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5-3. PREVENTIVE MAINTENANCE

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5-3. PREVENTIVE MAINTENANCE

31 BECKER, Jean-Jacques. A opinião pública. In: REMÒND, René (Org.). Por uma História Política.

Diocese manejava isso. Sente-se então, frente ao posicionamento da Diocese e após as leituras dos autores supracitados, uma ânsia de se ter em mãos certo controle de todas as esferas da vida social e política do sujeito por meio dos discursos e pronunciamentos, restringindo, dentro do possível, quaisquer alternativas fora daquilo que a Igreja apontava. O lugar de fala, dependendo de qual seja, confere autoridade; e a Diocese de Caicó o sabia muito bem.

Capítulo II

As peripécias políticas da Diocese de Sant’Anna

Quando pensamos na década de 60 a nível nacional, normalmente imaginamos transformações e mudanças de paradigma e ordem, desenvolvimento econômico e industrial, protagonismo das massas, dos movimentos sociais e setores menos visibilizados da sociedade, produção cultural a pleno vapor (como se pode observar no cenário musical brasileiro, por exemplo), repressão, conflitos de ideias e de interesses, acirradas batalhas políticas, alternância conturbada de governos... E de fato, essa primeira impressão que temos com relação aos anos 60 se aproxima bastante da realidade. Política e socialmente, o Brasil passa por esta década de forma bastante agitada, cujas consequências inclusive nos alcançam hodiernamente.

Vários dos meandros desta agitação encontram-se já bastante esmiuçados pela historiografia e repensados por muitos estudiosos das humanidades – é bem verdade que ainda falta muito a examinar. Fato é que esta década é marcante para o cenário nacional. E a Igreja Católica, enquanto instituição historicamente partícipe da estrutura social brasileira, não é simples figurante.

Um dos mais dedicados estudiosos da Igreja Católica no Brasil é o estadunidense Scott Mainwaring, que analisa de forma bastante lúcida a metamorfose da Igreja brasileira ao longo de sua trajetória. Ressaltando a importância desta instituição no cenário político e social brasileiro, Mainwaring assevera que “a Igreja brasileira sempre foi importante. Seus símbolos e seu discurso ajudam a moldar a identidade de diferentes classes e instituições sociais e ajudam a definir práticas políticas e sociais”.32 Neste ínterim, podemos perceber o

impacto que essa instituição tem nos dois espaços, quais sejam, o político e o social. Desde ser um elemento que molda identidades por meio do discurso, conforme nos diz o referido autor, até o exercício de influência nas esferas políticas e sociais de um país como o nosso, a Igreja constantemente buscou estar presente e ser atuante, ampliando seu espaço de ocupação (além de prevalecer, é claro, sobre o antro religioso brasileiro).

32 MAINWARING, Scott. A Igreja Católica e a Política no Brasil (1916-1985). São Paulo. Editora

Historicamente a trajetória da Igreja no Brasil é marcada por contínua aliança e diálogo com o Estado ou com as classes dominadoras, estando sempre vinculada ao poder e sendo a única instituição com prestígio suficiente para se igualar, no que tange à autoridade, ao Estado. No Rio Grande do Norte, os anos 60 foram marcados principalmente pelo advento da modernidade e a chegada de novas tecnologias. As novidades culturais efervescentes nos EUA ou na Europa nesse período, por exemplo, encontraram grande receptividade no estado. Conforme Costa, “a cultura do modernismo consiste [...] na revolução permanente, no desenvolvimento infinito, na perpétua criação e renovação em todas as esferas da vida”.33 Assim sendo, a

modernidade trouxe consigo mudanças de hábitos, comportamento e pensamento, o que fez com que valores e crenças tradicionais, principalmente os ligados ao catolicismo fossem, por vezes, desestimados, fomentando forte oposição por parte da Igreja. De acordo com De Morais,

Isto se compreende também porque a Igreja considerou o mundo moderno como produto direto das filosofias racionalistas e do abandono da doutrina cristã, ou seja, um produto do Mal que deveria ser transformado pela doutrina e ação da Igreja, não bastando a ampliação e o fortalecimento da esfera devocional para enfrentar a Modernidade, tendo este domínio servido como alicerce de uma sólida atuação sócio-política. Isto foi evidenciado [...] quando essa “ação concreta” foi explicitada através dos programas de Ação Católica, no sentido de recristianizar as estruturas sociais, de dotá-las de um fundamento doutrinário católico, de tirá-las das influências malignas do racionalismo, do materialismo, do liberalismo e do socialismo.34

