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A partir desta pesquisa foi possível conhecer as dinâmicas vividas pelos trabalhadores tanto no seu dia a dia, quanto fora do período de trabalho e também durante atividades como manifestações e conferencias. Assim sendo, foram identificados pontos positivos e negativos pelo qual a fábrica passa. A criação do CEMOP, da fábrica de cultura, a redução das jornadas de trabalho, extinção dos acidentes de trabalho dentro da produção, ausência de controle centralizado, a construção da Vila Operária, a reinvindicação por direitos, são elementos positivos da luta da fábrica; o saldo devedor, a má reputação da fábrica no mercado, inviabilidade de acesso ao crédito, setor econômico saturado, governo federal e municipal divergente à ideologia da fábrica, são alguns dos elementos negativos.

Assim dificuldades enfrentadas pela fábrica giram sob diversos pontos, desde as problemáticas econômicas até aquelas políticas.

Quanto às dificuldades é identificado que aquelas relacionadas ao mercado se atrelam diretamente com o seu abandono, de maneira que o mesmo abandono que resulta nas dificuldades de mercado no que diz respeito ao ônus gerado pela antiga administração é também o motivo pelo qual a hierarquia típica de uma empresa tradicional desaparece dentro dos moldes da Flaskô. Os trabalhadores procuram defender os postos de trabalho que garantem sua subsistência, mas fica compreendido pela pesquisa que é necessário um engajamento político, bem como uma saúde mental em dia para trabalhar lá, porque as dificuldades surgem a todo instante. O ritmo de trabalho em três turnos de seis horas, não impacta na produtividade como aponta Pedro, quebrando o mito de que o trabalhador precisa trabalhar jornadas longas e em ritmos cada vez mais acelerados.

Esta característica da fábrica revela um território político produtivo, pois na medida em que há a produção das bombonas e tambores plásticos, há também conversas, discussão e formação política para os trabalhadores se engajarem na luta e resistência. Foi criada a Fábrica de cultura e também o Centro de Memória Operária (CEMOP). Desta maneira, a própria forma de administrar a fábrica e a organização que os trabalhadores estipulam são particulares. Contando com a descentralização da

decisão, na medida em que estipula assembleias e conselhos para deliberação dos rumos da fábrica, o controle operário se aproxima da autogestão e se distancia das formas tradicionais de gestão e da teoria geral da administração.

Ainda que esteja dentro dos seus muros estimulando práticas solidárias, a Flaskô tem que lidar com um mercado nada generoso e menos ainda solidário com a luta pela garantia dos direitos sociais. Assim sendo, os instrumentos da administração são absorvidos pela fábrica na medida em que se relaciona com agentes do mercado. Nesta pesquisa foi feito um esforço em criar um “mapa radar” junto aos trabalhadores, um instrumento de gestão com o intuito de fortalecer a relação que a fábrica tem com o mercado, sob o entendimento de que compreender instrumentos da administração contribui para que a Flaskô mantenha suas atividades, e isso significa que ela estaria sobrevivendo frente a competitividade e transformando os ganhos em benefício para a sociedade na medida em que sua função é social. Daí que o caso da Flaskô é intrigante, porque na medida em que resiste, o faz mudando o conceito do que é uma fábrica. Isso se evidencia de diversas maneiras, e que nesta pesquisa chamamos de particularidades. Para além do território político produtivo, a fábrica sofre inúmeras criminalizações por parte dos poderes jurídicos, uma vez que sofre com os danos deixados pelos antigos donos. Além disso, todas as potencialidades geradas pela ocupação acabam sendo ofuscadas, desde a luta por moradia e defesa dos postos de trabalhos, até a fábrica de cultura. Isto porque, como já relatado em documento feito pelo juiz de Sumaré ao julgar o caso da fábrica, “imagina se a moda pega”, no que Alexandre rebate falando “queremos que a moda pegue”, a moda de ocupação e recuperação de fábricas. É óbvio que para os empreendimentos privados e para o grande capital, quando o trabalho se emancipa isso se torna um problema para a acumulação capitalista, de maneira que a fala do juiz vai de encontro ao grande capital e não à luta dos trabalhadores. Somando se às retaliações que a Flaskô tem que driblar, a CPFL, responsável por conceder a energia, boicota as atividades da fábrica na medida em que corta a energia da mesma.

Se por um lado a CPFL se beneficia com a imagem de responsável socialmente ao realizar, por exemplo, o CPFL cultura, por outro lado boicota a luta de trabalhadores o qual o objetivo é manter os postos de trabalho e legitimar socialmente uma propriedade abandonada pelos antigos donos, e o faz, dentre outras maneiras, através da produção cultural na Fábrica de Cultura. A CPFL é no mínimo contraditória. A União, seguindo o mesmo passo, não fica atrás. Os antigos patrões da Flaskô sucatearam a

fábrica e a abandonaram a sorte, gerando dívidas exorbitantes, porém a cobrança vai para os trabalhadores que resistem até hoje. Daí que surgem leilões das máquinas para “pagar a dívida” o que é uma grande desculpa para na verdade acabar com as atividades da fábrica. Essas problemáticas se estendem também para a questão de financiamento das atividades, que pelo fato da fábrica ter o nome sujo acessar crédito para o giro de capital se torna inviável. Isso fica ainda mais crítico, quando ao verificarmos que o setor de transformação de plástico a Flaskô está na terceira geração do setor de plástico, geração essa caracterizada por alta competitividade e também pulverizada, no sentido de que há pequenas e médias indústrias espalhadas pelo Brasil, o que implica em altas barreiras para entrada no mercado, que fica bem evidenciado em uma fala de Pedro que aponta que se a fábrica tivesse os certificados que o mercado demanda, o portfólio de cientes da fábrica cresceria, mas o fato de ser muito caros, faz com que essa seja uma necessidade de longo prazo. Além disso, a Braskem é uma das competidoras no ramo que a Flaskô está, e é uma multinacional que controla desde a produção de resinas, até a das máquinas que fazem a transformação do plástico.

