SECTION THEORY OF
RECOMMENDED MODEL AND PART
61 KLAUCK, Samuel. A imprensa como instrumento de defesa da Igreja Católica e de reordenamento
espaço, prestígio e adesão por parte dos seus fiéis e por isso passa, gradualmente, a se reorganizar para realizar a manutenção do seu espaço na sociedade.
Em 4 abril de 1964, na primeira edição do A Fôlha pós instauração do Regime Militar, o reforço à ideia de que o comunismo é o maior problema político enfrentado naquela época é notório (o curioso é ver que a Igreja começa aos poucos a atacar também o modelo capitalista). A Diocese não se manifesta aos seus leitores de forma clara, se é a favor ou contra a deposição de Goulart e à ascensão de Castello Branco, primeiro presidente do Regime Militar. Porém chega a ser engraçada a forma como o A Fôlha noticia a recém ocorrida queda de Jango: “É extraordinária a calma reinante em todo o território nacional, depois do levante que depôs o ex- presidente João Goulart. [...] Até o momento é desconhecido o paradeiro do ex- presidente [...].” 62, denotando certo conformismo (ou seria cinismo?). Logo ao lado,
numa coluna à esquerda da página, o jornal noticia que Caicó viveu dias de paz neste período:
Nenhuma agitação registrou-se em Caicó durante os dias angustiantes que viveu a nação com o movimento militar no país de deposição do presidente João Goulart. Todos os setores da cidade funcionaram normalmente. Também em Natal e no interior reinou a mais completa calma.”63
Mas na verdade, houve implicações na cidade. Não em termos de conflito urbano ou desestabilização completa da ordem e da segurança propriamente dita, como nos grandes centros do país, já que não se registra levantes significativos em Caicó, quando do golpe. Mas dentro das instituições, os entraves que dificultavam a atuação da imprensa sobre este período foram frequentes64. A Rádio Rural de Caicó
(gerenciada pela Igreja), bem como as atividades do MEB (desenvolvidas especialmente na zona rural) foram alvos da vigilância e da fiscalização dos agentes do Estado. A Diocese, ao informar que Caicó viveu dias de paz, nos leva a adotar duas conclusões: 1) a Igreja era conivente com os fatos e as manobras políticas, daí não ter mostrado qualquer animosidade; ou 2) ela estava sendo coagida, logo,
62 JOÃO GOULART REFUGIA-SE. Jornal A Fôlha. Acervo digitalizado e disponível no Laboratório
de Documentação Histórica do CERES/UFRN - Campus Caicó (edição publicada em 4 Abr de 1964), p. 1.
63 DURANTE A CRISE CAICÓ VIVEU TRANQUILAMENTE. Id.
64 Ver: MEDEIROS, Francisco Canindé de. Visões de controle, focos de resistência: a Igreja
Católica e a Ditadura Militar no Seridó. Trabalho de Conclusão de Curso em História (Graduação),
impossibilitada de narrar estes mesmos fatos de forma a explicitar o que estava acontecendo. Sigamos adiante.
No que diz respeito à essência do conceito, bem como no que tange à realidade dos fatos, quando a historiografia brasileira denomina a deposição de João Goulart como Golpe Civil-Militar, o fala com fundamento e propriedade. Mais que a demonização pura e simples à figura dos militares (o que é mais do mesmo e submete-nos a uma generalização absurda, já que havia alas dentro das Forças Armadas que eram contrárias à manobra política impetrada), é fundamental ressaltar que houve também participação e consentimento pleno de boa parte da população civil brasileira (bem como atuação da classe política, mediante o Congresso Nacional), para que o golpe de Estado lograsse êxito. A Marcha da Família com Deus pela Liberdade é um exemplo emblemático neste sentido. De acordo com Jorge Ferreira e Angela de Castro Gomes,
[...] muitas outras marchas continuaram movimentando as ruas brasileiras [...] Segundo levantamento de Aline Presot, [...] foram realizadas no país 69 Marchas de apoio ao golpe. [...] O golpe civil e militar de 1964 é exemplar. Ele não foi um evento externo à sociedade e alheio à sua participação, ainda que seu comando estivesse nas mãos de elites militares e civis brasileiras.65
Inclusive, atualmente, temos que o Brasil não passou por um processo de justiça de transição66 plenamente eficaz, tendo em vista que a população brasileira
não foi devidamente conscientizada da finalidade das políticas de reconciliação, o que fomenta em nossos dias ressentimentos, polarização extremada e revanchismos de todos os atores sociais partícipes daquele tempo, dificultando quaisquer medidas de reparação. A Igreja Católica, quase que em sua totalidade (haja vista sua fragmentação interna frente a este evento), apoiou a manobra política do período e fala com ar de triunfo. Vejamos o que registrou o A Fôlha:
Dias de surpresa vivemos todos nós e continuamos a viver. [...] Os acontecimentos se desenrolaram tão rápidos que ainda permanece difícil
65 FERREIRA, Jorge; GOMES, Angela de Castro. 1964: o golpe que derrubou um presidente, pôs
fim ao regime democrático e instituiu a ditadura no Brasil. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira,
2014, p. 379-380.
