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3 - Raymond Escholier: un rendez-vous manqué

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Neste tópico, enumero e detalho as técnicas de pesquisa que utilizei, embora já tenham sido discutidas na seção anterior de maneira genérica quando expliquei sobre a escrita de si, os ateliês biográficos e as oficinas de quadrinhos. Enuncio, portanto, minhas

apropriações das referências que foram utilizadas para construir dados para a consecução dos objetivos de pesquisa.

Após a fase de triagem, comecei a fase de construção de dados propriamente dita através do que chamei de Ateliês de Escrita de Si. Tomo a palavra “escrita” que nomeia o Ateliê próxima de sua raiz etimológica. Como já abordado, escrita vem de scribere (pintar, desenhar) e possui a mesma raiz de “cavar”, remetendo a “escavar”, “gravar”, “fincar os signos” e símbolos em pedra, madeira ou outra superfície perene. Os Ateliês ocorreram em uma sala de aula reservada com um horário exclusivo para essa atividade, com a audiência ativa das três participantes. Nele, foi realizada a produção de textos e quadrinhos através dos seguintes procedimentos: diários íntimos, blocos de anotações, cartas, recordatórios, sinopses autobiográficas e quadrinhos autobiográficos. A diversidade de procedimentos se justifica pela ampliação da potencialidade de subjetivação, dada a natureza específica da autolesão, tomada como dificuldade de capacidade de simbolização do sujeito com as experiências adversas vivenciadas. Quanto mais diversas as semioses, maiores as possibilidades de construção de sentidos (SOUZA, 2017).

O Ateliê, semelhantemente aos ateliês biográficos de projeto (DELORY- MOMBERGER, 2008), foi iniciado com explanações sobre as informações básicas de funcionamento, assim como com o contrato biográfico, que aqui chamei de “contrato de cuidado” (segue). Ele consistiu em um acordo realizado coletivamente sobre questões éticas e de sigilo sobre os procedimentos e os conteúdos das atividades. As participantes foram orientadas sobre os gêneros a serem produzidos, mas também sobre a dinâmica do Ateliê.

ATELIÊ DE ESCRITA DE SI Contrato de Cuidado

Responsável: Luís Madeira (psicólogo e mestrando em educação).

Acordos de grupo:

1. Qualquer coisa a gente se fala no WhatsApp.

2. O material que entreguei a vocês, pertence a vocês, vou apenas copiar as páginas, mas ficarão com vocês após o Ateliê.

3. É importante que vocês tragam o material completo em todas as sessões. 4. Devemos deixar o celular no silencioso durante as sessões.

5. É importante cumprir os horários. Eu mesmo preciso chegar antes da hora para ajeitar a sala. 6. Vir para a sala segundo o cronograma de atividade, pois não precisa mais a coordenação ir

buscar vocês.

7. Cuidado com os dias das sessões para evitar perder atividade. 8. Tentar praticar a escrita e o desenho em casa.

9. Todas as atividades devem ficar em sigilo. Claro que, cada um pode comentar com a mãe ou o pai, assim como vou mostrar ao meu orientador, que é responsável por me orientar neste

trabalho, mas não podemos colocar nas redes sociais, ou mostrar para os colegas, principalmente comentar o que o outro participante falou.

Combinado?

Após o acordo de convivência, passo a descrever as sessões. Cada encontro ocorreu no tempo limite de 1h:40min e foi dividido em etapas norteadoras. Iniciava com leitura e apreciação de livros, quadrinhos, poemas, dentre outros; na sequência, conduzia narrativas autobiográficas, ou seja, dialogávamos sobre o tema da sessão. Na terceira etapa, foram produzidos escritos, desenhos e/ou composições quadrinísticas. Na quarta e última etapa, ocorreram diálogos coletivos a fim de que houvesse o compartilhamento da experiência individual, a formação de vínculos e a compreensão dos procedimentos e técnicas empregadas. Entendo que meu status de mediador dessas atividades me torna um “observador íntimo” (BAZERMAN, 2007), o que me permitiu acesso privilegiado aos processos subjetivos e educativos que medeiam as produções. Minhas impressões e análises foram registradas em um diário de campo que serviu de auxiliar na memória das atividades realizadas e, ainda, foi útil para registrar as minhas impressões como pesquisador (BOGDAN; BIKLEN, 1994).

