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La réponse du vent

Dans le document CONTES DE BONNE PERRETTE (Page 144-152)

O real é entendido neste trabalho como as experiências, relações e práticas ocorridas em espaços físicos. Já o virtual, trata-se do mesmo conjunto de fatores, mas transpassado para o ambiente digital, ou seja, é aquilo vivenciado de forma virtualizada por meio das TIC. A escolha da palavra “real” para identificar as sociabilidades off-line é uma forma de alinhamento à linguagem utilizada pelos usuários do Grindr, pois é comum indicarem o

encontro físico e sexual como “real”. Entretanto, as atividades virtuais são também reais, não estão contidas em um plano menos fático que as atividades físicas, como também não estão inseridas em outra realidade paralela. Toda experiência humana na sociedade digital, mais especificamente no ciberespaço, é uma experiência real, portanto, tem consequências e valores reais para os indivíduos, inclusive para além das plataformas digitais.

Nessa conjuntura, foram incluídas questões na entrevista semiestruturada que proporcionaram reflexões sobre as experiências on-line e off-line dos interlocutores. Dentre as questões mais expressivas nesse campo estão os questionamentos sobre violações que os usuários possam ter sofrido no uso do app ou ao se relacionarem com outros homens em espaços fora da internet. Além da questão sobre a sensação de segurança do usuário na rede, no caso, se ele se sente mais seguro para interagir com outros homens no Grindr que em espaços físicos.

Assim, obtive respostas variadas, com a maioria dos entrevistados indicando já ter sofrido violência, principalmente moral ou assédio, enquanto se relacionavam em espaços físicos como parques, praças, restaurantes, bares e boates. No entanto, a maior preocupação apontada quanto à segurança para se relacionarem no app está na interação com os outros indivíduos ou até mesmo no uso feito por estes de alguns dados disponibilizados pela plataforma, como a geolocalização.

Nunca me senti violado, mas pode ser que sim. Conversando com um menino da cidade, descobri que ele tinha utilizado o Grindr pra me stalkear115, meio que pra saber quando eu estou aqui ou não. Isso tem a ver com a localização que fica aparecendo. Eu nem sei se tem como tirar ou não, mas eu não gosto dessa coisa da pessoa saber se você tá por perto sempre. Mas, ao mesmo tempo, é importante né? Como eu vou saber se tem gente por perto ou não? Mas, é aquilo, nada é perfeito. Só acho que a violação, exposição, essas coisas acabam acontecendo mais pelas pessoas que não sabem usar a parada (Mateus, 24 anos, homossexual).

No que tange à geolocalização, destaca-se que a mobilidade contemporânea é virtualizada em razão da disseminação das redes telemáticas e dos dispositivos de conexão móvel e sem fio (LEMOS, 2011, p. 19). O Grindr está inserido nesse cenário como uma rede geosocial destinada para a homossociabilidade. Dessa maneira, o app permite uma recomposição acerca das formas de ocupação dos espaços de afeto e sexualidade entre homens nas cidades. Isso porque, a busca a partir da proximidade invoca novos contextos de

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Stalkear é uma palavra derivada do inglês stalker, que significa “perseguidor”. Neste caso, o neologismo português significa “ato de perseguir”, frequentemente vinculado a uma conduta on-line de verificar em exaustão as redes sociais de uma pessoa ou até mesmo persegui-la em plataformas digitais ou por meio de informações encontradas nessas redes.

socialização, que pelo menos inicialmente são pautados pela mediação digital.

Nesse sentido, David Le Breton (2012) salienta o papel da interação das pessoas com as tecnologias em uma recomposição das relações sociais, corporalidades e práticas. As TIC possibilitaram “uma humanidade modificada”. A partir disso, extinguem-se as fronteiras entre “o sujeito e o objeto, o humano e a máquina, o vivente e o inerte, o natural e o artificial, o biológico e o protético”. Dessa maneira, as TIC unem-se ao corpo das pessoas e redefinem a condição humana, ampliando o estado de liquefação do indivíduo pós-moderno (LE BRETON, 2012, p. 26-27).