66 Pode-se definir a justiça de transição como o esforço para a construção da paz sustentável após
um período de conflito, violência em massa ou violação sistemática dos direitos humanos. Ver:
REVISTA DA ANISTIA, Política e Justiça de Transição. 2009. Promovendo a justiça transicional
estabelecer perfeitamente sua concatenação. [...] o Brasil outra vez dispõe- se a recomeçar seu caminho em busca do lugar que lhe aponta o destino. [...] É preciso que cada um, governante, militar e civil ponha os interêsses do Bem comum acima de todos os interêsses, os interêsses do Brasil acima de todos os interêsses [...] O Brasil é grande. Nele estão postos os olhos de tôda a América Latina, que o reconhece seu líder, os olhos do mundo e os olhos de Deus. É preciso que cada um cumpra o seu dever.67
No trecho acima, o A Fôlha destaca explicitamente quem foram os agentes sociais que atuaram nesta época e, diante do exposto, pode-se cravar que sim, até este momento, a Diocese de Sant’Anna foi favorável ao Golpe Civil-Militar de 1964. A cúpula diocesana era bastante conservadora e, embora vez ou outra, escapasse entre as linhas do A Fôlha algum conteúdo de teor mais liberal, deixando à mostra as possíveis dissidências internas, a mesma sempre se recompunha. Mainwaring nos aponta o seguinte:
A partir do papado de João XXIII (1958-1963), o catolicismo esforçou-se para se tornar mais relevante no mundo moderno. No entanto, continuou a manter muitos costumes, crenças e práticas tradicionais. Emergiram novas propostas, dentro da Igreja, mas as ideias antigas têm revelado uma marcante resistência que conduz a uma curiosa mistura do tradicional com o novo, do radical, do liberal, do conservador e do reacionário.”68
Mesmo parecendo óbvio, o posicionamento oficial da Igreja Católica brasileira foi exposto no A Fôlha somente no dia 25 de abril de 1964, numa publicação denominada O Manifesto dos Bispos. Nela, fala-se sobre o anseio da população brasileira pelo esclarecimento da Igreja, que se posta, na crônica, como “Mãe e Mestra” (Mater et Magistra) da sociedade. Evoca-se ali um sentimento nacionalista, que concita à unidade nacional, com um discurso beirando o integralismo.69 Na
segunda página da mesma edição, As Determinantes da Revolução referendam a intenção da Diocese em colocar para os leitores do jornal que o Brasil acabara de passar por um processo revolucionário que teve um papel “saneador”, “recuperativo” e “reintegrador”.
No entanto, não para por aí. A Igreja não permanece incondicionalmente partidária ao governo militar. Ainda na década de 60 a mesma, gradativamente,
67 MOMENTO NACIONAL. Jornal A Fôlha. Acervo digitalizado e disponível no Laboratório de
Documentação Histórica do CERES/UFRN - Campus Caicó (edição publicada em 4 Abr de 1964), p. 1.
68 MAINWARING, Scott. A Igreja Católica e a Política no Brasil (1916-1985). São Paulo. Editora
Brasiliense, 2004, p. 10.
