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1.3 Structure de la th`ese

2.1.2 R´esum´es automatiques

É visível, em Maria da Conceição, a tentativa de se apresentar como uma outra Virgem Maria: uma espécie de equivalente terrestre da mesma.

Mas, tal pretensão, pode até não constituir uma intenção primordial: entenda-se, um objetivo, mesmo que implícito, de identificação primevo. Na verdade, nos primeiros

134 Na realidade, tais expressões constituem, quase sempre, meras analogias verbais ou

123 tempos (até ao fim dos anos sessenta/princípios de setenta), a sua configuração mística obedece aos pressupostos básicos das chamadas “estigmatizadas”: êxtases frequentes, conversações coloquiais com Jesus (muitas vezes assumindo caracteres íntimos), catalepsias, exorcismos, levitações e chagas corporais, que mais não são que participações solidárias com a paixão de Cristo (e que nas procissões dos passos e no milagre dos

quarenta dias segue um percurso de comparticipação com as diversas fases do martírio), enquanto abrasada de amor por Jesus. Inspirada, com certeza, em personagens como Teresa d`Ávila, Catarina de Sena, Teresa do Menino Jesus ou, a portuguesa, Alexandrina de Jesus.

Poderá ter sido, assim, a partir de inícios dos anos setenta (quando a participação mariana se torna mais frequente nos êxtases e nas mensagens divulgadas), que tal desiderato começa a adquirir uma maior importância.

É contudo muito provável, que algumas das suas particularidades vivenciais a isso tivessem também, de alguma forma, conduzido (pelas semelhanças que potencia) e fossem gradualmente desbravando o caminho (na sua mente, ansiosa e psicótica) a pretensões elevadas, que a convicção de um extraordinário desígnio divino foi sustentando.

Maria de seu nome, filha única, forçada a casar cedo por conveniência familiar (como era comum a muitas jovens nesse tempo), entregue a um marido mais velho, impossibilitada de ter filhos (condição limitadora, não o esqueçamos, de reconhecimento e estatuto social), não admira que a mesma encontrasse, aqui, as condições necessárias para que a sua vida (também ela pautada pelo sofrimento) fosse encarada como uma nova versão da vida de uma outra Maria: a Virgem, mãe de Deus e dos Homens. Esta última (lembremos) também vista como filha única, casando muito nova com um marido bem mais velho, canonicamente sem outros filhos que, o espiritualmente concebido, Jesus.

Se quisermos potenciar ainda mais as semelhanças, “perpetuamente virgem” apesar de viver maritalmente; assim se assemelhando a Maria da Conceição, cujo primeiro casamento, sem amor, se não permitiu na verdade uma virgindade de facto, permitiu, pelo menos, uma suposta frigidez da vidente: a conhecida “santa frigidez” que a mitologia mística tantas vezes atribui às escassas santas que foram casadas.

124 À semelhança de Virgem Maria, também ela foi escolhida por Deus. Não para Mãe de Deus, mas para “sua mística”, mensageira, profeta e “mãe espiritual dos homens na terra135”: dos seus filhos adotivos, dos acólitos e devotos, dos crentes e peregrinos.

Aliás, não lhe ser permitido ter filhos biológicos, pode ter gerado, em Maria da Conceição, a convicção de um dorido destino, suscetível de a convencer de que estava guardada para uma especial função maternal. E isto continuou a pautar a sua vida mística. E a convencê-la de que tinha inequivocamente uma missão a cumprir: um ideal a concretizar, como nova mãe da Humanidade!

Por isso enverga o branco (ou o branco e azul), símbolo da pureza que a virgindade personifica e a Virgem Maria (em Fátima e não só) predominantemente usa. Na indumentária, nas roupas das suas monjas do “Exército Branco”, na própria denominação desta ordem religiosa de que se torna abadessa.

Por isso, casa de novo, mas agora espiritualmente; assumindo assim, voluntariamente, a participação numa família também sagrada: uma nova versão (a versão possível, afinal) da “sagrada família”. Pai e mãe isentos de relação carnal. Filhos adotados, portanto espirituais, logo isentos de conceção pecaminosa!

Por isso (ou, pelo menos, também por isso) será levada a visitar o Céu em vida! O pormenor de, neste caso, tal se ter tornado habitual, deve ser atribuído à elevada (e, muitas vezes, quase delirante) valorização que a vidente e mística faz de si e da sua missão.