Os encontros foram gravados em áudios com meu telefone celular e posteriormente transcritos e arquivados. Os produtos dos ateliês foram fotocopiados, escaneados (digitalizados), transcritos e arquivados mensalmente, pessoalmente, por mim mesmo. Os originais foram recolhidos ao final da sessão para que fossem feitas as fotocópias e, logo de imediato, devolveria as participantes. Compreendo que os produtos originais são de propriedade das adolescentes, devendo estar sob a posse e guarda das próprias jovens ao máximo possível. Acessei os originais para fotocopiá-los. As cópias de suas páginas tiveram como finalidade o arquivamento, estudo e posteriormente serão alvo de publicação científica, dentre outras atividades no contexto de pesquisa acadêmica.

Como regra geral, todos os dados gerados foram arquivados (upload) no serviço de disco virtual (“nuvem”) Google Drive em uma conta especialmente aberta para esta pesquisa. A senha de acesso é de exclusividade minha, o que poderá garantir a confidencialidade dos dados gerados. Os arquivos originariamente digitais, tais como imagens, vídeos e áudios, podem ser diretamente enviados ao Drive. O serviço permite a criação de pastas que foram utilizadas para facilitar a organização, seleção e consulta aos dados. O conjunto dos dados brutos produzidos é constituído pelos materiais elaborados pelas adolescentes como os diários íntimos, as cartas, os cadernos de notas e os quadrinhos; e

também pelos materiais produzidos por mim, tais como as entrevistas semiestruturadas iniciais de triagem, as cartas por mim elaboradas, os áudios das sessões e os relatos dos diários de campo. Mas é preciso descrever melhor como foi a construção dos dados. É o que começo a fazer.

Doei às adolescentes um kit do participante com alguns materiais de papelaria, já na primeira sessão do Ateliê em que participaram. Os kits foram compostos por caneta, lápis, borracha, apontador, caderno de páginas coloridas, envelopes com selos dos correios e papéis coloridos para carta. Os cadernos reuniram dupla atividade: puderam receber textos e desenhos produzidos pelo próprio adolescente ou ainda servir como blocos de anotações. Passo a explicar cada um dos quatro procedimentos.

a) Os diários íntimos (FOUCAULT, 1992). A princípio, houve uma atividade mediada durante uma sessão do Ateliê para que, a partir dessa experiência, a adolescente fosse estimulada a continuar a escrever no diário autonomamente, em outros ambientes, até o final da pesquisa. Dentre os textos produzidos pelas adolescentes, estimulei ao exame da consciência ao final do dia, ou seja, a expressão através de dissertação, descrição ou desenhos de seus estados intrapsíquicos e da relação deles com o intrapsíquico;

b) Bloco de anotações (FOUCAULT, 1992). Como bloco de anotações, o caderno pode receber as inserções selecionadas pela adolescente através da reescrita, listagem ou desenho de conteúdos de outros autores. O bloco de anotações objetivou ter a mesma função dos hypomnemata greco-romanos, ou seja, realizar dente outras coisas a recolecção do logos fragmentário. Posso analisar ainda, na perspectiva vygotskyana, de uma apropriação ou internalização dos signos provenientes da cultura, a fim de ampliar de maneira significativa (no duplo sentido) o universo simbólico do adolescente;

c) Cartas (FOUCAULT, 1992). Realizei uma sessão de escrita de cartas durante o Ateliê. As cartas têm caráter autobiográfico e permitem que o remetente se comunique com um destinatário distante. Por sua vez, a carta recebida cria a presença simbólica do enunciador. Os adolescentes puderam escrever cartas e as trocar entre si;

d) Quadrinhos autobiográficos (LUCAS; CELESTINO, 2014). A proposta dos quadrinhos é que o sujeito elabore uma narrativa da sua história de vida através da nona arte. As atividades seguiram metodologia semelhante à adotada por Souza (2017), que incluem a elaboração de quatro etapas, a saber, sinopse,

argumento, roteiro e finalização. Todas as etapas foram produzidas tendo como objetivo a construção de quadrinhos autobiográficos de cada participante; Abaixo ilustro um quadrinho criado por uma adolescente que eu atendi em outro contexto, mas que pode auxiliar, como piloto, a ilustrar o trabalho que realizei nesta pesquisa. A criação foi realizada na casa da jovem sem que eu a pedisse. A estudante é quadrinista amadora e nunca praticou autolesão. A razão da ilustração abaixo visa demonstrar como o sofrimento psicológico, sujeito a se apresentar em qualquer pessoa, pode ser ricamente expresso através dos quadrinhos autobiográficos. Em um só quadro, são expressos sentimentos de solidão, desespero, necessidade de afeto, isolamento social e tantos outros que se ancoram nas semioses27 dessa arte. Um trabalho como esse evoca uma questão: uma jovem com tamanha capacidade de expressão verbal e visual pode lidar melhor com seus sentimentos? Espero que o desenvolvimento desse estudo permita afirmar que sim.