69 Para aprofundamento do conceito, ver: MEDEIROS, Cléryston Rafaell Wanderley de. Anauê: o
discurso integralista no Seridó. Trabalho de Conclusão de Curso em História (Graduação),
parece mudar o discurso. Observamos que, já caminhando para os anos 70, mais precisamente no ano de 1968, o jornal A Fôlha começa a fazer críticas ferrenhas e abertas ao governo militar, muitas em tom bastante ácido. No artigo Desprestígio Civil?, de autoria de Salomão Pinheiro, temos:
Terá de ser um militar o sucessor do presidente Costa e Silva? É
militarista o govêrno oriundo do movimento armado de abril de 1964? São
perguntas que fazem todos os dias os observadores. Está bem claro
que o futuro chefe do governo “revolucionário” será inapelavelmente um general ou um coronel a fim de que tenha “continuidade a marcha revolucionária”, como apregoam os civis pagos para fazerem a
propaganda do Govêrno. São mínimas as possibilidades de um civil
chegar à presidência se continuar a conjuntura atual. [...] O governo do Marechal Costa e Silva, que nasceu emaranhado num complexo de indecisões e indefinições, continuou “marginalizando as representações
civis como o Congresso e os partidos políticos” [...]. Congresso e partidos existem como símbolos mas que nenhuma influência exercem nas decisões governamentais. 1967 foi uma continuação do govêrno anterior e suas provas aí estão: os protestos das indústrias, comércios, sindicatos, operários, Igreja, estudantes, classe média, funcionalismo, enfim, do povo brasileiro. [...] Há maioria militar na composição do atual governo. [...] A crise entre civis e militares pode agravar-se, segundo observadores, se as Fôrças Armadas não mudarem de mentalidade renunciando ao chamado Poder Militar, ou seja,
à tutela sobre tôdas as atividades nacionais. Torna-se necessário que seja
restituído ao povo o direito de escolha dos seus governantes [...] A
decretação de anistia geral é outro imperativo para a paz nacional e o restabelecimento do Poder Civil. Faz-se necessário um entendimento
democrático e livre entre cidadãos fardados e civis, mas não a
eliminação do Poder Civil pelo Militar, o que só acontecem nos regimes que se encontram sob sufocamento totalitário.70
O questionamento inicialmente é direcionado à necessidade de se haver um novo presidente militar. Vemos que o articulista do jornal pergunta com certo ar de espanto se realmente seria conveniente, denotando contrariedade e partilhando de um a insatisfação que, segundo o mesmo, é geral - quando se refere aos “protestos das indústrias, comércios, sindicatos, operários, Igreja, estudantes, classe média, funcionalismo, enfim fim, do povo brasileiro.” Embora já houvesse dado sinais sutis em suas linhas, parece a primeira vez que o A Fôlha se coloca categoricamente em oposição ao regime, nas palavras de Salomão Pinheiro, dizendo haver uma crise social entre os cidadãos “civis” e os cidadãos “fardados”. Por fim, o A Fôlha clama por democracia, quando coloca que
“
torna-se necessário que seja restituído ao povo o direito de escolha dos seus governantes”. E as críticas seguem em Retrato de um
70 DESPRESTÍGIO CIVIL? Jornal A Fôlha. Acervo digitalizado e disponível no Laboratório de
Documentação Histórica do CERES/UFRN - Campus Caicó (edição publicada em 13 Jan de 1968), p. 3.
fracasso71, artigo assinado por um tal Joel Silveira, onde o mesmo detalha prejuízos
na economia e no bem estar social quando da continuação do governo militar em janeiro de 1968.
Tania Regina de Luca destaca que até mesmo a disposição das notícias, propagandas e demais elementos na organização da diagramação de determinado periódico é ideológica, quando fala de hierarquias entre as seções e a relação entre aquilo que é manchete e aquilo que fica relegado às páginas internas (geralmente nas finais). A presença dessas temáticas logo nas primeiras páginas é intencional, têm o objetivo de gerar impacto e internalização do discurso ali colocado.72 Este é o
quadro que se pode apreender das páginas do A Fôlha selecionadas para análise, no tocante à atuação política da Diocese de Sant’Anna. Torna-se claro, portanto, que em muitos momentos, a Diocese se utiliza dos acontecimentos contemporâneos à circulação do periódico para trazer suas reflexões religiosas e políticas relacionadas aos fatos, de forma a introduzir suas doutrinas na sociedade caicoense.
71 RETRATO DE UM FRACASSO. Acervo digitalizado e disponível no Laboratório de Documentação
Histórica do CERES/UFRN - Campus Caicó (edição publicada em 13 Jan de 1968), p. 4.
72 LUCA, Tania Regina de. História dos, nos e por meio dos periódicos. In: PINSKY, Carla
Capítulo III
“[...] jamais nos conformaremos enquanto todos os irmãos seridoenses não estiverem cristianizados” 73
A frase que serve de título para este capítulo foi escolhida com o intuito de explicitar qual era o anseio que nortearia as ações da Diocese de Sant’Anna à época: cristianizar todo o Seridó. E por isso mesmo a instituição exortava, corrigia, recomendava, propunha, dava as cartas sobre a mesa e não se conformaria enquanto seu objetivo de alcançar o Seridó não fosse bem sucedido.
