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3.3 Etude du modele de segmentation spatiale

3.4 Resultats de l'algorithme

Pessoas Normovisuais

De acordo com Santos (2004) e Davies (2008) a perceção espacial é feita através dos sentidos, que nos criam uma ‘visão’ geral do espaço antes de o percorrermos. Refere como exemplo os estudos de Gibson (1979) acerca da perceção direta e Marr (1976) que defende a perceção indireta. Ao debruçarmo-nos sobre esta temática podemos constatar, que a perceção direta diz respeito à locomoção em resposta a padrões visuais, ou seja, depende da luz para que esta se realize. Gibson (1958, apud Davies 2008) defende que a informação obtida através da visão é suficiente para um reconhecimento do enquadramento espacial em que o observador se encontra. A reflexão da luz nos objetos circundantes torna os mesmos visíveis ao observador que se encontra em movimento, e é a diferenciação dos objetos estacionários, para os que movem com o observador, que fazem com que o mapa ‘visual’, ou a perceção direta do espaço onde se encontra se torne possível. Explana

127 ainda na sua teoria da perceção direta que existe uma ‘seleção ótica’ (optic array) que permite ao observador deslocar-se percebendo a localização dos objetos, mesmo quando estes não se encontram diretamente no seu campo de visão.

“The perception of motion is thus a result of discrete perceptions of static positions. Patterns and changes of patterns in the projection of light, known as an optic array, are stimuli for the control of locomotion relative to the objects of the environment.” (Davies, 2008, p.9)74

Segundo Davies (2008) esta abordagem sugere não existir um processo cognitivo ou a elaboração de mapas mentais antes da deslocação, defendendo que, segundo Gibson (1958, apud Davies 2008) a informação que permite uma deslocação e perceção espacial por parte de uma pessoa normovisual é fornecida pelos dados espaciais e temporais do mesmo espaço e no instante em que a pessoa aí se encontra e ainda processada e interpretada enquanto a pessoa neste se desloca.

A perceção indireta, por seu lado, refere-se ao uso dos processos cognitivos para a análise do espaço em questão, ajudando o observador a criar antecipadamente um mapa espacial do ambiente em que se encontra, para então dar início à locomoção.

Esta teoria defende que o observador vê o objeto, processa o mesmo realizando do que se trata, e só depois se dá o reconhecimento do objeto que encontrou, este processo requer um ‘background’ de experiências visuais, que permitem um reconhecimento do ambiente que circunda o observador.

Davies (2008) transmite-nos ainda a ideia de que estes dois ‘tipos’ de perceção podem ser usados quer individualmente, quer em conjunto, na formação de um mapa cognitivo, tendo como referência Marr (1976) e a sua explicação de como o cérebro se baseia em experiências passadas criando desta forma imagens na retina reconhecíveis pelo observador.

Davies (2008) sugere também que a perceção do que rodeia a pessoa é processada pelo cérebro de forma semelhante, seja esta de carácter visual ou auditivo.

Para as pessoas normovisuais o processo de reconhecimento de espaço está à partida facilitado pela visão, sentido que nos permite uma orientação quase imediata,

74 T.L.: “A perceção de movimento é um resultado de perceções discretas de posições estáticas. Padrões

e mudanças nestes padrões de projeção de luz, conhecida como ‘seleção ótica’, são os estímulos que controlam a locomoção relativamente aos objetos que se encontram no ambiente.”

128 uma localização de objetos e barreiras ao longo do nosso percurso e mais importante as distâncias a que nos encontramos destes.

“Sighted people control the moving flow from their world within potential reach into their world within actual reach visually. As this strategy does not work in the darkness, they try to compensate for this by keeping as close as possible to the world of actual reach that is apprehensible. (…) Sighted people depend especially on visual skills in both spatial orientation and social interaction.” (Saerberg 2010, p.373)75

É também através do sentido da visão que é possível ‘gravar’ determinados espaços, ou padrões de movimento, na memória, que permitem uma deslocação no escuro, em ambientes familiares (i.e., casa e trabalho) sem colidir com qualquer obstáculo.

Pessoas com Deficiência Visual – orientação no espaço

“Just as a sighted person explores the environments with the sensory apparatus available, so does a blind person, but (…) primarily through tactile, auditory, olfactory and kinesthetic information gathering (…).” (Metler, R. 1987, p.10 apud Barker et al, n.d., p14)76

Ao longo dos anos as pessoas com deficiência visual foram adquirindo técnicas para a locomoção e orientação espacial, que ainda hoje são ensinadas pelos respetivos técnicos de acessibilidade, Colwell (2012). Um indivíduo com deficiência visual total não se pode guiar pelo sentido da visão, ou pela indicação visual de pontos de referência criados pela luz, pois não a deteta.

Segundo Patla et al., (2004, apud Davies 2008) quando o ruído presente no ambiente que rodeia um indivíduo aumenta e se torna mais complexo, os meios de deteção de obstáculos, sejam estes de carácter sensorial, motor ou cognitivo, tornam- se obsoletos, não existindo nenhum tão preciso quanto a visão. No entanto, um indivíduo com deficiência visual total consegue através da utilização de técnicas e

75 T.L.: “As pessoas normovisuais controlam visualmente a movimentação do seu mundo de alcance

potencial (aquilo que conseguem ver e poderão alcançar) para o seu mundo de alcance atual (aquilo que conseguem ver e conseguem alcançar). Como esta estratégia não funciona no escuro, tentam compensar mantendo-se o mais próximo possível do seu mundo de alcance atual. (…) Pessoas normovisuais dependem especialmente das suas capacidades visuais para a orientação espacial e interação social.”

