• Aucun résultat trouvé

Le petit chantre

Dans le document CONTES DE BONNE PERRETTE (Page 55-61)

projeto envolvendo o uso de computadores com intuito de formar pares amorosos, ocorrido em um experimento no curso de matemática em Stanford em 1959 (FINKEL, et al., 2012). Mas, a busca por parceiros deixou de ser um experimento há alguns anos. Inicialmente, as redes sociais e o os sites de bate-papo tornaram a procura digital por afetos uma realidade frequente na vida de muitas pessoas, posteriormente os apps de relacionamento expandiram e facilitaram as opções.

As ferramentas digitais surgiram em uma nova era de ocupação e circulação urbanas, ligadas à reorganização econômica do trabalho, do lazer, do espaço e ao formato que as relações amorosas/sexuais vêm tomando nesse contexto. Nas últimas décadas há evidências históricas e sociológicas de que a vida sexual se tornou mais expressiva que na perspectiva de gerações marcadas pelos imperativos do casamento e da constituição de família, dando espaço para uma “ética sexual recreativa” (MISKOLCI, 2014, p. 288).

O que pesquisas de sociólogos como Laumann (2000) indicam como uma nova ética sexual recreativa pode ser compreendido na perspectiva de Miskolci (2014, p. 288-289) como a forma que o erotismo e as relações sexuais assumiram centralidade na vida das pessoas, sem necessariamente resultarem em compromisso ou no roteiro namoro-noivado-casamento. O autor levanta a hipótese de que a sexualidade tem passado dos objetivos compulsórios da monogamia e da reprodução para outros objetivos mais flexíveis, transitórios e afeitos ao prazer, em especial nas classes mais abastadas. Esta mudança seria um efeito das modificações econômicas e tecnológicas ocorridas em abundância nos últimos anos. Portanto, Miskolci (2014) salienta uma ideia de nova economia do desejo, que é perpassada por vantagens e desvantagens que diferem de acordo com a classe social, faixa etária, tipo étnico- racial, gênero e, principalmente, se heterossexual ou homossexual. Assim, o mercado de redes de relacionamento pauta-se em um atendimento amplo dos mais diversos grupos e interesses.

Além dos já citados apps focados no público gay, como Grindr, Hornet e Scruff, existem o Tinder e o Ok Cupid70, que não atendem a uma sexualidade específica e visam à junção de pessoas compatíveis e próximas; já apps como o Her71 e o Wapa72 são destinados ao público lésbico. O Casualx73 foi preparado para quem busca explicitamente sexo casual, enquanto o Feeld atende objetivamente àqueles que buscam por relações abertas para fantasias ou para mais de duas pessoas. Há ainda o Poppin74, que oferece um serviço de

70

Veja mais em: < https://www.okcupid.com/>.

71

Veja mais em: < https://weareher.com/>.

72

Veja mais em: < http://wapa-app.com/>.

73

Veja mais em: < https://casualx.br.aptoide.com/>.

74

provocar matches entre quem vai ou tem interesse em um mesmo evento. O Flert75 aposta nas nossas redes como referências, viabilizando conversas só entre amigos de amigos. Para quem se incomoda com a exposição da sua imagem, há a rede Appetence76, que só libera as fotos após um tempo de conversa. A Coroa Metade77 tem como público pessoas a partir de 40 anos, enquanto a Divino Amor78 atende ao público cristão, já a Meu Patrocínio proporciona o encontro entre sugar daddies e sugar babies79. Esses são alguns exemplos dentre muitas outras opções de redes sociais voltadas para relacionamentos e que visam fatias de um mercado lucrativo.

Contudo, os homens homossexuais foram os primeiros e ainda são os que mais usam as mídias digitais em busca de parceiros amorosos e encontros casuais (MISKOLCI, 2014, p. 272). O processo de digitalização da busca por relações homossexuais está vinculado ao desenvolvimento específico de redes sociais destinadas para esse público. Isso não significa que esses homens busquem parceiros ou se relacionem apenas por meios digitais, mas demonstra o crescimento do mercado interessado nesse público e uma modificação nas formas de interação sexual e/ou afetiva. Esse contexto permite novas dinâmicas e sociabilidades, especialmente pelo desenvolvimento de apps, que resumiram a busca por encontros a alguns cliques no celular.

Nesse ponto, David Le Breton (2012) salienta o papel da interação das pessoas com as tecnologias em uma recomposição das relações sociais, corporalidades e práticas. Para o antropólogo, as tecnologias da informação possibilitaram “uma humanidade modificada”. Diante disso, extinguem-se as fronteiras entre “o sujeito e o objeto, o humano e a máquina, o vivente e o inerte, o natural e o artificial, o biológico e o protético”. As TIC unem-se aos corpos dos indivíduos e redefinem a condição humana, ampliando o estado de liquefação do indivíduo pós-moderno (LE BRETON, 2012, p. 26-27).