A Diocese coloca deliberadamente perante si um desafio, se propondo a fazer uma reflexão acerca do seu papel entre os seridoenses. Parece entender que, embora dominasse o terreno religioso e político da região, isso não era suficiente, deveria fazer mais. A notícia publicada em 12 de dezembro de 1964, cujo trecho nomeia este capítulo, descreve um encontro promovido por dom Manoel Tavares de Araújo entre clérigos, religiosos e leigos, onde o assunto principal foi a atuação da Igreja no contexto seridoense potiguar no que tange à maior presença e participação social. A Diocese, falando em nome dos sacerdotes e fiéis, refere-se à comunidade católica caicoense, na notícia, como “Igreja viva”, trazendo a conotação de um organismo simbiótico amalgamado à sociedade. Assim sendo, a Diocese rejeita qualquer tipo de ideia que lhe dê a sensação de que sua luta já está ganha - o que é mencionado na notícia como “triunfalismo”. Pelo contrário, a ênfase dada à necessidade de um posicionamento mais franco e evidente frente aos fatos era algo que crescia cada vez mais no âmago da instituição.
É bem verdade que a missão principal da Igreja Católica tem por escopo a propagação de sua mensagem religiosa.74 Primariamente, a Igreja está preocupada
com sua expansão. O catolicismo tende a ser totalizante e hegemônico, adentrando frequentemente aos diversos setores da sociedade e da vida do sujeito, estando sempre lá, fiscalizando e orientando sobre como deve se configurar a conduta do indivíduo enquanto ser social.
73 A IGREJA FIRMA POSIÇÃO NO SERIDÓ. Jornal A Fôlha. Acervo digitalizado e disponível no
Laboratório de Documentação Histórica do CERES/UFRN - Campus Caicó (edição publicada em 12 Dez de 1964). p. 1.
74 MAINWARING, Scott. A Igreja Católica e a Política no Brasil (1916-1985). São Paulo. Editora
Podemos, a priori, pensar que essa estratégia consiste exclusivamente num mecanismo de potencialização do alcance de sua influência. No entanto, se notarmos bem, perceberemos nas entrelinhas que na verdade se trata também de uma jogada de defesa. Ao mudar a abordagem, o foco de sua atuação ou seu modo de operar, a Igreja não tem por objetivo apenas angariar mais fiéis ou se impor frente às demais crenças. Antes, ela quer se preservar, face às mudanças e aos conflitos sociais de seu tempo. Toda instituição se preocupa com a própria preservação, manutenção e proteção de seus interesses. Sobre essa questão, Mainwaring pontua que
“(...) A Igreja continua a ser uma instituição altamente complexa e heterogênea, e as forças conservadoras têm se reafirmado em anos recentes. A partir do papado de João XXIII (1958-1963), o catolicismo esforçou-se para se tornar mais relevante no mundo moderno. No entanto, continuou a manter muitos costumes, crenças e práticas tradicionais. Emergiram novas propostas, dentro da Igreja, mas as ideias antigas têm revelado uma marcante resistência que conduz a uma curiosa mistura do tradicional com o novo, do radical, do liberal, do conservador e do reacionário.75
Antes de retomarmos a análise das fontes propriamente dita, é necessário que façamos uma breve reflexão sobre a ideia de ética e moral, a partir da ótica do filósofo francês Paul Ricoeur, para compreendermos essa nova forma da Igreja Católica atuar. Para Ricoeur, os conceitos de moral e ética estão estritamente ligados aos costumes. A moral é entendida como um ponto de partida, um ponto de referência que possui dupla funcionalidade76. A primeira tem a ver com um conjunto
de normas que definem o que é permitido e proibido (numa sociedade ou a um indivíduo). A segunda, diz respeito a um sentimento de obrigação que estimula o sujeito a tomar esta ou aquela ação, com o intuito de satisfazer às exigências da primeira função da moral apresentada pelo autor. A ética, por sua vez, se subdivide em duas categorias: a ética anterior ou ética montante, de natureza metamoral, que concerne a uma profunda e sólida meditação sobre as normas; e a ética posterior ou ética jusante, que é esta reflexão posta em ação concreta, a ética montante sendo aplicada na práxis. Em suma, Ricoeur se dispõe a analisar um conjunto de normas preestabelecidas, a natureza delas e a relação do indivíduo com esse conjunto de normas.