Figura 5 – “Afetos”

Fonte: quadrinhos elaborados por uma adolescente anônima antes da pesquisa

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27 Transcrição dos quadros - Quadro 1: “quero gritar” “AAAAA”; Quadro 2: “quero correr”; Quadro 3: “me

jogar”; Quadro 4: “me esconder”; Quadro 5: “me isolar”; Quadro 6: quero estar perto; Quadro 7: “quero solidão”; Quadro 8: “quero afeto...”.

Mas como organizar as sessões de modo a conduzir aos objetivos da investigação? Elaborei uma tabela que me permitisse ordenar as atividades e seus objetivos, assim como mostra a presença das jovens sessão a sessão.

Tabela 02 – Atividades do Ateliê

N.

ATIVIDADE OBJETIVO PROCEDIMENTOS

PRESENÇAS

1 SESSÃO 01

Quero que o outro saiba de mim.

Estimular o

autoconhecimento e a interação

Entrega do kit, abertura do caderno e apresentação de si. Início do contrato de cuidado.

Blue

2 SESSÃO 02 Como foi o seu dia?

Apresentar o gênero diário. Possibilitar o autoconhecimento. Construir o vínculo do grupo.

Exercício do gênero Diário, acrescido da finalização do contrato de cuidado. Também foi feita a entrega do Kit para Cora. Blue e Cora 3 SESSÃO 03 Autodesenho Aprofundar o autoconhecimento e o vínculo do grupo.

Desenho de si mesmo e escrita da sinopse (em terceira pessoa do singular) da sua própria história. Entrega do kit para Cacto. Todas 4 SESSÃO 04 Correio biográfico Ampliar a troca simbólica entre os participantes do Ateliê através de cartas. Mostrar e significar as autolesões.

Escritas de cartas de todos para todos os participantes.

Atividade de escrita de cartas de apresentação de si para outro membro do grupo. Blue e Cora 5 SESSÃO 05 Recordatório 28 . Quais os principais momentos de sua vida? Escrever um recordatório. Proporcionar maior apropriação da história de vida. Oportunizar revelações de vivências significativas e/ou traumáticas.

Escrever sobre ou narrar 03 momentos importantes da vida

Todas 6 SESSÃO 06 Bloco de anotações Promover a recolecção dos logos e a apropriação de signos da cultura. Revelar o universo cultural das adolescentes.

Escrita de bloco de anotações; Desenhos, citações das obras de arte preferidas do adolescente reorganizadas para apropriação conceitual do adolescente.

Cora e Cacto

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28 “Recordatório”, nos quadrinhos, significa o espaço de fala do narrador no quadrinho, geralmente um retângulo

na parte de cima da vinheta (tanto que, em francês, é récitatif). Nessa sessão utilizei a expressão em outro sentido, o de promover que as jovens recordem dos momentos relevantes de sua vida escrevendo uma lista deles.

7 SESSÃO 07 Traços e riscos

Mostrar e significar as autolesões.

Desenhar as autolesões. Conversar sobre essa prática.

Todas 8 SESSÃO 08 Ser Mulher Possibilitar a reelaboração do “ser mulher” através da escrita.

Oficina de quadrinhos roteiro; Blue e Cora

9 SESSÃO 09 O corpo como um caderno de histórias. Revelar/construir significações para as práticas de autolesão.

Escrita de diário e de um texto sobre como tem sido participar do Ateliê.

Escrever histórias de quando se cortavam/cortam.

Carta para Clarisse29.

Todas

10 SESSÃO 10 Heróis e vilões

Revelar e avaliar as interações sociais dos adolescentes em relação aos momentos importantes de sua vida através de personagens reais ou fictícios.