Em outra perspectiva, Zygmunt Bauman (2008, p. 45) destaca a liquidez das relações contemporâneas, na qual podem ser enquadradas as relações virtuais, por serem caracterizadas pela efemeridade ou por serem relações momentâneas e descartáveis. Desse modo, a instabilidade de desejos e a insaciabilidade das necessidades, bem como o contexto de

75

Veja mais em: < http://flert.co/>.

76

Veja mais em: < https://www.producthunt.com/posts/appetence>.

77

Veja mais em: < https://www.coroametade.com.br/>.

78

Veja mais em: < https://www.divinoamor.com.br/>.

79

Rede destinada à formação de casais baseados em interesses econômico-sexuais. O sugar daddy (papai de açúcar) assume o papel de patrocinador de interesses da sugar baby (bebê de açúcar) como viagens, estudos, conexões sociais, etc. Há também a possibilidade para sugar babies masculinos, ou a versão feminina do patrocinador, a sugar mommie (mamãe de açúcar). Veja mais em: < https://www.meupatrocinio.com/>.

consumismo instantâneo, permitem um quadro de liquidez do ambiente em que as atividades existenciais foram inscritas, tornando as relações previsíveis e muitas vezes superficiais no entorno digital. Assim, a imagem disposta no aplicativo torna-se essencial em uma sociedade de consumidores, pois ser uma “mercadoria desejável e desejada” é primordial para muitos indivíduos presentes nas redes de relacionamento (BAUMAN, 2008, p. 22).

Nesse sentido, o uso do smartphone munido de seus recursos de interação, alinhado ao domínio da técnica e dos códigos sociais possibilita uma transformação das interações entre os atores sociais, seus corpos e os espaços que ocupam na cidade (BIANCHI, 2014, p. 4). Dessa forma, o aqui dito processo de digitalização do desejo é contemplado nas pesquisas desses autores como a esfera de interação entre as pessoas por meio de seus smartphones, mais especificamente, está contido no uso das redes de relacionamento, que reconfiguraram, em grande parte, a forma como nos relacionamos.

Segundo Miskolci (2014), o desejo que rege a busca de parceiros em meios digitais não é apenas sexual, ao passo em que também não se vincula à esfera dos afetos compreendida como dessexualizada. O autor indica que o “motor desejante” por trás da busca digital envolve também aspectos mais implícitos, mas talvez até mais relevantes que o sexo, como o anseio de aceitação/inserção social. Esse anseio é destacado como o fator que rege a busca e define os critérios de seleção de parceiros através dos meios digitais (MISKOLCI, 2014, p. 286).

Contudo, a própria complexidade do desejo pressupõe a diferenciação entre os sujeitos, assim como suas experiências no uso das redes de relacionamento. Dessa forma, a utilização dessas redes e os desejos envolvidos na busca digital também compreendem aspectos sociais e pessoais positivos para os usuários, como a criação de redes de afeto, amizade e contatos ou até mesmo a satisfação de seus anseios sexuais nos casos em que apenas são possíveis pelo anonimato que um app fornece. Assim, os apps de relacionamento proporcionam um aparato imagético, que gira em torno das imagens que construímos sobre nós mesmos na tela e sobre a imagem que procuramos nos perfis disponíveis. Essa construção se dá por meio de discursos sobre quem e como somos e sobre quem e o que buscamos, a partir do uso de dados pessoais como fotos, informações, textos e opções de perfil.

Nesse cenário, o uso das mídias digitais localiza os indivíduos em sentidos mercadológicos moldados pelas redes, que são regidas por valores e objetivos comercialmente estruturados. As empresas, a partir do tratamento de dados pessoais disponibilizados pelos usuários, como a orientação sexual, grupo sexual, comportamentos, práticas sexuais, saúde

sexual, gênero, raça, etnia, gostos pessoais, etc, são capazes de definir um perfil tanto de consumo, como de interesse sexual para os sujeitos (MONICA, COSTA, 2019). Todavia, não foram os aplicativos que determinaram os modelos corporais ou critérios de seleção de parceiros (MISKOLCI, 2017, p. 222). Eles apenas introduzem nas telas a existência desses padrões sociais, tornando-os perceptíveis para seus usuários e valiosos para essas empresas.

Dans le document CONTES DE BONNE PERRETTE (Page 55-61)