7. PHASE III : RÉALISATION DES TRAVAUX
7.7 Rapports finaux
instância da recepção. No organismo midiático, há uma inter-relação de forças entre a empresa midiática, seus atores e discursos veiculados, com a instância da recepção. Trata-se de um organismo vivo, interdependente.
2.3 Os atores do lugar de produção
Como dissemos, as empresas de mídia são organizadas com o envolvimento de diferentes atores, cada um deles tendo um papel importante no lugar de produção, fato que garante a transmissão discursiva com base nos interesses da empresa em que tais atores se inserem. Trata-se de um processo no qual todos os atores contribuem à fabricação de um discurso midiático, que de alguma maneira representa a ideologia do veículo de comunicação.
Não só jornalistas, que estão na linha de frente do processo de feitura do material comunicativo, mas atores como diretores, editores, profissionais da área técnica, operacional, comercial, acionistas, profissionais de marketing, design, entre outros. Assim, a empresa de mídia organiza o sistema para a produção da enunciação discursiva.
Neveu (2006) detalha a presença dos diversos atores na instância de produção a partir da simples leitura do expediente11 dos jornais. Ao olhar para o expediente de um
11 Expediente é a relação dos profissionais envolvidos na produção de um produto jornalístico. Nele constam os cargos e nomes dos principais profissionais do veículo, do diretor geral ao assistente de produção. “A leitura de um “expediente” (organograma que figura em toda publicação) faz surgir a estrutura hierárquica de uma redação. O do Le Monde menciona um diretor de publicação, um diretor de redação e seus adjuntos, chefes de editorias especializadas (Empresas, Internacional), um secretário de redação, um ombudsman. Os títulos das funções podem variar, mas os princípios de estruturação são bem constantes” (NEVEU, 2006, p.77).
jornal, o autor supracitado explica o papel, por exemplo, do diretor de redação, como ator que interfere na produção jornalística:
A descrição de alguns cargos permite dar uma ideia do funcionamento de uma redação. O diretor de redação exerce uma gerência que se pode qualificar de política, no sentido de que ele define (sob o controle de acionistas, de um diretor ou de uma sociedade de redatores) a linha editorial da publicação. Ela pode residir num posicionamento político no sentido amplo, na escolha do tipo de informação e do tratamento do fato que a publicação privilegiará. Ela se traduz em cada edição na escolha dos acontecimentos a ser valorizados, ao ângulo sob o qual os cobrir: é preciso dar “primeira página” à queda de um Concorde ou não? Valorizar a emoção ligada ao drama ou propor um comentário distanciado sobre a segurança do transporte aéreo e a saturação dos aeroportos parisienses? (NEVEU, 2006, p.77)
Um olhar atento ao expediente de um jornal pode explicitar outros atores importantes nesse processo. Por exemplo, o secretário da redação, os editores, os diretores comerciais. Para Neveu (2006, p.78), ao secretário da redação cabe acompanhar e cobrar os jornalistas quanto aos prazos, tamanho e quantidade de matérias. Já os editores, responsáveis por cadernos especializados, “dirigem um grupo de jornalistas e explanam, durante as reuniões de pauta, as propostas de sua equipe: número de páginas, necessidade de espaço [...]”.
Medina (1988) ressalta o papel do editor na organização da enunciação discursiva. Para ela, o editor é o ator que está em harmonia com a angulação da empresa midiática e das demandas do público. É esse ator que, com sensibilidade, “[...] sabe selecionar as informações ‘essenciais’ que o repórter traz, que sugere perguntas e, acima de tudo, que angula a matéria [...]” (ibid, 1988, p.79). Na instância de produção, o editor “[...] se constitui em um elemento decisivo na estruturação da mensagem [...]” (ibid., p.80). Não só na estruturação da mensagem em nível técnico, mas em nível estratégico, observando as particularidades do duplo papel dessa instância, o de fornecer informação e o de gerar o desejo do público de consumi-las.
