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Hayek estava realmente interessado nos resultados práticos de economia e teoria política, porque almejava influenciar nas políticas públicas. Em 1944, escreveu

para seus alunos na LSE: “um filósofo social nunca deveria ter como alvo o sucesso imediato através de influência pública, e o desejo de ganhar influência através de posições de poder na ordem para ser capaz de fazer o bem é uma das maiores fontes de concessão individual”. Ele acreditava que “na procura da verdade o economista ou filósofo político contribuirá mais se focar na criação do conhecimento humano e evitar os políticos” (EBENSTEIN, 2001, p.140).

Tendo identificado o nazismo e o fascismo como resultados necessários do socialismo, produziu uma cartilha chamada O caminho da servidão endereçada ao governo inglês que versava sobre os perigos de controlar a economia por meio de planejamento racional. Seu esforço era para evitar que o governo britânico se contaminasse com a propaganda nazista alemã.

Duas semanas antes da publicação desse livro, Hayek leu para o público presente no Colégio Real de Política (King’s College Political Society) um documento por ele produzido, intitulado Historians and the Future of Europe. Tal documento descrevia sua apreensão de que a Alemanha viesse novamente a se movimentar em direção ao totalitarismo e à agressividade de uma Segunda Guerra Mundial. Este documento foi a gênese do que veio a se tornar a Mont Pelèrin Society.

Sua concepção inicial era formar uma sociedade internacional com o propósito de trazer estudantes alemães de volta à tradição do pensamento liberal clássico. O padrão ético da proposta do grupo deveria ser a dedicação para a sacralidade da verdade – sacredness of truth – e o comprometimento de que as regras comuns de decência moral deveriam ser aplicadas às ações políticas. Ele também propôs que o grupo tivesse o mínimo de ideias políticas em comum, inclusive a crença no valor da liberdade individual, uma atitude afirmativa em direção à democracia, sem qualquer deferência supersticiosa para com todas as suas aplicações dogmáticas e, finalmente, uma oposição igual a qualquer forma de totalitarismo, seja da direita ou da esquerda. Nesta altura, não se tratava de um projeto, mas de discussões sobre um momento crítico (EBENSTEIN, 2001, p.141).

Apesar de ter a concordância de muitos colegas nos três primeiros anos após a emissão de sua cartilha, Hayek não conseguiu emplacar sua proposta de formação da sociedade. Foi então que teve a ideia de fazer uma conferência, a qual ocorreu em

agosto de 1938, em Paris, cujo tema foi a discussão da crise do liberalismo. Ficou conhecida como o Colóquio de Lippmman (Walter Lippmman), tendo sido considerada a percussora da Sociedade de Mont Pèlerin.

Somente em 1947, com o financiamento do empresário Albert Hunold e um grupo de banqueiros e industriais suíços, Hayek conseguiu juntar economistas internacionais para discutir ideias básicas, a fim de propor uma redefinição ao liberalismo.

A conferência ocorreu de 1 a 10 de abril de 1947, em Mont-Pèlerin, cidade francesa próxima à Suíça. Focado na sua crença do poder das ideias, Hayek escreveu um memorando avançando a conferência. Em suas palavras:

[...] para a Europa não entrar num novo tipo de servidão, um intenso esforço intelectual é necessário. Nós precisamos acender um interesse nos – e uma compreensão dos – grandes princípios da organização social e das condições da liberdade individual como nunca conhecemos nas nossas vidas. Precisamos levantar e treinar um exército de lutadores pela liberdade. Se nos depararmos com a opinião pública esmagadora, mas trabalharmos para moldar e orientar essa opinião, nossa causa não será, de modo algum, sem esperança. Mas é tarde e não temos muito tempo a perder.

[...]

O esforço deve ser essencialmente um esforço de longo prazo, não só preocupado com o que seria imediatamente praticável, mas com as crenças que devem ser reafirmadas para que os perigos possam ser evitados, que, no momento, ameaçam a liberdade individual. Se os intelectuais que defendem o liberalismo clássico não se juntarem e disseminarem suas propostas a humanidade poderá entrar em mil de anos de escuridão. [...]

A menos que possamos tornar os fundamentos filosóficos de uma sociedade livre cada vez mais uma questão intelectual e sua implementação uma tarefa que desafie a ingenuidade e a imaginação de nossas mentes, as perspectivas de liberdade são realmente esparsas. Mas se podemos recuperar essa crença no poder das ideias que é a marca do que o liberalismo tem de melhor, a batalha não está perdida (EBENSTEIN, 2001, p. 143).

Trinta e nove pessoas de dez países participaram da conferência em Mont Pelèrin. Os participantes consideraram que era preciso dar continuidade a essa iniciativa, e uma sociedade permanente foi fundada, sem sede, com o propósito de

reunirem-se em encontros bienais para discussões. Esse projeto foi ideia exclusiva de Hayek e foi considerado o renascimento do movimento liberal na Europa.

Hoje a sociedade conta com aproximadamente seiscentos membros efetivos, dos quais oito foram ganhadores do "Prêmio Nobel" de economia: Friedrich von Hayek – 1974, Milton Friedman - 1976, Ronald Coase – 1981, George Stigler - 1982, James Buchanan - 1986, Maurice Allais - 1988, Gary Becker - 1992, Douglass North - 1993.

Do Brasil, o diplomata brasileiro José Osvaldo de Meira Penna foi integrante da entidade, assim como Henry Maksoud. Este foi o financiador da vinda de Hayek ao Brasil para uma conferência na Universidade de Brasília, realizada entre 11 e 12 de maio de 1981, além de ter prefaciado as obras Os fundamentos da liberdade e Direito,

legislação e liberdade, de Hayek, para as edições brasileiras. Os outros membros

brasileiros da sociedade de Mont Pelèrin são Henri Chazan, Margaret Tse, Leonidas Zelmanovitz, Cândido Prunes, José Luiz Carvalho, André Burger, Paulo Ayres, Márcio Chalegre Coimbra e Ricardo Gomes.

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