Da primeira vez que veio ao meu encontro, Ana chegou à sala onde eu atendia, encaminhada de uma escola pública estadual quase que a contragosto. Era uma adolescente negra de cabelos levemente cacheados e soltos, com um telefone celular na mão e fones de ouvido, com suas blusas de mangas compridas, casacos e roupas frouxas, quase sempre pretas e que claramente destoavam do calor intenso do clima cearense. Não estava minimamente engajada na relação que eu propunha e vinha movida pela pressão da escola em que estudava e da amiga que pressionava para que ela comparece às sessões de atendimento.
Explicava-me, nessas ocasiões, como aconteciam as situações em que marcava a si mesmo com lâminas de aço. Mostrava-me seus cortes feitos na pele dos antebraços, principalmente, mas também na lateral da barriga. Falava-me das músicas tristes que costumava ouvir e colocava para escutarmos. Mostrava-me também filmes, poemas, desenhos e blogues com temáticas de profunda tristeza e desesperança. Eu não sentia em momento algum um pedido de ajuda para superar essa realidade, ao contrário: Ana parecia querer me mostrar que eu não poderia entender o que ela estava passando por que eu não era como ela, um anjo. Essa, aliás, foi uma das imagens mais fortes que ela me apresentou e que passo a explicar melhor.
Segundo ela, haviam pessoas que não eram seres humanos, pois que não pertenciam a esse mundo. Elas eram como anjos caídos com uma saudade insuperável do céu. Os anjos, mesmo que em forma de gente, ansiavam a todo instante a retornar para casa. E nunca se sentiam confortáveis entre os verdadeiros humanos. Éramos, portanto, de natureza distinta, concluí a partir da compreensão dela. Eu aceitava sua narrativa e de forma alguma apresentava uma leitura diferente da dela. Eu partia sempre em nossos diálogos da imagem do anjo. Ponderava com ela, em nossos diálogos, se era a melhor escolha para um anjo, pois, se recusar a missão de viver na Terra, assim como se seria adequado para um anjo infligir a si mesmo um autoflagelo como a autolesão. Ana, mesmo reiteradamente enfatizando que eu não entendia o que ela vivia, dizia que lhe agradava conversar com uma pessoa que não a julgava, mas que buscava compreendê-la. Assim sendo, penso que Ana valorizava minha forma de ouvi-la sem pré-julgamentos pelo contraste que sentia em relação à forma que sua mãe a tratava, como explico a seguir.
O fato é que a mãe de Ana parecia nunca investir em sua filha como alguém que merecesse sua real atenção. D.ª Mariana impunha predominantemente, do início ao fim do
acompanhamento, uma postura de distanciamento na relação com a filha. Sempre esteve convicta que todas as dificuldades dela eram estratégias elaboradas para lhe atingir pessoalmente. Maneiras de chamar sua atenção e de evitar assumir responsabilidades. D.ª Mariana passava muitos dias fora de casa e deixava Ana na responsabilidade de realizar autonomamente todas as atividades de cuidado da casa, de si mesmo e de seu irmão mais novo, que é uma criança com deficiência. Ana, como filha mais velha, tinha a responsabilidade de assumir a casa enquanto sua mãe trabalhava fora para sustentar a família. Elas estavam abaixo do limite da linha de pobreza e não havia oferta de vagas de emprego na cidade deles. O pai de Ana havia falecido quando esta ainda contava com 12 anos e, mesmo tendo convivido pouco, Ana se referia a ele sempre com muito carinho e admiração. Sua mãe, no entanto, tinha dificuldade em aceitar a bissexualidade de Ana. Se incomodava com suas roupas “masculinizadas”, suas amigas, relacionamentos amorosos, suas postagens na internet. D.ª Mariana parecia querer uma “outra filha” que correspondesse às suas expectativas de feminilidade e relação mãe-filha. Ao mesmo tempo, em que D.ª Mariana tinha dificuldade para superar seus pré-conceitos, faltava claramente quem ajudasse Ana a lidar com sua rotina de cuidado de si mesmo e de suas atribuições. Ana se alimentava insuficientemente, tanto em qualidade como em quantidade e frequência com medo de engordar; somado a isso, passava a noite em claro conversando ao celular e se angustiava e se refugiava em seu quarto cotidianamente. Eventualmente usava álcool e drogas.