Apresentar com desenho e ou escrita os principais “heróis” e “vilãos” da vida do adolescente e seus respectivos superpoderes.

Todas

11 SESSÃO 11

Roteiro para quadrinhos

Realizar uma síntese das experiências de significação realizadas a propósito do Ateliê

Breve oficina de roteiro e construção de quadrinhos. Elaboração de roteiro de quadrinhos. Todas 12 SESSÃO 12 Storyboard Esboçar o layout e elementos visuais. Oficina de quadrinhos: storyboard; Todas 13 SESSÃO 13 Finalização Recordatório e avaliação do percurso Desenhar, letrar e colorir. Promover a autoavaliação do processo de pesquisa. Oficina de quadrinhos: finalização. Avaliação do Ateliê. Todas

Fonte: Tabela elaborado pelo próprio autor.

Apresentado o roteiro geral da pesquisa em forma de tabela, é preciso agora contar em detalhes como foi o percurso, é o que realizo no próximo tópico.

4.3.1 O Ateliê de Escrita de Si: narrativa dos processos de construção de subjetivação

Nesse texto reescrevi meu diário de campo. Organizei o presente texto de uma maneira a conduzir uma narrativa sintética sobre a experiência do Ateliê. Descrevo essa

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29 “Clarisse” é a personagem fictícia da música do Legião Urbana citada na epígrafe da introdução. Utilize a

experiência como uma apresentação de um livro, onde se faz um breve comentário de cada capítulo; equivalentemente faço um resumo de cada sessão.

Comprei um caderno especialmente para a finalidade de fazer os registros e o fiz das maneiras mais variadas. Desde breves observações a textos elaborados de várias páginas. Foram descrições, narrações, dissertação, análises e até desenhos. Às vezes escrevi antes, noutras durante e, não raro, depois das sessões. Meu diário de campo foi, ao mesmo tempo, um artifício de memória e um espaço para o exercício de escrita de si, feito por mim mesmo, como pesquisador. Percebi que o caderno do meu diário de campo era o equivalente aos cadernos que entreguei as adolescentes. Embora o material fosse diferente, o uso dos cadernos indicava que, assim como as adolescentes praticaram a escrita como atividade de subjetivação de sua vida pessoal, eu experienciei a construção simbólica da minha história como pesquisador nesse processo de pesquisa. E é ela que divido com vocês, a partir da minha experiência, em relação com as outras escritoras desta pesquisa.

Honestamente, sair de casa para um encontro com adolescentes com especial dificuldade de estabelecer diálogos é uma tarefa que exige otimismo. Exigiu de mim a decisão de fazê-lo, independentemente dos resultados que eu obteria, sem garantias. Exigiu, portanto, um esforço extra de empenho e disciplina, pelo menos no início. Outra dificuldade era que até aquele momento apenas duas jovens foram selecionadas. Decidi começar mesmo com um quantitativo menor do que o planejado e me mantive aberto a novas possibilidades de triagem. Cheguei à escola e tudo estava em ebulição, como em qualquer instituição educacional. Alunos, professores, direção e demais funcionários naquele movimento aparentemente caótico, procurando seus locais e suas atividades. Eu, por minha vez, procurando a pessoa que guarda a chave da sala anteriormente reservada. Não havia, por certo, uma sala específica para atividades como a que eu me propunha. A escola dispunha de salas de aula teórica e prática, além de espaços de direção, dentre outros. Todos pareciam plenos de atividades. Todos eram compartilhados em um entra e sai quase sem fim de atividades variadas. Encaixaram o Ateliê em um laboratório onde ocorriam diversas atividades em horários diversos, inclusive aulas e montagens da área de artes. Achei interessante a relação do Ateliê com a arte pela inspiração em uma maior liberdade expressiva que a temática sugere, em contraste com a rigidez dos currículos. Descobri, porém, que reservar formalmente uma sala não significa funcionar na dinâmica da escola. A sala poderia estar limpa ou ter sido usada no momento anterior; ou ainda, algum professor desavisado poderia ter pensado em usar a sala no mesmo horário, ou ainda as cadeiras da sala terem sido transportadas a outro local. A chave da sala poderia estar no bolso de algum docente sobrecarregado de atribuições, o que tornava encontrá-la um