Não obstante, para pensar sobre a homossociabilidade no cenário urbano é preciso primeiro caracterizar e contextualizar esse espaço (MARTINS FIHO, 2014). Na presente pesquisa, trata-se da cidade de Juiz de Fora, localizada no estado de Minas Gerais, com população estimada em 2019 de 568.873 pessoas, de acordo com o IBGE116. Apesar de não ser um grande centro urbano cosmopolita, a cidade exerce papel importante na visibilidade LGBTQ em sua região. Uma das leis municipais mais populares é a chamada Lei Rosa (Lei 9.791, de 12 de maio de 2000), na qual está previsto:

“será punida, no município de Juiz de Fora, nos termos do art.1º, incisos II e III, art.3º, inciso IV e art.5º, incisos X e XLI, da Constituição Federal e do art.114 da Lei Orgânica Municipal, toda e qualquer manifestação atentatória ou discriminatória praticada contra qualquer cidadão homossexual (masculino ou feminino) bisssexual ou transgênero” (JUIZ DE FORA, 2000).

Além disso, a cidade possui eventos culturais expressivos, conhecidos pela população e que abordam a temática da inclusão e diversidade da população LGBTQ, como o Miss Gay117, que acontece desde 1976 e consiste em uma competição para eleger o mais belo transformista118 do país. Há também a Semana Rainbow119 organizada pela UFJF, que apesar de mais recente, é um evento que mobiliza toda cidade em torno do debate sobre diversidade de gênero e sexualidade, por meio de um leque extenso de atividades, como exposições, teatro, sessões de cinema, debates acadêmicos e políticos, espalhadas por diversos pontos da cidade. Tal cenário demonstra a existência do debate público sobre questões pertinentes à

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O IBGE apontou em seu último censo demográfico que a população da cidade era de 516. 247 pessoas. Veja mais em: < https://cidades.ibge.gov.br/brasil/mg/juiz-de-fora/panorama>.

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Veja mais em: < https://www.missbrasilgay.com.br/a-historia>.

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Nesse contexto, transformista pode ser compreendido como o performer que realiza um espetáculo caricaturando o que se entende como um tipo feminino, utilizando-se trocas rápidas e sucessivas de trajes, maquiagem e cabelo, para representar uma ideia de figura feminina, dentro dos estereótipos.

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comunidade LGBTQ.

Contudo, para além da existência de uma cena pública e/ou agenda política sobre minorias sexuais na cidade, destaca-se o quadro das interações homossexuais no território. De acordo com o que Verlan Gaspar Neto (2008) constatou em sua pesquisa, a cidade possui historicamente diversos pontos reconhecidos como locais para interações homoeróticas masculinas, como praças, parques, saunas, banheiros e cinemas. No entanto, a pesquisa foi realizada antes da criação do Grindr , o que permite um contraponto importante em relação à presente pesquisa, na qual os entrevistados não se mostraram muito adeptos à busca por parceiros em espaços públicos. Nesse sentido, salienta-se a centralidade dos apps na reconfiguração da homossociabilidade nas cidades.

Néstor Perlongher (1987), ao desenvolver sua pesquisa sobre a prostituição de homens na cidade de São Paulo, os chamados ‘michês’, identificou um processo de marginalização das práticas e identidades dissidentes, algo que foi solidificado nos territórios das cidades e pode ser compreendido a partir do conceito de “região moral” de Robert Park (1973). Esse conceito se refere ao processo de “hiperterritorialização” que ocorre pela demarcação sutil de determinados pontos no cenário urbano como locais para a realização de práticas sexuais marginalizadas, por exemplo, a prostituição e a homossexualidade.

A constância de certas populações em agruparem suas perambulações à procura de sexo, diversões, prazeres e outros vícios relacionados à ilegalidade recebeu destaque na Sociologia Urbana por meio da aplicação da categoria de “região moral”. Essa demarcação moral do território é inevitável, devido ao processo de identificação entre as pessoas que se relacionam com os territórios da cidade de maneiras semelhantes e acabam por ocupar os mesmos lugares no retrato urbano. No entanto, a população dessas áreas tende a se segregar não apenas de acordo com seus interesses, mas de acordo com seus gostos e personalidades (PARK, 1973, p. 64).