Se nos recordarmos bem do espírito da época dos anos 60 no Brasil, veremos que muitas demandas sociais já não mais tinham preocupação em se enquadrar naquilo que a Igreja Católica trazia como perspectiva de realidade. Isso fez com que a Igreja reagisse prontamente, pois “estava ávida por, com o auxílio das páginas da imprensa, recolocar o catolicismo como orientador de todos os âmbitos do mundo social” 35 e de forma alguma estava interessada em abdicar do poder e da influência

que tinha.

E Caicó não passou alheia a tudo isso. No que tange às transformações, a cidade caminhava para o auge de um desenvolvimento econômico ainda não

33 COSTA, Wanderlúcia Garcia. “Acendam-se as luzes”: história da eletricidade em Caicó.

Trabalho de Conclusão de Curso em História (Graduação), Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Caicó-RN, 2011. p. 17.

34 DE MORAIS, Patrícia Wanessa. As colunas da Ordem: Imprensa, identidade e atuação política

da Igreja Católica norte-riograndense (1935-1936). Trabalho de Conclusão de Curso em História

(Mestrado), Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Natal, 2017. p. 57.

experimentado, devido ao advento da indústria algodoeira (o algodão-mocó era muito valorizado nesta época), crescendo demograficamente e passando a ser considerada o centro regional do Seridó:

Caicó inseria-se no Estado como centro subregional, sendo considerada como a terceira maior cidade no tocante a população e desenvolvimento. A identidade seridoense cobrava esforço dos atores sociais para que essa classificação não fosse perdida; essas manifestações identitárias situadas no âmbito da cultura transparecia seu aspecto fundamental para a própria estruturação, o recorte espacial: Caicó, em seu sentido simbólico e concreto.36

Durante esse período, Caicó expandiu em limites perimetrais, número de habitantes, em variedade e disponibilidade de serviços, em entretenimento, em oportunidades e em perspectivas, abrindo-se ao novo de uma forma até então ainda não vista. Como pudemos observar na citação supra, os caicoenses, devido às mudanças, passavam por uma profunda reformulação no tocante a sua identidade.

É neste cenário que entra a instrumentalização do jornal A Fôlha pela Diocese de Caicó como meio de contenção dessas rápidas transformações sociais, bem como a aplicação de seus discursos. A Diocese, por vezes, se apresenta como uma figura mentora, responsável por manter o cidadão alerta sobre animosidades quaisquer, realizando a manutenção da ordem, do respeito às figuras ilustres da cidade, dos bons hábitos e costumes e, principalmente, da tradição (tradição dentro daquela lógica apontada por Foucault em A arqueologia do saber), que, de acordo com o autor, “visa a dar uma importância temporal singular a um conjunto de fenômenos, ao mesmo tempo sucessivos e idênticos (ou, pelo menos, análogos)”.37

Quando esses elementos não eram assimilados (normalmente por inobservância - voluntária ou não - aos preceitos morais ensinados pela Diocese), a mesma sentia- se no dever de aplicar alguma “medida disciplinar” à sociedade caicoense em geral, por intermédio das páginas do periódico, medidas essas que se aproximam muito daquilo que vemos em sermões. Por isso a ação tão ostensiva contra a modernidade que se apresentava à época e o engajamento na difusão e na aplicação dos fundamentos doutrinários católicos.

36 COSTA, Wanderlúcia Garcia. “Acendam-se as luzes”: história da eletricidade em Caicó.

Trabalho de Conclusão de Curso em História (Graduação), Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Caicó-RN, 2011. p. 19.