Como já foi mencionado, além dos atores intrinsecamente ligados ao jornalismo, outros atores também participam do processo de produção discursiva. Neveu (2006)
ressalta a presença de profissionais e departamentos relacionados à área financeira, de administração publicitária e até mesmo o departamento jurídico.
Estudar a divisão de tarefas numa empresa de comunicação conduz a observar que ela se compõe não só de jornalistas como também de um departamento financeiramente estratégico: a administração publicitária. O espaço disponível é alvo de disputas diárias entre departamentos de publicidade e redação, a ponto de certa editoria poder se ver reduzida para dar lugar a uma publicidade rentável. O departamento jurídico também pode ter seus pareceres se imaginar que certo artigo vai dar espaço a um direito de resposta, ao risco de processo por difamação ou atentado à privacidade. O conhecimento das práticas de leitura produz efeitos palpáveis sobre o perfil das publicações, nas quais o peso das editorias e o estilo visual se encontram formatados em função de análises do comportamento dos leitores (NEVEU, 2006, p.83).
Com o intuito de evitar uma leitura precipitada, na qual todo discurso jornalístico emerge e segue a guia rigorosa somente de intencionalidades econômicas e políticas, ressaltamos o pensamento de Martino (2003, p.93), quando aponta que a escolha realizada pelos editores e demais atores dessa instância nem sempre é “[...] perniciosa à ética [...]”. Para o referido autor, muitas vezes o lugar de produção não consegue colocar em pauta todas as demandas da sociedade, “[...] pois um jornal não tem espaço físico para noticiar tudo sobre todos os assuntos em todos os lugares [...]”.
Mesmo com todos esses atores envolvidos na construção de narrativas e discursos jornalísticos, o jornalista é protagonista nesse processo. Como elucida Martino na citação abaixo:
Quando um jornalista redige uma matéria, materializa um processo ininterrupto de escolhas e eliminações que elegem uma possibilidade de representação em um universo de N mensagens disponíveis [...] Muito antes da edição e seleção dos temas realizados pela reunião de pauta, o jornalista já seleciona o que será ou não reportado, pois nem todas as mensagens são aceitas [...] (2003, p.102).
A empresa de mídia, além de construir o produto comunicativo que será veiculado, se preocupa em atingir o maior número possível de consumidores. Não necessariamente uma grande massa, mas procura atingir o público do nicho estratégico em que atua. Essa busca, ou meta estratégica, gera impactos no processo de produção.
Assim, veículos de comunicação trabalham no sentido de conhecer cada vez mais a opinião e o comportamento do público receptor. A leitura de dados demográficos, psicográficos, comportamentais e de audiência não é exclusividade dos departamentos de marketing, que buscam identificar o público-alvo, a fim de apresentar essas informações ao mercado publicitário.
Conhecer o público e suas reações é importante também para, estrategicamente, conduzir a produção, da escolha das pautas à linguagem adotada. Assim diretores e editores conseguem entender qual é o grau de satisfação do público receptor. Por esse motivo Charaudeau (2013) diz que a instância de produção vive um dilema: de um lado, tem a finalidade de fazer saber, transmitir a informação com credibilidade; de outro lado, tem a missão de fazer sentir, de modo que consiga produzir efeitos de dramatização naquilo que é veiculado, para assim, satisfazer os anseios do consumidor e conquistá-los.
A instância midiática acha-se, então, “condenada” a procurar emocionar seu público, a mobilizar sua afetividade, a fim de desencadear o interesse e a paixão pela informação que lhe é transmitida [...] a instância midiática deve proceder a uma encenação sutil do discurso de informação, baseando-se, ao mesmo tempo, nos apelos emocionais que prevalecem em cada comunidade sociocultural e no conhecimento dos universos de crenças [...] (CHARAUDEAU, 2013, p.92).
Ao observarmos a atuação de todos esses atores envolvidos na instância de arquitetura do produto midiático, de acordo com a proposição de Sandano (2014, p.29), não queremos construir “[...] a imagem da ‘grande mídia’ como parte de um jogo de manipulações, interesses, sensacionalismo e outros pecados que desanimam o estudante interessado em uma carreira ética e promissora [...]”. Ao contrário, buscamos lançar ao debate os modos pelos quais o lugar de produção interfere na elaboração dos discursos midiáticos e, assim, no processo de construção de sentidos das matérias jornalísticas.
