informação, manter contacto com a escola e iniciar acções legais se necessário for. Devem recriminar a atitude de espectador passivo, e incentivar a que os seus filhos sejam cooperantes (há muitas formas de ajudar); “não intervir por medo implica conviver com culpabilidade”.
Para Urra seria ideal que os pais, juntamente com os professores, denunciassem situações inaceitáveis, que fossem criados grupos de discussão, equipas de mediação e fomentados, na sala de aula, valores de respeito. Tanto em casa como na escola deve-se desincentivar o racismo, incutir nas crianças a ideia (a verdade) de que somos “todos diferentes, todos iguais”, ninguém é superior a ninguém, a cor é só uma questão de genes. Há que cultivar nas nossas crianças “mentes abertas” à diferença, pois é nela que está a riqueza.
3 - A Escola na dimensão Cultural
A escola, tal como defendido por Barros, N. (2010) é uma experiência marcante na vida de cada um, independentemente desse tempo de vida assumir uma forma positiva ou negativa no percurso escolar, pessoal e profissional de cada um. Para muitos, a escola é um assunto indiferente, não os motiva, não lhes diz nada; para outros, é um local agradável, onde se encontram os amigos, onde se conversa, onde se recebe apoio e atenção dos professores e funcionários, onde se aprende e se desenvolve como pessoa. Muitos outros até querem gostar da escola, mas tal como afirma Barros, “nem todos são capazes, nem todos têm essa oportunidade, nem todos têm condições, interiores e exteriores, para que a escola seja um encontro feliz” (p.35). É muito fácil ensinar a quem quer ser ensinado. É mais óbvio que se seja empenhado nos estudos e que se tenha bons resultados quando se tem ajuda e se vem de uma cultura semelhante à escolar. É fácil ouvir e estar-se concentrado quando não se está assustado e quando se tem um ambiente sereno e acolhedor em casa. A ida para a escola, para muitos, é uma autêntica punição, quando a auto-confiança já é de si baixa e se deparam com comentários que só servem para os inferiorizar e humilhar, agravando a situação. Perante os bons resultados, aumenta a motivação e a confiança, mas perante o insucesso, só se gera mais insucesso, descrença e frustração. Lobo Antunes (2008) defende que as crianças não acordam de manhã com intenção de falhar, errar, criar angústia em pais e professores. “Se isso acontece é porque a vida escolar nada lhes trouxe que as faça felizes ou confiantes” (p.36).
Quando há insucesso acabamos por falhar todos; crianças, famílias, professores, sociedade… falha o nosso esforço, a inclusão, a comunicação, o relacionamento humano.
As escolas não se regem por uniformizações ou padronizações rígidas. Existem regras e regulamentações comuns, mas cada escola é diferente da outra no que diz respeito à sua cultura, às suas vivências, aos seus climas, à sua exigência, à sua tolerância, aos seus valores, aos seus resultados e metas. Até porque cada escola se insere num meio e numa comunidade distintos, com características muito próprias. Tal como afirma Barros (2010) a cultura que se vive numa instituição pode ser determinante para a construção do diálogo e da paz ou, inversamente, para o favorecimento de formas de actuação indisciplinadas ou de rejeição. As regras e os valores existentes numa escola devem ser claras e partilhadas para que possam ser compreendidos e aceites
como algo necessário à vivência colectiva. O clima e a cultura da escola estão em interacção, partilhando entre si valores, crenças, normas formais e informais, objectivos e finalidades. Como salienta Blaya,
O clima escolar é uma construção sociológica que está simultaneamente na origem dos comportamentos dos indivíduos, mas também é fruto da percepção individual e colectiva do ambiente educativo. (Blaya, 2008, p.39)