3.5 Evaluation des heuristiques
3.5.4 R´esultats des simulations
Partindo da teoria clássica relativa à divisão de poderes, Ignacio Ramonet con- sidera que o contexto atual promove a reconfiguração desse quadro. Para o autor, o primeiro poder é hoje “claramente exercido pela economia”. Ramo- net entende que o jornalismo já não é (se é que alguma vez o foi) o quarto poder – farol dos poderes executivo, judiciário e legislativo. O que podemos ler no pensamento do autor é que o primado da economia faz desabar a Teoria da Separação de Poderes desenhada por Montesquieu no século XVIII e que
serviu de base às constituições modernas. Nesta classificação do jornalista, a política (poderes executivo e legislativo na classificação de Montesquieu) surge em terceiro lugar. Ramonet omite o lugar do poder judicial, mas a se- gunda posição da hierarquia, depois da economia e em estreita ligação com ela, é ocupada pelo poder mediático – “instrumento de influência, de ação e de decisão incontestáveis” (1999: 40).
George Balandier destaca igualmente esse peso crescente do poder mediá- tico e a forma como o exercício da política se submete às idiossincrasias desse outro poder superior. O antropólogo francês constata que “as figuras atuais do poder implicam a afirmação da competência”; mas essa afirmação tem de ser fabricada para alcançar a legitimidade fátua que a alimenta. Os responsá- veis políticos recorrem, por isso, à mediação de dispositivos tecnológicos para chegarem ao coração das massas, influenciando-as: “Sem a televisão, a rádio, a imprensa de grande distribuição, esta dramatização da democracia perderia a sua dimensão nacional” (1980: 96, 99).
Na análise de George Balandier ficam claras as cedências que os respon- sáveis políticos têm de fazer para, por um lado, adaptarem a mensagem aos meios que a divulgam, e, por outro, a necessidade de a tornarem crescente- mente dramática sob pena de essa mensagem não resgatar a atenção dos desti- natários. Balandier conclui que essas cedências acabam por tornar os políticos reféns da lógica dos media:
“Melhor equipados para produzir imagens, os governos encontram-se todavia na situação paradoxal de ver esta capacidade enfraquecer pelo seu próprio uso. Têm de aprender a dominar uma nova tecnologia do simbólico e do imaginário, uma nova forma de dramaturgia política” (1980: 97).
Peter Anderson e Geoff Ward debruçam-se, exatamente, sobre os ingredi- entes que alimentam a relação dos políticos com os media:
“Os políticos do Reino Unido, e de todos os países, acusam frequen- temente os media de sensacionalismo, banalização, vistas curtas e de pouco cuidado com a verdade. Contudo, os mesmos políticos recor- rem a especialistas em propaganda, que os ensinam a comunicar com os media; muitas vezes chegam a anunciar aos media as medidas que
pretendem aplicar e só depois aos parlamentos (...), revelando grande ansiedade por fazerem passar a sua mensagem nos meios de comunica- ção social” (2007: 4).
Érik Neveu realça a “evocação alarmista” que, muitas vezes, “os titulares dos poderes sociais (eleitos, dirigentes económicos)” atribuem ao “poder” do jornalismo, sobretudo quando esse “poder” submete as ações desses represen- tantes “à publicidade e à crítica” (2001: 101).
O exercício da política está, assim, condicionado ao poder mediático; mas o poder mediático, cultivando, como refere Ignacio Ramonet, essa estreita ligação com o poder económico, está, ele próprio, refém da economia, o pri- meiro poder.
2.2.3 Os jornalistas precários
No entender de Serge Halimi a estreita ligação entre o jornalismo e a economia torna claras as marcas de subserviência do jornalismo e dos jornalistas:
“A imprensa escrita e audiovisual é dominada por um jornalismo reve- rente por grupos industriais e financeiros, por um pensamento de mer- cado, por redes de conveniência (...) Os jornalistas são os novos cães de fila” (1997, apud Ramonet, 1999: 41).
Halimi defende uma posição que apenas reflete o lado mais frágil do jor- nalismo, maioritariamente moldado pelos efeitos da precariedade (“uma pro- fissão cada vez mais fragilizada pelo medo do desemprego”) (apud idem, ibi- dem), mas a heterogeneidade da classe, que aqui apresentámos como elemento caracterizador, determina que usemos, com reservas, a argumentação de Ha- limi. Desde logo porque existem jovens precários que conseguem romper o espartilho da economia, aplicando, na sua ação quotidiana, os princípios que salvaguardam a matriz do jornalismo, mas também porque o grupo profis- sional integra jornalistas que, sem terem atingindo o estrelato, conseguem, igualmente e em silêncio, resistir aos efeitos negativos impostos por constran- gimentos vários, limitando-se ao exercício pleno da sua missão. Esse lado mais frágil é, todavia, o que, por diversas razões, mais se impõe atualmente.
Ignacio Ramonet, sem ocultar a sua desconfiança de base pelo neolibera- lismo, traça o perfil desse lado mais frágil do jornalismo, tentando explicar
as razões que enquadram o poder fátuo dos jornalistas: “O sistema já não os quer”, atribuiu-lhes “um papel menos decisivo: o de operários numa pro- dução em cadeia”, rebaixou-os à categoria de “retocadores de despachos de agência”. Como Halimi, Ramonet realça a tendência que sinaliza nas reda- ções: a “precarização galopante”, os jornalistas “meros auxiliares”, “prontos para todos os fretes”, “que fabricam uma informação por encomenda” – são as novas marcas das redações neoliberais (idem, ibidem: 51).