Como psicólogo, fiz contato com D.ª Mariana em várias ocasiões, por telefone ou presencialmente. Conversamos sobre a necessidade de Ana ter a presença de um adulto que lhe ajudasse a se engajar em sua rotina de autocuidado e alertei para a data do possível suicídio. D.ª Mariana, oscilava ora se engajando nos cuidados de Ana, ora lavando suas mãos, por que não podia parar sua vida e seu trabalho para viver em função dela. D.ª Mariana também estava tentando sobreviver e cuidar de seus filhos à sua maneira. Ajudou em relação às tentativas de suicídio; na verdade, Ana tentou algumas vezes e foi sempre socorrida pela família ou pela escola. Tomava remédios psiquiátricos em excesso propositadamente ou desferia cortes profundos nos pulsos e, nessas ocasiões, era levada pela família ou escola ao hospital e à rede de saúde mental pública. Nesse sentido, a rede de apoio que eu podia contar para dar suporte a Ana, de fato, era bem limitada; mesmo assim, foi de fundamental importância nos anos iniciais de atendimento. Ao todo acompanhei Ana por quatro anos e, em certo sentido, ainda a acompanho, pois, esporadicamente, Ana me procura para uma sessão.
Tanto a família quanto a rede de saúde mental pública tinham sérias limitações que tornavam frágil o suporte dado a uma adolescente com um quadro tão delicado. Faltava
suporte e sobravam comportamentos de risco. Ana faltava a atendimentos comigo, suspendia o uso de medicações por contra própria, faltava a consultas de saúde mental, se via em conflitos com familiares, com amigos, na escola. Em inúmeras ocasiões, imaginei que ela não mais retornaria aos atendimentos. Aceitei a todos os seus retornos e busquei incessantemente mantê-la em acompanhamento até que algo improvável aconteceu e mudou essa trajetória. Ana engravidou sem que tenha planejado ou desejado isso. Não se tratava mais só de uma adolescente, eu estava cuidando, a partir daquele momento, de duas vidas.
A gravidez de Ana colocava em suspeição uma série de prováveis problemas e o mais grave deles, sem dúvida, era a proximidade do seu aniversário de 18 anos e, consequentemente, data em que havia assumido o compromisso consigo mesma de se suicidar. Passei a elaborar as questões mais essenciais. Ana iria ter interesse em abortar ou em ter o filho? Seria capaz de tentar suicídio mesmo gestante? Caso desejasse continuar a gravidez, usaria ainda álcool e drogas comprometendo o desenvolvimento da criança ou faria os pré-natais e corrigiria sua alimentação? Em suma, como seria o comportamento de um anjo adolescente diante de uma gestação não-planejada?
Do meu ponto de observação, surpreendia-me com a vida que insistia em se refazer mesmo em meio a um contexto tão difícil. Aliás, me surpreendeu mesmo quando Ana decidiu cuidar da criança e começou a enfrentar desafios que antes não tinha se proposto a fazer. Passados os momentos iniciais de angústia pela descoberta de sua nova condição, o anjo que vinha em minha sala para atendimento comigo, passou a falar mais da criança que viria a nascer do que do universo cultural da autolesão. De fato, começou a se preparar para cuidar de uma criança. Ana me relatava que queria ser uma mãe muito melhor do que ela mesma teve a oportunidade de ter. Ela estava determinada a ser uma mãe capaz de dedicar e prover os cuidados que um bebê necessitaria. Pouco a pouco, passou a enfrentar cada um desses desafios que compunham o papel de mãe.
