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Recommandations alimentaires

PARTIE 3 : TRAITEMENT

2. TRAITEMENT PREVENTIF

2.1. Recommandations alimentaires

Por fim, há os mundos perturbados, que são instáveis e se caracterizam pela distribuição multipolar do poder ou por uma bipolaridade mundial renovada. A instabilidade poderia surgir dos conflitos de interesses e ambições nacionais ou pela influência ideológica renovada nos assuntos mundiais435.

A primeira variação pensada pelos futuristas é a do comunismo desintegrado, não sendo ele mais uma força mundial importante. A potência mundial mais forte, nesta variação, possuiria programas intervencionistas, visando a formação de um bloco disciplinado de países aliados, clientes ou conquistados. No período de 1975, os candidatos claros seriam a URSS e os EUA. Para o fim dos anos 70 e começos dos 80, alguma forma de união européia ou o Japão poderia assumir tal papel. O que motivaria a URSS a agir dessa forma seria o engrandecimento nacional, sendo a ideologia comunista um meio para garantir a expansão da influência internacional. Contudo, o manto revolucionário poderia ser tomado pela China, pois, para ela e para o terceiro mundo, a URSS poderia parecer conservadora ou até contra- revolucionária. As outras grandes potências poderiam: 1) responder no mesmo nível ao agrupamento defensivo ou competitivo, existindo, assim, um nível alto de tensão, chegando à guerra; 2) sentir falta de dinamismo e de orientação, reagindo de forma defensiva, buscando o isolamento e sendo seriamente vulneráveis às potências agressivas. A tensão poderia ser alta, podendo resultar, a qualquer momento, em conflito436.

Outra versão do mundo com o comunismo desintegrado seria possível se as tensões sino-soviéticas tivessem como resultado uma guerra entre 1967 e 1975. Com isso, o movimento comunista receberia um golpe fatal e várias formas contrárias de comunismo poderiam sobreviver, tais como as doutrinas revolucionárias dos países do terceiro mundo. Os EUA e a Europa poderiam querer isolar a China e a URSS em suas crises. Um conflito entre os comunistas poderia surgir, também, de uma guerra entre China e EUA, na qual a URSS se recusasse a apoiar a China e que os europeus se recusassem a apoiar os EUA. Resultaria,

                                                                                                                          435

KAHN, H.; WIENER, A.J, 1967, p. 258. 436 Ibid., p. 258-259.

disso tudo, um sistema multipolar, com o comunismo desintegrado internacionalmente e tensão entre as potências437.

As ambições nestes mundos com o comunismo desintegrado seriam dadas pelos limites das crises. Os antagonistas procurariam cegamente defesas contra as tensões, ou fugir de seus desafios e talvez formular suas posições sobre articulações messiânicas. O terceiro mundo poderia, novamente, desmantelar-se a partir de pressões externas e intervenções, tendo menos recursos para enfrentar a situação. Poderia acontecer, ainda, um colapso de novas nações em algumas áreas, principalmente na África, com intervenções neo-imperialistas, visando restaurar a ordem, realizadas pelas maiores potências ou por países secundários no papel de criados438.

Outro mundo perturbado é aquele no qual o comunismo possui dinamismo. Existiria, então, um renovado poder ideológico e uma ambição dos comunistas, mas sem necessariamente restabelecer um mundo de conflito bipolar. O mundo comunista poderia estar ainda dividido em diversas “seitas”, apesar de unificado por pressupostos básicos. A unificação política poderia acontecer a partir da URSS e da liderança de uma nova “esquerda”, que não seria como a stalinista, mas sim um ressurgimento romântico, entre os elementos mais jovens do partido comunista soviético, com fins de gerir uma sociedade forte em uma política exterior revolucionária e disposta aos riscos. Esse espírito renovado poderia resultar de uma reação contra a deserção de certos países do leste europeu do Bloco Comunista, que motivaria uma nova aliança comunista, mais coerente e dinâmica, voltando a ter controle sobre partidos estrangeiros. A China, então, pelo sucesso do novo “esquerdismo” do partido soviético e por falhas chinesas internas, ou por crises estrangeiras, procuraria ajuda ou proteção dos soviéticos439.

