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R108 Consolidation de l’offre de formation

Dans le document Régime budgétaire et financier des cégeps (Page 102-106)

Não aguardaremos o dia imediato à revolução para tirar da escola o máximo que ela possa dar. (Snyders, 1981, p. 394).

Depois de apresentar as rudes condições enfrentadas todos os dias pelas crianças na escola pública contemporânea soa como ironia abordar as alegrias da

infância. Entretanto, as teorizações realizadas por Snyders (1981, 1988 e 1993)

permitem rever a escola atual, utilizando o que há nela, em suas contradições e complexidade para promover as alegrias da infância, como veremos adiante.

Deve-se lembrar que Snyders refletiu sobre os resultados da implantação do projeto da escola pública de massas na França, na passagem do século XIX para o século XX, cujos fundamentos tinham como base o pensamento de Durkheim.

De todas as denúncias realizadas e lutas que Snyders travou pela escola, destaca-se a sua aposta no trabalho com a cultura elaborada, em arregimentar as crianças, neste caso específico das classes operárias, para se apropriar do conhecimento que as elevaria a uma compreensão da sua realidade, dando elementos à sua superação. Segundo Snyders a apropriação da cultura elaborada possibilita a satisfação cultural que ele designa de alegria cultural.

A alegria cultural não é serenidade satisfeita, ela é sempre atravessada e confrontada por elementos de não-alegria, esta não é em primeiro momento que seria depois o suprimento pela alegria. [...] É impossível separar a alegria cultural da luta para superar a não-alegria; é preciso participar dessa luta. (Snyders, 1993, p. 49).

Sendo assim, a alegria cultural não descarta obrigações, regras e dificuldades. Snyders aponta que:

A obrigação escolar é a esperança de incitar o aluno ao máximo de suas forças, ao limite de suas possibilidades, ao extremo de si mesmo; transcender o nível habitual e seu desleixo por demais sossegado.

Alegria de enfrentar resistências, de vencê-las, pelo menos em parte, de progredir em determinado campo e também alegria de enfrentar-se a si mesmo e de progredir no auto-domínio com a convicção de que, se a luta fosse facultativa, não se teria ido até esse ponto (Snyders, 1993, p. 106).

Esta visão de educação considera a criança e a infância de um modo peculiar que impõem uma revolução de entendimento, pois o autor defende:

A condição básica para que possa haver alegria na escola é que a criança sinta alegria em ser criança e que ao mesmo tempo essa alegria seja incessantemente reconquistada cada vez que surgir um dos cem motivos que ela tem para ficar infeliz – é aí que a cultura adulta e escolar pode constituir uma ajuda. (Snyders, 1993, p. 57).

Para Snyders a criança não é ausência das características adultas, sua compreensão de ser humano aponta que

A cada idade corresponde uma forma de vida que tem valor, equilíbrio, coerência, que merece ser respeitada e levada a sério; a cada idade correspondem problemas e conflitos reais, mas também recursos – e que já demonstraram sua capacidade, pois, o tempo todo, ela teve que enfrentar situações novas. (Snyders, 1993, p. 30).

Sob esta compreensão Snyders rompe com a visão durkheimiana de escola como lugar de adaptação à sociedade, cuja finalidade está focalizada no adulto que se deseja formar. O autor propõe:

Cabe à escola encontrar um ponto de equilíbrio entre a criança como futuro adulto e a criança como atualmente criança. Uma criança que desejo que seja feliz em suas qualidades de jovem, no seu presente de jovem, a começar pelo presente escolar. [...]

Eu gostaria de uma escola onde a criança não tivesse que saltar as alegrias da infância, apressando-se em fatos e pensamentos, rumo à idade adulta, mas onde pudesse apreciar em sua especificidade os diferentes momentos de suas idades (Snyders, 1993, p. 29).

Ao conceber a criança também como o desejo de crescer em suas relações concretas na sociedade, o autor indica que “é preciso enfatizar que preparar-se para o futuro faz parte das alegrias presentes na infância: o desejo de crescer é um dos componentes essenciais da criança. Expectativas, projetos, tensão em relação ao desconhecido” (Snyders, 1993, p. 28).

Assim sendo, o autor retoma a escola dando ênfase às necessidades da criança e sustentando a tarefa secular da escola: a transmissão da cultura elaborada.

Cabe lembrar aqui uma das análises desenvolvida por Kramer (1993) em

Por entre as pedras: arma e sonho na escola: ao observar que a significação social

da aprendizagem da leitura e escrita abre possibilidades para que as crianças possam ser arregimentadas para lutar nesta sociedade desigual e desfrutar dos sonhos que se colocam por intermédio da cultura (literatura, poesia, arte, etc.).

De acordo com Snyders “é a partir da própria escola, dos fragmentos felizes que ela deixa transparecer, que se pode começar a pensar em como superar a escola atual” (Snyders, 1993, p. 12).

Entretanto, Snyders considera que “os fracassos da escola são apenas um dos aspectos dos fracassos de nossas sociedades” (Snyders, 1993, p. 18), mas não dispensa a necessidade de renovação da escola contemporânea e assim salienta:

Se a escola atraiu e continua a atrair tantas críticas, é porque está profundamente viciada – e sua renovação é uma tarefa urgente. Tais ataques, porém, demonstram a intensidade das esperanças colocadas na escolarização. A escola é alvo de expectativas demasiado grandiosas para que possa satisfaze- las – como quando se quer transformá-la no laboratório da paz social, do entendimento entre os povos. Depois do que, atacam-na a ponto de silenciar sobre seus sucessos, os quais poderiam suscitar-lhe a alegria (Snyders, 1996, p. 18).

Enfim, as obras de Snyders oferecem novo fôlego para rever a escola atual e perceber que, mesmo nos seus interstícios, a infância resiste, está presente e carece ter seu espaço ampliado. Contudo, necessita de adultos que, como o próprio autor destaca, se mobilizem por uma escola que não abre-mão das alegrias

da infância.

Demarcados alguns aspectos históricos que vinculam as relações entre criança, infância e escola, demonstrados impasses que envolvem tais relações e o referencial teórico adotado nesta pesquisa, no capítulo seguinte, volta-se o olhar para as pesquisas acadêmicas na área da educação, tendo por objetivo compreender como os conceitos de criança, infância e escola estão presentes nesta produção.

Dans le document Régime budgétaire et financier des cégeps (Page 102-106)