No lugar de produção o jornalista é, em muitos casos, o ator final do processo. É por meio dele que aquilo que foi posto em discurso pelos atores do organismo midiático toma efetivamente a forma de produto. Esse produto jornalístico, por ser o resultado de um processo cultural, traz, enfim, a indelével marca de autoria do jornalista.
A chancela autoral do jornalista é atravessada por diversos percalços na instância de produção. Um exemplo disso é a linha tênue que separa a intencionalidade de gerar credibilidade à instância de produção e a de fazer com que a audiência tenha interesse, sinta, consuma o produto midiático. Tudo isso, em diferentes níveis, impactam o modo de fazer jornalístico.
Os jornalistas têm “óculos” especiais a partir dos quais veem certas coisas e não outras; e veem de certa maneira as coisas que veem. Eles operam uma seleção e uma construção do que é selecionado. O princípio da seleção é a busca do sensacional, do espetacular (BOURDIEU, 1997, p. 25).
O que Bourdieu (1997) chama de “óculos especiais” faz sentido se considerarmos que a produção do jornalista foi previamente pensada por diversos atores envolvidos no processo; que há um tom do discurso em jogo antes da produção jornalística; que a empresa midiática precisa cativar o seu público. Como um professor que utiliza metáforas diferentes, considerando o nível e repertório dos alunos, um jornalista pode direcionar seu olhar considerando as expectativas do veículo.
O jornalista é um ator fundamental na tecitura das narrativas que compõem o processo orgânico da produção simbólica. Nesse breve debate, procuramos elencar como a instância de produção interfere na atividade do jornalista. Percebemos algumas pistas que mostram a necessidade de se refletir sobre a atividade jornalística, sobre como esse profissional pode romper as rotinas meramente tecnicistas, industriais e promover a primavera da experiência viva, criativa, humana, na produção das narrativas midiáticas que compõem ou refletem imaginários e identidades culturais.
Desse modo, no próximo capítulo abordamos com mais profundidade o papel do jornalista como protagonista na construção de narrativas e disseminação de discursos que compõem ou refletem imaginários e identidades culturais.
Referenciais bibliográficas deste capítulo
BOURDIEU, Pierre. Sobre a televisão. A influência do jornalismo e os jogos olímpicos. Rio de Janeiro: Zahar, 1997.
CHARAUDEAU, Patrick. Discurso das mídias. São Paulo: Contexto, 2013. CONTRERA, Malena. Do lado de fora do jardim encantado: comunicação e desencantamento do mundo. Revista da Associação Nacional dos programas de Pós- Graduação em Comunicação. E-compós, Brasília, v.12, n/3, set/dez, 2009. Disponível em: <http://compos.org.br/seer/index.php/e-compos/article/viewFile/432/384>. Acesso em: 24 julh.2014
MAINGUENEAU, Dominique; CHARAUDEAU, Patrick. Dicionário de análise do discurso. São Paulo: Contexto, 2014.
MEDINA, Cremilda. A arte de tecer o presente: narrativa e cotidiano. São Paulo: Summus, 2003.
_________________. Ciência e jornalismo: da herança positivista ao diálogo dos afetos. São Paulo: Summus, 2008.
_________________. Notícia, um produto à venda: jornalismo na sociedade urbana e industrial. São Paulo: Summus, 1988.
MARTINO, Luis Mauro Sá. Mídia e poder simbólico: um ensaio sobre comunicação e campo religioso. São Paulo: Paulus, 2003.
NEVEU, Érik. Sociologia do jornalismo. Edições Loyola, São Paulo, 2006. SANDANO, Carlos Eduardo Santos. Para além do código digital: discussões epistemológicas para a prática jornalística na contemporaneidade. Orientadora: Cremilda Celeste de Araújo Medina. Tese (Doutorado em Ciências da Comunicação). São Paulo: ECA/USP, 2014.