A Europa não-comunista poderia ter passado por alguns fracassos econômicos ou sociais ou por alguma estagnação e, então, pelas relações que possuiria com a sua parte oriental, poderia aceitar bem o comunismo – ainda que com um posicionamento neutro – opondo-se, inclusive, a boicotes contra ele. Assim, se existisse uma nova liderança soviética, algumas tendências sociais e políticas desfavoráveis dentro da Europa, assim como uma nação pró-EUA, poderia sofrer um revés em um confronto com a China ou com a URSS. Isso poderia resultar em um mundo em desordem, no qual o comunismo, aproveitando-se dela, retomaria sua marcha. Mesmo que o comunismo estivesse enfraquecido no seu centro, esse                                                                                                                          

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KAHN, H.; WIENER, A.J, 1967, p. 259. 438

Ibid., p. 259. 439 Ibid., p. 259-260.

mundo poderia se concretizar se ele possuísse vigor na periferia, aproveitando-se também de uma oposição ainda mais desunida. Isso resultaria em um pessimismo crescente na Europa Ocidental e nos EUA, assim como em políticas exteriores muito passivas. Então, apesar da desunião, o moral dos estados comunistas poderia estar alto e, conforme a commonwealth comunista tornasse-se realidade, ela poderia ser vista como a onda do futuro440.

Por fim, há o mundo perturbado que considera um dinamismo europeu ou japonês. O ponto principal deste mundo é a afirmação do poder e da ambição da Europa ou do Japão em condições de tensão e de conflito potencial. Pensando no dinamismo europeu, os autores defendem que o fim das divisões no continente poderia resultar de uma afirmação do poder europeu contra a inércia ou a resistência ou dos EUA ou da URSS. Então, a OTAN poderia ser repudiada pela Europa, assim como os EUA, os quais retirariam suas tropas em meio a uma atmosfera de ameaças. Da mesma forma, a Europa poderia exigir que a URSS retirasse as tropas da Europa Oriental, o que também aconteceria sob uma atmosfera crítica. Surgiria, na fronteira com a URSS, uma cortina de ferro, com pesadas fortificações. Uma organização militar européia poderia se tornar um órgão militar efetivo e comandado pela França e pela Alemanha. Os EUA poderiam estar se fortificando e o Japão poderia estar isolado e rearmando-se. A Ásia experimentaria um desenvolvimento silencioso, com uma maior penetração européia, tanto econômica, quanto politicamente. Se a potência agressiva fosse o Japão, Kahn e Wiener esperavam um novo esforço com o fim de mobilizar a Ásia, sob o pretexto anti-comunista e anti-chinês, e assumindo um caráter ocidental. Poderia surgir, ainda, uma comunidade nuclear asiática, com fins de contenção. Frente a isso, a China poderia buscar uma reconciliação com a URSS ou com a Europa, já que cada vez mais o Japão apareceria como uma ameaça. Assim, as características deste mundo seriam a distribuição multipolar de poder militar, político e econômico, com a Europa ou o Japão sendo os principais protagonistas da dinâmica política do mundo441.

Assim, os mundos perturbados são aqueles nos quais a coexistência pacífica foi completamente abalada e substituída por uma situação constante de tensão e de competição acirrada e até mesmo belicosa. É interessante perceber a importância dada ao comunismo, tanto nos mundos introspectivos, quanto nos perturbados. Nos dois, a queda do comunismo seria acompanhada por uma perda de força dos EUA. Além disso, os autores consideram que uma crise na URSS também não seria algo benéfico. Portanto, a defesa pela coexistência                                                                                                                          

440

KAHN, H.; WIENER, A.J, 1967, ., p. 260-261. 441 Ibid., p. 261-262.

pacífica, que se dá também a partir da exposição dos prejuízos que seu fim traria, passa pela questão da importância da existência da URSS como o concorrente que estimula o crescimento americano. Dentro da dinâmica política concebida pelos autores, a ascensão do Japão e da Europa só adviria, contudo, das ações políticas americanas e soviéticas. Ou seja, somente ações equivocadas dessas duas potências poderiam abalar a situação de equilíbrio. Destarte, faz-se importante o planejamento tal como é realizado no O ano 2000.