Assim, a ideia de espaço homossexual gueticizado120 não configura apenas uma paisagem urbana, mas também uma paisagem relacional no que tange às interações vivenciadas pelos indivíduos presentes no meio. Portanto, essa demarcação urbana do que seriam as zonas geográficas de práticas homoeróticas indica uma “hiperterritorialização” em

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Termo utilizado por Néstor Perlongher para conferir uma interpretação ao expresso na obra de Robert Park. O espaço homosexual gueticizado seria o locus urbano de práticas sexuais discriminadas socialmente e historicamente destinadas aos becos e guetos das grandes cidades. No entanto,

o uso do termo se expande na obra do autor para a definição de uma característica inerente aos serviços sexuais oferecidos por homens, remontando a um aspecto da prostituição efetivada em espaços discriminados.

constante movimento, onde os sujeitos negociam seus trajetos de perambulação e seus pedaços de influência (PERLONGHER, 1987, p. 27).

Nessa conjuntura, Miskolci (2017, 2014) identifica o processo de transição dos ambientes urbanos gueticizados, moldados pela circulação nômade de homossexuais nas cidades, para um cenário higienizado, marcado pelo sedentarismo homossexual. Essa transição é resultado das dinâmicas digitais, mais especificamente do sistema de geolocalização dos apps, que criam núcleos relacionais homogêneos devido à facilidade e ao anonimato proporcionados pela busca por parceiros on-line. Porém, isso não significa que todos os indivíduos operam os usos que fazem dos apps e suas homossociabilidades dentro dessa lógica apontada por Miskolci.

Nesta pesquisa, por exemplo, parte expressiva dos interlocutores sinalizou a importância da visibilidade e circulação da homossexualidade no espaço urbano e nos meios digitais, entendendo o direito ao exercício livre e público da sexualidade como parte integrante da autonomia e segurança ao utilizarem o Grindr. Todavia, a proximidade dos parceiros e o anonimato também foram alguns dos elementos mais citados ao discorrerem sobre seus objetivos na rede e sobre os aspectos que preponderavam na busca sexual, o que se aproxima da percepção de Miskolci acerca do sedentarismo e homogeneização das buscas homoeróticas.

Nesse ponto, insere-se o debate sobre a liberdade na busca de parceiros, visto que o sigilo para alguns usuários é o que possibilita o exercício livre de práticas e interações homossexuais, sendo o anonimato proporcionado pela rede fundamental para esses sujeitos. Entretanto, muitos entrevistados não indicaram que se se sentem mais livres no uso do app que nas interações em espaços físicos. Em geral, argumentaram não ver tanta diferença na questão da liberdade para paqueras e conversas, pois são assumidamente gays e vivenciam a sexualidade das mais diversas formas, nos mais diversos ambientes, apontando que a rede pode ser problemática em outros quesitos, como a estigmatização de seus utilizadores. Portanto, ela acaba funcionando mais como uma ferramenta para a autonomia na busca sexual.

Eu não me sinto exatamente livre, porque a exposição pessoal nessa rede acaba gerando estigma, por mais contraditório que isso possa parecer. Me sinto, na verdade, mais autônomo nesse processo, na medida em que, pela aplicação dos filtros, fica mais fácil encontrar pessoas com interesses afins e complementares (Luciano, 31, homossexual).

Sendo assim, observa-se um panorama em que as dicotomias entre o real e o virtual são perpassadas pelas experiências de vida e identidades dos usuários, havendo uma gama muito extensa de particularidades que implicam dinâmicas e percepções diferenciadas no uso da rede. Nesse campo, a rede digital também se conecta com o contexto social em que está inserida. Como exemplo, temos o cenário de pandemia global do vírus COVID-19, que levou a Grindr a comunicar-se diretamente com sua comunidade sobre o assunto, indicando as recomendações da OMS de isolamento e se colocando como uma oportunidade de interação durante a quarentena estipulada em diversos países, incluindo o Brasil121 (DIAS, 2020).

