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PARTIE III : PROSPECTIVE SUR LE LIENS ENTRE MIGRATION, ENVIRONNEMENT

VII. RECOMMANDATIONS

Como esta pesquisa tem como preocupação inicial analisar uma prática social situada, através da análise do discurso, faço uma opção inicial por inseri-la no paradigma das pesquisas realizadas na área de estudo da Linguística Aplicada Indisciplinar, conforme propõe Moita Lopes (2006). Assumo, inicialmente, dois pressupostos básicos da pesquisa em LA Indisciplinar: a natureza interdisciplinar e a base interpretativista da pesquisa, como elementos orientadores e que permitem justificar a utilização das orientações metodológicas presentes em Chouliaraki e Fairclough (1999), orientações advindas de uma das diferentes abordagensda Análise de Discurso Crítica-ADC10. Esses dois pressupostos são o meu ponto de partida para apresentar uma reflexão sobre a possibilidade de diálogo entre a LA Indisciplinar, orientada pelo enfoque socioconstrucionista, e a proposta de Chouliaraki e

10 Resende (2009, p. 12) diz que a ADC é um ramo de estudo do discurso com diferentes abordagens. Entre elas, têm-se as abordagens de Norman Fairclough, de Teun van Dijk e de Ruth Wodak. A primeira propõe uma articulação entre a Linguística Sistêmico-Funcional e a Sociologia; a segunda estabelece um diálogo entre a Linguística Textual e a Psicologia; já a última volta-se para a Sociolinguística e a História.

Fairclough (1999), orientada pelo enfoque realista crítico. Esse diálogo dar-se-á, principalmente, no fazer da pesquisa, ou seja, na forma como a análise será realizada.

A natureza interdisciplinar da LA surge, inicialmente, da necessidade do entendimento da complexidade dos fatos de linguagem em sala de aula e toma um novo rumo ao ser abordada como uma questão de pesquisa, ou seja, o problema de pesquisa passa a ser entendido como sendo de natureza interdisciplinar. Aqui, o problema motivador da pesquisa – a existência de um sentimento de desmotivação e de desvalorização por parte dos profissionais docentes de escolas públicas – é abordado de maneira interdisciplinar. A interdisciplinaridade em LA assume uma forma de ação, ou seja, o pesquisador passa a exercer a interdisciplinaridade, em vez de simplesmente juntar uma gama de conhecimentos advindos de diferentes disciplinas (MOITA LOPES, 2006b, p. 19). Nesta pesquisa, exerço um posicionamento interdisciplinar, na medida em que, para atingir os objetivos propostos, tenho que transitar por diferentes áreas de conhecimento, tais como: a LA, a ADC, a Educação, a Cultura e a Sociologia. É no meu fazer da pesquisa que essas áreas de estudo vão participando e vão sendo incorporadas, não é uma simples junção, previamente determinada, de diferentes áreas de estudo.

A construção teórica é requerida pela temática em estudo e advém de diferentes áreas de conhecimento, uma teoria participa da construção do conhecimento junto com outras teorias, sem que uma se reduza à outra. Assim, não realizo, no trabalho, ações disciplinares, ou seja, não restrinjo a atuação ao campo de uma ou de outra disciplina, mas sim na fronteira disciplinar, onde apesar de percebermos as barreiras disciplinares, o trânsito entre elas é sempre possível. Essa perspectiva de trabalho, defendida pela LA Indisciplinar, também é central na ADC, como diz Resende (2009) ao apresentar as duas características fundamentais das abordagens críticas nos estudos da linguagem: a interdisciplinaridade e o caráter posicionado.

O outro pressuposto básico sobre a importância das pesquisas em LA Indisciplinar é sua natureza interpretativista. A compreensão sobre a importância que a natureza interpretativista assume nos estudos da LA Indisciplinar pode ser demonstrada observando-se o próprio desenvolvimento da LA, esboçado no capítulo teórico sobre LA. Aqui, a base interpretativista participa diretamente na maneira como o conhecimento é abordado em LA Indisciplinar. Parte-se do princípio de que o conhecimento é construído nas práticas discursivas e de que é a natureza interpretativista que possibilita ao analista posicionar-se frente a essa construção.

O caráter interpretativista da pesquisa implica que o acesso ao objeto de estudo não é realizado diretamente, ele é feito sempre de forma indireta, o objeto de estudo é sempre interpretado. Parto do princípio de que não existe uma única realidade, uma verdade absoluta, entendendo que “[...] os múltiplos significados que constituem as realidades só são passíveis de interpretação” (MOITA LOPES, 1994, p. 332). Há, portanto, uma compreensão de que os fenômenos sociais estão estreitamente ligados aos membros da sociedade. A ação de pesquisa tem relação direta com a participação dos indivíduos em contextos sociais específicos. Nessa ação, o conhecimento é construído.

Como pesquisadora, tento dar conta das interpretações e construções dos que vivem o contexto explorado, mas sem esquecer que também sou participante do mesmo contexto e que meus valores e crenças estão presentes ao pensar o que e como pesquisar. (ROLLEMBERG, 2008, p. 80)

Se o conhecimento é construído a partir das interpretações realizadas pelos indivíduos membros de uma determinada sociedade, então existe a possibilidade de construção de diferentes conhecimentos. Como então validar esses conhecimentos construídos? Tratando dessa questão, Foucault propõe, seguindo a maneira como o filósofo Nietzsche (1999) trata a noção de verdade, a existência de regimes de verdade:

Cada sociedade tem seu regime de verdade: isto é, os tipos de discursos que ela acolhe e faz funcionar como verdadeiros; os mecanismos e as instâncias que permitem distinguir os enunciados verdadeiros dos falsos, a maneira como se sanciona uns e outros; as técnicas e os procedimentos que são valorizados para a obtenção da verdade: o estatuto daqueles que têm o dizer que funciona como verdadeiro. (FOUCAULT, 2008, p. 12)

As pesquisas de base interpretativista estão cada vez mais ganhando espaço no meio acadêmico brasileiro, principalmente no campo das Ciências Sociais e Humanas. Moita Lopes (1993, p. 2), falando sobre a tradição interpretativista de pesquisa diz: “Hoje se pode falar, pelo menos, dos seguintes tipos de pesquisa na tradição interpretativista: pesquisa iluminativa, pesquisa etnográfica, pesquisa introspectiva, pesquisa–ação, pesquisa participante e pesquisa colaborativa”.