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4 MÉTHODE D’APPLICATION PROPOSÉE POUR LE QUÉBEC

4.4 Rôles des différents intervenants

Apesar de as mulheres terem entrado em massa no mercado de trabalho, a sociedade que iniciava uma caminhada democrática excluía e

25 Durante a Reforma, o trabalho, desprezado pela Idade Média e pela igreja conhece uma transformação importante: Torna-se um valor humano de primeiro plano (SULLEROT, 1970 p.35).

ignorava as mulheres. O trabalho feminino, considerado inferior ao dos homens, limitou-se inicialmente a cargos subalternos26.

Lipovetsky (1997) afirma que o pós-guerra foi um período de libertação para as mulheres, principalmente através da publicidade. O consumo, a juventude e a beleza passaram a fazer parte do ser mulher e das obrigações da dona-de-casa. Segundo o autor esta promoção da mulher consumidora representou um novo modo de vida feminino e contribuiu para a “superação histórica do ideal da dona de casa”.

Hoje podemos dizer que com relação a isso vivemos outra realidade, que começou a ser traçada mais de um século atrás e apresenta mulheres atuando profissionalmente nos mais distintos setores da sociedade. E a partir disso podemos começar a pensar o trabalho feminino nos tempos mais atuais. Segundo Lipovetsky (1997), por volta de 1960 se inaugura um novo ciclo dominado pelo reconhecimento e valorização sociais, o que ele chama de um novo capítulo da história da democracia pós-moderna, o do pós-dona-de- casa27. A atividade feminina passou a ser uma aspiração “legítima”, passou a ser condição da existência feminina no mundo e a recusa de uma identidade constituída exclusivamente pelas funções domésticas (LIPOVETSKY, 1997, p.215).

O trabalho feminino passou a constituir a identidade feminina. “A mulher moderna é aquela que se caracteriza por construir sua identidade a partir do trabalho e compreender as relações entre ela e os homens como um fim em si mesmo” (MATTOS, 2006, p.172). Lipovetsky (1997) também refere que no investimento feminino do trabalho, há muito mais do que um desejo de escapar do “gueto” doméstico, mas que esta é a nova exigência de afirmar uma identidade de sujeito.

No trabalho fora de casa é que as mulheres passaram a serem reconhecidas como sujeitos que contribuem como indivíduos para a sociedade, porque o trabalho, “tanto na sua dimensão econômica, quanto na sua dimensão existencial, seria para a mulher moderna sua principal fonte de

26 Lipovetsky (1997) situa ainda um período no século XIX, na Europa, em que se difundiu um ideal de mulher-esposa-mãe-doméstica, que dedica sua vida aos filhos e à família. O autor a coloca como “deusa” do lar, como santa, como a guardiã, sacerdotisa, sagrada, fazendo alusão à importância que se deu a esta função neste período.

27 Em 1963 o livro A mulher mistificada, de Betty Friedan, provocou um choque cultural ao expor o “mal- estar indefinível” da dona-de-casa dos subúrbios americanos.

reconhecimento social” (MATTOS, 2006, p. 173). E a mulher moderna tende a procurar um reconhecimento autônomo de seu valor.

Nos últimos dez anos, o emprego das mulheres desenvolveu-se, mas, apesar de uma formação cada vez mais acentuada, as desigualdades se deslocaram mais do que se atenuaram, a tal ponto que se pôde falar em “falso sucesso escolar das meninas” que não obtém no mercado de trabalho o benefício do seu investimento nos estudos. Isso quer dizer que, apesar de terem o mesmo acesso à educação, as mulheres ainda são menos valorizadas no mercado de trabalho. Enquanto em outra época a diferença principal era no número de trabalhadores, mais homens trabalhando fora de casa, hoje as diferenças estão nos salários, na valorização da formação, na necessidade feminina de trabalhar para manter o lar, etc. Segundo Perrot (2005, p.153), a sociologia das relações sociais dos sexos tem belos dias diante de si.

Segundo a pesquisa IBGE/PME28 (2008)29 a maioria dos indicadores apresentam a mulher em condições menos adequadas que a dos homens no mercado de trabalho. Elas são a maioria da população desocupada(1 milhão), nos anos analisados, elas ainda eram a minoria no mercado de trabalho(43,1%). Além disso, menos de 40% das mulheres em atividade possuem carteira assinada. Elas só não são a minoria quando o assunto é a escolaridade. Na pesquisa, pelo menos 60% das mulheres tinham escolaridade referente ao ensino médio.