Bonnie Anderson situa a análise na realidade específica da televisão, onde a lógica de ação promove o alargamento do fosso entre jornalistas indiferenci- ados, precários ou com salários reduzidos, e o limitado número dos “indispen- sáveis”, que auferem salários muito elevados. Anderson realça o peso dessas figuras no organigrama dos canais:
“Dantes as notícias eram as estrelas; agora as estrelas são as estrelas (...) cada vez mais, há jornalistas de televisão, sobretudo os pivots, a auferirem salários elevados, sendo tratados como celebridades e não como jornalistas” (2004: 6).
Érik Neveu valoriza, igualmente, a tendência para a precariedade como marca de identidade das redações. O académico francês regista que o cresci- mento do número de colaboradores à peça está a criar um “verdadeiro bata- lhão de reservistas, composto por jovens, que ora estão desempregados, ora conseguem algum trabalho numa redação”. Esses trabalhadores precários, sem direitos sociais ou laborais, essa mão-de-obra barata, disposta a “desem- penhar tarefas menos gratificantes", baixa os custos salariais e introduz uma “extrema flexibilidade” nos contratos de trabalho (2001: 34). Neveu considera que estas condições estão a promover o surgimento de uma nova geração de jornalistas, cuja “visão desiludida e cínica em relação à profissão”, põe “em causa alguns dos valores fundamentais da cultura jornalística” (idem, ibidem). Pierre Bourdieu atribui-lhes a mesma classificação: "geração...cinicamente resignada"(1996a: 13).
Este foco negativo, colocado na ação das novas gerações, não nos deve distanciar do contexto que, nesta primeira década do século XXI, tem pro- movido a interação dos mais novos com a profissão, muito afastado daquele que, até meados da década de 90 do século passado, ainda facilitava o acesso às redações e a progressão no interior das mesmas. Nessa fase, ainda se vi- viam, um pouco por toda a Europa, os efeitos da liberalização da televisão e
da rádio, da criação dos canais de notícias 24 horas, geradores de emprego e protetores de condições laborais.
Após esse período, o mercado começa a impor-se como freio, instaurando uma outra lógica no acesso à profissão, que trataremos em detalhe em etapas posteriores desta investigação, uma lógica que perpassa as novas gerações, in- fluenciando o seu desempenho. A lógica de mercado, e o excesso de oferta, promovem a precariedade e deixam os jovens jornalistas, que acedem à pro- fissão, emparedados entre os vínculos frágeis com a entidade que os aceita, e a necessidade de circularem de órgão de comunicação social em órgão de comunicação social, tentando vender os trabalhos que produzem a preços de um mercado contaminado por esse excesso de oferta. São estes os novos jor- nalistas freelance24.
O desequilíbrio entre o excesso de oferta e a escassez de procura enqua- dra o jornalismo contemporâneo. Mas não estarão as novas gerações mais disponíveis para a rendição precoce do que estiveram as gerações anteriores?
Bonnie Anderson assinala, pelo menos, a disponibilidade das novas gera- ções para abdicarem dos valores do jornalismo, que nunca praticaram, nem interiorizaram, em nome do sonho de apresentarem notícias na televisão. A antiga jornalista da NBC e da CNN recua a 2001 e recorda a lista de com- petências que deveriam possuir os novos apresentadores de notícias da CNN: “Precisamos de jovens e atrativos apresentadores, homens e mulheres, que projetem credibilidade”. A antiga jornalista contesta a expressão “projetar credibilidade”, em substituição de “ter conquistado credibilidade durante anos de experiência”. Anderson critica, igualmente, o facto de a seleção dos can- didatos ter sido feita por um ator a quem interessavam, exclusivamente, os atributos físicos e a forma como liam as notícias: “os apresentadores de notí- cias deveriam ser, simplesmente, atores” (2004: IX, X)25.
24O jornalista freelance era o que podia escolher o meio onde queria trabalhar. Optava por
não se amarrar a nenhuma empresa em concreto. O espírito livre, a capacidade de trabalho, a consciência de que a competência individual era suficiente para poder escolher o lugar onde se exercia a função, reduzia, drasticamente, o número de jornalistas com este estatuto. O jornalista freelance negociava um vencimento, escolhia o tema e propunha-o a determinada empresa. Hoje, os jornalistas com esse perfil, quase desapareceram.
25A tendência assinalada por Bonnie Anderson tem idêntica expressão em Portugal: os apre-
sentadores dos canais de notícias são, na sua maioria, jovens, iniciando carreira no jornalismo televisivo pela via da apresentação de notícias. A apresentação de notícias na TV deixou de ser
O impulso para esta contratação é dado pelas empresas, mas se os jovens profissionais aceitam render-se a esta lógica é, tão só, por não terem ainda suficientemente interiorizados os valores do jornalismo.
Se a maioria dos jovens que chegam às redações em Portugal, e um pouco por toda a Europa, como veremos no capítulo quatro, tem formação académica na área de comunicação/jornalismo, a academia deve investir em programas de formação que promovam a discussão da lógica do mercado, contribuindo para sensibilizar os alunos para a necessidade de lhe resistir.
Ramonet, Halimi, Bonnie Anderson e Neveu coincidem na análise dos efeitos desta precariedade: é a qualidade da informação que sucumbe à con- juntura. Reflexo visível dessa submissão é o surgimento de uma geração de jo- vens jornalistas deslaçados, sem cultura de redação, num convívio frágil com jornalistas integrados na estrutura; esses começam, mercê do fosso que os se- para dos mais novos, a questionar o seu papel. Se, por um lado, o batalhão de reservistas, como os classifica Neveau, aceita fazer muito por pouco, os pro- fissionais, que consolidaram a posição na redação em épocas economicamente menos conturbadas, sentem o estatuto, e a experiência que adquiriram, postos em causa. O fosso que cresce entre as duas alas da redação é alimentado pela crescente fragilidade financeira das empresas26.