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Résultats de la modélisation du transit littoral

B.1 LA BAIE DE BOURGNEUF (U.S. 1)

1.2 D YNAMIQUE LITTORALE

1.2.4 Résultats de la modélisation du transit littoral

QUIROL

A psiquiatria, por essa época, entre os séculos XVIII e XIX, está em desenvolvimento em vários países da Europa, e as ideias de Pinel, que dão início à psiquiatria na França, são um marco importante na psi- quiatria de todo o continente europeu. Elas continuam sendo desenvol- vidas por seus sucessores, e entre eles está Étienne Esquirol (1772- 1840), que desenvolve os conceitos de monomania e lipemania (lypé- manie), relacionados à melancolia, a partir das observações já relatadas por Pinel. Logo no início de seu livro57 que classifica as doenças men- tais, Esquirol propõe que para os casos em que existe uma situação pato- lógica “com delírio circunscrito e fixo de tristeza”, o termo “melancolia” seja substituído por “monomania”. Propõe que o termo melancolia seja utilizado nos casos de tristeza ou outras características, como introspec- ção e ideias fixas, que acometam certos indivíduos, mas que não carac- terizem um “quadro médico” (ESQUIROL, 1838, p.398-399).

Esquirol argumenta que o termo melancolia, criado pelos antigos como sinônimo de bile negra, não pode ser mais utilizado porque os modernos sabem que o quadro de “melancolia” não ocorre devido a um distúrbio da bile, que levaria às alterações de humor58. O termo mono- mania (“mono” – um, único; “mania” – obsessão, ideia fixa) seria utili- zado porque o delírio desse tipo de distúrbio “é fixo, parcial, [quer seja ele] alegre ou triste”, um delírio sem febre (p.398). O aspecto comum nesse distúrbio seria o fato de os sintomas estarem relacionados à sensi- bilidade e às paixões humanas; por esse motivo, tais paixões deveriam

57 ESQUIROL, Jean Étienne Dominique. Des maladies mentales considérées sous les rap- ports médical, hygiénique et médico-légal. Paris : J.-B. Baillière, 1838, Vol.I..

58 “Les auteurs, depuis Hippocrate, donnent le nom de mélancolie au délire caractérisé par la

morosité, la crainte e la tristesse prolongées. Le nom de mélancolie a éte imposé à cette espèce de folie, parce que, selon Galien, les affetions morales tristes dépendent dúne dépravtion de la bile qui, devenue noire, obscuirit les esprits animaux et fait délirer. Quelques modernes ont donné plus déxtension au mot mélancolie, même dans la acception des anciens, offre souvent à lésprit de une idée fausse, car la mélancolie ne dépend pas toujours de la bile” (ESQUIROL,

ser conhecidas, pois “os delírios dos monomaníacos são exclusivos, fixos e permanentes, como as ideias do homem apaixonado” (ESQUI- ROL, 1838, p.400).

Outro ponto levantado por Esquirol, seguindo o que já havia sido destacado por Pinel, é o das formas sob as quais o distúrbio aparece: o delírio ou ideia fixa vai ser diferente em contextos diferentes: se para um francês o delírio é de um tipo, para um japonês vai ser de outro; para um religioso vai ser diverso do de um camponês. Segundo Esquirol, se o quadro é observado no indivíduo, a sociedade deve ser analisada, e o processo civilizador está relacionado ao distúrbio:

Aquele que deseja se aprofundar no estudo da monomania não pode desconhecer os conheci- mentos relativos ao progresso e à marcha do espí- rito humano, em consequência, a frequência dessa doença está diretamente relacionada ao desenvol- vimento das faculdades intelectuais. [...] Há muito que se diz ser a loucura uma doença da civiliza- ção, e seríamos mais exatos se o disséssemos so- bre a monomania: com efeito, a monomania é tan- to mais frequente quanto mais a civilização é a- vançada (ESQUIROL, 1838, p. 399-400).