Por isso assume, também ela, o papel de santa viva, ainda hoje se lhe chamando

Nossa Mãe na Terra, duplo divino da outra Maria; Nossa Mãe no Céu! Por isso será chamada de Mãe ou Mãe Maria, à semelhança de Maria, Mãe de Deus, mesmo quando ainda nova e, a dimensão popular de matrona, não era ainda marcante. Reunindo assim, simultaneamente, as componentes de mãe coletiva e de santa viva.

Por isso o personagem Jesus, se lhe chega a chamar “estrela da manhã”, ou a assemelha, de forma indubitável, à Virgem Maria; “As lágrimas desta mística são as lágrimas de minha mãe Maria Santíssima” (Ladeira do Pinheiro, 1971:129).

Por isso, virá a usar (nalguns cerimoniais) coroas e resplendores de tipo mariano, que se perpetuarão, depois, na respectiva iconografia popular. Por isso é igualmente reconhecida como “luz do mundo”, por muitos dos seus devotos.

125 Por isso, a sua morte trouxe para todos os seus discípulos e seguidores, crentes na sua santidade e que sob o seu manto se resguardavam, um irromper sincero de desgosto e inquietação.

“Entre soluços comovidos, as mulheres do exército branco, desfilavam em torno do caixão de Maria da Conceição. Beijavam o chão, a urna e o viúvo Humberto Rodrigues Lopes Horta de longas barbas brancas, sentado ao lado dos restos mortais da santa. Depois, acendiam uma vela que colocavam junto ao trono onde a Mãe Maria assistia aos atos religiosos, beijavam também uma almofada com a sua imagem e voltavam ao lugar. O cortejo durou toda a missa celebrada segundo o ritual ortodoxo” (Jornal O Mirante, 14 de Agosto de 2003).

126 CAPÍTULO 3 -

CULTO POPULAR E CARISMÁTICO

A análise, mesmo que imediata, da formação do culto no Santuário de Nossa Senhora das Graças, na Ladeira, embora naturalmente desfasada, é concomitante com o processo, de alguma forma paralelo, de autoformação mística de Maria da Conceição136. De uma infância difícil, ao que tudo indica propensa, já, às coisas do transcendental. Sujeita a violência doméstica137, forçada a casar, doente assumida, maternidade frustrada.

Tudo isso deve ter contribuído para levar Maria da Conceição a uma atitude de habituação ao sofrimento. Fechando-se sobre si mesma e rejeitando a mundanidade de um mundo hostil e injusto, buscar interiormente um desígnio explicativo que desse sentido a tais sofrimentos.

Mas o desencadear dos episódios taumatúrgicos, sistémicos e regulares, dando corpo a um processo que se percebe agora conscientemente estruturante, apenas surge quando a mesma tem já, quase, três décadas de vida.

Que condições se reuniram, então, para fazer desta ainda jovem camponesa, mas casada há uma década, de natureza fechada e cariz austero, uma visionária crescente e mística estigmatizada, mentora de um grupo de seguidores cada vez mais numeroso, líder religiosa de uma seita católica rebelde, posteriormente em processo de ortodoxização?

Um conjunto de circunstâncias, parecem, de facto, se ter conjugado para tal.

A primeira corresponde ao aproveitamento primevo de uma situação social propícia. Propícia ao medo, à inquietação e à busca desesperada de ajuda divina. Na verdade, os primeiros tempos da atividade (chamemos-lhe visionária) na Ladeira, foram (segundo diversos testemunhos) norteados pela guerra colonial e pela angustiosa situação

136 Atente-se na sintonia entre as referências iniciáticas, muitas delas cronologicamente datadas,

que compõem este capítulo e as crescentes complexidades dos respetivos prodígios.

137 A acreditar na vidente, os primeiros tempos de uma personalidade precocemente visionária não

terão sido, como vimos já, fáceis. Contudo, os testemunhos prestados pelos informadores que a conheceram e à família, são unânimes em considerar que tanto a mãe como o marido eram, de alguma forma, dominados por ela. As informações são, assim, contraditórias. Sendo no entanto provável que a violência materna respeitasse à infância e à adolescência (altura em que começa a falar de aparições) e que, pese embora o carácter apagado do marido, o mesmo não deixasse, afinal, de fazer jus àquilo que, nessa altura, se esperava do tradicional papel masculino. Fica, contudo, até pela significativa insistência no assunto, a hipótese da vidente realçar também (dir-se-ia estrategicamente) tais aspetos, pelo seu evidente e sempre conveniente, carácter de sofrimento e martírio.

127 vivida pelas famílias dos soldados enviados para Angola e, mais tarde, para as restantes colónias. “Aquilo começou pela guerra colonial”, diz-nos uma informadora da Meia Via, moradora bem próxima; ”as mães iam para lá de noite, saber dos filhos (…) porque ela dizia que os ouvia,… que lhe apareciam.” Vi “gente histérica a arrastar-se pelo chão com a fotografia do filho que estava lá fora”, lembra um informador torrejano que lá se deslocou algumas vezes.

