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Assim sendo a Flaskô conta com uma descentralização da decisão na medida em que estipula assembleias e conselhos para realizar as deliberações. "Temos uma assembleia que reúne todos os trabalhadores uma vez por mês. Nela são definidas as diretrizes gerais sobre o funcionamento da fábrica e, como a execução disso requer um trabalho cotidiano, é eleito o conselho de fábrica, com representantes de cada setor e turno que se reúnem toda semana" (Pedro trabalhador entrevistado por RIBEIRO, 2013). De uma forma que existe um nível de participação coletiva que poderia se assemelhar aos círculos de controle de qualidade (CCQ) presente nos sistemas toyotistas, na medida em que há a participação dos trabalhadores na forma como a fábrica é organizada, gerida e também sobre seu funcionamento, mas que se distancia do método toyotista na medida em que o excedente produzido pelo método toyotista, do qual se deriva da expropriação do trabalho e da necessidade deste ser subsumido à imposição das ordens advindas dos detentores do capital, no caso o acionista, enquanto na Flaskô “nós produzimos para nós mesmos” argui um trabalhador no curta metragem de Guayaneche (2013), revelando que a participação dos trabalhadores nas atividades não tem o caráter de simples colaboração, mas de solidariedade na medida em que nas próprias palavras dos trabalhadores, eles trabalham para eles mesmos, os excedentes são decididos em deliberações coletivas, as dificuldades afetam tanto o administrativo quanto o chão de fábrica dentre outras características. Desta maneira essa gestão peculiar deve lidar com problemáticas políticas e econômicas.

A partir da relação com alguns dos clientes da Flaskô foi possível identificar algumas características do mercado no sentido de que a preocupação com a logística, a qualidade dos meios de produção é um fator julgado importante para as empresas que negociam com a fábrica. Além disso, as firmas confiam também nas relações que possuem com a fábrica. Ainda que genérica esta primeira análise, a identificação do

mercado contribui para entender melhor o impacto que cada cliente infere no faturamento, a partir da quantidade comprada, verificando por peso dos fatores essa influência que o mercado exerce na fábrica.

Para a realização desta análise, é necessário multiplicar a quantidade produzida pelo preço líquido do produto, e assim é possível verificar o peso real da opinião de cada cliente, com base na média de produtos consumidos por mês demonstrado no faturamento. Há certa dificuldade de contato com os clientes, tendo em vista a demora para as respostas ou dificuldades em comunicação com os mesmos. De qualquer maneira, é possível pensar algumas relações acerca dos dados coletados.

Vejamos alguns resultados:

FIGURA 7: Mapa Radar

Fonte: própria

Não é possível tirar muitas conclusões acerca do comportamento dos clientes da Flaskô, tendo em vista que há uma amostra limitada para compreender todas as dinâmicas da demanda. Todavia, na medida em que há uma maior resposta por parte dos clientes, maior é a capacidade de que a fábrica possa aprimorar suas operações relacionadas aos canais de distribuição e atendimento.

O fator “quantidade consumida” está vinculado à quantidade consumida por mês, de maneira que, para aprimorar essa análise, é importante cruzar essa informação com o preço de cada produto. Em síntese, nem sempre um cliente que consome a maior

quantidade de produtos é o que gera um maior faturamento para a fábrica, por isso a importância de estabelecer uma análise que vincule tanto a quantidade quanto o valor.

Os indicadores que mais pesam dentre as respostas dadas são aqueles que incidem sobre a logística e qualidade.

Houve certo comportamento padrão em algumas perguntas, mas que novamente deve ser considerado na medida em que há o incremento de novas respostas.

Dentro do indicador da confiança, “serviço técnico e pós venda de apoio ao cliente” e “boa relação” receberam as notas máximas de todos os clientes. Já no indicador de custo, a opinião dos clientes varia bastante. Há clientes que julgam importante que a fábrica possua uma maior cartela de fornecedores, enquanto há opiniões que apontam que isso é irrelevante.

No indicador logístico, os fatores “rapidez de entrega”, “pontualidade na entrega” e “conformidade às especificidades de entrega do cliente” foram itens que foram apontados com nota máxima.

Quanto à qualidade, também são três itens que são apontados com maior relevância, “conformidade às especificações de qualidade do produto e da matéria prima”, “padronização de processos”, “durabilidade dos produtos”.

Observe-se que, para o Cliente 3, o know-how é um dos fatores mais importante e que se relaciona com o fator sui generis da fábrica, na medida em que sob uma série de adversidades, desde a questão da falta de matéria prima ou da falta de conformidade, problema com máquinas, questões relacionadas a cortes de energia e ainda a problemática que envolve a questão da emissão de certificados, ainda assim a fábrica consegue manter a qualidade do produto.

Pela análise de mercado, a sua demanda por atributos como qualidade e logística é maior, tendo em vista as operações financeiras, o faturamento, bem como a qualidade dos índices da empresa. Fica evidente, porém, que apenas compreender as dinâmicas de mercado não é suficiente para compreender de maneira completa o caso da Flaskô, porque aqui elementos sui generis da ocupação não ficam evidentes, mas elementos vinculados ao caráter de ocupação permeiam em meio à política e economia. Entretanto, estamos visando a novas relações sociais de produção, por isso que este estudo

concentra esforços nas particularidades da fábrica como forma de identificar problemáticas que afetam o trabalho e não apenas a reprodução do valor.

Nesse sentido, ainda que a autogestão e a economia solidária não tenham se efetivado no mercado, tendo em vista uma série de fatores, o controle dos meios de produção podem ser ocupados e resignificados localmente. Dessa forma, a racionalidade capitalista se baseia em relações sociais controladas mediadas pelo capital, todavia, quando há acentuados pontos de crise, há a possibilidade para que a sociedade civil organizada tome os meios de produção, como Henri Lefevbre (1966) aponta.

Entretanto, ainda que com as crises haja a possibilidade para tais esforços, como o do controle operário, a racionalidade capitalista de mercado acaba minando as atividades de empreendimentos que questionam a lógica do capital como a economia solidária e os movimentos que buscam outros sentidos dentro da organização do trabalho, como o exemplo da Flaskô. Ela sofre com as flutuações de mercado como outras empresas, e ainda está em uma situação delicada, devido à condição devedora gerada pela administração patronal.

A Flaskô, pertencendo à geração do setor de plástico que faz a transformação das resinas e dos insumos em materiais plásticos, pertence à cadeia que mais sofre com essas flutuações, uma vez que não possui controle sobre os processos da cadeia de produção. Todavia, como mencionado, não é apenas a Flaskô que se encontra nessa situação, mas diversos negócios familiares e pequenos empreendimentos. Assim, há sempre um risco inerente à submissão que esses pequenos negócios possuem, tanto em relação ao cliente, quanto ao fornecedor, uma vez que há um oligopólio na cadeia de produção.

Enfim, há um esforço duplo da fábrica: primeiramente, ela opera sob uma estrutura decentralizada de decisão, resultado das deliberações de conselho e assembleia; e outro de caráter econômico, ou seja, a condição estrutural em que a fábrica se encontra condiciona a determinadas situações pelas quais ela fica à mercê do mercado. Nesse sentido, quando a Flaskô propõe novas formas de organização dos meios de produção, no caso o controle operário, e consegue se manter sob tais condições, mostra a possibilidade para novas formas de organizar a decisão sob o trabalho, ainda que apenas dentro de seu território, no entanto representando a possibilidade para novas relações sociais de produção.

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