75 MAINWARING, Scott. A Igreja Católica e a Política no Brasil (1916-1985). São Paulo. Editora
Brasiliense, 2004, p. 16.
76 RICOEUR, Paul. Da moral à ética e às éticas. In: Dicionário de ética e filosofia moral. São
Cientes disso, torna-se mais transparente a nós a dinâmica discursiva da instituição nas análises a seguir. O editorial diocesano escreve de maneira bastante pessoal e pedagogizante, conversando com o leitor de forma direta, como se se fizesse presente, levando-o a uma reflexão sobre seus atos, situações e fenômenos que o cercam, fazendo-o meditar sobre sua conduta ética e impelindo-o a tomar certas medidas ou atitudes.
Partiremos então às fontes com o objetivo de ver nas linhas do jornal essa Igreja Católica militante, dogmática e moralizadora começando com um parecer publicado no dia 24 de setembro de 1960. Inicialmente, na página 2 desta publicação, vemos o seguinte anúncio:
FIGURA 2 - Anúncio do Recital de Piano e música clássica que ocorreu em Caicó, no dia 15 de outubro de 1960.77
Logo em seguida, na página 4 da mesma edição, vemos uma crônica veiculada pelo editorial do A Fôlha onde o padre Antônio Balbino faz apontamentos com relação à música clássica:
Já se anunciou por esta fôlha com bastante espectativa a notícia do “Recital de Piano” em Caicó, a 15 de outubro vindouro. Feliz a iniciativa dos que organizaram esta festa de sons e de arte. Parece ser a primeira vez que a cidade vai ouvir um concerto de boa música num convite ao
aprimoramento e bom gôsto pela arte dos sons. O “Recital” vai ser uma
mensagem da música clássica para encanto de nossa alma e elevação de nossa sensibilidade. A música é algo do divino que transcende à terra e a própria vida [...] É a doce poesia da vida que nos faz esquecer a amargura de dor e as decepções cortantes da alma. Desta feita iremos ouvir algo de diferente, de sublime, de indescritível. [...] Vai ser um Recital diferente [...]
77 JORNAL A FÔLHA. Acervo digitalizado e disponível no Laboratório de Documentação Histórica do
dos concertos baratos de nossas músicas populares, despidas de tôda beleza artística. Músicas sem côr rítmica como o louco “rock and roll”, como o sensual “bolero”, como a louca e vazia música “bossa nova” que tão bem retratam a angústia revoltante do espírito de nosso século. Músicas sem sentido, destituídas de qualquer harmonia numa prova
inconteste da decadência atrativa e rudeza de sensibilidade de nossos compositores. [...] A vida moderna se reflete pobre e vazia até mesmo na
música. Não se pensa mais. Não se aspira mais pela virtude e pela beleza. A alma do homem atômico não prima mais pelo belo, pelo grande, pelo harmonioso. Faz tudo ao ritmo de foguetes e aviões a jato refletindo sua inquietação e desequilíbrio até na música que é também ao ritmo fogueteiro… Frêvo teleguiado, etc. Essa rudeza de alma e de pensamento
entravado [...] pelo barulho satânico de um mundo febril, bem comprovam que a humanidade [...] se atira cada vez mais para o abismo do superficial, do vazio, do obscuro. E a música que é uma das fontes de beleza e harmonia passou a ser um amontoado de sons para esconder nas salas de bailes a tristeza e o desequilíbrio dos homens sem Deus.78
“Proibido escutar quaisquer outros estilos musicais que não o ‘sacralizado’ estilo clássico!”, ruge-nos a Diocese de Sant’Anna por meio de sua “metralhadora” de discursos, o A Fôlha. Esta é uma mensagem explícita no trecho acima. Não podemos nos furtar a possibilidade de ver, sem rodeios e numa primeira leitura, que realmente era isso que a Igreja quis dizer. Dadas as transformações advindas da modernidade (mencionadas no capítulo anterior), a tradicionalíssima Diocese de Sant’Anna percebe-se ultrajada pelos novos ritmos musicais em ascendência nos anos 60. A bossa nova, muito popularizada no Rio de Janeiro, parece ter encontrado muita resistência em Caicó, bem como o rock (ainda hoje tido no imaginário de