Desta maneira, a resistência da Flaskô é um símbolo de que a luta e a causa por melhores condições de trabalho e garantia de direitos é um dever cada vez mais agudo tendo em vista a atual situação política e econômica do Brasil. A Flaskô esbarra em relações assimétricas de influência, critica a exploração da propriedade privada e aponta ser possível dar outra função para a propriedade uma função social, caracterizando a Flaskô como uma fábrica particular, singular, sui generis. Daí que a “moda não pode pegar” segundo o juiz de Sumaré.

Pensar no surgimento deste caso é pensar nas ruínas do estado de direito e da função da propriedade privada, o que nos levar a crer que há inúmeras rachaduras na estrutura social do presente sistema, e uma dessas rachaduras é a forma como o trabalho é explorado dentro de uma determinada forma de propriedade, no caso a propriedade privada. Assim a partir do momento que a administração não consegue fazer o seu papel, com técnicas, teorias e práticas, o saber e conhecimento do trabalhador entra em cena, e na medida que são motivados pela necessidade de enfrentar o capitalismo para manter e garantir os postos de trabalho, dão condições para que novas relações sociais de produção sejam criadas e fomentadas. Isso é fundamental para o desenvolvimento da solidariedade, porque ao olhamos para o mercado, que identifica apenas oferta e demanda dentro da realidade, este estará fadado sempre a tendência à queda da taxa de

lucro, o que significa que o capital precisa explorar cada vez mais, pois os lucros possuem taxas decrescentes, ou seja, se não haver exploração do trabalho o lucro se desgasta e não se regenera. Isto pode ser visto no termo congestion effects que nada mais é quando continuar com as atividades de produção em determinado local já não é mais rentável, o que implica na mudança da fábrica ou empresa do local, gerando desemprego e problemas derivados da exploração econômica (poluição, exclusão social, marginalidade), no caso da Flaskô os problemas principais foram dívidas e má reputação, desemprego, mas os danos seriam maiores se os trabalhadores não tivessem ocupado a fábrica. Os danos seriam maiores porque não haveria o desenvolvimento cultural que teve devido à abertura que a fábrica da aos artistas, também não haveria a Vila Operária, que foi construída na propriedade da Flaskô e a formação política e de luta que a Flaskô carrega desde 2003 não existiria. Se a Flaskô está sujeita a qualquer condição que as empresas convencionais estão, as empresas convencionais não estão sujeitas às condições que recaem sobre a Flaskô, e por isso esta fábrica se diferencia das outras. Isso porque, além do seu próprio significado, o trabalhador da fábrica é dono de si mesmo, justamente pela ausência de patrão. A fábrica conta com um Conselho de Fábrica e uma Assembleia geral, semanal e mensal, respectivamente, que tem como objetivo definir as diretrizes da fábrica Além da já citada mudança para um turno de seis horas, outra diferenciação é a questão de que ninguém na Flaskô pode ser demitido sendo este um sentido distinto das fábricas convencionais. Com isso o a capacidade de organização, o saber e o conhecimento do trabalhador e da trabalhadora são essenciais para o enfrentamento das problemáticas diárias, e isso fica evidente também na fala de uma das trabalhadoras que aponta que lá na Flaskô os resultados são para os trabalhadores, eles trabalham para eles e pra mais ninguém. O significado da fábrica existe por conta do esforço conjunto dos trabalhadores, o que leva a pensarmos que na medida em que as horas de trabalho são definidas, como os turnos serão organizados, qual a forma e o que fazer com o excedente produzido (excedente em contraposição à lucro), quais serão os parceiros com os quais se relacionarão, a Flaskô e a autogestão como um todo, da um passo em direção à redução da exploração do capital ao trabalho e no limite a superação da subsunção real do trabalho, ou seja da dependência e submissão da força de trabalho humana ao capital.

Diante dos casos de empreendimentos autogestionários e solidários como a Flaskô, há a necessidade de incluirmos outras discussões, como as relacionadas à

alteração do espaço e da sociedade, ao meio ambiente e à cultura, para além das questões econômicas tendo como perspectiva um novo modelo de sociedade. Um modelo que leve em consideração o desenvolvimento do trabalho como transformação humana e não como instrumento de dominação, a resiliência e adaptação no território de maneira a não gerar degradação ambiental, a construção da subjetividade como uma construção coletiva e humana, e, portanto não uma que aliene e manipule.

Daí que vemos a potência do controle operário em resistir por mais de 14 anos às tentativas do capital e da burocracia em fechar as atividades da fábrica. Mesmo tendo alto custos operacionais a fábrica sobrevive e resiste produzindo.

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