5.2 Proc´edures d’allocations sous contrainte de ressources
5.2.3 Evaluation du respect de la contrainte
Rupert Murdoch tem resistido, desde a década de 80 do século passado, no patamar principal dos empresários de comunicação social que transformam as diversas aquisições em troféus pessoais, que são usados para gerarem recei- tas e influenciarem os decisores políticos em benefício próprio, reduzindo a autonomia dos jornalistas do grupo.
O caso News of The World35 (Verão de 2011) enfatiza o potencial social negativo que a teoria crítica, habitualmente, atribui à ação dos media.
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A justiça britânica, depois de uma investigação que chegou a sucumbir ao peso da in- fluência da News Corp., o império mediático do empresário, revelou que muitas das manchetes do News of The World tinham sido obtidas de forma ilegal, através de escutas telefónicas, con- cretizadas por um detive privado, por ordem das chefias do jornal. Uma das personalidades escutadas foi o ex-Primeiro Ministro britânico, Gordon Brown. Na sequência da escuta, o jornal produziu uma manchete onde era revelada a doença de que padecia o filho de Brown. Os primeiros indícios de escutas ilegais datam de 2002. Ao todo terão sido escutadas três mil personalidades. Em Julho de 2011, Murdoch viu-se forçado a encerrar o jornal. O grau de conhecimento desta metodologia por parte de Murdoch não ficou claro, mas os alegados responsáveis, que a justiça entretanto identificou, são pessoas que lhe são muito próximas. O antigo jornalista do News of The World, Sean Hoare, o primeiro a denunciar à polícia as es- cutas ilegais, foi encontrado morto em casa, depois do ressurgimento do escândalo, em Julho de 2011. O caso revelou ramificações políticas, uma vez que um dos alegados implicados, o antigo diretor do jornal, Andy Coulson, fora, igualmente, diretor de comunicação do governo conservador de David Cameron. O Primeiro-Ministro contratou-o, apesar de conhecer os indí- cios de que o antigo diretor do News of The World teria ligações ao caso das escutas. Quando o escândalo reemergiu, Cameron viu-se forçado a demitir Andy Coulson. Também não são claras as razões que levaram Cameron a contratar um homem tão próximo de Rupert Murdoch, mas sobre o governo conservador pesa a suspeita de estreita ligação ao empresário australiano. Já depois da demissão de Andy Coulson, e na sequência da investigação jornalística concreti- zada por jornais ligados a grupos rivais da News Corp., veio a público o facto de Coulson ter continuado a receber um salário da empresa de Murdoch, enquanto acumulava as funções no gabinete de Cameron. Depois de ter abandonado o governo britânico, Coulson foi detido pela polícia. Em 2014 foi julgado e condenado a 18 meses de prisão. O News of the World saiu ao Domingo durante 168 anos, e era o jornal britânico de maior circulação. Vendia 2,8 milhões de exemplares por edição.
Rupert Murdoch, um australiano octogenário, filho de um proprietário de jornais, alargou o império, com raízes no país natal, aos Estados Unidos, à Europa, à China, à Índia ... E diversificou-o, cobrindo todas as áreas do campo da comunicação.
Michael Wolff, autor de uma biografia autorizada, mas não aprovada por Rupert Murdoch,36destaca a fórmula que colocou o empresário no lugar que ocupa no contexto mediático global:
“O boato, a coação, a criação de uma cultura que o protege a ele e aos seus interesses pessoais, e, acima de tudo, uma cultura que obriga os subordinados a fazerem o que o patrão exige” (2010: XXIV)37.
Murdoch, com a integração no seu império de comunicação de alguns títulos de referência (The Times, Wall Street Journal – WSJ), esforçou-se por aplicar a fórmula de sucesso ao jornalismo de referência, contaminando-o. Afastou diretores e responsáveis editoriais que recusaram a contaminação. O Wall Street Journal38da era Murdoch acentuou a deriva da publicação assim
36Michael Wolff, o autor da biografia de Murdoch, acompanhou o empresário ao longo de
nove meses, tendo gravado entre 50 a 60 horas de conversas com o biografado. Rupert Mur- doch não se reviu no resultado, tendo impedido que o livro fosse objeto de notícia em qualquer meio da News Corp.. Wolff denuncia que os órgãos de comunicação social do grupo lhe mo- veram uma perseguição pessoal, que só parou quando o autor ameaçou revelar o conteúdo da totalidade das entrevistas que fizera ao empresário. “Três meses depois da publicação, o meu livro não fora objeto de qualquer referência em nenhum meio do grupo de Murdoch, até que, em Março de 2009, o New York Post dividiu uma página entre episódios da vida de uma celebridade e diversos pormenores da minha vida pessoal” (2010: XXII).
