soBrE NomEs E (rE)NomEs:
GÊNEro, HisTÓriA E ENsiNo
DA ENGENHAriA No BrAsiL
1Carla Giovana Cabral
Eu ando sozinha por cima de pedras. Mas a tarde é minha
Cecília meireles (Canção da tarde no campo, 1958)
sobre nome e (re)nomes é um ensaio – um texto pelo qual perpassa um alinhavo interdisciplinar para questões dos estudos Feministas da Ciência e da Tecnologia, em que discussões que venho travando no campo da História das Ciências e da Tecnologia e da educação aliam-se a um certo olhar antropológico. Quis aqui manter, assim como no texto original que lhe dá alicerce, o tom literá- rio que se entrelaça ao conhecimento tecido, cortado, vez ou outra, pela minha explícita subjetividade em primeira pessoa – uma forma de reafirmar o que está sempre presente em minhas aulas, escritos e discussões: que a ciência e a tecnolo- gia não são neutras.
neste ensaio, eu discuto como a categoria gênero pode estruturar a emer- gência de afinidades na construção identitária de pesquisadoras e professoras, sejam engenheiras, antropólogas, matemáticas, físicas. Perpasso questões da História da engenharia e da História da antropologia, entendidas ambas como História das Ciências e da Tecnologia. Discorro, especialmente, sobre a geração
1 Grande parte das discussões aqui presentes ancora-se em trabalho apresentado em 2008, na 26ª Reunião Brasileira de antropologia. algumas partes foram acrescidas, revisadas, outras permane- cem como estavam. Trata-se de um trabalho que marcou minha trajetória no Pós-Doutorado que realizei no Programa de Pós-Graduação interdisciplinar em Ciências Humanas, de 2008 a 2009, com bolsa do CnPq.
de mulheres pioneiras nas faculdades de engenharia brasileiras; ressalto, sobretu- do, alguns aspectos da trajetória de Helena amélia oehler stemmer2, a primeira
professora de engenharia de santa Catarina; discuto questões relacionadas à iden- tidade3, especialmente aquelas relacionadas ao “nome próprio”; reivindico (re)
nomes e visibilidade para aquelas que aqui citarei, como de resto, às mulheres na ciência e na tecnologia4. no caso em questão, ouso pensar que se trata, mesmo
que de forma principiante e, por vezes, fragmentada, contar uma outra história do ensino da engenharia em santa Catarina. e essa história se (re)inicia assim: “num final de tarde de fevereiro de 1965, um empoeirado fusca azul cruza a ponte Hercílio Luz, no sentido continente-ilha. era (Caspar) stemmer chegando a Flo- rianópolis” (BLass, 2003, p. 37).
Pareceu-me suscitar um certo romantismo essa frase, esse aportar à ilha de santa Catarina, num final de tarde, no verão de fevereiro, por sobre uma ponte que é imagem de cartão-postal. algo assim se pode apreender do cenário criado pelo biógrafo de Caspar erich stemmer a respeito de sua chegada à cidade em que trabalharia praticamente toda a sua vida, na Universidade Federal de santa Cata- rina (UFsC). Caspar erich stemmer foi um dos primeiros professores da escola de engenharia industrial, predecessora do Centro Tecnológico (CTC) da UFsC, no início da década de 60. Foi diretor desse centro em duas gestões, reitor da Universidade, coordenador do Programa de expansão e melhoramentos das ins- talações do ensino superior (Premesu), no ministério da educação, e secretário executivo e de desenvolvimento científico do ministério da Ciência e Tecnologia (BLass, 2003; 2005, p. 21-22). É, certamente, uma das pessoas que tem a imagem mais associada ao período de criação e desenvolvimento das estruturas basilares nas quais se enraizariam as atividades da área tecnológica da UFsC: articulador, empreendedor, visionário.
se o romantismo impregnou o biógrafo pela lembrança do biografado, ou se a ideia era “uma aventura bem-vinda”, não foi essa a percepção que Helena amélia oehler stemmer registrou em sua memória.
2 a pesquisa sobre a trajetória de Helena stemmer foi iniciada durante o Doutorado, realizado no período de 2002 a 2006, quando pude entrevistá-la, ou seja, ter seu próprio testemunho do seu pio- neirismo e de uma história não contada. Por ocasião do Pós-Doutorado, tive nova oportunidade de entrevistar a professora Helena, desta vez, em vídeo.
3 neste texto, a categoria identidade deve ser lida, tanto no viés de Bourdieu (1996), de que o nome próprio constitui uma identidade oficial forjada na superfície social; tanto na sua constituição a partir das afinidades, no sentido que Haraway (2009) lhe concede. essas questões são discutidas ao longo do ensaio.
4 muito embora a categoria mulheres expresse diferentes lugares ocupados – desde classe social, cultura, etnia/raça, orientação sexual/sexualidade – utilizo-a, aqui, de maneira a resgatar sua di- mensão política, no rastro das teorizações de Claudia Lima Costa (1998).
Teoria feminista e produção de conhecimento situado
acabamos ficando três e depois pra sempre. Uma coisa que até me chocou no começo, me custou aceitar isso, porque eu não vim com esse espírito, de ficar aqui. Ficar por dois anos era uma aventura bem-vinda. mas depois ficar três, depois de ficar dois, se fica três sem grandes problemas. mas depois ficar pra sempre foi difícil, apesar de que eu já tinha amigos, e tudo. mas é que os meus familiares estavam todos em Porto alegre. meus pais faleceram, eu estava aqui. até cheguei tarde para o enterro de minha mãe. então, tudo coisas que marcam a gente (sTemmeR, 2004 apud CaBRaL, 2006, p. 104).
mesmo que o nome anuncie o parentesco, (re)identifico Helena: esposa de Caspar erich stemmer; ou seria dona Helena, como sua identidade oficial acabou construída em seus anos de trabalho como professora no Departamento de enge- nharia Civil da UFsC; ou professora, única chefe de um Departamento de engenha- ria em uma universidade que, à época, já contava com meio século de existência5;
ou diretora Helena, uma das duas únicas mulheres a ocupar a direção do Centro Tecnológico (CTC) desde sua fundação. esposa, professora, diretora, mulher...
(Re)ver a história em termos de relações de gênero, ou, mais precisamente, do ponto de vista feminista, requer, em algum momento, tirar do esquecimento mulhe- res que, de alguma maneira, contribuíram para a construção de conhecimento. esse esquecimento ocorre porque suas contribuições ficaram fora da escrita da História da Ciência e da Tecnologia “oficial”, cujos personagens, narrativas, autoria grafadas pertencem predominantemente ao masculino. ausentes como personagens, torna- ram-se invisíveis. em termos feministas, o desejo dessa construção historiográfica é justamente o sentido oposto: conferir às mulheres visibilidade. Trata-se de uma reconstrução também da nossa memória em termos sociais e da própria história da educação, creio; é o caso de incluir sujeitos esquecidos, seus contextos, fatos, atos; entrelaçar, decerto, uma diferente história, em que práticas antes apagadas passam a constituir a prática do próprio campo disciplinar, que é a engenharia e seu ensino, objeto deste ensaio. e há muito o que investigar nesse campo.