A segunda parece ter sido o aproveitamento de conhecimentos de práticas espíritas (eventualmente mesclado com experiências empíricas de práticas populares de possessão), que, como dissemos, um periódico nacional remetia, em inícios da década de setenta, para uma aprendizagem anterior em Leiria (Jornal Actualidades de Junho de 1972) e de que, a mesma, será frequentemente acusada durante as décadas de sessenta e setenta (tal como se depreende das argumentações da vidente e das personagens que encarna138) e se percebe, de alguma maneira, pelas descrições feitas no ponto anterior.

A terceira terá sido o tal desígnio que, como é comum nos místicos, estes tendem a entender como orientador das suas vontades e a dar, de alguma forma, sentido às suas vidas. Embora não fazendo parte dos relatos oficiais, é referido muitas vezes pelos informadores que a vidente falava muitas vezes de um nicho139 que, em tempos idos, teria sido destruído ali próximo. E que (de alguma forma como compensação), Nossa Senhora lhe dizia que “queria que lhe construíssem, ali, um santuário”.

Porém, foi o conhecido de todos os devotos da Ladeira, movimento dos olhos e da cabeça da imagem do Senhor dos Passos na capela do hospital da Golegã (datado, segundo uns, de Outubro de 1959, segundo outros, do 1º Domingo de Abril de 1960), que constituiu o fator despoletador e marca, digamos assim, o início do período regular da atividade taumatúrgica, nesta altura apenas visionária.

Visão não evidente, esta. Tão duvidosa quanto a sua confiança. Algo que podemos considerar como um contacto de primeiro grau. A partir daí, contudo, as aparições suceder- se-ão. Num processo, sintomático, de consbstanciação das mesmas:

138 Aliás, alguns devotos acreditam, ainda hoje, que Maria era a reencarnação de Jacinta Marto;

também ela vidente aos sete anos. Nesse contexto, Francisco teria, por seu turno, reencarnado num rapaz espanhol (José Luís de San Roman), hoje sacerdote e acérrimo defensor da Ladeira. Ora a reencarnação é rejeitada, praticamente, por todas as igrejas cristãs, enquanto (como se sabe), constitui dimensão basilar da doutrina espírita.

139 Episódio de história local, cronologicamente indeterminado, mas que poderá ter a ver com as

conflitualidades do início do século XX entre a Igreja e a República. Seja como for, o mesmo perdurou na memória popular e deu origem, inclusive, a denominação toponímica.

128 No primeiro domingo de Maio de 1960, Maria da Conceição visualiza um busto de um homem, no Céu, com os braços abertos e, pouco depois (17 de Junho), “um homem com uma cruz ao ombro e uma estrela à frente” (Ladeira do Pinheiro, 1971:16). São estes, contactos explícitos, já não intimistas mas verificados, sim, em espaços abertos e de alguma forma frequentados. Primeiro a meio-corpo, depois a corpo inteiro. Contactos de segundo grau, dir-se-á; em que as visões se vão tornando mais elaboradas e persistentes.

E demorará quase um ano a passar-se ao nível seguinte. Na quinta-feira santa de 1961, as visões descem, contudo, literalmente à terra: “Três meninos iguais, todos vestidos de branco e com uma mancha preta nas costas” (Ladeira do Pinheiro, 1971:16). Assustada, ter-se-á limitado a proferir “Creio em Deus Pai todo-poderoso”, expressão oratória que repetiu diversas vezes, correspondendo os meninos, a cada uma delas, com uma vénia coletiva. Verifica-se, assim, que as figuras adquirem materialidade suficiente para se deslocarem no meio físico terrestre e interagir com a vidente, num contacto que, aqui, poderíamos reputar, já, de terceiro grau.

No dia seguinte, sexta-feira santa, quando andava no bosque a rezar140 ouviu uma

voz que lhe disse: “Se queres que alivie a tua cruz, alivia-me também a minha” (Ladeira do Pinheiro, 1971:17). Poder-se-á dizer que estavam, assim, criadas as condições para a comunicação plena e direta que se veio a concretizar no dia seguinte: sábado santo de 1961.