Passou a ir a consultas médicas, evitar álcool e drogas e se alimentar segundo as prescrições nutricionais, bem como começou a selecionar as companhias com quem andava. Sua família também estreitou os laços de cuidado com Ana e o novo membro prestes a chegar. As crises de autolesão, no entanto, não sumiram, tampouco os questionamentos sobre o sentido de estar viva. Por vezes, inferi que Ana planejava dar a criança em adoção após seu nascimento e, então, tentar novamente o suicídio. Eu tive que esperar a data do aniversário dela de maior idade, pacientemente. Posso agora contar como foi.
Naquela manhã, acordei e fui passar um café forte e puro como prefiro. Havia, no entanto, uma expectativa no ar que o tornava mais denso do que o de costume. O café demorou a ferver. Enquanto esperava, pensei que havia feito tudo o que estava ao meu alcance: alertei a família, cuidei de Ana e trabalhei para que estivesse devidamente medicada naquela data. De fato, fiz tudo que podia.
Trabalhei normalmente o dia todo e no final do expediente liguei para Ana para parabenizá-la, aliviado. A sua promessa foi, felizmente, descumprida. Ela não cumpriu o pacto que havia feito consigo mesmo de autodestruição. Pelo visto, a vida se reinventou através de outra vida. Ana agora precisava cuidar de uma criança e, para isso, esmerava-se em autocuidado. Em breve, ela mesma iria perceber que estar viva só para cuidar de uma criança poderia talvez não ser o suficiente. Novas crises e dificuldades apareceram no cuidado de um recém-nascido. Ana seguia resistindo, mas intensamente cansada.
Não me recordo bem ao certo, mas foi nesse contexto que senti que a relação deu um salto qualitativo. Ela precisava de ajuda para estar melhor para seu filho e resolveu confiar em mim para isso. Decidiu compartilhar seu maior e mais dolorido segredo. Fez questão de contar-me com detalhes o que não relatou nem mesmo à sua própria família. Um acontecimento que carregaria consigo de forma sofrida por muitos anos: um vizinho seu que ainda mora atualmente em seu bairro, a subjugou e a violentou sexualmente quando ela era ainda uma criança. Na ocasião da agressão não estava sozinha, mas acompanhada de uma amiga, que também sofreu a mesma violência. Elas guardaram o segredo para si e se apoiavam desde então. Ana nunca o denunciou e, portanto, o agressor nunca foi responsabilizado.
Acolhi com muito cuidado esse relato e me comprometi com o sigilo. Após esse relato, senti que havia algo de especial na forma em que Ana tratava nosso relacionamento a partir de então. Passou a me relatar seus desconfortos ao invés de escondê-los de mim e só a muito esforço me revelá-los parcialmente. Comparecia às sessões e me dizia objetivamente como estava passando e como estava lidando com a autolesão, com a tentação de se isolar em seu quarto, com a insônia e com a dificuldade em se alimentar. Ana estava finalmente engajada em sua recuperação.
Como ilustração do seu engajamento, demonstro através de um procedimento que lhe propus por meio da técnica do desenho em “tirinhas”. Sabia que ela gostava de desenhar, apesar de não se dedicar a essa atividade com frequência. Pedi que ela desenhasse como se sentia em uma folha e, após esse desenho, pedi que desenhasse novamente na segunda folha uma continuidade da primeira criação, porém, que passasse a uma situação de conflito.
Continuei propondo uma terceira e última ilustração, que desse desfecho a história. Ana, ao final, compôs uma tirinha que representou, no primeiro quadro, seu isolamento em seu quarto e uma autoimagem muito frágil. No segundo quadro, apresentou a imagem de um ser que a subjuga e lhe desumaniza. Sua reação é de se resignar ao chão de seu próprio quarto e de aceitar o lugar em que a figura a colocou. No desfecho, durante o terceiro quarto, ela já não se mostra. É apenas sangue esvaindo por debaixo da porta cerrada. Sangue que escorre em segredo, em silêncio, preso no quarto.