Esquirol faz então a diferenciação dos tipos de monomanias: uma com delírios “fixos” e permanentes, que podem ser alegres, com exalta- ção, e, em outras épocas, de tristeza e ideias opressivas. Para esse tipo ele propõe a manutenção do termo monomania, dedicando-lhe uma seção do seu livro. O segundo tipo, ao qual ele chama “lipemania” (ly- pémanie, “lypé”= tristeza, dor; “mania”= ideia fixa, obsessão), é carac- terizado pela presença de um delírio “parcial”, com sentimentos de tris- teza e opressão. Esquirol refere que a lipemania seria a melancolia triste dos antigos, a mesma “tristimania” de Benjamin Rush (1745-1813)59 (HORTWITZ; WAKEFIELD, 2007, p.67), médico considerado o “pai da psiquiatria americana” (APA, 2010; HORTWITZ; WAKEFIELD, 2007). Embora tenha inicialmente proposto que o termo melancolia não fosse mais utilizado para os estados patológicos, mas apenas para as situações de tristeza não caracterizadas como distúrbios, admite o termo melancolia para este último tipo, a lipemania, em função do seu uso consagrado na prática e na literatura médica desde os antigos (ESQUI- ROL, 1838, p.403-404). Temos aqui então uma nova classificação dos

59 Esquirol cita o livro de Rush em que é feita a classificação da tristimania, Medical inquires and observations upon the diseases of the mind – Filadélfia, 1812. (ESQUIROL, 1838, p.403).

distúrbios que até então eram considerados como melancolia: (a) os casos categorizados como monomanias, que anteriormente estavam incluídos nos casos considerados como melancolia e que Esquirol pro- põe considerar como outra categoria de doença mental; e (b) os casos de lipemania, que anteriormente também eram considerados como melan- colia e aos quais ele propõe um novo nome, ressaltando que em função do uso consagrado do nome possam continuar sendo considerados como melancolia.

O termo lipemania não substitui o termo melancolia em outros países, como Reino Unido, Alemanha e Áustria (BERRIOS, 1996), mas as descrições dos psiquiatras franceses em relação a essa doença, em que há um distúrbio das emoções e o afeto predominante é a tristeza, contri- buíram para a delimitação desses quadros, antes incluídos com outras situações sob o termo melancolia. Mesmo os psiquiatras que continua- ram utilizando o termo melancolia para as situações de doença com intensa tristeza encontram na sistematização da “lipemania” subsídios para sua abordagem médica.

Sobre a descrição dos casos de lipemania, para os quais aceita a utilização de melancolia como sinônimo, e a abordagem destes, Esquirol dedica um capítulo (83 páginas) do primeiro volume de seu já mencio- nado tratado Des maladies mentales considérées sous les rapports médical, hygiénique et médico-légal. Ali o autor faz uma revisão breve desse distúrbio sob o ponto de vista de diversos autores, desde Hipócra- tes, passando por Galeno e outros autores da Antiguidade, até seus con- temporâneos ou os que escreveram um pouco antes dele. Pontua então algumas questões que parecem ser controversas ou pouco esclarecidas. Algumas delas são: a) sobre o delírio, Hipócrates refere a presença de tristeza e sensibilidade prolongadas sem a menção a delírios, ao passo que Razhés60 refere um delírio parcial nesses casos; b) a inclusão da hipocondria e da histeria entre os componentes da melancolia por al- guns, e c) a distinção entre esses três distúrbios para outros autores. Sobre esses pontos mal definidos, Esquirol lembra que:

[Provam] a flutuação e a incerteza de opiniões so- bre as características e a natureza dessa doença: nós a cremos bem definida ao dizer que a melan- colia com delírio ou lipemania é uma doença ce- rebral caracterizada por um delírio parcial, crôni- co, sem febre, por uma paixão triste, debilitante ou opressiva. (ESQUIROL, 1838, p.406)