Inicialmente, temos como indicativo dessa pretensão um fato registrado na edição publicada em 24 de setembro do ano de 1960, intitulada Respeito ao Velho, onde encontramos uma espécie de exaltação à figura de José Augusto Bezerra de Medeiros. Vejamos:

A atitude de algumas pessoas, que colocaram na estátua do dr. José Augusto Bezerra de Medeiros gravatas e bandeiras, fazendo com que a estátua ficasse parecendo mais um boneco do que um monumento,

merece, sem dúvida, a mais formal repulsa do povo desta cidade. Figura respeitável sob todos os títulos, o dr. José Augusto é um homem que atingiu a velhice sem uma mancha que desmerecesse seu passado de político e de cidadão. [...] envelheceu de mãos limpas e hoje tem a sua consciência tão alva quanta os cabelos que cobrem sua cabeça. [...] Se outros méritos não tivesse - e ele os tem em quantidade - isso bastaria para que fosse tratado com carinho não apenas pêla sua

família, mas por todo o Rio Grande do Norte. Em verdade, o dr. José Augusto é um exemplo de dignidade e honradez. E um desrespeito feito à

sua pessoa constitui um insulto às tradições de nossa região seridoense, que se orgulha de ter, entre os seus filhos, um homem de

estirpe moral de velho político potiguar. Fazemos um apelo a todos para que

respeitem a estátua do dr. José Augusto. Daí porque aplaudimos a atitude do delegado desta cidade, que colocou uma guarda para que ninguém tente ridicularizar um homem que constitui, para os moços, um exemplo de honestidade e espírito público.38

Sobre o tom imperativo do discurso da Diocese, notamos, retomando a perspectiva de Albuquerque Júnior,39 uma tentativa de pronunciar, de agir na

realidade por meio das palavras ditas e em frases como: 1) “Se outros méritos não tivesse [...] isso bastaria para que fosse tratado com carinho [...] por todo o Rio Grande do Norte”; 2) “Um desrespeito feito à sua pessoa constitui um insulto às tradições de nossa região seridoense” 3) [...] Fazemos um apelo a todos para que respeitem a estátua do dr. José Augusto”; ou ainda 4) “aplaudimos a atitude do delegado desta cidade, que colocou uma guarda para que ninguém tente ridicularizar um homem que constitui, para os moços, um exemplo de honestidade e espírito público”.

Quais seriam as motivações que levariam a Diocese de Caicó, por meio do A Fôlha, a sair em defesa de José Augusto de forma tão incisiva, beirando a mais pura bajulação? O que estava em jogo no que tange a interesses? Interessante notar a opinião de Mainwaring quanto à participação da Igreja na política e suas relações

38 RESPEITO AO VELHO. Jornal A Fôlha. Acervo digitalizado e disponível no Laboratório de

Documentação Histórica do CERES/UFRN - Campus Caicó (edição publicada em 24 Set de 1960), p. 1. [grifo nosso].

39 ALBUQUERQUE JUNIOR, Durval Muniz de. A dimensão retórica da historiografia. In: PINSKY,

com o poder quando afirma que “a tendência de proteger interesses organizacionais tem sido e continuará sendo [...] um elemento chave no envolvimento da Igreja Católica na política.” 40 Ora, José Augusto Bezerra de Medeiros foi governador do

estado do Rio Grande do Norte (1924-1927), senador, deputado federal e estadual, professor engajado nas causas educacionais e nota-se que era uma figura bastante apoiada pela Igreja, que no trecho apresentado, procura elevar sua imagem e reprimir qualquer tipo de contestação à lisura de seu caráter - se necessário fosse, até por meio de forças coercitivas.

As principais bandeiras levantadas por José Augusto enquanto político foram o aprimoramento da produção algodoeira na cidade (trazendo certo desenvolvimento industrial e econômico à região), bem como melhorias na saúde pública (a ele se atribui a construção do primeiro Hospital do Seridó, na cidade de Caicó) e inovações significativas no setor educacional como o combate ao analfabetismo e a valorização do ensino público (o que lhe rendeu homenagens, uma estátua e até a escolha de seu nome para patrono da mais bem sucedida instituição educacional da cidade à época, o Centro Educacional José Augusto - CEJA, existente até os nossos dias). Por conta dessas medidas, José Augusto ficou conhecido nacionalmente.41

Assim sendo, podemos enxergar de forma clara a influência da Diocese nos trâmites políticos da cidade e na campanha que se fazia em torno de José Augusto, descendente direto dos Bezerra de Medeiros, família oligarca que detinha o poder no sertão potiguar, dominando as atividades da cotonicultura e da criação de gado, e que se opunha ferrenhamente aos Albuquerque Maranhão, elite política que concentrava em si o domínio das atividades da cana-de-açúcar no litoral norte- riograndense.