Entre tinta e sangue, os conflitos subjetivos de Ana se revelaram e se apresentaram para o diálogo intersubjetivo em uma relação de cuidado. A tirinha autobiográfica da autolesão parece ser um ponto de inflexão em que comunicar o sofrimento é algo fundamental na busca por ajuda. Eu não iria conseguir saber como ela estava de fato se ela mesmo não me comunicasse de alguma forma. Ana parecia começava a entender a importância de falar de suas fragilidades com o objetivo de pedir auxílio. Ao final do atendimento, fomos ao hospital. Após esse episódio, passei a utilizar novas estratégias de acompanhamento.
Figura 2 – “Desenhe a si mesma”
Fonte: desenho elaborado antes da pesquisa por Ana (nome fictício)
Figura 3 – “Desenhe uma segunda cena de conflito”
Fonte: desenho elaborado antes da pesquisa por Ana (nome fictício)
Figura 4 – “Desenhe uma resolução”
Fonte: desenho elaborado antes da pesquisa por Ana (nome fictício)
Quanto à sua relação com a escola, Ana me relatava as contradições do seu processo educativo. Por vezes, ela estava motivada com um novo aprendizado e, por vezes, desanimada por não conseguir ter bom desempenho. Aliás, o desempenho não era o único problema. Em função das condições de sofrimento psicológico, frequentemente ela faltava às aulas após ter passado a noite em claro ou mesmo encontrava um canto da sala para “cochilar” e recuperar um pouco do sono. Os relacionamentos também traziam dificuldades, pois a família de sua namorada não sabia da orientação sexual e nem do relacionamento da filha.
Em certa ocasião, a responsável familiar da namorada foi à escola pedir explicações do relacionamento das duas, fato que causou constrangimento à Ana. Por semanas, ela não conseguiu comunicação com sua namorada, pois a família dela confiscou seu celular (da namorada de Ana) e a “proibiu” de manter contato com Ana sob ameaça de agressão. Ana muito frequentemente me relatava o sentimento de que a tratavam como uma “má influência”, tanto por sua condição bissexual quanto pelas dificuldades com os comportamentos autolesivos. Ela mesma se engajou em desestimular outros estudantes de continuarem a prática da autolesão, porém, sentia que lhe atribuíam responsabilidade pelos comportamentos dos outros.
Em um dado momento, a ruptura com a escola foi inevitável, pois, entre rotinas de estudo e aula muito exigentes, pré-conceitos sofridos, dificuldades relacionais e a rotina de cuidados com seu filho, a transferência da escola aconteceu. Mesmo com o apoio e dedicação de alguns professores e orientadores que se esforçavam por ajudar Ana, ela se matriculou no turno da noite em uma escola de ensino médio convencional. Relatava que a maioria das pessoas da sua turma era “mais velha”, tinha filhos ou trabalhava. Ana se sentia à vontade no meio deles e chegou a concluir o ensino médio.
Por fim, concluo relatando que Ana segue passando longos períodos sem se autolesionar, cuidando de si mesma e acalentando seu filho. Ela me disse, em nosso último encontro, que está buscando construir uma família para que a criança cresça em condições melhores do que as circunstâncias que ela mesmo tem junto à sua família. Disse-me que não pode partir agora, pois não quer que seu filho seja criado pelas contingências e valores que sua mãe pode dar; além do mais, reconhece que a vida pode ter mais ocasiões “legais” semelhantes às oportunidades que ela tem experimentado nos últimos tempos. Entre vidas e mortes, do sangue à tinta, vão sendo compostas novas histórias. Histórias de encontros de uma jovem que renova sua motivação para viver, comigo, um psicólogo-pesquisador que encontra um sujeito que lhe introduz a um rico fenômeno para estudo.