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o ensino formal de engenharia no Brasil inicia-se no final do século XiX, com a criação da academia Real militar, em 1810, embora já existissem,

5 É preciso considerar esse contexto até o ano de 2006, data em que finalizei e defendi minha pes- quisa de Doutorado.

6 Baseado no artigo de CaBRaL, Carla; BaZZo, Walter antonio. “Helena amélia oehler stemmer: Trajetória de uma engenheira pioneira no sul do Brasil”. in: ii simPÓsio naCionaL De TeC- noLoGia e soCieDaDe. Curitiba: UTFPR-PPGTe, 2007.

anteriormente, cursos isolados: a famosa “aula de fortificação”, em 1719, por exemplo (TeLLes, 1984, p. 65-67). sessenta e três anos depois, em 1873, às vés- peras da Proclamação da República, origina-se, dessa academia, que recebera o nome de escola Central alguns anos antes, a escola Politécnica do Rio de Janeiro. nessa época, as mulheres ainda estavam impedidas de estudar em cursos univer- sitários, algo que mudou a partir de 1879, com a Reforma Leôncio de Carvalho (LoPes, 1998, p. 365).

segundo Telles (1984, p. 398), somente os homens frequentavam a Politéc- nica carioca nos primeiros tempos e isso era comum a outras escolas de ensino superior do Brasil. nessa escola, “as poucas alunas não se sentavam nas salas de aula junto com os rapazes, mas em cadeiras especiais colocadas à frente da pri- meira fila, que o bedel trazia a cada vez” (idem).

na escola Politécnica de são Paulo, criada em 1893, há o registro de uma aluna, eunice Peregrino de Caldas, como ouvinte, no ano de 1899 (samaRa; FaCCioTTi, 2004, p. 25). Foi o único registro, nada mais foi encontrado a respei- to dela nos arquivos da Universidade de são Paulo (UsP) por samara e Facciotti, pesquisadoras que vivenciaram uma das dificuldades frequentes para escrever a história das mulheres: a invisibilidade. ou, como indica Perrot (2007), “sua pre- sença é frequentemente apagada, seus vestígios desfeitos, seus arquivos destruí- dos. Há um déficit, uma falta de vestígios” (p. 21)7.

Considerando a tardia permissão para estudar, engenheiras começaram a se formar no início do século XX. no livro Jubileu da Escola Politécnica (RJ) – obra que registra os formados até 1924 – aparecem os nomes de edwiges maria Becker, anita Dubugras, iracema da nóbrega Dias e maria esther Corrêa Ramalho, que receberam seus diplomas em 1919, 1920, 1921 e 1922, respectivamente. ou seja, nesses quatro anos, apenas uma engenheira formou-se por ano na Politécnica.

edwiges, conforme Telles escreveu em sua “História da engenharia”, deve ter sido, possivelmente, a primeira mulher a se matricular naquela escola. mas foi iracema, graduada em 1921, que se tornaria a primeira professora da escola Politécnica do Rio de Janeiro.

a pioneira a se graduar em engenharia na escola Politécnica da Universi- dade de são Paulo, em 1928, foi anna Fridda Hoffman, que, mais tarde, integrada como funcionária ao instituto de Pesquisas Tecnológicas. a segunda engenheira só se graduaria em 1945: Josephina Pedroso Rosenburg exerceu a docência em

7 em termos metodológicos, a ausência de registros documentais nos tem levado a buscar, na his- tória oral, por exemplo, estratégias de recuperação das vozes, por meio da memória daquelas que vivenciaram um determinado momento ou têm algo a nos contar a respeito. sobre isso, ver Pedro (2005) e Pedro; soihet (2007).

Teoria feminista e produção de conhecimento situado

engenharia Química, por pouco tempo, porém, do final dos anos 60 ao início dos 70 do século XX (idem, p. 25-26). no entanto, nessa instituição, alcina maria moura aparece como ouvinte, em 1904, e, na mesma condição, no Curso de enge- nharia Civil, um ano depois. segundo os parcos registros, ela optou pelo curso de engenheiros arquitetos logo depois (idem). alcina tinha apenas 15 anos.

no sul do Brasil, escolas de engenharia começam a ser criadas também no século XiX. a mais antiga é a escola de engenharia da Universidade Federal do Rio Grande do sul (UFRGs), implantada em 1896, três anos depois da Politécnica de são Paulo.

no Paraná, um Curso de engenharia Civil, na Universidade Federal do Pa- raná (UFPR), começou, em 1912, em Curitiba (FaRias, 2006, p. 34). somente três décadas depois, formou-se a primeira engenheira, enedina alves marques. a segunda, Francisca maria Garfunkel Richbieter, recebeu o diploma em 1950 (idem, p. 34-37).