Ao se dispor favorável a um sujeito tão influente politicamente, a Diocese também se coloca numa posição bastante confortável e vantajosa para discursar, manifestando seus interesses por meio das publicações, tendo de forma bastante acessível o poder à sua disposição. Mainwaring, com relação a essa dinâmica, pontua que

40 MAINWARING, Scott. A Igreja Católica e a Política no Brasil (1916-1985). São Paulo. Editora

Brasiliense, 2004, p. 16.

41 TEIXEIRA, Everaldo Dantas. O arquiteto e o servente: O CEJA como marca da modernidade.

Trabalho de Conclusão de Curso em História (Graduação), Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Caicó-RN, 2012. p 51-57.

“[...] qualquer exame da Igreja e da política deve levar em consideração o caráter institucional da primeira. A fé é um fenômeno supra-racional que se proclama pairar sobre todos os outros valores. A Igreja tem início nessa

fé, mas, como toda instituição, ao desenvolver interesses, então tenta defendê-los. O objetivo principal de qualquer Igreja é propagar sua

mensagem religiosa. Todavia, dependendo da percepção que tenha

dessa mensagem, pode vir a se preocupar com a defesa de interesses

tais como sua unidade, posição: em relação às outras religiões, influência

na sociedade e no Estado [...].42

Num outro espaço dessa mesma edição, temos uma coluna intitulada Falta pouco para o fim, escrita por José Lucas de Barros, trovador e cordelista paraibano residente em Caicó à época, inclusive autor da letra do hino do referido município. Além poeta, Barros era professor e advogado, configurando-se, portanto, um homem de certa relevância social na cidade. Embora Barros não fizesse parte do editorial do jornal A Fôlha (haja vista que a escrita do periódico era fruto também da colaboração de terceiros), a presença de sua opinião em forma de um artigo no mesmo, denota - e denuncia - o compartilhamento de ideias entre ele e a Diocese. Nessa coluna, retratam-se as repercussões do período eleitoral que ocorrera em outubro de 1960. Na ocasião, os cargos pleiteados eram os de presidente da República (bem como seu vice) e governador do estado (bem como seu vice).

No Brasil, o frenesi eleitoral se dava pela disputa presidencial entre Jânio Quadros e Henrique Teixeira Lott. Numa das chapas concorrentes ao governo do estado do Rio Grande do Norte, Walfredo Gurgel (fundador do A Fôlha) foi candidato a vice-governador ao lado de Aluizio Alves, candidato a governador. Não é preciso ir muito longe para perceber que a Diocese de Sant’Anna, nas páginas do periódico, claramente se coloca a favor das candidaturas dos mesmos:

FIGURA 1 - Apoio às campanhas de Aluizio Alves e Walfredo D. Gurgel para os cargos de governador

e vice-governador do Estado, respectivamente.43

42 MAINWARING, Scott. A Igreja Católica e a Política no Brasil (1916-1985). São Paulo. Editora

Brasiliense, 2004, p. 15-16. [grifo nosso].

43 JORNAL A FÔLHA. Acervo digitalizado e disponível no Laboratório de Documentação Histórica do

As repercussões das quais tratam a crônica são as agitações e animosidades dos eleitores caicoenses no período. A impressão que se passa no relato é que o comportamento do eleitorado refletia uma população apaixonada, inflamada pelas disputas políticas, originando uma rivalidade extrema:

Estão expirando os dias da campanha mais ardente que jamais se viu nesta terra. Graças a Deus, em poucos dias voltaremos ao clima normal de paz e serenidade. [...] Semblantes que há pouco tempo simbolizavam a prudência e a serenidade, agora estampam a marca do desespero e das paixões faiscantes. [...] Tôda a gente fala de política embora pouca gente esteja

autorizada a isso. O lamentável é ver pessoas que deveriam ficar aquém da política, andarem desavisadamente levando de achincalhe os mais respeitáveis nomes de nossa terra. Muitos querem falar e dizer,

e nessa ânsia louca de dizer e falar, jogam as palavras adiante do pensamento e, finalmente, falam, embora não digam. [...] Que a calma não perca o sentido, ao menos neste intermezzo, quando já falta pouco para o fim dêste drama enfadonho.44