76 T.L.: “Assim como as pessoas normovisuais exploram o ambiente que as rodeia com todo o aparato

sensorial disponível, também a pessoa invisual assim reage, mas (…) primeiramente recolhem informação através dos sentidos do tato, audição, olfato e cinestético.”

129 auxiliares de orientação, deslocar-se no espaço e evitar a maioria dos objetos que neste se encontram. Davies (2008) corrobora com a opinião ao considerar que a capacidade de distinguir ‘diferenças auditivas’, ou sons característicos, no ambiente que rodeia o ‘ouvinte’ pode potenciar uma deslocação mais segura.

Durante o processo de investigação, abordámos, através de entrevistas exploratórias, a questão da orientação espacial com alunos cegos e com baixa visão, que estudam no Centro Helen Keller. Questões tais como: com que facilidade se orienta no espaço, porque sente dificuldade na orientação, que sentidos usa para navegar o espaço, ou se utiliza algum auxílio na deslocação; vêm corroborar com alguns autores citados no presente capítulo. Os resultados são apresentados no conjunto de gráficos 3. 15% 8% 31% 23% 23%

Orienta-se no espaço com facilidade?

Colegas ajudam Dificuldade nos corredores - barulho Sim Sim, se conhecer o espaço

Sim, se não tiver obstáculos

25%

34% 8%

33%

Porque sente dificuldade na orientação? Barulho nos corredores Mudança de espaços Sala demasiado iluminada 26% 9% 39% 17% 9%

Que sentidos usa para navegar o espaço. Audição Olfato Tacto Visão Ecolocalizaçã o (audição) 17% 39% 17% 11% 11% 5%

Utiliza algum auxílio na deslocação? Bengala Colega ou professor Mãos e pés Mapa mental Não Som

Graf. 3 Gráficos elaborados pela autora, com o resultado das entrevistas, CHK, Lisboa, Portugal, 2016.

130

“When people move around within the built environment, they continually use a combination of senses to orientate themselves and to negotiate obstacles. When one of the senses is removed, or its effectiveness reduced, there is greater dependence on the others.” (Barker et al., n.d., p.131)77

O crescimento da cidade e desenvolvimento industrial vieram também providenciar informações importantes para a melhor orientação e localização de um cego através da criação de padrões, como nos indica Strelow, (1985 apud Davies 2008). Sejam estas informações fornecidas através dos constantes espaçamentos existentes entre elementos construídos e espaços vazios de uma cidade, ou pelo ruído característico que encontramos ao percorrer uma rua com trânsito, e ainda pela orientação dada pelo alinhamento de carros estacionados, postes de iluminação, passeios, etc., que ajudam a criar um ‘caminho’, como nos menciona Davies (2008).

O sentido auditivo é também requisitado para a perceção espacial de um espaço desconhecido, ao fazer um reconhecimento do ‘tipo’ de espaço em que o cego se encontra, seja este aberto, ou fechado, interior ou exterior, rodeado de prédios ou apenas com alguns elementos pontuais de construção, tudo isto pode ser detetado através da audição.

“Spatial localization in a given environment requires both directional and distance parameters. With these, the sound can be used to create a spatial map and thus be used for locomotion and orientation.”

(Davies, 2008, p.14) 78

Segundo Guerreiro (2012) tendo todos os seus sentidos ‘alerta’ a pessoa com deficiência visual sente pois que pode intuir e interagir com o ambiente, apercebendo- se por exemplo que se encontra alguém no mesmo espaço. Encontramos também o sentido do olfato como auxiliar de perceção do espaço que nos rodeia, bem como presenças nele contido. Dá-se então, com o exercitar do conjunto de sentidos, uma nova perceção exata do espaço em que nos encontramos. Este desenvolvimento tiflopercecional79 permite à pessoa com deficiência visual uma mobilidade facilitada, bem como uma orientação mais precisa.

77 T.L.: “Quando as pessoas se movimentam num espaço construído, utilizam uma combinação de

sentidos para se orientarem e evitarem obstáculos. Quando um destes sentidos é removido, ou a sua eficácia é reduzida, dá-se uma maior dependência nos outros sentidos.”

78

T.L.: “A localização espacial num determinado ambiente requer parâmetros quer direcionais, quer distanciais. Com estes, o som pode ser utilizado para criar um mapa espacial e assim ser usado para locomoção e orientação.”

79 Tiflopercepcional – (referente a tiflo-) elemento de formação de palavras que exprime a ideia de cego

131 Todos os sentidos presentes numa pessoa com deficiência visual são fundamentais durante a perceção e deslocação num determinado espaço. Os sentidos do tato e audição tornam-se os ‘olhos’ de uma pessoa com deficiência visual, pois só assim esta se desloca num espaço interior, conhecendo o que a rodeia e apercebendo-se das distâncias que pode percorrer sem qualquer dificuldade. Os fatores de acusticidade80, mecanicidade81 e termicidade82 tornam-se também pontos fulcrais para a orientação, perceção e locomoção de uma pessoa nesta condição.

“(…) Skin sensations also provide guidance. The movement of cold air on my face, for example, can indicate that I’m coming close to a stairway leading up to a platform or to the exit of a mall or pub.

I call the complex of ways of sensing (…) ‘blind style perception’. It contains sensory based schemes of interpretation that become relevant in a spatial and embodied process of interpreting the material environment and social situations with alter egos.” (Saerberg, 2010, pp.371-372)83