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O relato do biógrafo de Murdoch é esclarecedor relativamente à aplicação da fórmula de sucesso nos jornais do empresário. Duas características são associadas por Wolff à persona- lidade de Murdoch – a paixão pelo boato e o antimonarquismo. A associação de ambos tem no tabloide The Sun uma expressão concreta: “Como é antimonárquico quase tudo que tenha relação com a família real britânica aborrece-o, ou causa-lhe repulsa. Para o jornal, a família britânica tornou-se descartável”. O apogeu do jornal coincide, aliás, com o sucesso e as des- venturas da Princesa Diana: “quanto mais Diana havia nas notícias mais jornais eram vendidos, especialmente o The Sun”. A morte da Princesa, em 1997, assinala, de alguma forma, “o início do fim do grande negócio dos jornais” (Wolff, 2010: 173 e 174).
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Rupert Murdoch finalizou o longo processo de aquisição do Wall Street Journal à Dow Jones & Company, em 2007. O jornal nova-iorquino é uma das principais referências do jor- nalismo mundial. A influência e progressão da marca está muito associada a Barney Kilgore, o pioneiro do jornalismo de negócios. Sob a gestão de Kilgore o jornal passou de uma circulação
que os “repórteres de cultura e social passaram a escrever sobre a área de negócios” (idem, ibidem: 172).
A News Corp. não fica apenas marcada por esta sujeição do WSJ à fórmula de sucesso de Murdoch; debaixo do mesmo teto, o empresário mantém outras publicações de referência, como o The Times em estranha convivência com o mais polémico dos jornais ingleses, o The Sun.
O Wall Street Journal é, como Murdoch, um produto da década de 80. “Na década dos valores em espiral, o dinheiro adquiriu um novo significado”: a rentabilidade podia atingir “os 1000 por cento”, para tal era necessário um “temperamento especial”, que Murdoch refletia: “uma elevada tolerância para jogar na incerteza” (Wolff, 2010: 173).
Essa capacidade de gerar lucros na indústria dos jornais, aplicando o mes- mo espírito tabloide à imprensa popular e à de referência, saneando indesejá- veisque não se submetiam, imediatamente, às regras do seu jogo, convertendo críticos em admiradores39, forçando os colaboradores diretos a submeterem- se aos padrões da empresa, assumindo o respeito à figura e aos propósitos do líder40fez crescer, junto dos muitos que não se reviam, e que não precisavam de se rever, na filosofia do empresário “o ódio à figura de Murdoch” – senti- mento que, de alguma forma, “começou a definir os contornos da profissão”,
diária na ordem dos 30 mil exemplares, para um milhão nos anos 60 do século passado e para os 2 milhões, na década de 80 (Kupfer, 2009).
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O crítico de media do New York Times, David Carr, escreveu, durante a batalha para a aquisição do Wall Street Journal, que “Murdoch demonstrava, através dos tempos, a forma como coloca os seus media ao serviço dos seus próprios interesses comerciais. O mesmo Carr, quando o processo de aquisição chegou ao fim, classificou o empresário como uma das mais admiradas figuras do mundo dos media, precisamente por conseguir integrar todos os seus interesses comerciais” (Wolff, 2010: 9).
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Numa entrevista em direto a Rupert Murdoch, emitida a 9 de Julho de 2011 pela Fox News, propriedade da News Corp., o entrevistador colocou uma pergunta ao empresário sobre o caso das escutas ilegais do News of the World. Murdoch interrompeu a pergunta, disse que não queria falar sobre o assunto, e o entrevistador aceitou a recusa, pondo termo à conversa desta forma: “compreendo perfeitamente Sr. Presidente” (apud Daily Show, 20 de Julho de 2011).
sobretudo depois do empresário ter adquirido o Wall Street Journal41 (idem, ibidem: 6).
A aquisição do Wall Street Journal pela News Corp. assinala uma viragem importante no jornalismo global. “Competir com Murdoch já era difícil, mas haveria de tornar-se muito mais se o empresário adquirisse” o diário nova- iorquino. “É um facto, conclui o biógrafo, que a progressão de Murdoch – de aspirante a empresário verdadeiramente influente – passou pela aquisição do Wall Street Journal”, que o magnata conseguiu adaptar à identidade do grupo, sem que o jornal perdesse a influência que já tinha na sociedade americana e global (idem, ibidem: 167, 177).
