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Chapitre 5 Prise en compte de la dépendance

4. Rachat de contrats d’épargne : un modèle ad hoc

Encontro 4: Deynne Augusto: Conheci-o quando ainda fazia Letras, em 2006. Um

amigo em comum, apresentou-o como o melhor poeta de Fortaleza. Estávamos no Pitombeira,

e nunca esqueci este dia. Deynne sempre recusou este tipo de apresentação, pois tem

dificuldade com este nome “poeta”. Mesmo assim, sempre é apontado como grande poeta e

confecciona pequenos impressos que ele datilografa e costura. Tentou vender um tempo, mas

desistiu. Diz não ter paciência para isso. Também fez alguns vídeos que estão no Youtube e

atuou como ator em um filme local.

Hoje encontrei Deynne. Havíamos combinado um encontro via Facebook e ele me pediu para que fosse hoje, pois como mora no José Walter, fica longe para ele vir

para o Benfica em outros dias, e hoje ele “queria se destruir no Benfica” (beber

totaxxx, como ele me disse). Encontramo-nos no início da noite no café Kali. Perguntei-lhe o que queria beber e ele pediu uma cerveja. Pedi um café e expliquei-

lhe o que queria: que ele contasse seu percurso de poeta. Ele se recusou este “rótulo” que ele considera uma besteira, se disse “ex-poeta”, mas que contaria algo para me

ajudar. Ele falou durante aproximadamente uma hora sem nenhum problema,

sempre questionando literatura, poesia, arte, que para ele é bobagem, “vaidade das bichas”, coisa de adolescente. Estávamos em meio a este papo quando um amigo em

comum chega e Deynne diz que quer ir se destruir. Rimos e utilizamos nosso vocabulário Aurélia da Língua Portuguesa. Entreguei-lhe o caderno e expliquei-lhe do que se tratava e perguntei se poderíamos marcar outro momento para que eu lesse a entrevista para ele e ele me entregar o caderno. Ele me disse que não queria que eu lesse a transcrição para ele, que eu poderia usar do jeito que está, mas que

poderíamos marcar sim para eu pegar o caderno e “bebermos alguma coisa”. Saí de

lá feliz, pois foi com Deynne que tive a ideia de fazer esta pesquisa: foi o impresso- poema dele que caiu de minha gaveta quando queria mudar de projeto de pesquisa. Estou feliz. O mundo conspira (DIÁRIO DE CAMPO, 03.04.2014).

Encontro 5: Dianton e eu tivemos uma relação que durou sete anos. Nestes sete

anos, liberamos nossa dimensão artística, fizemos viagens juntos, vídeos juntos, lemos na

cama, escrevemos na cama, criamos projetos artísticos na cama, Participamos juntos do

coletivo projeto cadaFalso e de saraus e festivais de arte como o ManiFesta, que ocorria no

Dragão do Mar. Quando comecei as entrevistas, pensei em deixá-lo de fora, por haver uma

implicação muito forte entre nós e nossas escritas. Entretanto, como deixá-lo de lado se

admirava bastante sua escrita? Foi quando decidi que sim, que ele seria um dos entrevistados.

E assim foi.

O convite a Dianton foi feito por email. Depois de algum tempo, recebi a resposta com um convite para um fim de semana em Batoque, praia cearense que conserva um pouco de sua paisagem natural. A proposta era de um fim de semana onde pudéssemos descansar (ele, eu e Lori Lambe, minha cachorrinha que me acompanha

desde o Mestrado: “eu consolo ela e ela me consola”), entrevistar, narrar e fazer

algumas fotos de trabalhos artísticos dele. Chegamos ontem (04.04) e ficamos sentindo as energias do lugar, nos acalmando e relaxando para o dia seguinte,

quando faríamos as ações artísticas. Hoje pela manhã, fizemos algumas fotos de uma performance sua. Eu fotografei algumas cenas dele: criações plásticas bizarras de deformação do corpo, motivo com o qual ele gosta de trabalhar. Elementos fantasmagóricos expressivos. À tarde, combinamos que ele se narraria. Às 14h, ele pegou alguns objetos que trouxera de seu apartamento: disse-me que passara a semana juntando elementos para se narrar para mim, e pediu-me que em 10 minutos fosse para a área onde serviam o café da manhã na pousada. Como combinado, peguei a máquina fotográfica e o gravador e fui com Lori para a área. Lá, numa das mesas, estava disposto o material que ele trouxera e, sentado numa cadeira, estava

