(Carlos e Carla), de Brasília, informando que passariam duas semanas em Natal. Escrevi de volta e perguntei se os dois pode- riam dar uma entrevista e eles responderam rapidamente que “era só combinar”. Pelo MSN, perguntei onde os dois ficariam em sua estadia pela cidade e eles informaram que ficariam em um hotel da zona sul de Natal, não tão distante de onde moro. Trocamos os números de telefone e os dois me falaram os dias que permaneceriam na cidade.
Mesmo que as conversas com este casal tenham durado várias semanas e já tivéssemos criado alguma afinidade, não sabia o que esperar exatamente deste universo. Me sentia inseguro
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não apenas por realizar minha primeira entrevista, mas por não saber exatamente como eu estava sendo percebido pelo casal e, sobretudo, se minha postura como pesquisador estava clara para eles. Don Kulick (1995), ao refletir sobre a sexualidade no trabalho de campo em antropologia, se pergunta como a sexualidade do antropólogo é percebida pelas pessoas ou pelos grupos os quais ele está pesquisando, e os motivos pelos quais estas vivências não são “sexualizadas” nos textos antropológicos.
Numa terça-feira à tarde, recebo uma mensagem de texto do Carlos informando que eles ficariam a noite no hotel porque fizeram um passeio pelas dunas durante o dia e estavam cansados para sair e que seria, portanto, interessante se a entre- vista fosse realizada por lá. Respondi sugerindo um horário e combinamos de nos encontrar no restaurante do hotel. A entrevista com o Casal 02 durou, aproximadamente, 2 horas. Ambos são de Brasília, servidores públicos e a renda do casal é cerca de R$ 18.000,00. Carlos tem 41 e Carla tem 34 anos. São casados há 10 anos e praticam swing há 5 anos e meio. Quando perguntei de quem foi a iniciativa para se iniciar no swing, o Carlos respondeu: “Dela, ela é a culpada”. Em meio às risadas, a Carla deu o seguinte depoimento:
Aqui a ideia partiu de mim mesmo. A gente via muito pornô e sempre tinha 2 mulheres e 1 homem nas cenas e eu queria por toda lei ficar com outra mulher. Sempre falava para o Carlos que queria, mas o problema era arrumar a menina já que moramos numa cidade pequena e na época, já tem uns 7 anos isso, não tinha essa facilidade de net rápida em casa, sites e contatos etc.! (Carla, Casal 02)
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A internet se tornou uma ferramenta importante para o estabelecimento de contatos entre os casais, além de ajudar na divulgação da prática. A maior parte dos contatos hoje é feita por meio de anúncios em sites, nos quais é possível criar perfis e páginas pessoais. Segundo o Casal 02, uma das primeiras coisas que fizeram foi colocar anúncios em revistas, mas que “era muito difícil encontrar um casal sério e bacana”. Depois de algumas decepções, começaram a colocar anúncios na internet, o que resultou nos primeiros encontros com casais também adeptos da prática. Ferramentas como webcam e microfone permitem que os casais se conheçam antes de um primeiro encontro, controlando assim os riscos de decepções, como narrado anteriormente pelo casal.
Mesmo com a facilidade trazida pelas novas tecnologias, como a internet e redes sociais, o Casal 02 afirmou que ainda preferem visitar casas de swing como forma de conhecer outros casais, e mencionaram ainda que foi assim que conheceram casais de Natal. Quando perguntei quantos casais de Natal eles conheciam, falaram que conheceram apenas um casal, mas que “Natal tem muito casal bonito, muito casal gente fina”. Perguntei como eles fizeram para manter contato com esses casais e o Carlos falou do CRS62, ou Capital Real Swingers, um site especia-
lizado criado por um casal de Brasília que, diferente de outros sites para o público swinger, é uma comunidade “fechada e só pode fazer parte quem é convidado” (Carlos, Casal 02). Durante minha pesquisa na internet não havia encontrado nenhuma
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referência a este site. Pedi, então, para que o Casal 02 me falasse mais sobre o CRS e me deram o seguinte depoimento63:
Carlos: “CRS é um site novo, acho que de 2007, criado por um pessoal lá de Brasília, por isso que é Capital Real Swingers, entendeu? E ele tem um diferencial, porque o lema do site é ‘no fakes’, e então, cada casal ou solteira ou solteiro tem que ser convidado por alguém para poder participar, e tu só se pode convidar alguém que tu conheceu pessoalmente, por isso é mais seguro para a gente, porque todo mundo que tá lá é ‘real’, não é ‘fake’.”
Carla: “Também depois que você entra existe todo um processo...”
Carlos: “Isso, o pessoal é bem rigoroso...”
Carla: “Você passa por um processo de diplomação, onde 4 membros diplomados precisam dar seu parecer que você é real, e aí você se torna diplomado também e muda seu status lá para ‘casal real’. É muito bom, porque antes a gente falava com muito casal falso, né...”
Carlos: “Era... Nos outros sites, abertos, tinha muito cara que se passava por casal e no CRS não, a gente sabe que quem tá ali é real, não tem fake...”.
63 Seria muito interessante pensar como são formadas, construídas e mantidas essas redes sociais voltadas exclusivamente para o público swinger. Mas esta questão não foi analisada no presente trabalho.
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Perguntei em seguida quantos casais de Natal faziam parte desse site e o Carlos falou que “uns 40 casais”. Quando comentei que seria ótimo para minha pesquisa se eu pudesse entrar em contato com todos eles, a Carla sugeriu em tom de brincadeira:
Carla: “A gente pode mandar o convite para ele, né?”. Carlos: “Não, como assim... Mas ele não é do swing, não pode (risos)”.
Expliquei que eu poderia criar um perfil de pesquisador, explicando lá meus interesses acadêmicos e objetivos com a pesquisa. Em meio aos risos, eles pegaram o celular e me perguntaram para qual e-mail poderiam enviar o convite.
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O Capital Real Swingers, ou simplesmente CRS, é uma rede social fechada criada por um casal de Brasília chamado de Casal RuBi, em 2007. Como narrado anteriormente pelo Casal 02, o site procura se diferenciar dos outros ao não aceitar a criação de “perfis falsos” dentro dele. Logo na página inicial, o visitante se depara com uma série de regras e dicas que os administradores do site dão para os usuários, localizadas ao lado do espaço destinado para que os membros façam o login para entrar no site.
Pouco antes do final do ano de 2010, criei meu perfil no CRS, sob o nome de “Pesquisador UFRN”, explicando meus propósitos em ter um perfil temporário na comunidade e que procurava por voluntários que pudessem ajudar na pesquisa. Também deixei disponível meu e-mail no perfil. Aos poucos, os primeiros casais começaram a acessar o meu perfil e durante algumas semanas recebi vários recados como este:
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