Temos, portanto, um pronunciamento veiculado no periódico direcionado à sociedade com o intuito de “repreender” o comportamento dos eleitores na ocasião. O trecho nos diz: “Tôda a gente fala de política embora pouca gente esteja autorizada a isso. O lamentável é ver pessoas que deveriam ficar aquém da política andarem desavisadamente levando de achincalhe os mais respeitáveis nomes de nossa terra.” Há aqui uma valorização daqueles que são da terra, que são filhos de Caicó ou do Seridó (tal qual vimos no caso de José Augusto Bezerra de Medeiros), além de uma afirmação bastante emblemática no que diz respeito à participação dos caicoenses na política. A Diocese, ao publicar a coluna assinada por Barros, informa taxativamente que nem todos têm autorização para falar de política, além de asseverar que haviam certas pessoas que deveriam estar à parte do processo político. O trecho não explicita quais pessoas eram essas, mas, num contexto em que o Estado brasileiro até então se colocava como um Estado democrático de direito (a saber, 1960) e que o filósofo grego Aristóteles, por exemplo, pontua que “a democracia ocorre quando os que não possuem muitas propriedades, e que são pobres, têm autoridade no sistema de governo”45, ou seja, a maioria (numericamente

falando) dos que compõem a pólis, como pode então uma instituição arrogar para si o poder de decidir quem tem autoridade ou não para falar de política?

44 FALTA POUCO PARA O FIM. Jornal A Fôlha. Acervo digitalizado e disponível no Laboratório de

Documentação Histórica do CERES/UFRN - Campus Caicó (edição publicada em 24 Set de 1960), p. 2. [grifo nosso].

A Guerra Fria também perpassa os idos dos 60. O embate ideológico entre os EUA e a URSS estão efervescentes. A Igreja Católica tem lugar importante na guerra contra o comunismo e no Brasil, foi muito notória a participação da instituição no período. A Diocese de Caicó, neste contexto, não ficou de fora e claramente se posiciona como opositora dos ideais comunistas e da leitura de mundo colocada por Karl Marx. É muito comum encontrarmos no A Fôlha diversas publicações sobre o assunto, e, pelo teor das crônicas e artigos de opinião, percebe-se a formação de um forte discurso anticomunista e uma tentativa de instruir os leitores nesse sentido.

Na edição de 6 de maio 1961, na crônica O comunismo militante e a liberdade, vemos um exemplo:

A civilização de nossa época defronta-se com uma poderosa fôrça

antagônica que ameaça destruir total ou parcialmente a liberdade e

tranquilidade do universo. Essa tão poderosa fôrça é o Comunismo nascido na Rússia de Lenine, que, embora derrotado no campo da luta como foi na Espanha pelas tropas do General Franco, aliadas ao espírito indomável do povo espanhol [...] não perdeu a perserverante ideia de se imiscuir nos demais regimes governamentais de outros povos amantes da liberdade, pregando a desunião das classes, a desagregação da família, o desrespeito às instituições religiosas, que é o alvo principal. [...] Nota-se assim a

contradição existente entre a Democracia e o Comunismo. Enquanto a primeira prega os sábios ensinamentos de aproximação dos homens, entre si, o segundo procura promover a todo custo o desmoronamento da sociedade [...] só unidos como bons democratas, lutando no fito único

de abominar as ideias contrárias aos princípios da Democracia, é que a civilização mundial, de nossa época, sobreviverá à luta contra o credo

vermelho.46

Percebemos aqui a posição oficial da Diocese de Caicó frente ao comunismo, orientada pela opinião do papa João XXIII, que em 1961 publicou a carta encíclica Mater et Magistra (Mãe e Mestra), onde proíbe veementemente a adesão dos fiéis católicos a qualquer uma das correntes socialistas ou comunistas. Com o intuito de seguir o que nos recomenda Cláudio Pereira Elmir sobre o cruzamento de fontes, tomamos um trecho desta carta encíclica e nela encontramos o seguinte:

Entre comunismo e cristianismo, o pontífice declara novamente que a

oposição é radical, e acrescenta não se poder admitir de maneira alguma

que os católicos adiram ao socialismo moderado [...] porque fomenta [...]

grave prejuízo da liberdade humana [...].47

46 O COMUNISMO MILITANTE E A LIBERDADE. Jornal A Fôlha. Acervo digitalizado e disponível no

Laboratório de Documentação Histórica do CERES/UFRN - Campus Caicó (edição publicada em 6

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