Outro exemplo está no alerta feito pela rede em seus termos de uso, em que expressa não ser responsável pelo uso do app em territórios onde essa prática é ilegal. Essa questão se refere ao uso do Grindr em locais onde as práticas homoeróticas, ou até mesmo a homossexualidade são consideras ilegais122. O Brasil não tipifica nenhuma conduta relacionada à homossexualidade, tendo inclusive considerado a homotransfobia um crime no país, por meio da decisão do STF no julgamento do Mandado de Injunção nº 4.733 e da Ação Direta de Inconstitucionalidade por Omissão 26123.

Contudo, a homotransfobia é uma violência enfrentada pela comunidade LGBTQ, que é acirrada pelos processos políticos de polarização e expansão de discursos conservadores e intolerantes no país. Esse cenário foi evidenciado nas eleições presidenciais de 2018, quando a Grindr, após os resultados do primeiro turno alertou os usuários no app, sem citar candidatos, para se cuidarem quanto à exposição na rede e aos encontros, tendo em vista os diversos relatos de violências homotransfóbicas vinculadas ao resultado da eleição (CAMPOS, 2018). Nesse ponto, alguns entrevistados apontaram as ações de violência, assédio e perseguição ocorridas na rede, o que compromete a segurança dos indivíduos e está diretamente relacionado ao contexto social em que os utilizadores estão presentes.

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Sobre o contexto dos apps frente à pandemia de COVID-19, recentemente a empresa de software VST

Enterprises, com sede em Manchester no Reino, divulgou a criação de um “Digital Health Passport”(passaporte

digital como saudável- tradução minha), que permite que um médico ou enfermeiro introduza resultados de testes de COVID-19 no perfil do usuário, que por sua vez pode compartilhar esse indicador de saúde em seu perfil em apps de relacionamento, permitindo que as pessoas vejam seus resultados. A empresa anunciou que diversos apps estão interessados nessa tecnologia. No entanto, a possível utilização dessa ferramenta muniria o

Grindr,com mais um dado sensível referente à saúde, o que requer todos os cuidados técnicos e jurídicos já

apontados neste trabalho.

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Como exemplo, temos a perseguição da polícia a homossexuais no Egito, por meio dos apps (KANSO, 2017).

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O STF adotou o conceito de racismo social, levando em conta qualquer ato que caracterize a inferioridade de alguns perante outros, para incluir a possibilidade de entendimento das condutas de homotransfobia serem tipificadas como crimes de racismo pelo art. 20 da Lei Antirracismo (MONICA, COSTA, MARTIRE, 2019, p. 257).

Eu não me sinto mais seguro para interagir no Grindr que fora da internet. Exatamente por essa questão das pessoas no Grindr poderem criar perfis falsos e usar para o que elas quiserem. A gente acaba sabendo de uma história, ou de outra, de gente que já foi atacado e isso a gente acaba sabendo por gente do Grindr mesmo. Nunca me aconteceu nada perto disso, mas é um fato né? Tanto que na época das eleições do ano passado, o próprio Grindr, tipo quando as pessoas foram abrindo assim, logo assim que acabaram as eleições, eles tipo mandaram um aviso pra todo mundo, pra tomarem cuidado (Henrique, 26, homossexual).

Dessa forma, o Grindr é um app que está presente em diversos debates relacionados às homossociabilidades. Seus usuários são motivados e atravessados por múltiplos aspectos pessoais e socioculturais, não sendo possível demarcar todas essas especificidades. Mas, o objetivo foi superar a divisão rígida entre as experiências físicas e digitais, pois o real e o virtual estão imbricados de tal maneira na sociedade, que dificilmente conseguimos separá- los, nos levando a um estado de “conectividade perpétua” (CASTELLS, 2013). Porém, essa percepção só foi possível a partir de um percurso investigativo que levou em conta as perspectivas dos interlocutores sobre segurança e liberdade na rede. Nesse sentido, a realidade unívoca entre as sociabilidades on-line e off-line indicam um cenário de conflitos, disputas e entendimentos sobre as formas como homens que se relacionam com outros homens vivenciam a sexualidade mediada pelo Grindr.

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