ele, enquanto bordava na palma de seu pé “eu sou pasto”. Bordava mesmo, com

linha branca e agulha. Apesar de saber que ele estetiza todos os seus momentos, surpreendi-me com a recepção, pois me pareceu um movimento de entrega e envolvimento criativo que tornava o momento único e artístico, parecido com a ideia de arte de Nicolas Bourriaud e da ideia de performance que Eleonora Fabião

defende. Este trecho “escrito” na pele é de um dos textos dele que mais me

emociona, que havia lido em seus arquivos de computador e que recentemente ele postara no Facebook. Descobri neste momento que todo o processo que ele me propôs – a viagem etc – fazia parte de um processo artístico que ele começou em Batoque e que intitulou “Mosteiros”: ir nas casas das pessoas que toparem a empreitada para que estas o fotografem com um conjunto de adereços escolhidos por ele. Iniciamos este trabalho com as performances narrativas: o corpo vibrátil, ágil, que tem momentos de silêncio para continuar corporalmente a falar. Dianton, por exemplo, narra olhando para o vazio, para a pré-configuração narrativa, o caos de suas lembranças, memórias, escorrimentos sentimentais. E enquanto fala, suas mãos se movimentam, cortam o ar. Suas mãos costuram a narrativa, torcem as palavras, cosem-nas. “Água é sangue em mim”. Tivemos que parar a entrevista duas vezes: uma, quando o rapaz da pousada trouxe-nos o café com tapioca – que eu continuei a servir, enquanto Dianton retomava sua narrativa, e uma segunda vez, quando uma moça da vizinhança veio atrás de Lori Lambe para mostrá-la a seu filhinho. Passados alguns minutos, eles partiram e seguimos a entrevista sem mais interrupções. Quando desliguei o gravador, ele me disse que tinha medo que parecesse que seu trabalho era muito autobiográfico, no sentido de ser muito focado em si, pois ele explorava em seu trabalho a vida, sua vida, suas relações. Mais uma vez surge a ideia de eco. E nesta entrevista, tive a certeza de que meu trabalho é sobre arte, pois literatura é uma arte que se mistura a outras linguagens artísticas. Preciso destacar o bordado/escrita com linhas, agulha, pele. Dianton me convidou para ir depois de alguns minutos ao lugar onde estávamos para tomar café. Ao chegar, me emocionei ao entender que ele se escrevia para mim: uma escritura- corpo, um suporte-mosteiro. Lendo o que escrevi acima, percebo o quanto é frágil certo tipo de escrita (não sei se todos o são), pois descrevi/narrei em poucas linhas algo que durou muito tempo. Mesmo as fotos que tirei não contam da emoção e duração de nós ali: ele se escrevendo para mim e eu para ele lendo-o enquanto seu corpo era bordado, eu decifrava cada letra no momento mesmo em que ela era bordada. Em poucos clicks de máquina resume-se uma escrita performática que

durou pelo menos 30 minutos, entre acertos de “pegada” da pele onde a linha

deveria pousar, e os desacertos que chegavam à carne e faziam-no dizer pequenos

“ais”. Não fotografei também seu olhar atento, talvez um erro meu, pois aquele olhar atento de quem se escreve, de quem “se suporta”, destrói a ideia do fazer artístico como algo de “gênios”, de “inspiração mágica” e aponta a dimensão laboral,

disciplinada, intencional e atencional -no sentido de demandar atenção-, tal como outros trabalhos corporais (Existe algum trabalho sem corpo? Me pergunto agora). Aponta também para a tradução da oralidade para a escrita e a quase impossibilidade ou total impossibilidade de traduzir exatamente o que se passou. Traduzir e trair. Não se pode defender a vida só com palavras, como diria João Cabral. Tudo isso, no

sentido de que aquela duração (que não é captável quando digo “foram 30 minutos”

porque aqueles 30 minutos não são comparáveis a outros 30 minutos: foram únicos

– plurais e únicos). “Perdeu-se na carne fria”, na minha, e só pode ser relatada,

transposta aqui como outro momento que não é mais aquele: tornou-se escrita daquilo (DIÁRIO DE PESQUISA, 05.04.2014).

Mesmo agora, ao transcrever meu diário digitalizado, ele é eco: tradução da