2.2.12 O jornalismo de mercado e a exclusão das opiniões margi- nais
Rupert Murdoch é o símbolo vivo dessa marca indelével da década de 80 do século passado, corporizada no binómio risco absoluto/enriquecimento sú- bito. Murdoch transformou-se numa espécie de Rei Midas; tal como o rei da mitologia grega, também o empresário australiano adquiriu esse poder de transformar num negócio lucrativo cada empresa que adquiria para reforçar o seu império. Com um simples toque, o rei alterava a composição original dos elementos, transformando-os em ouro; também a integração dos diversos meios no portefólio da News Corp. determinava uma quebra plena da identi- dade de origem desses meios.
Como constata McChesney, a competição saudável engolida pela concen- tração assumiu a “sua forma extrema” nesses mega-conglomerados multime- diade que o grupo News Corporation de Rupert Murdoch é um bom exemplo: “A escala e a amplitude desses grupos é monumental” (apud Anderson, 2007: 61).
Os anos 80, os anos da desregulação dos media e do alívio do peso do Estado na comunicação social, deixam-nos, de herança, a híper concorrência
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Bill Keller e Arthur Sulzberger, ambos da direcção do New York Times, o concorrente direto, em termos de prestígio e influência, do Wall Street Journal, consideraram Murdoch “a pior coisa que poderia ter acontecido ao jornalismo” (Wolff, 2010: 6). O termo Murdochiza- tionvulgarizou-se entre os críticos do empresário e é utilizado para criticar “a exploração do imperativo económico (conglomerização, homogeneização, burocratização, etc.) ao serviço do lucro”. O argumento que motiva os críticos é “a transformação do Times de Londres num jornal crescentemente guiado pelos valores da imprensa tabloide” (Allan e Zelizer, 2010: 76).
– convertida em híper concentração, que perverteu as regras do mercado livre; deixam-nos, como consequência, a perda de diversidade, com reflexos, sig- nificativos, na qualidade das notícias, obedecendo, a produção das mesmas, a uma lógica monopolista, em termos de temas, áreas de cobertura, prota- gonistas; os conteúdos promovem a manutenção do estado das coisas. São conteúdos de exclusão e de integração: deixam de fora do espetro de cober- tura as margens, que não se reveem na lógica dominante, e todos os excluídos do mundo global, mas promovem a integração dos restantes.
Como assinala Jürgen Habermas:
“Os atores coletivos que operam fora do sistema político, fora das or- ganizações e associações sociais têm normalmente menos oportunidade de influenciar os conteúdos e as tomadas de posição dos grandes meios de comunicação. Isto é válido, sobretudo, para as opiniões que caem fora do espectro da opinião normalizada e ponderada – ou seja – fora da opinião (...) pouco flexível que caracteriza os grandes meios de co- municação” (1998: 458).
Neste contexto, Nelson Traquina reconhece que o acesso aos media “é um bem estratificado socialmente” (1999: 173). Molotch e Lester, num estudo sobre uma catástrofe ambiental que aconteceu na costa californiana em 1969, detetaram que os responsáveis do governo do Estado e os porta-vozes das em- presas petrolíferas acederam mais vezes aos media do que os ecologistas. O elemento que regulamentou o acesso foi, portanto, o estatuto de uns e outros, com os media a darem mais espaço aos representantes do poder. Essa consta- tação leva os autores a concluírem que “a produção de notícias não pode ser entendida fora da economia política da sociedade dentro da qual ela é produ- zida” (1970, apud idem, ibidem).
O processo jornalístico cria as condições para que este acesso, definido em termos de estatuto e de poder social, permaneça imutável, porque entre jornalistas e fontes criam-se “canais de rotina” que geram relações de “in- terdependência” (idem, ibidem) (falam sempre os mesmos, sobre os mesmos assuntos. Raras vezes se procuram alternativas).
As conclusões do estudo de Molotch e Lester anteciparam a análise de Habermas. De facto, os atores sociais, que operam dentro do sistema político, acedem, mais facilmente, aos meios de comunicação social.
Os que, habitualmente, ficam fora do espetro de cobertura dos media ape- nas conseguem resgatar-lhes a atenção quando perturbam a ordem social, ou promovem uma luta de opostos onde os valores (dos que aceitam o estado das coisas e dos que o rejeitam) se antagonizam. A este propósito, Nelson Traquina considera que os agentes sociais que não acedem regularmente aos media“devem incomodar para que os seus acontecimentos se tornem notícia” (idem, ibidem).
Os anos 80, fruto dessa intempérie descrita, deixam-nos, igualmente, de herança um jornalismo dócil, sem autonomia, submisso ao desejo de renta- bilidade máxima, imposta pelos interesses do mercado, incapaz de aplicar, ou fazer apelo, às normas jurídicas que – constitucionalmente – promovem a proteção e a autonomia do jornalista.
2.2.13 A vitória das soft news e do infotainment: novos pilares do