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Recentemente, o desemprego tem vindo a ganhar imagem de flagelo a nível mundial devido ao crescente número de desempregados e aos problemas que se criam advindos dessa situação. Tais problemas repercutem-se necessariamente na vida desses indivíduos, tendo reflexos ao nível do seu bem-estar social e emocional, mas também ao nível da sua saúde, objetiva ou subjetivamente percebida. Como foi discutido ao longo desta exposição, o desemprego não é uma situação recente, mas está particularmente vinculada com a vida nas sociedades e com as drásticas alterações que estas sofreram na esfera do trabalho. Deste modo, para uma melhor compreensão dos efeitos do desemprego no estado de saúde dos indivíduos experienciam tal situação, torna-se pertinente abordar alguns aspetos positivos da presença do trabalho na vida da população, bem como a sua relação com a saúde dos trabalhadores.

Nas sociedades capitalistas, o trabalho assumiu um forte peso na vida dos indivíduos, passando mesmo a ter uma centralidade inquestionável, uma vez que a sua presença tornou- se crucial para a sobrevivência da maioria da população. O mesmo “adquiriu uma característica de trabalho-mercado, cujo valor é estabelecido pela lógica de mercado e pelas leis da oferta e procura” (Antunes, 1999; Codo, Sampaio e Hitomi, 1993 in Barros e Oliveira, 2009:89). Em geral, o vínculo estável com o trabalho contribui para um melhor bem-estar, uma vez que a organização do trabalho, a gestão dos estilos de vida e as relações sociais no local de trabalho são variáveis importantes para a saúde. (Wilkinson e Marmot, 2003).

O emprego está fortemente relacionado com a posição socioeconómica dos indivíduos, e esta, por sua vez, associa-se com o estado de saúde dos indivíduos. Existe um forte gradiente social na saúde (Gonçalves, 2008), uma vez que os grupos sociais mais desfavorecidos acabam sempre por acarretar maiores consequências, quase sempre negativas, mesmo em sociedades ditas “igualitárias”. As condições sociais presentes no quotidiano dos indivíduos (local de habitação, de trabalho, etc) assumem-se como fatores fulcrais na compreensão do estado de

saúde da população mas, mais importante que refletir sobre a centralidade deste fenómeno, é conhecer de que forma esses fatores têm um peso revelante no bem-estar dos indivíduos. Na sociedade, “o trabalho é mais que trabalho e o não trabalho é mais que desemprego” (Chaui, 2000 in Pinheiro e Monteiro, 2007:37), uma vez que o trabalho é mais que um dever, é uma condição, pois passa por ser uma questão material ao fornecer reconhecimento social. Estudos têm comprovado que ter um emprego permanente aumenta o bem-estar na saúde (Strand, 2000), uma vez que o status no trabalho e a presença, ou não, de trabalho irão afetar esse bem-estar individual. Logo, em situações como a saída do desemprego, por exemplo, manifestam sintomas de melhoria desse bem-estar. Outros estudos, realizados pela Fundação Europeia para a Melhoria das Condições de Vida e do Trabalho (Platt et al, 1999 in Malenfant et al, 2007) acerca da relação entre status no trabalho e saúde, bem como a análise de dados do segundo inquérito europeu sobre condições de trabalho, revelaram que aqueles indivíduos que mais sentem insegurança no local de trabalho manifestam um aumento de sintomas de declínio na saúde física (Benavides et al, 2000 in Malenfant, 2007).