Agora é um pobrezinho que lhe bate à porta, entra em casa e, aí se mantêm, “travando um longo diálogo” através de parábolas. Disse chamar-se Emanuel, deixou o seu manto e, quando saiu, proferiu uma oração e fez o sinal da cruz, desaparecendo de seguida. Episódio que consagra a sua iniciação e apresentação à divindade. Vidente e interlocutora de Deus; seu instrumento, a partir daí, na Terra. Contacto de quarto grau; dir- se-á, então. Em que a comunicação é agora dinâmica, direta, sonora, visual e interativa. O processo de elaboração visionária está completo!

Não admira, assim, que seja dito que Maria “sentiu algo de inspiração neste contacto, que lhe iluminou o caminho a seguir, de modo que passou a dedicar-se, mais, às orações”(Ladeira do Pinheiro, 1971:17).

140Andava a pedir a Deus para “lhe mandar um pobrezinho” para que ela pudesse dar uma esmola

e, assim, curar-se do seu mal. Encontramos, aqui, as funcionalidades caritativas cristãs no seu pior! A caridade não só como aquietação da consciência, mas ainda como estratégia fácil para obter benefícios inestimáveis.

129 Mas a notoriedade taumatúrgica exige mais que supostas aparições, que só um vê e alguns aceitam ter visto! São necessários fenómenos mais abrangentes e, principalmente, mais impressionantes. Que muitos sintam ver, mesmo que não, necessariamente, o mesmo. E, nesse contexto, nada como os tradicionais prodígios solares141 que se iniciam igualmente nesta altura e constituem, quase sempre, condição indispensável à avalização da sacralidade taumatúrgica142.

Em 18 de Fevereiro de 1962 a Virgem Maria aparece-lhe pela primeira vez, introduzindo um novo paradigma explicativo que, aliás, há-de vir a ser determinante:

“Vê descer do céu uma nuvem branquinha, acompanhada de um clarão cor-de-rosa, com raios de luz que pareciam fios de ouro, que pousa no telhado e donde emerge a figura de Nossa Senhora, toda vestida de branco, com um manto azul e uma coroa de seis estrelas e com as mãos erguidas” (Ladeira do Pinheiro, 1971:17).

Coincide tal manifestação com a cura (milagrosa, naturalmente) da, até aqui, ainda essencialmente vidente. E como já tinha acontecido no processo cristológico, a simples visão antecede a interação comunicacional e, pouco depois, a 25 de Fevereiro, a Virgem irá falar-lhe pela primeira vez. E se, até aí, era Jesus que, de uma forma ou doutra, servira exclusivamente de referencial, a partir daqui a Virgem Maria, embora não de forma dominante, irá manifestar-se com regularidade.

A partir de Maio, a panóplia de personagens manifestadas é ainda reforçada com

São Miguel que, para lá da sua função de aconselhador e facultador da comunhão mística, virá igualmente a desempenhar um papel determinante como defensor da causa da Ladeira. Já em 1963, São Miguel dá-lhe a comunhão recusada pela Igreja. A vidente passa a não depender da hierarquia eclesiástica para a obtenção do mais importante sacramento e a questão do ágape assume na Ladeira, cada vez mais, um papel determinante. Iniciam-se, assim, as comunhões místicas, que se tornarão recorrentes e crescentemente abrangentes.

141 Omnipresentes, nestes casos, em Portugal. Em que qualquer singularidade pode ser entendida

como prodigiosa. Desde, é claro, que o mesmo seja interpretado num contexto místico e sobrenatural. Salientemos apenas, em tempos recentes (para lá dos mais conhecidos referentes à Ladeira, a Fátima e à Asseiceira), Argoncilhe, em 1934, Nossa Senhora da Lovagueira em Vila Cova à Coelheira, em 1939, Vilar Chão, em 1940, Nossa Senhora da Silvosa em Oriz-Vila Verde, em 1946 e, ainda, Nossa Senhora da Cova da Cruz em Chão de Maias-Tomar, em 1947.

142 Que o Padre Vitorino (jornal O Almonda, 20 de Novembro de 1971), rejeita como exemplo das

inaceitáveis incongruências locais; “o sol a rodopiar e a mostrar várias feições, Nossa Senhora e Nosso Senhor a mostrarem-se em todas as posições, cores e disposições fisionómicas?!” Esquecendo-se que tal poderia ser dito, afinal, dos fenómenos de Fátima (Lopes, 2009b).

130 Nesta altura, surgem os êxtases (ou pelo menos vulgarizam-se) através dos quais se flagela e violenta, mas se torna, igualmente, a voz de Deus (o telefone, como é prosaicamente referido) e, genericamente, do Céu. Iniciam-se, assim, as mensagens divinas (primeiro em “voz morta”, depois de viva voz), nesta altura ainda não muito extensas e, não provavelmente por acaso, coincidentes com este início persecutório.