mistério. O ar-condicionado poderia estar em pleno funcionamento ou em manutenção, o controle dele então, poderia estar em qualquer lugar ou ter que ser compartilhado ao mesmo tempo por outra sala. A primeira descoberta sobre o cotidiano do Ateliê, foi de que uma escola grande, é extremamente dinâmica. Levou tempo até que me sentisse parte da escola e que as pessoas da instituição interagissem comigo e com o Ateliê de maneira a tornar mais orgânico seu funcionamento. Orgânico, porém, não menos dinâmico, pois as adaptações de sala, cadeiras, horário, temperatura da sala, chaves, dentre outras, perseveraram até a última seção. Senti falta de um lugar na escola especialmente planejado para a psicologia educacional, embora saiba que é nesse fluxo que a educação acontece.

A primeira sessão ocorreu com a presença de uma só adolescente, Blue, que pareceu animada para participar. A outra jovem, Cora, faltou por compromisso com a família. Eu ainda sentia insegurança em relação ao funcionamento do Ateliê já que a sessão inicial acabou sendo, de fato, uma atividade individual. Mesmo assim segui com o objetivo. Chamei esse momento de “Quero que saibam de mim”. Além de explicar melhor como seriam nossas atividades, a intenção foi estimular a interação entre os participantes, no caso, eu e Blue. Entreguei o kit da participante e solicitei a ela que pudesse escrever a abertura do caderno. Falar um pouco de si e do que esperava do Ateliê usando palavras e/ou desenhos. Foi uma atividade bem leve. Blue se encantou com as cores do caderno tal qual uma adolescente faz quando ganha algo bonito de papelaria. Escolheu o kit com a pasta azul, posto que esta seria sua cor preferida. Depois de ter feito as atividades, leu para mim e me mostrou os desenhos. Expliquei detalhes básicos do funcionamento e encerramos a primeira sessão.

Imediatamente após a primeira sessão, mesmo antes de que eu saísse da sala, uma coordenadora se aproximou para me indicar que uma adolescente a havia procurado com interesse em participar do grupo. Realizei de imediato a triagem da terceira e última jovem a entrar no grupo, Cacto.

Na segunda sessão “Como foi o seu dia”, participaram Blue e Cora. Não havia sido possível em apenas uma semana solicitar a autorização dos pais de Cacto, o que só ocorreria na terceira sessão. Essa situação resultou que tive a companhia de uma adolescente na primeira sessão, duas na segunda e três na terceira. Receei concluir o Ateliê com treze jovens, o que, como já se sabe, não se confirmou.

O objetivo desta segunda sessão era apresentar o gênero “diário”, porém, antes de realizar a atividade propriamente dita, comecei com outras propostas importantes. Novamente respondi dúvidas sobre o funcionamento do Ateliê e ofertei a oportunidade de realizar nesse

encontro o Contrato de Cuidado30, a fim de consolidar ou promover o andamento do grupo. Em seguida entreguei o kit de Cora, que escolheu o de cor preta, também sua preferida. Esboçou a mesma emoção infantil ao ver o caderno colorido que Blue, embora tenha quase sempre sido mais contida que ela.

Iniciei o Ateliê sobre diário com a apresentação de alguns livros que levei, diários publicados de diferentes contextos e autores. Os livros foram “Diário da Queda31", Diários de um Vampiro32" e "Diário de Anne Frank33". Escolhi pela facilidade de encontrá-los e por serem títulos populares. A proposta era que tivessem contato com a leitura de um diário antes de escrever elas mesma um texto. Quando expus estes títulos, Blue sugeriu “Diário de um Banana34”, que foi adicionado à lista de imediato. Cada um de nós três escolheu um trecho para ler do livro que melhor lhe pareceu. Cora escolheu “O Diário de Anne Frank”, e Blue, “Os Diários de um Vampiro”. Eu escolhi o “Diário de um Banana”, e comecei lendo uma página aleatória, queria encorajá-las pela minha iniciativa. Em seguida, Cora leu um capítulo do livro escolhido. Em função do limite de tempo, pedi a Blue que deixasse sua leitura para o próximo encontro. Ao final de cada leitura conversávamos sobre o que aquele trecho queria dizer e o que ele parecia com a vida de cada uma, a fim de oportunizar que falassem de si mesmas. Seguiram-se comentários livres e, logo depois, orientei as participantes a escreverem seu próprio diário. Ao final, cada uma leu o texto que havia escrito e encerramos a atividade.

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