É também nesse ano que se gradua uma das primeiras engenheiras do Rio Grande do sul, Ducy Vargas alves, graduada em Civil8. Três anos depois, for-

ma-se Helena amélia oehler stemmer. ela foi uma das primeiras mulheres a se formar em engenharia no sul; pioneira também como a primeira professora de engenharia do CTC/UFsC, no curso de engenharia Civil.

a graduação em engenharia Civil foi a terceira a ser implementada na es- cola de engenharia industrial de Florianópolis, em 1967. seu currículo foi ins- pirado no curso da Universidade de Brasília (UnB), com uma primeira versão orientada para a área de Transportes. esse currículo já começou praticamente no terceiro ano, pois os primeiros 28 alunos que ingressaram em março de 1968 já haviam cursado os dois anos básicos da escola (sTemmeR; FeRReiRa, 1995, p. 35-36). Helena stemmer, em 1969, era responsável pela área de estática das estruturas e lecionava “estabilidade das estruturas”.

ela foi, durante três anos, a única professora da eei. em 1972, Carmem seara Cassol, formada em arquitetura pela UFRGs, é contratada para a área de projeto arquitetônico, mas, em 1979, se transfere para o Departamento de arquitetura e Urbanismo (aRQ). na década de 70, além desta, outras sete professoras ingressam na Civil – quatro delas, a exemplo de Carmem, deslocam-se para o aRQ.

no entanto, é possível considerar que até a entrada de nora maria De Pat- ta Pillar e Glaci inês Trevisan santos, em 1977, Helena foi a única engenheira professora da escola de engenharia industrial. antes de nora e Glaci, Helena

8 sociedade de engenharia do Rio Grande do sul. “engenheira mais antiga viva do estado recebe homenagem da seRGs”.

naspolini era contratada como professora do Departamento de engenharia elé- trica. Helena naspolini foi a terceira engenheira a se tornar docente na eei.

Helena stemmer fez uma carreira fundamentada no ensino e na gestão aca- dêmica. além de sempre lecionar a disciplina estática das estruturas, a professora foi coordenadora do curso de graduação em engenharia Civil, de 1976 a 1983; ocupou a 11ª chefia do Departamento de engenharia Civil, de 1988 a 1990. se- gundo os relatos colhidos e consultas aos Departamentos, Helena stemmer foi a única mulher a ocupar a chefia de um Departamento de engenharia no CTC em quase 50 anos. no início do mandato na Civil, em 1988, encarou a eleição para a vice-diretoria do CTC. e foi eleita. Com o afastamento do diretor por causa de um acidente que ele sofrera, ocupou a direção por seis meses. “e eu não tinha a arte de manter certos assuntos fechados em gavetas. até o momento mais favorável, eu tinha que tratar logo, às abertas, e com isso eu arranjei uns bons aborrecimentos”, disse, em entrevista, em fevereiro de 2004.

Comparativamente a uma geração de mulheres nascidas a partir das dé- cadas de 1950 e 1960, por exemplo9, engenheiras da geração de Helena encon-

traram contextos de atuação que lhes erigiram um pioneirismo na criação de de- partamentos, construção de currículos na área de ensino, o que, de certa forma, fraturava a hegemonia masculina no ensino de engenharia da época. É preciso dizer que se tratava de presenças solitárias e bastante pontuais até a década de 60. nesse período, estruturam-se como universidades diversas faculdades isola- das em vários estados brasileiros (siLVa, 2003). são contextos que colaboram com uma certa abertura para as mulheres nessa área do conhecimento e carreira de prestígio na sociedade. Desde o final do século XiX, na europa, e a partir do início do século XX, no Brasil, a modernização e a urbanização das cidades pro- voca mudanças nos modos de circulação das mulheres no espaço público e seu processo de escolarização. no País, as políticas educacionais, instituídas a partir de 1920, são responsáveis por mudanças na sua inserção profissional e no mundo acadêmico e científico (aZeVeDo; FeRReiRa, 2006, p. 213-254). De uma certa maneira, estamos aqui nos referindo a mulheres de elite.

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