Marie Jahoda (in Kuhn et al, 2004) afirma que estar empregado é melhor do que todo o sofrimento despoletado pelo desemprego. A autora refere que, em muitos estudos, tem encontrado pessoas que, apesar de não se sentirem bem com o trabalho que fazem, elas preferem “sofrer” no trabalho, do que atravessar as malhas do desemprego e acarretar com os danos irreversíveis que essa situação gera. Warr (in Bartley, 1994) apresenta um conjunto de benefícios do trabalho para a saúde mental, entre eles, a estimulação de atividade física e mental, o uso de habilidades, o poder de decisão, o contato interpessoal, o status social e, sobretudo, a presença do trabalho é um motivo para os indivíduos “viverem de um dia para o outro”. Quintanilla e Wilpert prestígio social oferecido pelo trabalho, afirmando mesmo que ter um trabalho é uma forma útil de servir a sociedade e, intrinsecamente, é interessante para o desenvolvimento de competências por parte do indivíduo (in Cruz, 2009). Atendendo a estes fatores, é percetível que a perda de emprego é um acontecimento que envolve altas situações de stress, fruto de elevados níveis de ansiedade, que pode mesmo afetar a saúde física. “O trabalho aparece como um meio de realização e concretização de necessidades, proporcionando ao indivíduo o meio para alcançar muitos dos fins que valoriza e que pretende atingir, dando-lhes a oportunidade de concretizar o seu projeto existencial” (Muchinsky, 1997 in Cruz, 2009). Não ter trabalho, constitui, muito provavelmente, a situação inversa.

De acordo com o que foi exposto, é notório que para a maioria dos indivíduos, os requisitos básicos da vida são alcançados através da presença de um trabalho. Contudo, o trabalho vai muito mais além do que apenas fornecer as necessidades básicas, uma vez que desenvolve impulsos criativos, promove a autoestima e constrói um conjunto de ferramentas para a autorrealização. Assim, se o trabalho potencia o bem estar-subjetivo dos indivíduos, o desemprego surge como uma situação que irá ter origem no decréscimo desse bem-estar, aumentando o risco de danos na saúde, uma vez que amplia os níveis de ansiedade, sendo um

bom condutor para a emergência de depressões, baixa autoestima, principalmente em períodos de longa duração (Kessler et al, 1988). Os efeitos do desemprego não devem ser entendidos apenas ao nível das doenças medicamente diagnosticadas, objetivamente percebidas, mas também para a auto-perceção e autoavaliação da saúde dos indivíduos e para a experiência subjetiva do mal-estar que a situação acarreta. Não obstante essas consequências, existem autores que chamam a atenção para uma possível medicalização do desemprego. O termo medicalização, isto é, “tornar médico”, diz respeito ao progressivo alargamento da esfera médica a áreas que tradicionalmente não faziam parte do seu campo de atuação, incorporando-as, ganhando, assim, novos campos de ação e pericialidade. A chave para a medicalização passa pela sua definição, ou seja, “um problema é definido em termos médicos, descrito através de linguagem médica, entendido através da adopção de um quadro médico e tratado com intervenção médica” (Conrad, 2007: 5, cit in Holmqvist, 2009: 406). A medicalização é uma componente fulcral para a compreensão da individualização das questões sociais. Assim, “as causas e as soluções de problemas sociais complexos são encontradas no indivíduo e não na sociedade” (Conrad, 2007; Myther, 2005; Ostner, 2003, in Holmqvist, 2008: 408).

Vários autores (Larsen, 2005; Palti, 2000; Lana, 1997 in Holmqvist, 2008) afirmam que alguns países optaram pela medicalização para a ligação entre mercados de trabalho e políticas sociais. Assim, alguns grupos de pessoas desempregadas eram classificados como “deficientes”, transformando-as dependentes de assistência (Holmqvist, 2009). A organização e a classificação de pessoas desempregadas como “deficientes” torna-se útil, uma vez que a possibilita a medicalização da inatividade económica, transformando o indivíduo em “problema”, em que a política altera um problema de uma determinada questão social para um problema individual. Ou seja, ainda que seja importante compreender os impactos do desemprego na saúde e no bem-estar dos indivíduos, há que ter o cuidado de não medicalizar o desemprego, transformando-o num problema médico, ao qual, consequentemente, se vincula um problema individual. A medicalização do desemprego inibe a sua reflexão e análise como problema social, contribui para a responsabilização individual dos desempregados e tem claras consequências ao nível das políticas e medidas sociais de combate ao desemprego.

3.2. Desemprego e riscos para o bem-estar/ saúde dos