Este é aliás, um tempo, em que o prodigioso explode em qualidade e quantidade. Uma etapa determinante no processo de construção cultual. As capacidades místicas potenciam-se e as encenações taumatúrgicas tornam-se comuns. Iniciam-se as previsões e as curas milagrosas adquirem uma substancial notoriedade pública.

Os fenómenos da Ladeira atraem já, nesta altura, a atenção das instituições e das pessoas das povoações vizinhas. Pessoas que se dividem em indiferentes, peregrinos mais ou menos devotados, simples curiosos ou, ainda, antagonistas passivos ou ativos, que começam a hostilizar, verbal e fisicamente, as ações aí desenvolvidas143.

No fim de 1965, inicia-se igualmente o fenómeno que ficou conhecido como o

milagre dos quarenta dias. Recebendo a hóstia de São Miguel, a mística conservá-la-á na língua durante quarenta dias, tempo em que, supostamente, não come nem bebe! Torna-se, assim, um recetáculo da matéria divina (da carne de Cristo) e difusora, da mesma, pelos seguidores. Um tabernáculo vivo, como é dito algumas vezes. Daí para a frente, hóstias afluem, supostamente, vindas do Céu!

Neste período, as intervenções extáticas dos personagens divinos (principalmente

Jesus e a Virgem) destinam-se a apresentar publicamente a vidente e a apresentarem-se

como avalizadores da mesma. “A minha mística”, “esta querida filha”, surgem,

frequentemente, nos discursos proferidos. O “eu” e, principalmente o “ela”, enformam, implícita ou implicitamente, as mensagens recebidas.

Em 1966, tais intentos aliam-se à necessidade de apresentar a Ladeira como lugar

santo e continuação de Fátima e reforça-se a promoção da eucaristia como resposta à recusa da Igreja em facultar a comunhão a Maria da Conceição. Em fins desse ano, o discurso deixa, porém, de estar explicitamente focado na mística e incide, igualmente, na reivindicação de criar, aí, um santuário, a partir da insistência da transcendentalidade da Ladeira e da imperativa necessidade da sua aprovação.

143 Às ações de agressão verbal e física de alguns sectores da população vizinha, eventualmente

131 Na mesma altura, surgem as chagas e as estigmatizações em geral, bem como as referências à levitação. É mais um passo na persecução de uma vivência de santidade atribuída a Maria. Afinal, só as figuras divinas levitam e só os santos partilham dos estigmas da paixão. Em Junho do ano seguinte manifesta-se a bilocação: a vidente há-de (acredita-se), deslocar-se, em espírito, até Barcelona onde visita os videntes D. Félix Sesma e Conchita. Em 1968, subirá ao Céu pela primeira vez, situação que, contudo, se há- de repetir por mais quinze outras vezes! Torna-se, assim, hóspede habitual do divino. Adquire um estatuto de quase santidade.

E a prodigiologia diversifica-se. Nos fins do ano eclode um novo milagre, na continuidade da melhor tradição portuguesa. Inicia-se o “milagre do crescimento da madeixa de cabelo”, acontecimento que encontramos, aliás, em diversas outras santas populares144. Outros se seguirão: o, assim chamado, “milagre do dinheiro”, o “milagre do vestido” e, a 1 de Dezembro de 1968, o sempre impressionante “milagre do crucifico que sangra”. Mais uma vez, um fenómeno quase inevitável na taumaturgia popular. Também as curas milagrosas se tornarão, a partir daqui, particularmente comuns.

Nestes dois anos, os apelos ao reconhecimento da Ladeira incrementam-se ainda mais e, diversos castigos divinos são anunciados se tal não acontecer. Condição, esta, de desagravo face aos “pecados do mundo” e obstáculo determinante ao surgimento e afirmação do anticristo que se anuncia.

A adesão dos padres, é agora vista como estratégia adequada para forçar um difícil reconhecimento. Estratégia que irá continuar em 1969, enquanto se incrementam as comunhões místicas e os milagrosos aparecimentos, desaparecimentos e prodigiosas multiplicações de hóstias.

Os acontecimentos da Ladeira do Pinheiro tornam-se (não obstante a estigmatização e, às vezes, diabolização social), objeto de atenção crescente da sociedade portuguesa. As perseguições, legais e não só, intensificam-se. Em 1967 tinha sido conduzida ao Tribunal de Torres Novas, sendo porém, pouco depois, libertada. Já em Janeiro de 1969, um “bando de arruaceiros” destrói literalmente as modestas casas em que viviam Maria e os seus seguidores!

144 Noutros casos, porém, cabelo que cresce prodigiosamente após a morte da dita. Aqui, enquanto