O dado mais impactante da PME (2008) é a diferença entre os rendimentos de homens e mulheres, que é maior entre os mais escolarizados. Considerando todos os níveis de escolaridade, as mulheres recebem 71,3% do rendimento dos homens. Comparando trabalhadores com nível superior, o rendimento das mulheres é cerca de 60% do rendimento dos homens, indicando que, mesmo com grau de escolaridade mais elevado, as discrepâncias salariais entre homens e mulheres seguem elevadas (IBGE/PME, 2008). Este dado é confirmado em 201030 apontando que as mulheres recebem em torno de 72,3% do rendimento recebido pelos homens.

28 A Pesquisa Mensal de Emprego (PME) é realizada pelo IBGE e produz indicadores sobre o mercado de trabalho nas regiões metropolitanas de Recife, Salvador, Belo Horizonte, Rio de Janeiro e Porto Alegre. 29 Algumas características da inserção das mulheres no mercado de trabalho 2003-2008 (IBGE/ PME, 2008): Esta publicação mostra a inserção da mulher no mercado de trabalho na comparação dos meses de janeiro de 2003 e 2008.

Outra pesquisa do IBGE31, apresenta dados específicos sobre o trabalho da mulher como principal responsável no domicílio. Em agosto de 2006, 2,7 milhões de trabalhadoras eram as principais responsáveis nos seus domicílios32, tais mulheres representavam quase 30% da população feminina ocupada.

A maioria dessas mulheres pertencem a classes desfavorecidas, já que 78,6% das trabalhadoras, que se encontravam na posição de principais responsáveis nos seus domicílios, recebiam menos de 3 salários mínimos. Isso, por consequência, afeta a escolaridade dessas trabalhadoras, que enfrentam a necessidade vital de trabalho, para o sustento da família, e acabam não tendo condições de investir na educação.

Em agosto de 2006, 50,6% dessas mulheres consideradas principais responsáveis não tinham cônjuge, mas moravam com seus filhos. Dentre as mulheres sem cônjuge e com filhos, 47,1% tinham pelo menos um filho com idade inferior a 15 anos e 28,5% tinham todos os filhos com menos de 15 anos de idade. Este caso específico expõe claramente o problema da necessidade de uma única pessoa ter de assumir ao mesmo tempo o sustento e as obrigações familiares em matéria de cuidados aos filhos e do próprio trabalho doméstico, afetando muito particularmente as escolhas das mulheres quanto ao trabalho e consequentemente, as desigualdades neste mercado (IBGE/PME, [s.n.]).

A partir dessas noções históricas é possível observar no panorama do mercado de trabalho que as mulheres superaram a função “natural” de dona de casa, conquistando de maneira significativa postos de trabalho. Inicialmente por questões econômicas e mais recentemente por necessidade de reconhecimento, de identidade e de fortalecimento como mulher, trabalhadora. Ao mesmo tempo, paralelo às conquistas femininas diante do mundo do trabalho, as mulheres continuam em desvantagem se comparadas aos homens, em questões de salário e valorização do trabalho e formação, por exemplo. Estas desvantagens históricas, além do acesso feminino tardio à educação e a sociedade machista, também são aspectos culturais que determinam e transformam a história social do trabalho feminino.

31 IBGE. O trabalho da mulher principal responsável no domicílio. IBGE/PME, s. n.

32 No total das seis regiões metropolitanas investigadas pela Pesquisa Mensal de Emprego: Recife, Salvador, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, São Paulo e Porto Alegre.

Tendo em vista os objetivos desta pesquisa, levamos em consideração que toda esta “carga” histórica e cultural, depositada nos ombros femininos, hoje contribuem para a busca por valorização da mulher no mercado profissional. As mulheres estão cada vez mais conscientes dos seus papéis na sociedade, como mães, professoras, chefes, mas também são mais conscientes de suas próprias capacidades, direitos, são donas de si, do seus corpos, dos seus desejos e vontades. A mulher moderna é reconhecida não apenas pelo seu trabalho, mas pela busca por identidades, múltiplas, e pelo reconhecimento como ser ativo na sociedade. No contexto desta pesquisa, ouvir e entender mulheres atuantes, bem sucedidas profissionalmente e ainda leitoras de revistas femininas, é buscar entender, além da ação, o que pensam e como pensam seu próprio papel ativo diante da mídia e também de uma sociedade em constante transformação.