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4. GROUP DISCUSSIONS

4.4. Regulatory aspects in burnup credit

4.4.4. Recommendations

Fonte: Memorial Institucional do IFBA

Construir um perfil da comunidade estudantil da ETFBA, tendo o gênero como referência analítica, exige ir além da identificação do número de estudantes mulheres, comparando-o com o de homens. Faz-se necessário localizá-las por curso, definindo os espaços em que elas acessaram com maior ou menor facilidade. Neste ponto, a pesquisa evidencia a diferença, em termos quantitativos, de determinados cursos, cujas profissões eram socialmente consideradas mais feminizadas como Química, Geologia, Instrumentação e

34 ICEIA – Instituto Central de Educação Isaías Alves, criada em 1968, como escola de formação de professores, localiza-se no Barbalho, em um prédio vizinho ao prédio da ETFBA, hoje IFBA.

Edificações35. Nestes, o número de mulheres era mais expressivo, embora a pesquisa demonstre que com exceção de Química, esse número nunca chegou a ser igual ao de homens, o que comprova que a Escola como um todo, manteve-se como um espaço de formação majoritariamente masculino.

Segundo as estudantes pesquisadas, a relação curso-sexo/profissão-sexo se apresentava dentro e fora da Escola, seguindo normas culturais do que era estabelecido como adequado para os homens e para as mulheres. Fora da Escola sempre eram cobradas por terem escolhido cursos/profissões que não estavam “naturalmente” destinados às mulheres36, enquanto na Escola tinham que responder o tempo todo a provocações por não terem optado por um curso que toda a comunidade escolar compreendia apropriado para as mulheres. Tais provocações apresentavam-se em forma de simples definição de que elas deveriam estar fazendo outro curso, como na constatação de Ana Alice (22 MAR. 2016), de que “os alunos de edificações sempre reclamavam: - Por que você não fez Edificações, mulher?!”, mas também em forma de piadas que identificavam suas sexualidades a partir de representações sociais ligadas ao curso/profissão, como, por exemplo, a ideia de que “menina fazendo Mecânica ou Metalurgia, só podia ser lésbica” (Leolinda, 05 mai. 2016)37.

Comentários como esse evidenciam a forma como a Escola e sua comunidade se tornam, em muitas situações, meras reprodutoras de estereótipos, convenções e ideias que a sociedade, em geral, apresenta como verdades. Analisá-los pressupõe pensar a escola como um espaço constituído historicamente como lócus da produção cotidiana de desigualdades de gênero, raça, classe, sexualidade, geração etc. ou como espaço regido por normas e regras que separam, classificam e hierarquizam. “Currículos, normas, procedimentos de ensino, teorias, linguagem, materiais didáticos, processos de avaliação são, seguramente, loci das diferenças de gênero, sexualidade, etnia, classe — são constituídos por essas distinções e, ao mesmo tempo, seus produtores” (LOURO, 1997, p. 64).

35 Não foi possível neste estudo, adentrar nos fundamentos históricos de todos os cursos da ETFBA cuja presença de meninas a comunidade, escolar e externa, considerava aceitável, tendo como parâmetro as representações sociais do feminino. Adiante analiso o curso de Química sobre essa perspectiva e, tendo esta referência, ouso inferir que as profissões de técnico em Geologia, Instrumentação e Edificações eram reconhecidas como passíveis de serem exercidas por mulheres, por exigirem habilidades mais próximas das representações sociais femininas, como o cuidado, a atenção, a dedicação etc.

36 A forma como a sociedade vai criticar as estudantes da ETFBA, naquele contexto histórico, por suas escolhas profissionais, a partir de convenções e marcadores socioculturais do que as mulheres podem ou não fazer, das profissões adequadas a elas e do que se espera delas, é discutido no quarto capítulo, seção 4.1.

37 Adiante retomo a questão da relação curso/profissão-sexualidade, identificando essa e outras falas estereotipadas como referências da “violência simbólica” (BOURDIER, 2003) e da “pedagogia do insulto” (JUNQUEIRA, 2009), difundidas na escola, enquanto campo social marcado por “relações patriarcais de gênero” (SAFFIOTI, 2004).

A escola é, nessas condições, um espaço de demarcação: do papel de cada um; do que é permitido ou não; do que é certo ou errado, ou do que é adequado a um ou outro sexo. Seus procedimentos e suas táticas de organização e de classificação representam campos de um exercício (desigual) de poder. Isso porque, enquanto instituição responsável pela formação dos sujeitos, a escola foi concebida dividindo através de múltiplos instrumentos de classificação, ordenamento e hierarquização, buscando distinguir os que tinham, ou não, direito ao conhecimento, ao saber e, principalmente, os que podiam ou não podiam ser formados (LOURO, 1997).

Instituindo normas reguladoras de comportamentos sociais, a escola também delimita as escolhas do indivíduo e, nesse sentido aponta “inadequações” e “desajustes”, buscando constituir mecanismos para redefinições e reencaminhamentos.

Por um aprendizado eficaz, continuado e sutil, um ritmo, uma cadência, uma disposição física, uma postura, parecem penetrar nos sujeitos, ao mesmo tempo em que esses reagem e envolvidos por tais dispositivos e práticas, constituem suas identidades "escolarizadas". Gestos, movimentos, sentidos são produzidos no espaço escolar e incorporados por meninos e meninas, tornam-se parte de seus corpos. Ali se aprende a olhar e a se olhar, se aprende a ouvir, a falar e a calar; se aprende a preferir. Todos os sentidos são treinados, fazendo com que cada um e cada uma conheça os sons, os cheiros e os sabores "bons" e decentes e rejeite os indecentes; aprenda o que, a quem e como tocar (ou, na maior parte das vezes, não tocar); fazendo com que tenha algumas habilidades e não outras... E todas essas lições são atravessadas pelas diferenças, elas confirmam e também produzem diferença. Evidentemente, os sujeitos não são passivos receptores de imposições externas. Ativamente eles se envolvem e são envolvidos nessas aprendizagens — reagem, respondem, recusam ou as assumem inteiramente (LOURO, 1997, p. 61).

O papel assumido pela Escola de forma institucionalizada, também se apresenta nos discursos e comportamentos da maior parte do corpo docente e discente e acaba por se tornar verdadeiro e compreendido como o “normal”. Isso explica a forma como as estudantes dos cursos de Eletrotécnica, Mecânica e Metalurgia são questionadas por outros(as) estudantes e por docentes, por não terem optado por fazer um curso “adequado” às suas condições de mulheres e por estarem, consequentemente, em situação “anormal” ou “desviante”.

Nesses aspectos destaco depoimentos como:

O curso que tinha mais mulher era Química. Muito mais em Química, depois Geologia. Eletrotécnica você contava de dedo. Mecânica, Eletrotécnica contava de dedo. Edificações já

tinha mais. Os meninos perguntavam: “- Por que você não vem pra Química?” (Francisca, 29 abr. 2016).

Sempre nos questionavam por não termos feito outro curso. Química era um curso com muitas mulheres e era a menina dos olhos da escola, então as pessoas às vezes perguntavam por que não estávamos fazendo Química (Zahidé, 05 abr. 2016).

6.0 - Laboratório de Química – ETFBA: década de 1970.